Pular para o conteúdo

Quem foi Ester?

Quando viveu Império Persa, provavelmente no século V a.C.

Em resumo

Ester foi uma judia órfã criada pelo tio Mardoqueu que se tornou rainha da Pérsia e impediu o extermínio do próprio povo. Apresentou-se ao rei sem ter sido chamada, arriscando a morte, e denunciou o plano de Amã. Nos capítulos herdados do texto hebraico, o livro não nomeia Deus nenhuma vez.

Publicado em
Tempo de leitura
10 min de leitura

A história de Ester é contada em quase toda escola dominical como conto de fadas com moral: a moça pobre que virou rainha e salvou o povo. O livro é bem mais estranho que isso. É uma narrativa de palácio, com bebedeira, intriga, forca, um decreto de extermínio e uma reviravolta violenta — e é o único texto bíblico dessa extensão em que a divindade nunca entra em cena.

Nada acontece por milagre em Ester. As coisas se encaixam por insônia de rei, por lista de arquivo lida em voz alta na hora certa, por um banquete marcado no dia certo. Quem lê esperando fogo do céu sai de mãos vazias; quem lê reparando na engrenagem sai com a impressão que o livro parece querer deixar.

O palácio de Susa, e uma rainha deposta

O livro abre num banquete de seis meses. Assuero, rei de um império que o texto descreve como indo da Índia à Etiópia, exibe a riqueza da corte para os seus nobres e manda chamar a rainha Vasti para que ela também seja exibida. Vasti se recusa.

A recusa vira caso de Estado. Os conselheiros argumentam que o exemplo se espalharia pelo império inteiro e convencem o rei a depô-la por decreto. É assim que o trono fica vago — não por morte, não por conspiração, mas porque uma mulher disse não e o palácio não soube o que fazer com isso.

Vale reparar em como o livro começa: com um homem poderoso que não consegue obrigar ninguém e resolve o constrangimento por lei escrita. A comédia de costumes do primeiro capítulo prepara o leitor para levar a corte persa menos a sério do que ela se leva.

Uma órfã vira rainha

Ester entra na história pela porta de serviço. Órfã de pai e mãe, é criada por um parente chamado Mardoqueu, funcionário do palácio. Quando o rei manda reunir moças de todo o império para escolher a nova rainha, ela é uma das levadas — o texto não registra escolha da parte dela em momento nenhum.

Duas coisas costumam passar batido. A primeira é que ela tem dois nomes: Edissa, o hebraico, e Ester, o nome pelo qual o palácio a conhece. A segunda é que ela esconde a origem por ordem expressa de Mardoqueu, e o segredo dura até o momento em que precisa ser rompido. A rainha da Pérsia passa anos escondendo quem é.

Ester 2:7

7o qual havia criado a filha do seu irmão, Edissa, que por outro nome se chamava Ester. E ela havia perdido ambos os pais. Era muito formosa, de aparência graciosa. Como seu pai e sua mãe haviam morrido, Mardoqueu a adotou como filha sua.

Tradução: Edição Chama da Fé

Nesta edição, Mardoqueu cria a filha de um irmão dele — ou seja, é tio de Ester, e não primo. Traduções feitas a partir do hebraico dizem que ele criou a filha de um tio, o que faz dos dois primos. É a mesma cena com um grau de parentesco diferente.

Ester 2:10

10Ela não quis revelar-lhe o seu povo nem a sua terra natal. Pois Mardoqueu lhe havia ordenado que guardasse silêncio acerca de todas estas coisas.

Tradução: Edição Chama da Fé

O versículo que explica o resto do livro: o silêncio sobre a origem não é timidez, é instrução recebida. Tudo o que vem depois depende de ninguém no palácio saber que a rainha pertence ao povo que Amã vai tentar eliminar.

Ester 2:17

17E o rei a amou mais que a todas as mulheres, e ela achou favor e misericórdia aos seus olhos acima de todas as mulheres; e ele pôs a coroa real sobre a sua cabeça e a fez rainha em lugar de Vasti.

Tradução: Edição Chama da Fé

A coroa vem por preferência do rei, e o texto registra isso sem nenhum comentário sobre mérito, virtude ou providência. O livro descreve a ascensão dela com a mesma frieza com que descreveu a queda de Vasti.

O decreto de Amã

Amã é promovido a segundo homem do império e exige reverência de todos. Mardoqueu não se curva. O texto não explica por quê, e a ausência da explicação é significativa: o livro deixa o leitor sem o motivo e passa direto para a consequência.

A vingança de Amã não se limita ao homem que o desagradou. Ele leva ao rei um argumento genérico sobre um povo espalhado pelo império que segue leis próprias, oferece uma soma enorme ao tesouro real e obtém autorização para exterminá-lo. O rei entrega o anel de sinete sem perguntar de que povo se trata.

Ester 3:8

8E disse Amã ao rei Assuero: “Há um povo disperso por todas as províncias do teu reino e separado uns dos outros, que se serve de leis e cerimônias estranhas e que, além disso, despreza as ordenações do rei. E bem sabes que não convém ao teu reino que se tornem insolentes por meio da independência.

Tradução: Edição Chama da Fé

Vale ler com atenção a acusação: um povo disperso, com leis e cerimônias próprias, que despreza as ordenações reais. Nem o nome do povo aparece. O decreto de morte é aprovado com base numa descrição em que ninguém é nomeado.

A conversa que decide tudo

Mardoqueu manda avisar Ester e pede que ela interceda. A resposta dela é a de quem conhece o funcionamento do lugar: qualquer pessoa que entre na sala do trono sem ser chamada morre, a menos que o rei estenda o cetro, e ela não é convocada há um mês.

O recado que Mardoqueu manda de volta é a passagem mais citada do livro, e é quase sempre citada errado. Ele não garante que vai dar certo, não fala em missão divina e não promete proteção. Ele diz que o socorro virá de outro lugar se ela se calar, que ela morrerá junto de qualquer forma, e faz uma pergunta.

A resposta de Ester é uma ordem, e não um pedido: convoca jejum de três dias, avisa que fará o mesmo com as servas, e diz que depois disso irá ao rei. Da órfã calada do capítulo dois não sobrou nada.

Ester 4:14

14Pois, se agora te calares, os judeus serão libertados por alguma outra ocasião, mas tu e a casa de teu pai perecereis. E quem sabe se não chegaste ao reino justamente por isto, para que estivesses preparada para um tempo como este?”

Tradução: Edição Chama da Fé

A frase famosa é uma pergunta em aberto, não uma garantia. E repare no que a antecede: a advertência de que ela e a casa do pai dela perecerão se ela ficar em silêncio. O que Mardoqueu oferece não é conforto, é aritmética.

Ester 4:16

16“Vai e reúne todos os judeus que encontrares em Susa, e orai por mim. Não comais nem bebais por três dias e três noites, e eu, com as minhas servas, jejuarei do mesmo modo; e então irei ao rei, fazendo o que é contra a lei, não tendo sido chamada, e assim me exporei a perigo de morte.”

Tradução: Edição Chama da Fé

Nesta edição, Ester manda reunir os judeus de Susa, pede jejum e oração de três dias e conclui dizendo que irá ao rei contra a lei e se exporá a perigo de morte. Repare que ela pede que orem — e que o texto não diz a quem.

O terceiro dia

Ester veste as roupas reais e se posta no pátio interno, à vista do trono. É o momento em que a história poderia acabar: basta o rei não estender o cetro. Ele estende, e ela atravessa a sala.

O que ela faz em seguida é estratégia pura. Não denuncia Amã na hora. Convida o rei e o inimigo para um banquete, e no banquete convida os dois para outro. Entre um e outro, o rei tem uma noite de insônia, manda ler os arquivos da corte e descobre que Mardoqueu havia salvado a vida dele anos antes, sem nunca ter sido recompensado.

Só no segundo banquete Ester fala. Ela pede a própria vida, pede a do povo dela, e informa ao rei que a pessoa que assinou aquele decreto está sentada à mesa.

Ester 5:1-2

1E assim, ao terceiro dia, Ester vestiu as suas vestes reais e pôs-se no átrio da casa do rei, que era interior, defronte da sala do rei, enquanto ele estava assentado no seu trono, na sala do conselho do palácio, defronte da entrada da casa.

2E quando ele viu a rainha Ester ali de pé, ela agradou aos seus olhos, e ele estendeu para ela o cetro de ouro que tinha na mão; e ela se aproximou e beijou a ponta do seu cetro.

Tradução: Edição Chama da Fé

A cena inteira cabe em dois versículos, e o texto não descreve o que ela sentiu. A narrativa de Ester é assim o tempo todo: registra o que se faz e o que se diz, e deixa a vida interior das personagens fora do quadro.

Ester 7:3-4

3Ela lhe respondeu: “Se achei favor aos teus olhos, ó rei, e se te apraz, poupa a minha alma, eu te peço, e poupa o meu povo, eu te suplico.

4Pois eu e o meu povo fomos entregues para sermos esmagados, mortos e destruídos. E se fôssemos apenas vendidos como servos e escravos, o mal seria tolerável, e eu teria chorado em silêncio. Mas agora o nosso inimigo é aquele cuja crueldade transborda sobre o rei.”

Tradução: Edição Chama da Fé

O argumento é jurídico e econômico antes de ser moral: ela observa que, se fossem apenas vendidos como escravos, teria ficado calada. O que torna o caso insuportável é o extermínio — e ela o apresenta como prejuízo que recai sobre o próprio rei.

A festa que sobrou da história

Amã é executado na forca que havia mandado erguer para Mardoqueu. Mas o decreto persa não podia ser revogado — o próprio livro insiste nesse detalhe legal —, e a solução encontrada é um segundo decreto autorizando os judeus a se defenderem. O que se segue é uma matança, contada sem eufemismo.

O livro termina instituindo uma festa. Purim, o nome, vem da palavra usada para as sortes que Amã lançou para escolher a data do extermínio: a festa leva o nome do sorteio que deu errado para quem o fez. É celebrada até hoje, e é o único feriado do calendário judaico instituído dentro de um livro bíblico narrativo.

Ester 9:20-22

20E assim Mardoqueu escreveu todas estas coisas e as enviou, compostas em cartas, aos judeus que moravam em todas as províncias do rei, tanto aos que estavam nos lugares próximos como aos que estavam longe,

21para que aceitassem o décimo quarto e o décimo quinto dia do mês de Adar como dias santos, e sempre, ao voltar do ano, os celebrassem com sagrada estima.

22Pois naqueles dias os judeus se vingaram dos seus inimigos, e o seu pranto e a sua tristeza se converteram em júbilo e alegria, de modo que fossem dias de banquete e de contentamento, nos quais enviassem uns aos outros porções dos seus banquetes e concedessem dádivas aos pobres.

Tradução: Edição Chama da Fé

A instrução de celebrar inclui uma cláusula que quase nunca é lembrada: enviar porções uns aos outros e dar presentes aos pobres. A festa é instituída com uma obrigação de redistribuição embutida.

Duas edições do mesmo livro

Ester existe em dois tamanhos, e isso não é opinião: é uma diferença material entre as Bíblias que circulam no Brasil. A edição exibida nesta página tem dezesseis capítulos. Uma Bíblia evangélica tem dez.

Os capítulos de 10:4 até o fim são os chamados acréscimos gregos: a oração de Mardoqueu, a oração de Ester, o texto dos decretos, o relato ampliado da entrada dela na sala do trono. Eles vêm da tradução grega antiga do livro e foram preservados na Vulgata, de onde chegaram às edições católicas. As traduções feitas diretamente do hebraico não os têm.

A diferença tem uma consequência que interessa a qualquer leitor, e é o motivo de este parágrafo existir: é exatamente nos acréscimos que Deus é nomeado. Nos dez capítulos comuns às duas edições, nem uma vez.

Ester 14:3

3E suplicou ao Senhor Deus de Israel, dizendo: “Meu Senhor, que sois o nosso único Rei, socorrei-me, a mim, mulher solitária, pois não há outro auxílio senão vós.

Tradução: Edição Chama da Fé

Um dos capítulos que só existem nas edições que seguem a tradução grega. Aqui Ester reza, e a oração nomeia o Deus de Israel de forma direta — o contraste com o silêncio dos dez primeiros capítulos é o argumento mais forte de quem defende que os acréscimos foram escritos para preencher justamente esse silêncio.

O que o texto não diz

Personagens bíblicos acumulam camadas de tradição que a Escritura não sustenta. Separar as duas coisas não diminui a história — devolve a ela o que está de fato escrito.

  • O que se costuma dizer

    Ester rezou, jejuou e confiou em Deus antes de entrar na sala do trono, como qualquer heroína bíblica faria.

    O que a Escritura traz

    Nos capítulos herdados do texto hebraico — do primeiro ao terceiro versículo do capítulo dez — o nome de Deus não aparece nenhuma vez. Ester convoca jejum e pede que orem por ela, e nem aí o texto diz a quem se ora. A primeira menção a Deus no livro está em 10:4, já dentro dos acréscimos gregos que esta edição preserva.

  • O que se costuma dizer

    A frase que resume Ester é "se perecer, perecerei".

    O que a Escritura traz

    A edição exibida nesta página fecha aquele versículo de outro jeito: Ester diz que irá ao rei contra a lei e se exporá a perigo de morte. A formulação célebre vem das traduções feitas a partir do hebraico. São a mesma decisão dita com palavras diferentes, e vale saber qual das duas a sua Bíblia traz.

  • O que se costuma dizer

    Ester foi escolhida rainha num concurso de beleza.

    O que a Escritura traz

    O capítulo dois descreve moças reunidas por ordem real e levadas ao palácio, com um longo período de preparação antes de serem apresentadas ao rei. O texto não registra consentimento de nenhuma delas nem recusa possível. Chamar aquilo de concurso descreve o resultado e apaga o procedimento.

  • O que se costuma dizer

    Ester foi corajosa desde o começo.

    O que a Escritura traz

    A primeira reação dela ao pedido de Mardoqueu é explicar por que não pode ajudar: a lei prevê morte para quem entra sem convocação, e ela não é chamada há um mês. A coragem aparece depois da recusa, e é isso que faz a cena funcionar.

Onde essa pessoa aparece

Ester 2:7

7o qual havia criado a filha do seu irmão, Edissa, que por outro nome se chamava Ester. E ela havia perdido ambos os pais. Era muito formosa, de aparência graciosa. Como seu pai e sua mãe haviam morrido, Mardoqueu a adotou como filha sua.

Tradução: Edição Chama da Fé

A apresentação de Ester: órfã dos dois pais, criada por um parente do palácio, e com dois nomes — o hebraico e o persa.

Ester 4:14

14Pois, se agora te calares, os judeus serão libertados por alguma outra ocasião, mas tu e a casa de teu pai perecereis. E quem sabe se não chegaste ao reino justamente por isto, para que estivesses preparada para um tempo como este?”

Tradução: Edição Chama da Fé

O recado de Mardoqueu, com a advertência e a pergunta que a decidem. É a passagem mais citada do livro e a mais frequentemente citada pela metade.

Ester 4:16

16“Vai e reúne todos os judeus que encontrares em Susa, e orai por mim. Não comais nem bebais por três dias e três noites, e eu, com as minhas servas, jejuarei do mesmo modo; e então irei ao rei, fazendo o que é contra a lei, não tendo sido chamada, e assim me exporei a perigo de morte.”

Tradução: Edição Chama da Fé

A resposta dela, em forma de ordem: jejum de três dias, e depois a entrada na sala do trono contra a lei.

Ester 7:3-4

3Ela lhe respondeu: “Se achei favor aos teus olhos, ó rei, e se te apraz, poupa a minha alma, eu te peço, e poupa o meu povo, eu te suplico.

4Pois eu e o meu povo fomos entregues para sermos esmagados, mortos e destruídos. E se fôssemos apenas vendidos como servos e escravos, o mal seria tolerável, e eu teria chorado em silêncio. Mas agora o nosso inimigo é aquele cuja crueldade transborda sobre o rei.”

Tradução: Edição Chama da Fé

A denúncia, feita à mesa, diante do próprio Amã. Ester pede primeiro a própria vida e depois a do povo dela.

Ester 9:20-22

20E assim Mardoqueu escreveu todas estas coisas e as enviou, compostas em cartas, aos judeus que moravam em todas as províncias do rei, tanto aos que estavam nos lugares próximos como aos que estavam longe,

21para que aceitassem o décimo quarto e o décimo quinto dia do mês de Adar como dias santos, e sempre, ao voltar do ano, os celebrassem com sagrada estima.

22Pois naqueles dias os judeus se vingaram dos seus inimigos, e o seu pranto e a sua tristeza se converteram em júbilo e alegria, de modo que fossem dias de banquete e de contentamento, nos quais enviassem uns aos outros porções dos seus banquetes e concedessem dádivas aos pobres.

Tradução: Edição Chama da Fé

A instituição de Purim, com a obrigação de enviar porções uns aos outros e dádivas aos pobres.

Outros personagens