Quem foi Elias?
Quando viveu Reino do Norte, por volta do século IX a.C.
Em resumo
Elias foi um profeta do Reino do Norte que enfrentou o rei Acabe e os profetas de Baal. Anunciou uma seca, foi sustentado por uma viúva estrangeira, venceu o duelo do monte Carmelo e, logo depois, fugiu para o deserto pedindo a morte. O texto diz que subiu ao céu num turbilhão.
- Escrito por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
- Revisado por
- Raphael Navarro Schmitt
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Elias entra na Bíblia sem apresentação. Não há genealogia, não há relato de chamado, não há infância: ele simplesmente aparece diante do rei e anuncia que não haverá chuva. É uma das entradas mais abruptas de qualquer personagem bíblico, e o efeito é proposital.
A história dele ocupa seis capítulos e tem uma estrutura que quase nenhuma pregação segue até o fim: a maior demonstração de poder do Antigo Testamento é imediatamente seguida por um colapso. O capítulo 18 termina com fogo do céu; o 19 começa com um homem fugindo a pé e pedindo para morrer.
A seca, os corvos e a viúva
A primeira fala de Elias é um anúncio de seca, dirigido a Acabe, rei de Israel. O pano de fundo é religioso e econômico ao mesmo tempo: Baal era cultuado como o deus que trazia a chuva, e uma seca prolongada é um argumento contra ele feito no terreno em que ele deveria ser mais forte.
Depois do anúncio, o profeta some. É escondido junto a um riacho, alimentado por corvos, e quando o riacho seca é mandado para Sarepta, cidade fenícia — território de Jezabel, a rainha que o quer morto. Ali é sustentado por uma viúva estrangeira que estava preparando a última refeição antes de morrer de fome com o filho.
A cena da farinha e do azeite costuma ser contada como milagre de provisão, e é. Mas vale reparar em quem sustenta quem: o profeta de Israel passa a depender de uma mulher pobre de outro povo, e o texto insiste em que a comida dela é o que resta.
1Então Elias Tisbita, que era dos moradores de Gileade, disse a Acabe: Vive o SENHOR Deus de Israel, diante do qual estou, que não haverá chuva nem orvalho nestes anos, a não ser por minha palavra.
A primeira aparição dele, e já em confronto direto com o rei. Repare que ele condiciona o fim da seca à própria palavra — uma afirmação de autoridade que o resto do ciclo vai testar.
12E ela respondeu: Vive o SENHOR Deus teu, que não tenho pão cozido; que somente um punhado de farinha tenho no jarro, e um pouco de azeite em uma botija: e agora cozia dois gravetos, para entrar-me e prepará-lo para mim e para meu filho, e que o comamos, e morramos.
13E Elias lhe disse: Não tenhas temor; vai, face como disseste: porém faze-me a mim primeiro disso uma pequena torta cozida debaixo da cinza, e traze-a a mim; e depois farás para ti e para teu filho.
14Porque o SENHOR Deus de Israel disse assim: O jarro da farinha não esvaziará, nem se diminuirá a botija do azeite, até aquele dia que o SENHOR dará chuva sobre a face da terra.
15Então ela foi, e fez como lhe disse Elias; e comeu ele, e ela e sua casa, muitos dias.
16E o jarro da farinha não esvaziou, nem minguou a botija do azeite, conforme à palavra do SENHOR que havia dito por Elias.
A resposta da viúva descreve o inventário exato da despensa e o plano dela: comer e morrer. É contra esse fundo que o pedido de Elias — que ela faça primeiro para ele — soa tão duro quanto é.
O duelo do monte Carmelo
Três anos depois, Elias reaparece e propõe um teste público. Dois altares, dois sacrifícios, nenhum fogo aceso por mão humana: responde o deus que mandar fogo. A pergunta que ele faz ao povo antes de começar é a frase mais afiada do episódio, e ela é sobre indecisão, não sobre ateísmo — o problema não é que o povo não creia, é que crê nos dois ao mesmo tempo.
A narrativa dedica bastante espaço à tentativa dos profetas de Baal, e o tom é abertamente irônico: Elias sugere que o deus deles esteja viajando, ocupado ou dormindo. É um dos raros trechos de deboche explícito na Bíblia.
Quando chega a vez dele, Elias encharca o altar de água antes de rezar. A oração é curta e tem um pedido claro: que fique manifesto quem é Deus em Israel e que aquilo foi feito por ordem, e não por iniciativa própria. O fogo cai, e o povo responde.
21E aproximando-se Elias a todo o povo, disse: Até quando hesitareis vós entre dois pensamentos? Se o SENHOR é Deus, segui-lhe; e se Baal, ide depois dele. E o povo não respondeu palavra.
A pergunta sobre hesitar entre dois pensamentos, e o detalhe que fecha o versículo: o povo não responde nada. O silêncio é a resposta mais eloquente da cena.
36E quando chegou a hora de oferecer-se o holocausto, chegou-se o profeta Elias, e disse: SENHOR Deus de Abraão, de Isaque, e de Israel, seja hoje manifesto que tu és Deus em Israel, e que eu sou teu servo, e que por mandado teu fiz todas estas coisas.
37Responde-me, SENHOR, responde-me; para que conheça este povo que tu, ó SENHOR, és o Deus, e que tu voltaste atrás o coração deles.
38Então caiu fogo do SENHOR, o qual consumiu o holocausto, e a lenha, e as pedras, e o pó, e ainda sugou as águas que estavam no sulco.
A oração e o fogo, em três versículos. Note que o pedido de Elias não é por espetáculo e sim por reconhecimento — que se saiba de quem partiu a ordem.
O deserto, o junípero e o pedido de morte
O capítulo 19 começa com uma ameaça de Jezabel e com Elias correndo. Ele entra no deserto, senta debaixo de um arbusto e pede para morrer, dizendo que não é melhor do que os pais dele. É o mesmo homem que, no dia anterior, tinha enfrentado o país inteiro sozinho.
O que acontece em seguida é uma das passagens mais humanas do Antigo Testamento, e vale reparar na ordem das coisas. Ninguém o repreende. Um anjo o toca e manda comer. Ele come e volta a dormir. O anjo o toca de novo e manda comer outra vez, porque o caminho é longo. Só depois de duas refeições e dois sonos ele se levanta e anda.
A conversa teológica só vem depois, numa caverna do Horebe, e mesmo ali começa com uma pergunta em vez de uma acusação. Elias reclama de estar sozinho — e o texto vai informar, mais adiante, que ele estava errado nessa conta.
4E ele se foi pelo deserto um dia de caminho, e veio e sentou-se debaixo de um junípero; e desejando morrer, disse: Basta já, ó SENHOR, tira minha alma; que não sou eu melhor que meus pais.
5E lançando-se debaixo do junípero, ficou dormido: e eis que logo um anjo que lhe tocou, e lhe disse: Levanta-te, come.
6Então ele olhou, e eis que a sua cabeceira uma torta cozida sobre as ascuas, e um vaso de água: e comeu e bebeu e voltou-se a dormir.
7E voltando o anjo do SENHOR a segunda vez, tocou-lhe, dizendo: Levanta-te, come: porque grande caminho te resta.
8Levantou-se, pois, e comeu e bebeu; e caminhou com a força daquela comida quarenta dias e quarenta noites, até o monte de Deus, Horebe.
Cinco versículos em que o socorro é comida, água e sono, aplicados duas vezes antes de qualquer palavra sobre missão. Poucos textos religiosos antigos tratam esgotamento com esse realismo.
11E ele lhe disse: Sai fora, e põe-te no monte diante do SENHOR. E eis que o SENHOR que passava, e um grande e poderoso vento que rompia os montes, e quebrava as penhas diante do SENHOR: mas o SENHOR não estava no vento. E depois do vento um terremoto: mas o SENHOR não estava no terremoto.
12E depois do terremoto um fogo: mas o SENHOR não estava no fogo. E depois do fogo uma voz agradável e suave.
13E quando o ouviu Elias, cobriu seu rosto com seu manto, e saiu, e parou-se à porta da cova. E eis que chegou uma voz a ele, dizendo: Que fazes aqui, Elias?
A sequência é vento, terremoto e fogo — e o texto diz três vezes onde o Senhor não estava. O que vem depois, nesta edição, é uma voz agradável e suave; outras edições descrevem ali um sopro leve, e não uma voz. Vale conferir na sua Bíblia qual das duas aparece.
A saída de cena
O fim de Elias é contado em 2 Reis 2, e é curto. Ele atravessa o Jordão com Eliseu, pergunta o que o discípulo quer antes de ser levado, e recebe um pedido difícil: porção dobrada do espírito dele.
Então vem o versículo que a memória popular reescreveu. Aparecem ali um carro e cavalos em chamas, e a função deles na frase é apartar mestre e discípulo. A subida, essa, o texto atribui ao turbilhão: quem leva Elias para o alto é o vento.
A ausência de um túmulo abriu espaço para uma expectativa que atravessa a Bíblia inteira. O último capítulo de Malaquias anuncia o envio de Elias antes do dia do Senhor, e os Evangelhos discutem se João Batista cumpre isso. Elias reaparece ainda uma vez, ao lado de Moisés, na cena da transfiguração.
11E aconteceu que, indo eles falando, eis que um carro de fogo com cavalos de fogo separou os dois; e Elias subiu ao céu num turbilhão.
Leia devagar: o carro de fogo aparece para separar Elias de Eliseu, e a subida é atribuída ao turbilhão. É um caso raro em que a imagem que ficou na cultura contradiz a sintaxe do versículo.
5Eis que eu vos envio o profeta Elias, antes que venha o grande e temível dia do SENHOR.
O anúncio que faz de Elias uma figura de expectativa, e não apenas de memória. É a passagem que está por trás das perguntas sobre João Batista nos Evangelhos.
17Elias era tão humano quanto nós, e orou insistentemente para não chover; e não choveu sobre a terra por três anos e seis meses.
A leitura que o Novo Testamento faz dele, e ela é deliberadamente antiépica: insiste em que Elias era gente igual a qualquer um, e credita o resultado à insistência da oração.
O que o texto não diz
Personagens bíblicos acumulam camadas de tradição que a Escritura não sustenta. Separar as duas coisas não diminui a história — devolve a ela o que está de fato escrito.
O que se costuma dizer
Elias subiu ao céu numa carruagem de fogo.
O que a Escritura traz
No versículo, o carro e os cavalos em chamas entram em cena para apartar Elias de Eliseu, e a subida é atribuída ao turbilhão. O veículo cumpre a função de separar os dois; o que leva o profeta é o vento. As três edições consultadas dizem a mesma coisa neste ponto.
O que se costuma dizer
Depois do vento, do terremoto e do fogo, Deus falou numa voz mansa e delicada.
O que a Escritura traz
A edição exibida nesta página traz uma voz agradável e suave. Outras trazem ali um sopro leve, uma brisa ou um assobio — sem a palavra voz. A cena é a mesma e o que se ouve muda de tradução para tradução, o que faz diferença para quem constrói o sermão em cima da palavra escolhida.
O que se costuma dizer
Elias era um homem de fé inabalável, sem crise nem medo.
O que a Escritura traz
No capítulo imediatamente posterior à maior vitória dele, o texto o mostra fugindo de uma ameaça, sentado no deserto, pedindo para morrer e afirmando estar sozinho — o que o próprio livro depois desmente. O socorro que recebe é comida, água e sono, antes de qualquer palavra.
O que se costuma dizer
Elias foi o único profeta que não morreu.
O que a Escritura traz
O texto de fato não narra a morte dele, e é sobre isso que se apoia a expectativa do retorno anunciada em Malaquias. Vale só registrar que ele não é o único caso do gênero no Antigo Testamento: de Enoque, no capítulo 5 do Gênesis, o texto diz que sumiu por ter sido levado, e não registra morte nenhuma.
Onde essa pessoa aparece
1Então Elias Tisbita, que era dos moradores de Gileade, disse a Acabe: Vive o SENHOR Deus de Israel, diante do qual estou, que não haverá chuva nem orvalho nestes anos, a não ser por minha palavra.
A entrada dele na Bíblia, sem genealogia e sem relato de chamado.
21E aproximando-se Elias a todo o povo, disse: Até quando hesitareis vós entre dois pensamentos? Se o SENHOR é Deus, segui-lhe; e se Baal, ide depois dele. E o povo não respondeu palavra.
A pergunta ao povo no Carmelo, e o silêncio que a responde.
36E quando chegou a hora de oferecer-se o holocausto, chegou-se o profeta Elias, e disse: SENHOR Deus de Abraão, de Isaque, e de Israel, seja hoje manifesto que tu és Deus em Israel, e que eu sou teu servo, e que por mandado teu fiz todas estas coisas.
37Responde-me, SENHOR, responde-me; para que conheça este povo que tu, ó SENHOR, és o Deus, e que tu voltaste atrás o coração deles.
38Então caiu fogo do SENHOR, o qual consumiu o holocausto, e a lenha, e as pedras, e o pó, e ainda sugou as águas que estavam no sulco.
A oração curta e o fogo que desce sobre o altar encharcado.
4E ele se foi pelo deserto um dia de caminho, e veio e sentou-se debaixo de um junípero; e desejando morrer, disse: Basta já, ó SENHOR, tira minha alma; que não sou eu melhor que meus pais.
5E lançando-se debaixo do junípero, ficou dormido: e eis que logo um anjo que lhe tocou, e lhe disse: Levanta-te, come.
6Então ele olhou, e eis que a sua cabeceira uma torta cozida sobre as ascuas, e um vaso de água: e comeu e bebeu e voltou-se a dormir.
7E voltando o anjo do SENHOR a segunda vez, tocou-lhe, dizendo: Levanta-te, come: porque grande caminho te resta.
8Levantou-se, pois, e comeu e bebeu; e caminhou com a força daquela comida quarenta dias e quarenta noites, até o monte de Deus, Horebe.
O colapso no deserto e o tratamento que ele recebe: comida, água e sono, duas vezes.
11E ele lhe disse: Sai fora, e põe-te no monte diante do SENHOR. E eis que o SENHOR que passava, e um grande e poderoso vento que rompia os montes, e quebrava as penhas diante do SENHOR: mas o SENHOR não estava no vento. E depois do vento um terremoto: mas o SENHOR não estava no terremoto.
12E depois do terremoto um fogo: mas o SENHOR não estava no fogo. E depois do fogo uma voz agradável e suave.
13E quando o ouviu Elias, cobriu seu rosto com seu manto, e saiu, e parou-se à porta da cova. E eis que chegou uma voz a ele, dizendo: Que fazes aqui, Elias?
O vento, o terremoto, o fogo — e o que vem depois deles.
11E aconteceu que, indo eles falando, eis que um carro de fogo com cavalos de fogo separou os dois; e Elias subiu ao céu num turbilhão.
A saída de cena, com o carro de fogo separando os dois e o turbilhão levando Elias.