Quem foi Isaías?
Quando viveu Jerusalém, entre os séculos VIII e VII a.C.
Em resumo
Isaías foi profeta em Jerusalém durante o reinado de quatro reis de Judá, entre os séculos VIII e VII a.C. Teve uma visão no templo, andou nu e descalço como sinal contra o Egito, e aconselhou o rei durante o cerco assírio. O livro que leva seu nome tem sessenta e seis capítulos.
- Escrito por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
- Revisado por
- Raphael Navarro Schmitt
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Isaías é, em volume de citação, o profeta mais influente da Bíblia: o Novo Testamento recorre a ele mais do que a qualquer outro, e frases do livro entraram no vocabulário comum muito além do meio religioso. E, apesar disso, o que se sabe da vida dele cabe em poucos parágrafos.
O livro é grande, atravessa situações históricas muito distantes entre si e mistura oráculo, narrativa, poema e liturgia. Ler Isaías é lidar com essa amplitude, e com uma questão de composição que continua em aberto entre estudiosos — a de quantas mãos estão por trás dos sessenta e seis capítulos.
O que se sabe da vida dele
A abertura do livro dá o essencial: filho de Amoz, com atuação voltada a Judá e à capital, ao longo dos reinados de quatro reis nomeados. É datação por reinado, o padrão da época, e situa a atividade dele na segunda metade do século VIII e no começo do VII.
Ele tinha acesso à corte. O livro o mostra procurando o rei Acaz numa crise diplomática, sendo consultado por Ezequias durante um cerco e transmitindo respostas a emissários reais. Nada nisso é comportamento de um profeta popular de rua — é o de alguém que circulava no palácio.
Sobre a família, dois dados. A mulher dele é chamada de profetisa no capítulo 8, sem nenhuma explicação adicional. E pelo menos dois filhos recebem nomes que são, eles próprios, mensagens: os nomes anunciam o que vai acontecer com o país.
1Visão de Isaías, filho de Amoz, a qual ele viu sobre Judá e Jerusalém, nos dias de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias, reis de Judá.
O versículo de abertura funciona como ficha catalográfica: quem, sobre o quê, e em que reinados. É dele que sai praticamente toda a informação biográfica disponível.
3E vim até a profetisa, que concebeu e teve um filho; e o SENHOR me disse: Chama o nome dele de Maer-Salal-Has-Baz,
A mulher dele é apresentada com um título — profetisa — e o texto não desenvolve o assunto. O nome dado ao filho é uma frase inteira, e a frase é um aviso militar.
A visão no templo
O capítulo 6 é o texto mais conhecido do livro e é datado pela morte de um rei. Isaías vê o Senhor sentado num trono elevado, com as bordas do manto ocupando o templo, e serafins de seis asas repetindo três vezes a mesma palavra. As portas tremem e a casa se enche de fumaça.
A reação dele não é adoração: é pânico. Ele se declara perdido, alega lábios impuros e diz que mora no meio de um povo igualmente impuro. A purificação vem por um gesto físico e desagradável — uma brasa tirada do altar, levada à boca dele com uma tenaz.
Só então vem a pergunta sobre quem irá, e a resposta que virou lema de vocação. E é aqui que a leitura devocional costuma parar. O que vem imediatamente depois é a descrição da missão: falar a um povo que ouvirá sem entender, até as cidades ficarem sem morador. Ele pergunta até quando, e a resposta é: até o fim.
1No ano em que o rei Uzias morreu, eu vi o Senhor sentado sobre um alto e elevado trono; e as bordas de seu manto enchiam o templo.
2Serafins estavam por cima dele, cada um tinha seis asas; com duas cobriam seus rostos, com duas cobriam seus pés, e com duas voavam.
3E clamavam uns aos outros, dizendo: Santo! Santo! Santo é o SENHOR dos exércitos! Toda a terra está cheia de sua glória!
4E as molduras das portas se moviam com a voz do que clamava; e a casa se encheu de fumaça.
5Então eu disse: Ai de mim, que vou perecer! Pois sou homem de lábios impuros, e moro no meio de um povo de lábios impuros, e meus olhos viram ao Rei, o SENHOR dos exércitos!
Cinco versículos com a cena inteira. Nesta edição, a reação dele é dizer que vai perecer; outras edições trazem ali frases diferentes, e vale conferir qual a sua Bíblia traz antes de construir alguma coisa em cima da palavra.
8Depois disso ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei? E quem irá por nós? Então eu disse: Eis-me aqui! Envia-me!
A frase mais citada do livro. Ela é uma oferta espontânea, feita antes de o conteúdo da missão ser revelado — e o conteúdo, três versículos adiante, é bem mais duro do que a frase sugere.
Os sinais
Profetas bíblicos não apenas falavam: encenavam. Isaías é um dos casos mais extremos disso. O capítulo 20 registra uma ordem para tirar a roupa de saco e as sandálias, e informa que ele andou nu e descalço como presságio a respeito do Egito e da Etiópia.
A cena costuma ser omitida das apresentações do profeta, e a omissão é compreensível — mas ela é parte do método. A mensagem sobre a inutilidade de confiar numa aliança militar com o Egito é transmitida pelo corpo dele, e não por um discurso.
Outro sinal, mais conhecido, é o do capítulo 7. Diante do rei Acaz, pressionado por uma coalizão inimiga e tentado a comprar a proteção da Assíria, Isaías anuncia um nascimento como garantia de que a ameaça vai passar.
2Naquele tempo o SENHOR falou por meio de Isaías, filho de Amoz, dizendo: Vai, tira a roupa de saco de teus lombos, e descalça a sandália de teus pés.E assim ele fez, andando nu e descalço.
3Então o SENHOR disse: Assim como meu servo Isaías anda nu e descalço, como sinal e presságio relativo ao Egito e a Cuxe,
A ordem e o cumprimento no mesmo versículo, sem nenhuma linha de comentário sobre o constrangimento. A duração do sinal aparece de formas diferentes conforme a edição.
14Por isso o Senhor, ele mesmo, vos dará um sinal: eis que a virgem conceberá, e fará nascer um filho, e ela chamará seu nome Emanuel.
O versículo mais discutido do livro. Nesta edição a palavra é virgem, e o nome anunciado significa "Deus conosco". O contexto imediato é uma crise militar do tempo de Acaz, e é isso que a nota abaixo trata.
O cerco de Jerusalém
Os capítulos 36 e 37 são narrativa, e não poesia. O exército assírio está diante dos muros de Jerusalém, e o porta-voz do rei da Assíria recusa negociar em aramaico: fala de propósito na língua do povo, alto o suficiente para ser ouvido pelos defensores em cima da muralha. É propaganda militar dirigida à tropa, por cima da cabeça dos negociadores.
Ezequias sobe ao templo com a carta de ameaça e a estende ali. Isaías responde com um oráculo, e o cerco termina sem batalha: o texto conta que o exército assírio foi dizimado numa noite e que o rei voltou para casa.
É um dos poucos episódios bíblicos com correspondência em fontes externas. Os anais assírios registram a campanha contra Judá e o cerco a Jerusalém — e não registram a tomada da cidade, que era o tipo de vitória que aquelas inscrições sempre celebravam.
36Então o anjo do SENHOR saiu, e feriu no acampamento dos assírios cento e oitenta mil deles ; e levantando-se pela manhã cedo, eis que todos eram cadáveres.
O desfecho em um versículo. O número de mortos varia entre as edições, e por isso vale ler o versículo na sua própria Bíblia em vez de repetir a cifra de memória.
A segunda metade, e a pergunta sobre quantas mãos
A partir do capítulo 40, o tom muda por completo. Some a ameaça, entra o consolo, e o interlocutor deixa de ser a Jerusalém ameaçada pela Assíria e passa a ser um povo já deportado, para quem se anuncia o fim do exílio. Alguns capítulos adiante, um rei persa é chamado pelo nome.
Daí vem uma das discussões mais antigas da crítica bíblica. Boa parte dos estudiosos lê o livro como obra de mais de uma mão, reunida sob o mesmo nome — a situação descrita a partir do 40 está cerca de cento e cinquenta anos depois dos reis citados no capítulo 1. Outros sustentam a autoria única, entendendo essas passagens como profecia do futuro.
Vale dizer o que a discussão não é. Ela não é sobre o conteúdo do livro, que é o mesmo em qualquer hipótese, nem sobre o valor dele. É sobre história de composição, e é honesto registrar que continua em aberto.
É nessa parte do livro que estão os textos mais citados de toda a Bíblia hebraica no Novo Testamento: os poemas sobre um servo que sofre em lugar de outros, no capítulo 53, e a voz que manda consolar, no 40.
1Consolai, consolai a meu povo, diz vosso Deus.
2Falai ao coração de Jerusalém, e proclamai a ela, que seu esforço de guerra está terminado, que sua perversidade está perdoada; porque já recebeu punição em dobro da mão do SENHOR por todo os seus pecados.
A virada do livro em dois versículos: a ordem de consolar, repetida, e o anúncio de que a pena já foi cumprida. Quem é consolado aqui já passou pelo castigo.
28Que diz de Ciro: Ele é meu pastor, e cumprirá toda a minha vontade, dizendo à Jerusalém: Serás edificada; e ao Templo: Terás posto teu fundamento.
O rei persa aparece pelo nome, com a incumbência de mandar reconstruir Jerusalém. É esse tipo de precisão que está no centro da discussão sobre a composição do livro.
3Ele era desprezado e rejeitado entre os homens, era homem de dores, e experiente em enfermidade; ele era como alguém de quem os outros escondiam o rosto; era desprezado, e não lhe estimávamos.
4Verdadeiramente ele tomou sobre si nossas enfermidades, e nossas dores levou sobre si; e nós o considerávamos como afligido, ferido por Deus, e oprimido.
5Porém ele foi ferido por nossas transgressões, e esmagado por nossas perversidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e por suas feridas fomos curados.
O trecho mais citado do livro. Vale ler notando a alternância de pronomes: o texto se move o tempo todo entre o que aconteceu com ele e o que era nosso.
O que o texto não diz
Personagens bíblicos acumulam camadas de tradição que a Escritura não sustenta. Separar as duas coisas não diminui a história — devolve a ela o que está de fato escrito.
O que se costuma dizer
Isaías morreu serrado ao meio por ordem do rei Manassés.
O que a Escritura traz
A Bíblia não conta a morte de Isaías. O livro dele termina sem essa informação, e nenhum outro livro bíblico a registra. Hebreus 11:37 menciona pessoas serradas numa lista de sofrimentos, sem nomear ninguém.
De onde vem: A narrativa da execução vem de um escrito de fora do cânon, a Ascensão de Isaías, e reaparece na tradição rabínica. É antiga, mas não é bíblica.
O que se costuma dizer
Os sessenta e seis capítulos foram escritos pelo profeta do século VIII.
O que a Escritura traz
A partir do capítulo 40, o texto se dirige a pessoas já exiladas na Babilônia — situação que está cerca de cento e cinquenta anos depois dos reis nomeados na abertura do livro — e chega a nomear o rei persa que autorizaria a volta. Boa parte dos estudiosos lê o livro como obra de mais de uma mão; outros sustentam a autoria única, entendendo esses trechos como previsão. A questão continua em aberto.
O que se costuma dizer
"Eis-me aqui, envia-me" é a frase de quem aceita uma missão bonita.
O que a Escritura traz
A oferta é feita antes de a tarefa ser descrita. O que vem em seguida é a missão de falar a um povo que ouvirá sem entender, e a resposta à pergunta sobre a duração disso é: até as cidades ficarem sem morador. O texto coloca o entusiasmo antes do conteúdo, de propósito.
O que se costuma dizer
Isaías era um pregador do povo, um homem simples do interior.
O que a Escritura traz
O livro o mostra procurando um rei em crise diplomática, sendo consultado por outro durante um cerco e recebendo emissários reais. É o retrato de alguém com trânsito na corte de Jerusalém, e nada no texto sugere origem humilde.
Onde essa pessoa aparece
1Visão de Isaías, filho de Amoz, a qual ele viu sobre Judá e Jerusalém, nos dias de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias, reis de Judá.
A abertura do livro, com a datação por reinados — a principal fonte de informação biográfica sobre ele.
1No ano em que o rei Uzias morreu, eu vi o Senhor sentado sobre um alto e elevado trono; e as bordas de seu manto enchiam o templo.
2Serafins estavam por cima dele, cada um tinha seis asas; com duas cobriam seus rostos, com duas cobriam seus pés, e com duas voavam.
3E clamavam uns aos outros, dizendo: Santo! Santo! Santo é o SENHOR dos exércitos! Toda a terra está cheia de sua glória!
4E as molduras das portas se moviam com a voz do que clamava; e a casa se encheu de fumaça.
5Então eu disse: Ai de mim, que vou perecer! Pois sou homem de lábios impuros, e moro no meio de um povo de lábios impuros, e meus olhos viram ao Rei, o SENHOR dos exércitos!
A visão no templo e a reação de pânico que ela provoca.
8Depois disso ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei? E quem irá por nós? Então eu disse: Eis-me aqui! Envia-me!
A oferta espontânea — dita antes de a missão ser descrita, o que muda a leitura da cena.
14Por isso o Senhor, ele mesmo, vos dará um sinal: eis que a virgem conceberá, e fará nascer um filho, e ela chamará seu nome Emanuel.
O sinal dado a Acaz, e o versículo mais discutido do livro. As duas leituras estão apresentadas acima.
1Consolai, consolai a meu povo, diz vosso Deus.
2Falai ao coração de Jerusalém, e proclamai a ela, que seu esforço de guerra está terminado, que sua perversidade está perdoada; porque já recebeu punição em dobro da mão do SENHOR por todo os seus pecados.
A abertura da segunda metade, com a ordem de consolar um povo já exilado.
3Ele era desprezado e rejeitado entre os homens, era homem de dores, e experiente em enfermidade; ele era como alguém de quem os outros escondiam o rosto; era desprezado, e não lhe estimávamos.
4Verdadeiramente ele tomou sobre si nossas enfermidades, e nossas dores levou sobre si; e nós o considerávamos como afligido, ferido por Deus, e oprimido.
5Porém ele foi ferido por nossas transgressões, e esmagado por nossas perversidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e por suas feridas fomos curados.
O poema do servo, o trecho mais citado do livro no Novo Testamento.