Quem foi Daniel?
Quando viveu Exílio babilônico, século VI a.C.
Em resumo
Daniel foi um jovem judeu levado cativo para a Babilônia que se tornou intérprete de sonhos e alto funcionário de mais de um império. Recusou a comida do rei, leu a escrita na parede durante um banquete e passou uma noite na cova dos leões por continuar a rezar. O livro tem duas metades muito diferentes.
- Escrito por
- Raphael Navarro Schmitt
- Revisado por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
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Daniel é o personagem bíblico com mais histórias infantis e menos leituras adultas. Todo mundo conhece a cova dos leões e a fornalha; quase ninguém percorre a segunda metade do livro, que é feita de visões de bestas, chifres e cálculos de tempo, e que está entre os textos mais difíceis da Bíblia.
O livro se divide de forma bem nítida. Os seis primeiros capítulos são narrativas de corte, contadas em terceira pessoa, sobre judeus que servem a reis estrangeiros sem abrir mão da própria prática. Do sete em diante, é Daniel quem fala, e o assunto passa a ser o futuro dos impérios.
A deportação e a mesa do rei
O livro abre com um cerco a Jerusalém e uma seleção: rapazes da nobreza, sem defeito físico, bem-apessoados, capazes de aprender a língua e a literatura dos caldeus. Daniel e três companheiros são escolhidos, recebem nomes babilônicos e entram num programa de formação de três anos para servir no palácio.
A primeira crise não é religiosa no sentido óbvio: é alimentar. Daniel decide não tocar no que vinha da mesa real, comida ou vinho, e negocia — pede um teste de dez dias com legumes e água, com avaliação comparativa no fim. A resistência dele começa por uma proposta administrativa.
Vale reparar no que o livro faz aqui. Ele não pinta a corte estrangeira como território inimigo a ser abandonado: Daniel aprende a língua, ocupa cargos, serve a mais de um rei e sobe na hierarquia. O que ele recusa é um ponto específico, e é nesse ponto que não cede.
8Mas Daniel resolveu em seu coração não se contaminar com a comida do rei, nem com o vinho que ele bebia, e pediu ao chefe dos eunucos que não fosse contaminado.
Repare no verbo: ele resolveu em seu coração antes de falar com alguém. E repare no que vem depois — ele pede autorização, em vez de simplesmente desobedecer. A cena toda é sobre negociar um limite, não sobre romper com o sistema.
A fornalha, que não é a história de Daniel
O capítulo 3 é o mais conhecido do livro e é o único em que Daniel não aparece. Quem enfrenta a estátua de ouro e a fornalha são os três companheiros dele, chamados no texto pelos nomes babilônicos: Sidrac, Misac e Abdênago.
A resposta que eles dão ao rei é o ponto alto do capítulo, e é mais dura do que a versão que costuma ser contada. Eles afirmam que Deus pode livrá-los, e em seguida acrescentam uma condição que muda tudo: mesmo que ele não livre, não vão adorar a estátua. A obediência deles não depende do resultado.
Nesta edição, o capítulo 3 tem cem versículos, e a maior parte desse espaço é ocupada por uma oração e um cântico entoados dentro da fornalha, presentes na tradução grega antiga. Uma Bíblia traduzida do texto aramaico tem trinta versículos aqui.
16Sidrac, Misac e Abdênago responderam e disseram ao rei Nabucodonosor: “Não nos cabe obedecer-te nesta matéria.
17Pois eis que o nosso Deus, a quem veneramos, é poderoso para nos livrar da fornalha de fogo ardente e para nos libertar das tuas mãos, ó rei.
18Mas, ainda que não o faça, fique sabendo, ó rei, que não veneraremos os teus deuses, nem adoraremos a estátua de ouro que ergueste.”
Três versículos com a estrutura inteira do argumento: recusa de discutir, afirmação de que Deus pode, e a ressalva de que a decisão vale mesmo se ele não fizer. É esse terceiro passo que quase sempre some das versões resumidas.
A escrita na parede
Anos depois, num banquete em que se bebe nos vasos saqueados do templo de Jerusalém, aparecem dedos de mão humana escrevendo na parede caiada, à luz do candelabro. O rei Baltasar vê a mão que escreve e perde o controle do próprio corpo — o texto descreve joelhos batendo um no outro.
Nenhum sábio da corte consegue ler. Daniel é chamado, recusa as recompensas oferecidas, faz um discurso duro sobre o rei anterior e então traduz a inscrição, palavra por palavra: contado, pesado, dividido.
A expressão "escrita na parede" entrou nas línguas modernas como sinal de fim iminente, e a origem é literalmente esta cena. Naquela mesma noite, informa o capítulo, o rei foi morto.
5Naquela mesma hora apareceram dedos, como de mão de homem, escrevendo na superfície da parede, defronte do candelabro, no palácio do rei. E o rei observava a parte da mão que escrevia.
A imagem é precisa e estranha: não é uma mão inteira, são dedos, e a cena tem iluminação indicada. O texto se dá ao trabalho de dizer onde estava o candelabro.
25E esta é a escrita que foi decretada: MANE, TECEL, FARES.
26E esta é a interpretação das palavras. MANE: Deus contou o teu reino e o concluiu.
27TECEL: foste pesado na balança e foste achado em falta.
28FARES: o teu reino foi dividido e foi dado aos medos e aos persas.”
Nesta edição a inscrição tem três palavras, e cada uma recebe a sua interpretação. Bíblias traduzidas do aramaico trazem quatro, com a primeira repetida. Vale conferir na sua qual das duas formas aparece.
A cova dos leões
O episódio mais famoso acontece já sob domínio persa, quando Daniel é um dos três chefes postos acima dos cento e vinte governadores do reino, e se destaca entre eles. É importante para a cena: ele não é um menino, é um funcionário idoso no topo da carreira, e o que provoca a armadilha é inveja profissional.
A lei é desenhada sob medida. Os rivais convencem o rei a proibir, por trinta dias, qualquer petição que não seja dirigida a ele. Sabiam exatamente o que Daniel fazia todo dia — e o texto informa que ele, sabendo do decreto, foi para casa, abriu as janelas na direção de Jerusalém e continuou a rezar três vezes ao dia, como sempre.
Não há confronto, não há discurso, não há tentativa de esconder. A desobediência dele consiste em não mudar de rotina. O rei, que gosta de Daniel, passa a noite sem comer e sem conseguir dormir, e ao amanhecer corre até a cova.
10Ora, quando Daniel soube disto, isto é, que a lei havia sido estabelecida, entrou em sua casa e, abrindo as janelas do seu quarto superior na direção de Jerusalém, ajoelhava-se três vezes ao dia, e adorava e dava graças diante do seu Deus, como antes costumava fazer.
O versículo inteiro é uma lista de coisas que continuaram iguais: a casa, as janelas, a direção, o número de vezes por dia. A resistência é descrita como ausência de mudança.
22O meu Deus enviou o seu anjo, e ele fechou a boca dos leões, e eles não me fizeram mal, porque diante dele se achou em mim justiça, e mesmo diante de ti, ó rei, não cometi ofensa alguma.”
A explicação vem da boca do próprio Daniel, e ele não fala em coragem: fala em anjo enviado e em bocas fechadas. E acrescenta que não cometeu ofensa nem contra o rei.
A segunda metade: as visões
Do capítulo 7 em diante o livro muda de gênero e de narrador. Daniel passa a contar em primeira pessoa visões noturnas povoadas de animais híbridos, chifres que falam, tribunais celestes e contagens de tempo. É literatura apocalíptica, e ela funciona por imagens codificadas, não por descrição direta.
A imagem mais influente do livro está aí: uma figura de aparência humana que vem com as nuvens e recebe um reino que não acaba. A expressão reaparece nos Evangelhos como autodesignação de Jesus, e é uma das pontes mais citadas entre os dois Testamentos.
Vale registrar uma questão em aberto, porque ela aparece em qualquer estudo sério do livro: a data de composição de Daniel é discutida entre estudiosos, com posições que vão do século VI ao século II a.C. Quem apresenta a questão como resolvida, para qualquer um dos lados, está afirmando mais do que a evidência sustenta.
13Olhei, portanto, na visão da noite, e eis que, com as nuvens do céu, chegou alguém semelhante a um filho de homem, e aproximou-se até o Ancião de dias, e o apresentaram diante dele.
14E deu-lhe poder, e honra, e o reino, e todos os povos, tribos e línguas o servirão. O seu poder é um poder eterno, que não lhe será tirado, e o seu reino é tal que não será corrompido.
Dois versículos que atravessaram toda a história da interpretação bíblica. Note que a figura não toma o reino: ele lhe é dado, e a duração é o que o texto sublinha.
Dois tamanhos de Daniel
Como acontece com Ester, o livro de Daniel circula em dois tamanhos, e a diferença é material. A edição exibida nesta página tem catorze capítulos. Uma Bíblia evangélica tem doze.
A parte que só existe na edição longa vem da tradução grega antiga: o cântico dentro da fornalha, no capítulo 3, e dois capítulos inteiros no fim. O 13 conta a história de Susana, acusada falsamente por dois anciãos e salva por um Daniel jovem que interroga as testemunhas separadamente. O 14 conta o caso de Bel e do dragão — e traz uma segunda cova de leões, desta vez por seis dias.
Há uma consequência prática que vale conhecer: por causa do cântico acrescentado ao capítulo 3, a numeração do capítulo 4 fica deslocada em três versículos entre as duas edições. O que aqui é Daniel 4:30 está em 4:33 numa Bíblia traduzida do aramaico. Se uma referência não bater, é provavelmente isto.
45E, quando ela era levada para a morte, o Senhor despertou o espírito santo de um jovem menino, cujo nome era Daniel.
46E ele clamou em alta voz: “Estou inocente do sangue desta mulher.”
A entrada de Daniel na história de Susana, num capítulo que só existe nas edições que seguem a tradução grega. Ele interrompe uma execução já em curso.
O que o texto não diz
Personagens bíblicos acumulam camadas de tradição que a Escritura não sustenta. Separar as duas coisas não diminui a história — devolve a ela o que está de fato escrito.
O que se costuma dizer
Daniel era um menino quando foi jogado aos leões.
O que a Escritura traz
A cova dos leões está no capítulo 6, já sob domínio persa, décadas depois da deportação narrada no capítulo 1. Ali o texto o descreve como um dos três administradores do reino, prestes a ser posto acima de todos. É um homem no fim de uma longa carreira pública, e a armadilha é motivada por inveja profissional.
O que se costuma dizer
Daniel foi jogado na fornalha junto com os três amigos.
O que a Escritura traz
São dois episódios distintos, separados por três capítulos. Sidrac, Misac e Abdênago enfrentam a fornalha no capítulo 3, onde Daniel não aparece em nenhum versículo. Daniel enfrenta a cova dos leões no capítulo 6, sozinho.
O que se costuma dizer
A escrita na parede dizia quatro palavras, com a primeira repetida.
O que a Escritura traz
Depende da edição. A exibida aqui traz três palavras, e cada uma recebe interpretação própria no diálogo seguinte. Bíblias traduzidas do aramaico trazem quatro. A mensagem é a mesma; a forma da inscrição não.
O que se costuma dizer
Daniel se recusou a viver na Babilônia e rejeitou tudo o que vinha da corte.
O que a Escritura traz
O texto o mostra aprendendo a língua e a literatura dos caldeus, aceitando um nome babilônico, servindo a sucessivos reis e chegando ao topo da administração. O que ele recusa são pontos específicos — a comida da mesa real e a proibição de rezar —, e é aí que ele não cede.
Onde essa pessoa aparece
8Mas Daniel resolveu em seu coração não se contaminar com a comida do rei, nem com o vinho que ele bebia, e pediu ao chefe dos eunucos que não fosse contaminado.
A decisão sobre a comida do rei, tomada por dentro e negociada por fora.
16Sidrac, Misac e Abdênago responderam e disseram ao rei Nabucodonosor: “Não nos cabe obedecer-te nesta matéria.
17Pois eis que o nosso Deus, a quem veneramos, é poderoso para nos livrar da fornalha de fogo ardente e para nos libertar das tuas mãos, ó rei.
18Mas, ainda que não o faça, fique sabendo, ó rei, que não veneraremos os teus deuses, nem adoraremos a estátua de ouro que ergueste.”
A resposta dos três companheiros ao rei, com a ressalva que a torna incondicional.
25E esta é a escrita que foi decretada: MANE, TECEL, FARES.
26E esta é a interpretação das palavras. MANE: Deus contou o teu reino e o concluiu.
27TECEL: foste pesado na balança e foste achado em falta.
28FARES: o teu reino foi dividido e foi dado aos medos e aos persas.”
A inscrição na parede e a interpretação, palavra a palavra.
10Ora, quando Daniel soube disto, isto é, que a lei havia sido estabelecida, entrou em sua casa e, abrindo as janelas do seu quarto superior na direção de Jerusalém, ajoelhava-se três vezes ao dia, e adorava e dava graças diante do seu Deus, como antes costumava fazer.
A rotina de oração mantida depois do decreto — a desobediência como ausência de mudança.
13Olhei, portanto, na visão da noite, e eis que, com as nuvens do céu, chegou alguém semelhante a um filho de homem, e aproximou-se até o Ancião de dias, e o apresentaram diante dele.
14E deu-lhe poder, e honra, e o reino, e todos os povos, tribos e línguas o servirão. O seu poder é um poder eterno, que não lhe será tirado, e o seu reino é tal que não será corrompido.
A visão do filho de homem recebendo um reino, a passagem mais citada da segunda metade do livro.