Quem foram Marta e Maria?
Quando viveu Primeiro século, na aldeia de Betânia, perto de Jerusalém
Em resumo
Marta e Maria foram irmãs de Lázaro, moradoras de Betânia, e recebiam Jesus em casa. Lucas 10 conta a discussão sobre serviço e escuta; João 11 as mostra diante da morte do irmão, cada uma reagindo de um jeito. É de Marta uma das confissões de fé mais explícitas do Evangelho de João.
- Escrito por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
- Revisado por
- Raphael Navarro Schmitt
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Marta e Maria aparecem em três cenas dos Evangelhos, e as três se passam dentro de casa. É pouco material, e mesmo assim elas ficaram como um par de arquétipos — a que trabalha e a que reza —, cristalizado em sermões, em quadros e em conselhos de vida espiritual.
O problema é que o par não sobrevive à leitura das três cenas juntas. Quando o irmão delas morre, é Marta quem corre para a estrada, discute teologia e faz a confissão de fé do capítulo. Maria fica em casa e só sai quando é chamada. Se houvesse tipos fixos, esse capítulo os inverteria.
A casa em Betânia
Betânia ficava a poucos quilômetros de Jerusalém, e a casa das irmãs funciona nos Evangelhos como ponto de parada: é onde Jesus se hospeda quando está perto da cidade. O terceiro morador é Lázaro, irmão das duas.
Lucas apresenta a casa como sendo de Marta — é ela quem recebe —, o que numa narrativa do primeiro século é informação e não detalhe. João, ao contar a doença de Lázaro, diz que Jesus amava os três e nomeia Marta primeiro.
3Enviaram pois suas irmãs uma mensagem a ele, dizendo: Senhor, eis que aquele a quem tu amas está doente.
4E ouvindo Jesus, disse: Esta doença não é para morte, mas para glória de Deus; para que o Filho de Deus seja por ela glorificado.
5E Jesus amava a Marta, e a sua irmã, e a Lázaro.
6Quando, pois, ele ouviu que estava doente, ficou ainda dois dias no lugar onde estava.
Repare na ordem dos nomes e no que vem logo depois: o texto afirma o afeto e, na frase seguinte, informa que ele ficou mais dois dias onde estava. O evangelho põe as duas coisas lado a lado sem explicar a segunda pela primeira.
A discussão em Lucas 10
A cena é curta e tem três falas. Maria se senta aos pés de Jesus e escuta — que era a posição de quem aprende com um mestre, e não a posição habitual de uma mulher naquele contexto. Marta, ocupada com o serviço, interrompe e faz uma reclamação dirigida a Jesus, e não à irmã.
A resposta é o trecho mais citado e mais mal citado do episódio. Jesus chama Marta pelo nome duas vezes, aponta a preocupação e a perturbação com muitas coisas, e diz que Maria escolheu a parte boa. Em nenhum momento ele diz que servir é errado, e em nenhum momento manda Maria levantar-se para ajudar.
Vale colocar essa cena ao lado de João 12, onde há outra refeição e Marta serve de novo — sem uma linha de censura no texto. O que a passagem de Lucas contrapõe não é trabalho e oração: é dispersão e atenção.
38E aconteceu que eles, enquanto eles caminhavam, ele entrou em uma aldeia; e uma certa mulher, de nome Marta, o recebeu em sua casa.
39E esta tinha uma irmã, chamada Maria, a qual, sentando-se também aos pés de Jesus, ouvia sua palavra.
40Marta, porém, ficava muito ocupada com muitos serviços; e ela, vindo, disse: Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha para servir? Dize a ela, pois, que me ajude.
41E respondendo Jesus, disse-lhe: Marta, Marta, tu és preocupada com muitas coisas, e perturbada por elas;
42Mas somente uma coisa é necessária. E Maria escolheu a parte boa, a qual não lhe será tirada.
Cinco versículos com a cena inteira. Note que a reclamação de Marta não é sobre excesso de trabalho, e sim sobre ter ficado sozinha nele — e que a resposta muda o assunto da divisão de tarefas para o estado interior dela.
A morte de Lázaro
João 11 é o capítulo que desfaz os estereótipos. Lázaro adoece, as irmãs mandam avisar, e Jesus demora. Quando ele finalmente chega, o irmão já está sepultado há quatro dias.
Marta sai de casa e vai ao encontro dele na estrada. O que ela diz é ao mesmo tempo uma queixa e uma declaração: se ele estivesse ali, o irmão não teria morrido, mas ela sabe que o que ele pedir será dado. Segue-se uma conversa teológica sobre ressurreição, com pergunta direta no fim.
A resposta dela é a confissão de fé mais explícita colocada na boca de uma pessoa no Evangelho de João — a mesma função que, nos outros Evangelhos, cabe a Pedro. Vale ler as duas passagens em sequência para notar o paralelo.
Maria só sai depois, quando é chamada. Ela diz exatamente a mesma primeira frase da irmã, mas cai aos pés dele e chora. É diante desse choro que o texto registra a reação mais humana atribuída a Jesus em todo o evangelho, no versículo mais curto da Bíblia em várias traduções.
20Ouvindo pois Marta que Jesus vinha, saiu-lhe ao encontro; mas Maria ficou sentada em casa.
21Disse pois Marta a Jesus: Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido.
22Porém também sei agora, que tudo quanto pedires a Deus, Deus o dará a ti.
23Disse-lhe Jesus: Teu irmão ressuscitará.
24Marta lhe disse: Eu sei que ele ressuscitará, na ressurreição, no último dia.
25Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição, e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá.
26E todo aquele que vive, e crê em mim, para sempre não morrerá. Crês nisto?
27Disse-lhe ela: Sim, Senhor; já cri que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que viria ao mundo.
A conversa inteira, da queixa à confissão. Repare que Marta não recebe correção nenhuma pela primeira frase, que é uma reclamação — e que a pergunta final é feita a ela, e não sobre ela.
32Vindo pois Maria aonde Jesus estava, e vendo-o, caiu a seus pés, dizendo-lhe: Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido.
33Quando Jesus a viu chorar, e aos judeus, que vinham chorando com ela, comoveu-se em espírito, e ficou perturbado.
34E disse: Onde o pusestes? Disseram-lhe: Senhor, vem, e vê.
35Jesus chorou.
Maria diz a mesma coisa que a irmã e recebe outra resposta: nenhuma discussão, e sim lágrimas. O evangelho trata as duas de formas diferentes porque elas chegam de formas diferentes.
A ceia e o perfume
A última cena das duas está em João 12, seis dias antes da Páscoa. Há um jantar em Betânia, Lázaro está à mesa, Marta serve, e Maria faz uma coisa que interrompe a refeição: quebra o costume, unge os pés de Jesus com um perfume caríssimo e os enxuga com os próprios cabelos.
O texto informa o valor aproximado do nardo pela boca de quem reclama — o equivalente a quase um ano de salário de um trabalhador. É um gesto caro, público e constrangedor, e Jesus o defende ligando-o ao próprio sepultamento.
Esta é a Maria de Betânia. Não é a mulher anônima de Lucas 7, que unge os pés de Jesus na casa de um fariseu, e não é Maria Madalena. São três cenas e três pessoas distintas nos textos, embora a tradição ocidental as tenha fundido por séculos.
1Veio, pois, Jesus seis dias antes da páscoa a Betânia, onde estava Lázaro, o que havia morrido, a quem ressuscitara dos mortos.
2Fizeram-lhe, pois, ali uma ceia, e Marta servia; e Lázaro era um dos que juntamente com ele estavam sentados à mesa .
3Tomando então Maria um arrátel de óleo perfumado de nardo puro, de muito preço, ungiu os pés de Jesus, e limpou os pés dele com seus cabelos; e encheu-se a casa do cheiro do óleo perfumado.
Três versículos que reúnem os três irmãos: Lázaro à mesa, Marta servindo, Maria derramando o perfume. O detalhe final — a casa inteira tomada pelo cheiro — é o tipo de observação que só quem estava lá registraria.
O que o texto não diz
Personagens bíblicos acumulam camadas de tradição que a Escritura não sustenta. Separar as duas coisas não diminui a história — devolve a ela o que está de fato escrito.
O que se costuma dizer
Jesus repreendeu Marta por estar trabalhando e ensinou que rezar vale mais que servir.
O que a Escritura traz
A fala em Lucas 10 aponta preocupação e perturbação com muitas coisas, e afirma que Maria escolheu bem. Não diz que servir é errado, e não manda Maria ajudar. Em João 12, Marta serve outra vez e o texto não traz nenhuma censura. O contraste da cena é entre dispersão e atenção, não entre trabalho e oração.
O que se costuma dizer
Maria de Betânia é Maria Madalena — ou é a pecadora que ungiu Jesus em Lucas 7.
O que a Escritura traz
Os textos tratam de três pessoas. Maria de Betânia é irmã de Marta e de Lázaro; Maria Madalena é identificada pela cidade de origem e aparece em outras cenas; a mulher de Lucas 7 não é nomeada. Nenhum evangelho identifica uma com a outra.
De onde vem: A fusão das três numa figura só vem de uma homilia de Gregório Magno, de 591, que ficou como leitura corrente no Ocidente por muitos séculos. As igrejas orientais nunca adotaram essa identificação.
O que se costuma dizer
Marta representa a vida ativa e Maria, a contemplativa — cada uma com seu temperamento fixo.
O que a Escritura traz
Em João 11 é Marta quem sai de casa, discute e faz a confissão de fé do capítulo, enquanto Maria permanece sentada dentro de casa e depois chora aos pés dele. A divisão de tipos não se sustenta quando as três cenas são lidas juntas.
O que se costuma dizer
Eram duas mulheres simples e pobres que hospedavam Jesus como podiam.
O que a Escritura traz
Lucas apresenta a casa como sendo de Marta, o que já é informação sobre posição. E o perfume que Maria derrama é descrito como de muito preço, com o valor estimado na própria cena. Nada disso é retrato de pobreza.
Onde essa pessoa aparece
38E aconteceu que eles, enquanto eles caminhavam, ele entrou em uma aldeia; e uma certa mulher, de nome Marta, o recebeu em sua casa.
39E esta tinha uma irmã, chamada Maria, a qual, sentando-se também aos pés de Jesus, ouvia sua palavra.
40Marta, porém, ficava muito ocupada com muitos serviços; e ela, vindo, disse: Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha para servir? Dize a ela, pois, que me ajude.
41E respondendo Jesus, disse-lhe: Marta, Marta, tu és preocupada com muitas coisas, e perturbada por elas;
42Mas somente uma coisa é necessária. E Maria escolheu a parte boa, a qual não lhe será tirada.
A cena que virou provérbio: a recepção, a reclamação e a resposta. Vale ler prestando atenção ao que Jesus de fato aponta em Marta.
20Ouvindo pois Marta que Jesus vinha, saiu-lhe ao encontro; mas Maria ficou sentada em casa.
21Disse pois Marta a Jesus: Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido.
22Porém também sei agora, que tudo quanto pedires a Deus, Deus o dará a ti.
23Disse-lhe Jesus: Teu irmão ressuscitará.
24Marta lhe disse: Eu sei que ele ressuscitará, na ressurreição, no último dia.
25Disse-lhe Jesus: Eu sou a ressurreição, e a vida; quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá.
26E todo aquele que vive, e crê em mim, para sempre não morrerá. Crês nisto?
27Disse-lhe ela: Sim, Senhor; já cri que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que viria ao mundo.
A conversa na estrada, da queixa à confissão. É o ponto alto da presença de Marta nos Evangelhos.
32Vindo pois Maria aonde Jesus estava, e vendo-o, caiu a seus pés, dizendo-lhe: Senhor, se tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido.
33Quando Jesus a viu chorar, e aos judeus, que vinham chorando com ela, comoveu-se em espírito, e ficou perturbado.
34E disse: Onde o pusestes? Disseram-lhe: Senhor, vem, e vê.
35Jesus chorou.
A chegada de Maria e o choro — a reação mais humana registrada de Jesus em João.
1Veio, pois, Jesus seis dias antes da páscoa a Betânia, onde estava Lázaro, o que havia morrido, a quem ressuscitara dos mortos.
2Fizeram-lhe, pois, ali uma ceia, e Marta servia; e Lázaro era um dos que juntamente com ele estavam sentados à mesa .
3Tomando então Maria um arrátel de óleo perfumado de nardo puro, de muito preço, ungiu os pés de Jesus, e limpou os pés dele com seus cabelos; e encheu-se a casa do cheiro do óleo perfumado.
A ceia em Betânia, com Marta servindo e Maria derramando o perfume caro sobre os pés de Jesus.