Quem foi Ana, mãe de Samuel?
Quando viveu Fim do período dos juízes, por volta do século XI a.C.
Em resumo
Ana foi mãe do profeta Samuel. Estéril e humilhada pela outra mulher do marido, orou no santuário de Siló com tanta angústia que o sacerdote Eli a julgou bêbada. Fez um voto, teve o filho e o entregou ao serviço do santuário. O cântico dela abre o segundo capítulo de 1 Samuel.
- Escrito por
- Raphael Navarro Schmitt
- Revisado por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
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A história de Ana ocupa dois capítulos no começo de 1 Samuel e serve de porta de entrada para todo o livro. Ela é a mãe do profeta que vai ungir os dois primeiros reis de Israel — mas o texto gasta o primeiro capítulo inteiro nela, e não nele.
É uma das poucas passagens da Bíblia que descreve por dentro o que é rezar sem conseguir falar. E o detalhe que dá a medida da cena é que o sacerdote de plantão, vendo aquilo, concluiu que estava diante de uma bêbada.
Duas mulheres, uma casa
Elcana tinha duas esposas: Penina, que tinha filhos, e Ana, que não tinha. O arranjo é descrito sem comentário moral, como o texto costuma fazer com os costumes da época, e o problema que ele gera é apresentado de forma bem concreta.
A cada subida anual ao santuário, a rival provocava Ana de propósito, e o resultado era sempre o mesmo: choro e recusa de comer. Não é um sofrimento abstrato de mulher sem filhos — é uma humilhação repetida, com data marcada no calendário religioso da família.
Elcana tenta consolar com uma frase que soa bem e resolve pouco, perguntando se ele não vale mais do que dez filhos. O texto registra a fala e não registra nenhuma resposta dela. Ana se levanta e vai rezar.
6E sua concorrente a irritava, irando-a e entristecendo-a, porque o SENHOR havia fechado sua madre.
7E assim fazia cada ano: quando subia à casa do SENHOR, irritava assim à outra; pelo qual ela chorava, e não comia.
Repare no advérbio de tempo: acontecia todo ano, e sempre no mesmo lugar. A provocação é apresentada como rotina, e o efeito descrito não é tristeza genérica, é parar de comer.
A oração em Siló
Ana reza com amargura de alma e chora muito — as palavras são do texto. E faz um voto preciso, com contrapartida declarada: se receber um filho homem, o devolve ao Senhor por toda a vida dele, e nenhuma navalha passará pela cabeça do menino.
É aqui que a cena fica singular. Ela reza mexendo os lábios sem emitir som, o que naquele contexto não era o modo habitual de orar. Eli, o sacerdote, está sentado por perto, vê o movimento sem a voz, e conclui que ela bebeu.
A acusação é direta, e a resposta dela também: nega o vinho e explica que estava derramando a alma diante do Senhor. Eli então a despede em paz. O texto não volta atrás para desculpar o sacerdote nem para condená-lo — apenas deixa o engano registrado.
10Ela com amargura de alma orou ao SENHOR, e chorou abundantemente.
11E fez um voto, dizendo: “SENHOR dos exércitos, se olhares a aflição da tua serva, e te lembrares de mim, e não te esqueceres da tua serva, mas deres à tua serva um filho homem, eu o dedicarei ao SENHOR todos os dias da sua vida, e não subirá navalha sobre sua cabeça”.
O voto é contratual na forma e desesperado no conteúdo. Ela pede que Deus se lembre dela e oferece de antemão o que está pedindo — e é ela quem estabelece as condições, sem intermediário nenhum.
13Mas Ana falava em seu coração, e somente se moviam seus lábios, e sua voz não se ouvia; e pensava Eli que ela estava embriagada.
14Então, disse-lhe Eli: “Até quando estarás embriagada? Afasta-te do vinho”.
15E Ana lhe respondeu: Não, meu senhor; eu sou uma mulher sofredora de espírito. Não bebi vinho nem bebida forte, mas tenho derramado minha alma diante do SENHOR.
Três versículos com o mal-entendido inteiro: o que Eli viu, o que ele disse e o que ela respondeu. É raro a Bíblia mostrar um sacerdote errando o diagnóstico de uma oração e ser corrigido pela pessoa que estava rezando.
O menino devolvido
Samuel nasce, e Ana explica o nome pela origem do pedido. Em seguida cumpre o voto — mas não imediatamente. O texto informa que ela esperou desmamar o menino antes de levá-lo, e na cultura da época isso significa alguns anos, não alguns meses.
A entrega é feita com uma frase de duplo sentido que o hebraico deixa deliberadamente aberta: ela pediu o menino ao Senhor e agora o devolve ao Senhor. Pedido e devolução usam a mesma raiz.
E a relação não termina ali. O capítulo 2 conta que ela subia todo ano ao santuário levando uma túnica pequena que fazia para ele. É uma das imagens mais domésticas do Antigo Testamento, e costuma ser cortada dos resumos: a mãe medindo de cabeça o quanto o filho cresceu desde a última visita.
20E sucedeu que, corrido o tempo, depois de Ana haver concebido, deu à luz um filho, e pôs-lhe o nome de Samuel, dizendo: “Pois eu o pedi ao SENHOR”.
O nome é explicado pela própria mãe, e não pelo narrador nem pelo sacerdote. Quem dá sentido ao nome do futuro profeta é ela.
27Por este menino orava, e o SENHOR me deu o que lhe pedi.
28Eu, pois, o devolvo também ao SENHOR: todos os dias que viver, será do SENHOR. E adorou ali ao SENHOR.
A entrega, em duas frases. A segunda usa um verbo que serve tanto para emprestar quanto para devolver, e é essa ambiguidade que a passagem explora.
19E fazia-lhe sua mãe uma túnica pequena, e a trazia a ele a cada ano, quando subia com seu marido a oferecer o sacrifício costumeiro.
A túnica anual. O detalhe não faz nenhum trabalho teológico na narrativa e está ali assim mesmo — o que costuma ser sinal de que a cena foi guardada por ser lembrada, e não por provar alguma coisa.
O cântico
O capítulo 2 abre com um poema atribuído a Ana, e ele surpreende quem chega esperando um agradecimento pessoal. O texto fala pouco de bebê e muito de inversão social: arcos de guerreiros que se quebram, fartos que se alugam por pão, famintos que deixam de ter fome, pobres levantados do pó.
Estudiosos costumam apontar a semelhança entre esse cântico e o de Maria, no primeiro capítulo de Lucas — mesma estrutura de reversão, mesma passagem do caso pessoal para o destino dos poderosos. Ler os dois em sequência é uma das leituras comparadas mais produtivas da Bíblia.
1E Ana orou e disse: Meu coração se regozija no SENHOR, Meu poder é exaltado no SENHOR; Minha boca fala triunfante sobre meus inimigos, Porquanto me alegrei em tua salvação.
2Não há santo como o SENHOR: Porque não há ninguém além de ti; E não há refúgio como o nosso Deus.
A abertura do poema é de vitória, e não de alívio: ela fala em boca aberta sobre os inimigos. O cântico de uma mulher humilhada em casa começa como canto de guerra.
O que o texto não diz
Personagens bíblicos acumulam camadas de tradição que a Escritura não sustenta. Separar as duas coisas não diminui a história — devolve a ela o que está de fato escrito.
O que se costuma dizer
Ana rezou com fé tranquila e confiante, e por isso foi atendida.
O que a Escritura traz
O texto usa a palavra amargura, informa que ela chorou muito e descreve os lábios se movendo sem som. Quem estava por perto concluiu que ela tinha bebido. A oração é apresentada como descontrolada aos olhos de fora, e o narrador não a corrige em ponto nenhum.
O que se costuma dizer
Ana entregou o bebê ao santuário logo depois do parto, num gesto imediato de renúncia.
O que a Escritura traz
O texto diz que ela só o levou depois de desmamado, o que na época significava alguns anos de convivência. E o capítulo seguinte conta que ela continuou a vê-lo todo ano, levando uma túnica nova. A entrega não interrompeu a relação.
O que se costuma dizer
O sofrimento de Ana era a esterilidade.
O que a Escritura traz
Era também, e o texto insiste nisso, a provocação sistemática da outra mulher da casa, repetida a cada peregrinação anual até fazê-la parar de comer. O capítulo dá à humilhação pública o mesmo espaço que dá à falta de filhos.
O que se costuma dizer
Eli reconheceu de imediato que estava diante de uma mulher de fé.
O que a Escritura traz
A primeira coisa que Eli faz é acusá-la de embriaguez e mandá-la largar o vinho. Ele só muda de tom depois de ouvir a resposta dela. O texto guarda o erro do sacerdote sem nenhuma tentativa de apagá-lo.
Onde essa pessoa aparece
6E sua concorrente a irritava, irando-a e entristecendo-a, porque o SENHOR havia fechado sua madre.
7E assim fazia cada ano: quando subia à casa do SENHOR, irritava assim à outra; pelo qual ela chorava, e não comia.
A provocação anual da rival e o efeito dela: choro e recusa de comer, sempre na mesma época do ano.
10Ela com amargura de alma orou ao SENHOR, e chorou abundantemente.
11E fez um voto, dizendo: “SENHOR dos exércitos, se olhares a aflição da tua serva, e te lembrares de mim, e não te esqueceres da tua serva, mas deres à tua serva um filho homem, eu o dedicarei ao SENHOR todos os dias da sua vida, e não subirá navalha sobre sua cabeça”.
A oração com amargura e o voto, formulado por ela mesma, com contrapartida declarada.
13Mas Ana falava em seu coração, e somente se moviam seus lábios, e sua voz não se ouvia; e pensava Eli que ela estava embriagada.
14Então, disse-lhe Eli: “Até quando estarás embriagada? Afasta-te do vinho”.
15E Ana lhe respondeu: Não, meu senhor; eu sou uma mulher sofredora de espírito. Não bebi vinho nem bebida forte, mas tenho derramado minha alma diante do SENHOR.
O mal-entendido com Eli — o que ele viu, o que disse, e a resposta dela.
27Por este menino orava, e o SENHOR me deu o que lhe pedi.
28Eu, pois, o devolvo também ao SENHOR: todos os dias que viver, será do SENHOR. E adorou ali ao SENHOR.
A entrega do menino, com o jogo entre pedir e devolver.
1E Ana orou e disse: Meu coração se regozija no SENHOR, Meu poder é exaltado no SENHOR; Minha boca fala triunfante sobre meus inimigos, Porquanto me alegrei em tua salvação.
2Não há santo como o SENHOR: Porque não há ninguém além de ti; E não há refúgio como o nosso Deus.
A abertura do cântico, que começa em tom de vitória e vai virar um poema sobre inversão de sortes.
19E fazia-lhe sua mãe uma túnica pequena, e a trazia a ele a cada ano, quando subia com seu marido a oferecer o sacrifício costumeiro.
A túnica que ela levava todo ano — o detalhe doméstico que os resumos costumam cortar.