Quem foi Jeremias?
Quando viveu Jerusalém, entre o fim do século VII e o começo do VI a.C.
Em resumo
Jeremias foi profeta em Jerusalém nas décadas que antecederam a destruição da cidade pelos babilônios. Foi chamado ainda jovem, proibido de casar, preso, jogado numa cisterna de lama e teve um livro seu queimado pelo rei. Comprou um campo enquanto a cidade estava cercada, como sinal de que a terra voltaria.
- Escrito por
- Raphael Navarro Schmitt
- Revisado por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
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Jeremias é o profeta cuja vida a Bíblia conta em mais detalhe, e é também aquele de quem se guardou o registro mais cru da experiência interior. Além dos oráculos, o livro traz trechos em que ele reclama, acusa e anuncia que vai parar de falar — e não são poucos.
A vida dele coincide com o pior momento da história de Judá. Ele começa a falar durante uma reforma religiosa e vive o suficiente para ver a cidade sitiada, o templo destruído e a população deportada. Quase tudo o que ele anunciou aconteceu, e isso não lhe rendeu nem crédito nem proteção.
O chamado, e a recusa
O livro abre com um chamado que antecede o nascimento: antes de ser formado no ventre, ele já estava destinado a ser profeta às nações. A resposta de Jeremias é imediata e negativa — alega que não sabe falar, porque é um menino.
A recusa não é aceita, e a réplica é curta: ele irá a quem for enviado e dirá o que for mandado. O que o texto acrescenta em seguida não é encorajamento genérico, e sim uma promessa específica de livramento, o que já antecipa que haverá de quem ser livrado.
O programa é anunciado logo depois em seis verbos, e quatro deles são de destruição: arrancar, derrubar, destruir, arruinar — e só então edificar e plantar. É a descrição honesta do que a carreira dele vai ser.
4Veio, pois, a palavra do SENHOR a mim, dizendo:
5Antes que te formasse no ventre eu te conheci, e antes que saísses do útero eu te santifiquei, te dei por profeta às nações.
6E eu disse: Ah! Senhor DEUS! Eis que não sei falar, pois sou um menino.
7Porém o SENHOR me disse: Não digas: sou menino; porque a todos a quem eu te enviar tu irás, e falarás tudo quanto eu te mandar.
8Não temas diante deles, porque estou contigo para te livrar, diz o SENHOR.
Cinco versículos que contêm a objeção dele e a resposta. Repare que a objeção não é moral nem espiritual: é de competência e de idade, e é o tipo de argumento que qualquer pessoa reconhece.
A vida dele como sinal
Jeremias recebe uma ordem sem paralelo entre os profetas: não casar e não ter filhos naquele lugar. A proibição é ela própria a mensagem — o texto explica que os filhos que nascerem ali vão morrer de doença e de fome, e a ausência de família dele antecipa o que virá para todo mundo.
A mesma lógica governa outros episódios: um cinto escondido numa fenda até apodrecer, uma jarra quebrada em público diante de testemunhas, um jugo de madeira carregado no pescoço em plena crise diplomática. Ele encena o que anuncia, e paga por isso.
Vale dizer o que isso custa em termos concretos. Numa sociedade em que descendência era segurança na velhice e continuidade do nome, a ordem do capítulo 16 é uma sentença de solidão vitalícia.
1E veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo:
2Não tomes para ti mulher, nem tenhas filhos nem filhas neste lugar.
Dois versículos secos, sem explicação imediata — a justificativa vem nos seguintes. É a única vez na Bíblia em que um profeta é proibido de constituir família.
As confissões
Espalhados pelo livro há trechos que os estudiosos costumam chamar de confissões de Jeremias: passagens em primeira pessoa em que ele fala com Deus sem nenhuma cerimônia. Elas contêm queixa, acusação e sarcasmo.
A mais forte está no capítulo 20. Ele diz que foi persuadido e cedeu, que virou motivo de riso o dia inteiro, e que decidiu não falar mais em nome de Deus — e não conseguiu, porque aquilo virou fogo preso nos ossos dele. Poucos versículos da Bíblia descrevem tão bem uma vocação que a pessoa não quer e não consegue largar.
É por causa desses trechos que a imagem do profeta chorão é insuficiente. O que está no texto não é resignação triste: é protesto, dirigido a Deus, em voz alta e por escrito.
7Persuadiste-me, ó SENHOR, e eu fiquei persuadido; mais forte foste que eu, e prevaleceste; sirvo de escárnio o dia todo; cada deles zomba de mim.
8Pois desde que falo, grito; eu clamo violência e destruição; pois a palavra do SENHOR tem me servido de insulto e zombaria o dia todo.
9Então eu disse: Não me lembrarei dele, nem falarei mais em seu nome; porém ela foi em meu coração como um fogo ardente contido em meus ossos; resisti até me cansar, mas não pude.
Três versículos com a acusação, o motivo e a desistência que não deu certo. Repare no verbo da abertura: ele acusa Deus de tê-lo convencido, e diz que foi mais forte que ele.
O rolo queimado
O capítulo 36 é um dos poucos lugares da Bíblia que descrevem por dentro a produção de um livro bíblico. Jeremias dita a Baruque tudo o que falou ao longo de mais de vinte anos, e o rolo é lido em público, depois diante de funcionários, e finalmente diante do rei.
A cena da leitura ao rei é fria e memorável. Ele está na casa de inverno, com um braseiro aceso à frente. A cada três ou quatro colunas lidas, ele corta o pedaço com a lâmina que os escribas usavam e joga no braseiro, até o rolo inteiro acabar. O texto acrescenta que ninguém na sala rasgou as vestes — o gesto que se esperava de quem ouve uma palavra dessas.
A resposta de Jeremias é ditar tudo de novo, com acréscimos. O livro que se lê hoje é, segundo o próprio livro, a segunda versão de um texto que foi destruído.
22(E o rei estava na casa de inverno, no nono mês; e havia diante dele um braseiro aceso);
23E sucedeu que, havendo Jeudi lido três ou quatro colunas, rasgou-o com uma lâmina de escrever, e o lançou no fogo que tinha no braseiro, até que todo o rolo se consumiu no fogo que estava no braseiro.
24E não temeram, nem rasgaram suas vestes, o rei e todos seus servos que ouviram todas estas palavras.
Três versículos com a cena completa, incluindo a estação do ano e o instrumento usado para cortar o rolo. O detalhe final — a ausência de reação — é o que o narrador quer que fique.
A cisterna e o campo comprado
Durante o cerco babilônico, a mensagem de Jeremias é politicamente insustentável: ele diz que a cidade vai cair e que resistir é inútil. Os oficiais o acusam de desmoralizar os defensores, e o rei entrega o profeta a eles.
Ele é descido por cordas numa cisterna que não tinha água, mas tinha lama, e afunda ali. Quem o salva é um funcionário estrangeiro do palácio, que vai falar com o rei e obtém autorização para tirá-lo.
E é nesse período — cidade cercada, ele sob custódia dentro do pátio da guarda — que acontece o gesto mais estranho e mais coerente do livro. Um primo lhe oferece um terreno em Anatote, e Jeremias compra. Pesa a prata, assina a escritura diante de testemunhas, e manda guardar os documentos num vaso de barro para durarem muito tempo.
Comprar terra num país prestes a ser ocupado é jogar dinheiro fora — a não ser que se esteja fazendo um sinal. E o texto diz o que ele significa: haverá de novo, naquele lugar, compra de casa, de campo e de vinha. O profeta que anunciou a catástrofe assina um contrato apostando no depois dela.
6Então eles tomaram a Jeremias, e o lançaram na cisterna de Malquias filho de rei, que estava no pátio da guarda; e meteram a Jeremias com cordas. Porém na cisterna não havia água, mas sim lama; e Jeremias se atolou na lama.
Um versículo com o essencial: as cordas, a ausência de água, a lama e o afundamento. Vale ler devagar — a economia do relato é o que o torna duro.
14Assim diz o SENHOR dos exércitos, Deus de Israel: Toma estes documentos, este documento de compra, tanto o que está selado como este documento aberto, e põe-nos em um vaso de barro, para que durem muitos dias.
15Pois assim diz o SENHOR dos exércitos, Deus de Israel: Ainda se comprarão casas, campos, e vinhas nesta terra.
A instrução sobre os documentos e a explicação do gesto. Repare no cuidado burocrático: escritura selada, cópia aberta, vaso de barro, longa duração. A esperança aqui tem forma de arquivo.
A carta aos exilados
O capítulo 29 é uma carta, escrita de Jerusalém para os judeus já deportados na Babilônia. O conselho que ela dá é o oposto do que os deportados queriam ouvir: construam casas, plantem hortas, casem os filhos, multipliquem-se, e busquem o bem da cidade para onde foram levados — porque na paz dela está a paz de vocês.
É contra outros profetas que ele escreve. Havia quem anunciasse retorno rápido, e a carta desmente isso com um prazo: setenta anos. Só depois disso vem a promessa que ficou famosa.
Esse é o contexto do versículo mais citado de Jeremias, e é o contexto que quase nunca acompanha a citação. Ele não é dito a um indivíduo em busca de um plano de carreira: é dito a um povo derrotado, para depois de uma vida inteira de exílio, junto com a ordem de fazer o bem à cidade que o deportou.
10Porque assim diz o SENHOR: Certamente que, quando se cumprirem setenta anos na Babilônia, eu vos visitarei; e cumprirei sobre vós minha boa palavra, trazendo-vos de volta a este lugar.
11Porque eu sei os pensamentos que penso quanto a vós, diz o SENHOR, pensamentos de paz, e não de mal, para vos dar um futuro com esperança.
Os dois versículos juntos, que é como eles precisam ser lidos. O primeiro fixa o prazo; o segundo é a promessa. Citar o segundo sem o primeiro transforma uma palavra sobre gerações numa promessa de resultado rápido.
O que o texto não diz
Personagens bíblicos acumulam camadas de tradição que a Escritura não sustenta. Separar as duas coisas não diminui a história — devolve a ela o que está de fato escrito.
O que se costuma dizer
Jeremias 29:11 é uma promessa pessoal de prosperidade e de planos bons para a minha vida.
O que a Escritura traz
A frase está numa carta endereçada aos deportados na Babilônia, e o versículo imediatamente anterior fixa o prazo: setenta anos. O mesmo capítulo manda que construam casas, plantem hortas e procurem o bem da cidade que os deportou. A promessa é coletiva e é para depois de uma vida inteira de exílio.
O que se costuma dizer
Jeremias escreveu o livro de Lamentações.
O que a Escritura traz
Lamentações não nomeia autor em nenhum versículo. A atribuição é antiga e ficou no título de muitas edições, mas não vem do texto do livro.
De onde vem: A tradução grega antiga do Antigo Testamento traz uma nota introdutória ligando o livro a Jeremias. É essa nota — e não o livro — que está na origem da atribuição.
O que se costuma dizer
Jeremias era o profeta chorão: triste, resignado, sempre lamentando.
O que a Escritura traz
O livro registra também raiva, sarcasmo e acusação dirigida a Deus. No capítulo 20 ele diz que foi convencido à força, que virou motivo de riso e que decidiu parar de falar — e não conseguiu. É protesto, e não resignação.
O que se costuma dizer
Jeremias foi respeitado como profeta, mesmo que não obedecido.
O que a Escritura traz
O rei cortou e queimou o rolo que ele ditou, pedaço por pedaço, e o texto registra que ninguém na sala reagiu. Ele foi preso, acusado de desmoralizar a defesa da cidade e descido numa cisterna sem água, onde afundou na lama. O livro é um catálogo de rejeição.
Onde essa pessoa aparece
4Veio, pois, a palavra do SENHOR a mim, dizendo:
5Antes que te formasse no ventre eu te conheci, e antes que saísses do útero eu te santifiquei, te dei por profeta às nações.
6E eu disse: Ah! Senhor DEUS! Eis que não sei falar, pois sou um menino.
7Porém o SENHOR me disse: Não digas: sou menino; porque a todos a quem eu te enviar tu irás, e falarás tudo quanto eu te mandar.
8Não temas diante deles, porque estou contigo para te livrar, diz o SENHOR.
O chamado, a objeção da idade e a resposta que não a aceita.
1E veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo:
2Não tomes para ti mulher, nem tenhas filhos nem filhas neste lugar.
A proibição de casar e ter filhos — a vida do profeta transformada em sinal.
7Persuadiste-me, ó SENHOR, e eu fiquei persuadido; mais forte foste que eu, e prevaleceste; sirvo de escárnio o dia todo; cada deles zomba de mim.
8Pois desde que falo, grito; eu clamo violência e destruição; pois a palavra do SENHOR tem me servido de insulto e zombaria o dia todo.
9Então eu disse: Não me lembrarei dele, nem falarei mais em seu nome; porém ela foi em meu coração como um fogo ardente contido em meus ossos; resisti até me cansar, mas não pude.
A confissão mais dura do livro, com a desistência que não deu certo.
10Porque assim diz o SENHOR: Certamente que, quando se cumprirem setenta anos na Babilônia, eu vos visitarei; e cumprirei sobre vós minha boa palavra, trazendo-vos de volta a este lugar.
11Porque eu sei os pensamentos que penso quanto a vós, diz o SENHOR, pensamentos de paz, e não de mal, para vos dar um futuro com esperança.
O prazo e a promessa, nos dois versículos que precisam ser lidos juntos.
14Assim diz o SENHOR dos exércitos, Deus de Israel: Toma estes documentos, este documento de compra, tanto o que está selado como este documento aberto, e põe-nos em um vaso de barro, para que durem muitos dias.
15Pois assim diz o SENHOR dos exércitos, Deus de Israel: Ainda se comprarão casas, campos, e vinhas nesta terra.
A compra do campo durante o cerco, com os documentos guardados para durar.
22(E o rei estava na casa de inverno, no nono mês; e havia diante dele um braseiro aceso);
23E sucedeu que, havendo Jeudi lido três ou quatro colunas, rasgou-o com uma lâmina de escrever, e o lançou no fogo que tinha no braseiro, até que todo o rolo se consumiu no fogo que estava no braseiro.
24E não temeram, nem rasgaram suas vestes, o rei e todos seus servos que ouviram todas estas palavras.
O rolo cortado e queimado diante do rei, e a ausência de reação na sala.
6Então eles tomaram a Jeremias, e o lançaram na cisterna de Malquias filho de rei, que estava no pátio da guarda; e meteram a Jeremias com cordas. Porém na cisterna não havia água, mas sim lama; e Jeremias se atolou na lama.
A cisterna sem água, com lama, e o profeta descido por cordas.