Quem foi Sara?
Quando viveu Época dos patriarcas, tradicionalmente situada por volta do século XIX a.C.
Em resumo
Sara foi mulher de Abraão e mãe de Isaque. O texto a apresenta estéril, e ela passa décadas assim: entrega a serva Agar ao marido para ter filhos por ela, ri quando ouve a promessa de um filho na velhice, e depois manda expulsar Agar. Morreu em Hebrom, e o texto registra a idade dela.
- Escrito por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
- Revisado por
- Raphael Navarro Schmitt
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Sara aparece pela primeira vez numa lista genealógica e sai dela com uma frase que vai organizar tudo o que vem depois: a de que era estéril, sem filhos. A partir daí, o Gênesis gasta doze capítulos girando em torno de uma promessa de descendência feita a um casal que envelhece sem ela.
A Sara que a pregação costuma apresentar é a mulher de fé que esperou. A Sara do texto é mais interessante e bem menos lisa: ela negocia, propõe soluções práticas, ri de uma promessa divina, mente sobre ter rido e, mais adiante, exige uma expulsão que o próprio marido acha dura. O livro registra tudo isso sem apagar nada.
A frase que organiza tudo
A apresentação de Sarai — o nome dela na primeira metade da história — vem numa lista de casamentos, e o narrador acrescenta uma informação que não estava sendo pedida: ela era estéril. É uma frase curta, colocada de propósito antes de qualquer promessa, e é o obstáculo em torno do qual o resto se organiza.
Vale medir o tempo. Entre a primeira promessa de descendência feita a Abrão e o nascimento de Isaque passam-se décadas dentro da própria narrativa. Não é uma espera de capítulo; é uma espera de vida inteira, e o texto a preenche com episódios em que a promessa parece estar sendo abandonada.
29E tomaram Abrão e Naor para si mulheres: o nome da mulher de Abrão foi Sarai, e o nome da mulher de Naor, Milca, filha de Harã, pai de Milca e de Iscá.
30Mas Sarai era estéril, e não tinha filho.
Repare na economia: o versículo apresenta duas esposas e, da segunda, informa o nome do pai e do avô. Da primeira, informa apenas que não tinha filho. A assimetria é proposital e prepara o leitor.
A irmã no Egito
A primeira coisa que acontece com Sarai depois da promessa é uma fome que empurra o casal para o Egito. Ali Abrão pede que ela se apresente como irmã dele, para que não o matem por causa dela. O plano funciona: ela é levada para a casa do faraó, e Abrão é bem tratado justamente por isso.
É uma das passagens mais desconfortáveis do Gênesis, e o texto não a suaviza. Não há condenação explícita do narrador, não há fala de Sarai, e a solução do episódio vem de fora — pragas na casa do faraó, que descobre o engano e expulsa o casal. A história ainda vai se repetir, com outro rei, mais adiante.
11E aconteceu que quando estava para entrar no Egito, disse a Sarai sua mulher: Eis que, agora conheço que és mulher bela à vista;
12E será que quando te houverem visto os egípcios, dirão: Sua mulher é: e matarão a mim, e a ti te preservarão a vida.
13Agora, pois, dize que és minha irmã, para que eu vá bem por tua causa, e viva minha alma por causa de ti.
O pedido é feito em três frases, e a terceira explica o cálculo: para que ele fosse bem tratado por causa dela. O texto registra a motivação sem enfeitar, e não dá a Sarai nenhuma linha de resposta.
Agar, e a solução que Sarai propôs
Passados anos, é Sarai quem toma a iniciativa. Ela avisa que a esterilidade veio do próprio Senhor, propõe que Abrão tenha um filho com a serva egípcia Agar, e diz textualmente que talvez venha a ter filhos por meio dela. Abrão concorda sem discutir.
Não é um improviso moral do casal: era uma prática jurídica conhecida no Oriente Médio antigo, em que o filho da serva podia ser reconhecido como da senhora. O que o texto narra em seguida, porém, é o fracasso doméstico do arranjo — Agar engravida, a relação entre as duas azeda, e Sarai a maltrata a ponto de fazê-la fugir.
1E Sarai, mulher de Abrão não lhe dava filho: e ela tinha uma serva egípcia, que se chamava Agar.
2Disse, pois, Sarai a Abrão: Já vês que o SENHOR me fez estéril: rogo-te que entres a minha serva; talvez terei filhos dela. E atendeu Abrão ao dito de Sarai.
A proposta é dela, e a formulação é seca: já que o Senhor a fez estéril, que Abrão entre à serva. O versículo seguinte informa que ele atendeu ao dito de Sarai — a primeira de duas vezes em que a narrativa registra isso.
O riso
A cena mais lembrada de Sara acontece na porta de uma tenda. Três visitantes chegam, Abraão os recebe, e um deles anuncia que ela terá um filho no ano seguinte. Sara, que está atrás, escuta e ri por dentro — o texto reproduz o pensamento dela, que é sobre idade e sobre corpo, e não sobre teologia.
O que vem depois é um pequeno drama em três falas: a pergunta sobre por que ela riu, a negação dela, e a réplica de uma linha só. É uma das poucas vezes na Bíblia em que alguém mente para Deus e a conversa continua.
Uma informação que quase nunca acompanha essa cena: Abraão também tinha rido, um capítulo e meio antes, ao receber a mesma notícia — e ali o texto não registra repreensão nenhuma. E, quando o menino nasce, é Sara quem retoma o verbo por conta própria, dizendo que Deus a fez rir e que quem ouvir vai rir com ela. O nome de Isaque, aliás, guarda esse riso.
15Disse também Deus a Abraão: A Sarai tua mulher não a chamarás Sarai, mas Sara será seu nome.
16E a abençoarei, e também te darei dela filho; sim, a abençoarei, e virá a ser mãe de nações; dela surgirão reis de povos.
A mudança de nome vem junto com a promessa, e o que se promete a ela não é apenas um filho: é que dela sairiam nações e reis. É a primeira vez no Gênesis que uma promessa desse porte é dirigida a uma mulher pelo nome.
12Riu, pois, Sara consigo mesma, dizendo: Depois que envelheci terei prazer, sendo também meu senhor já velho?
13Então o SENHOR disse a Abraão: Por que Sara riu dizendo: Será verdade que darei à luz, sendo já velha?
14Há para Deus alguma coisa difícil? Ao tempo assinalado voltarei a ti, segundo o tempo da vida, e Sara terá um filho.
15Então Sara negou dizendo: Não ri; pois teve medo. Mas ele disse: Não é assim, mas riste.
Quatro versículos com riso, pergunta, mentira e correção. Vale reparar que a réplica final não vem acompanhada de castigo, de retirada da promessa ou de qualquer consequência — a cena simplesmente termina.
6Então disse Sara: Deus me fez rir, e qualquer um que o ouvir, se rirá comigo.
Depois do parto, Sara devolve a palavra em outro sentido. O riso que era descrença vira riso compartilhado, e é ela quem faz a virada, sem que ninguém lhe peça.
A expulsão
Isaque nasce, cresce, e num dia de festa Sara vê o filho de Agar e exige que os dois sejam expulsos, com um argumento de herança: o filho da serva não herdará junto com o dela. O texto diz que Abraão achou aquilo muito duro, e conta que ele fez assim mesmo.
É o segundo momento em que a narrativa registra Abraão executando uma decisão dela. E é o episódio que separa definitivamente as duas linhagens do Gênesis — a de Isaque e a de Ismael —, com consequências que o livro vai continuar seguindo.
9E viu Sara ao filho de Agar a egípcia, o qual havia esta dado a Abraão, que o ridicularizava.
10Portanto disse a Abraão: Expulsa a esta serva e a seu filho; que o filho desta serva não herdará com meu filho, com Isaque.
Nesta edição, o que Sara vê é o filho de Agar ridicularizando. Outras edições dizem que ele estava brincando com Isaque, e a diferença muda o que o leitor entende do motivo. O argumento dela, esse, é o mesmo nas duas: herança.
Hebrom, e a primeira propriedade
Sara morre em Quiriate-Arba, que o texto identifica como Hebrom, e Abraão vai chorar por ela. O capítulo seguinte é inteiro dedicado à negociação da sepultura: ele compra uma caverna e o campo em volta, em transação registrada com testemunhas e preço.
Vale notar o que isso significa dentro da história. O único pedaço de terra que Abraão chega a possuir na terra prometida é um túmulo, e ele o compra por causa dela. A promessa de um país inteiro se realiza, na vida dele, como um lote comprado para enterrar a mulher.
1E foi a vida de Sara cento e vinte e sete anos; estes foram os anos da vida de Sara.
2E morreu Sara em Quiriate-Arba, que é Hebrom, na terra de Canaã; e Abraão veio para ficar de luto por Sara e para chorar por ela.
O texto informa quantos anos ela viveu — algo que a Bíblia faz com pouquíssimas mulheres — e registra o luto de Abraão em duas palavras: ficar de luto e chorar.
O que o texto não diz
Personagens bíblicos acumulam camadas de tradição que a Escritura não sustenta. Separar as duas coisas não diminui a história — devolve a ela o que está de fato escrito.
O que se costuma dizer
Sara riu por falta de fé e foi repreendida por isso; Abraão, esse, acreditou.
O que a Escritura traz
Abraão também ri ao receber a mesma promessa, um capítulo e meio antes, e o texto não registra repreensão nenhuma nesse caso. E é Sara quem retoma o riso depois do parto, dizendo que Deus a fez rir. O riso atravessa a história dos dois e não é tratado apenas como falha.
O que se costuma dizer
Sara é o modelo bíblico da esposa submissa.
O que a Escritura traz
A carta de 1 Pedro de fato a cita chamando o marido de senhor, e essa passagem existe. Gênesis, porém, registra duas vezes Abraão fazendo o que ela determina: quando ela propõe Agar e quando exige a expulsão — esta última contra a vontade declarada dele. A Bíblia traz os dois retratos e não os concilia.
O que se costuma dizer
Sarai virou Sara porque o novo nome significava princesa.
O que a Escritura traz
A mudança de nome está no texto, junto com a promessa de que dela viriam nações e reis. O significado dos dois nomes não é explicado ali. A leitura de "princesa" vem de comentaristas posteriores, e não da passagem.
O que se costuma dizer
Sara esperou em silêncio, com paciência, até a promessa se cumprir.
O que a Escritura traz
A narrativa mostra o contrário de espera passiva: ela propõe uma solução jurídica para o problema da herança, maltrata a serva quando o plano dá errado, ri da promessa, nega ter rido e depois impõe uma expulsão. O texto não a apresenta como exemplo de serenidade.
Onde essa pessoa aparece
29E tomaram Abrão e Naor para si mulheres: o nome da mulher de Abrão foi Sarai, e o nome da mulher de Naor, Milca, filha de Harã, pai de Milca e de Iscá.
30Mas Sarai era estéril, e não tinha filho.
A entrada dela na história, com a informação que vai organizar doze capítulos.
1E Sarai, mulher de Abrão não lhe dava filho: e ela tinha uma serva egípcia, que se chamava Agar.
2Disse, pois, Sarai a Abrão: Já vês que o SENHOR me fez estéril: rogo-te que entres a minha serva; talvez terei filhos dela. E atendeu Abrão ao dito de Sarai.
A proposta de Agar, feita por ela, e a concordância de Abrão.
12Riu, pois, Sara consigo mesma, dizendo: Depois que envelheci terei prazer, sendo também meu senhor já velho?
13Então o SENHOR disse a Abraão: Por que Sara riu dizendo: Será verdade que darei à luz, sendo já velha?
14Há para Deus alguma coisa difícil? Ao tempo assinalado voltarei a ti, segundo o tempo da vida, e Sara terá um filho.
15Então Sara negou dizendo: Não ri; pois teve medo. Mas ele disse: Não é assim, mas riste.
O riso na tenda, a negação e a réplica — em quatro versículos.
1E o SENHOR visitou Sara, como disse, e o SENHOR fez com Sara como havia falado.
2E concebeu e deu à luz Sara a Abraão um filho em sua velhice, no tempo que Deus lhe havia dito.
3E chamou Abraão o nome de seu filho que lhe nasceu, que lhe deu à luz Sara, Isaque.
O nascimento de Isaque, anunciado com a fórmula que fecha a espera: como havia falado, no tempo dito.
1E foi a vida de Sara cento e vinte e sete anos; estes foram os anos da vida de Sara.
2E morreu Sara em Quiriate-Arba, que é Hebrom, na terra de Canaã; e Abraão veio para ficar de luto por Sara e para chorar por ela.
A morte em Hebrom, com a idade registrada e o luto de Abraão. É o capítulo que termina com a compra do primeiro pedaço de terra.
11Pela fé, também, a própria Sara recebeu a capacidade de conceber descendência, e já na idade avançada , pois considerou fiel aquele que havia prometido.
A leitura que o Novo Testamento faz dela: creditando-lhe fé em quem havia prometido. Vale ler ao lado do Gênesis, e não no lugar dele.