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Como a Bíblia foi escrita

Resposta rápida

A Bíblia foi escrita por dezenas de autores, ao longo de mais de mil anos, em hebraico, aramaico e grego. Boa parte do material circulou oralmente antes de ser posta por escrito, e vários livros passaram por escribas, secretários e editores. O conjunto que hoje se lê encadernado se formou aos poucos, pelo uso, e não numa decisão única.

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A pergunta "como a Bíblia foi escrita" costuma receber duas respostas ruins. Uma diz que Deus ditou tudo palavra por palavra a homens que apenas copiaram; a outra diz que um comitê inventou um livro e o impôs. Nenhuma das duas descreve o que os documentos mostram, e nenhuma das duas explica por que a Bíblia contém um autor pedindo desculpas pelo próprio estilo e outro mandando trazer os pergaminhos que ele deixou na casa de um amigo.

O que existe é bem mais interessante e bem mais bagunçado: uma biblioteca produzida ao longo de séculos, em situações concretas, com autores que às vezes descrevem o próprio método dentro do texto. Este artigo percorre esse processo — e diz, em cada ponto, o que é documentado, o que é reconstruído por estudiosos e o que segue em disputa.

Uma biblioteca, e não um livro

O primeiro ajuste é de escala. A Bíblia reúne narrativa histórica, código legal, poesia, provérbio, oráculo profético, biografia antiga, carta pessoal, carta circular e literatura visionária. São gêneros que, em qualquer outra biblioteca, ficariam em prateleiras diferentes — e que aqui foram encadernados juntos por uma decisão posterior aos textos.

A distância temporal entre as pontas é grande o suficiente para separar mundos. Os materiais mais antigos do Antigo Testamento e os últimos escritos do Novo Testamento estão separados por mais de mil anos, e boa parte das dificuldades de leitura vem exatamente daí: quem lê um oráculo do século VIII antes de Cristo e uma carta do século I com a mesma expectativa de linguagem vai estranhar os dois.

Vale nomear a consequência prática, porque ela atravessa todo o resto do artigo: não existe "o autor da Bíblia" no singular, e não existe um processo único de composição. Existem processos, no plural, e eles diferem de livro para livro.

Três idiomas, três mundos

A maior parte do Antigo Testamento foi escrita em hebraico. Alguns trechos — capítulos de Daniel e de Esdras, e passagens menores — estão em aramaico, a língua franca do Oriente Médio depois do exílio. O Novo Testamento inteiro chegou até nós em grego coiné, o grego comum do Mediterrâneo do século I, que não é o grego literário dos clássicos e sim a língua do comércio, da administração e da conversa.

Alguns dos livros deuterocanônicos foram escritos em grego desde o início; de outros, como o Eclesiástico, sabe-se por evidência textual que houve um original semítico, e o prólogo do próprio livro descreve o trabalho de vertê-lo. Ou seja: a tradução não é algo que aconteceu depois da Bíblia ficar pronta. Ela é parte da história de composição de alguns dos livros.

Isso explica um fenômeno que confunde muito leitor: expressões que soam estranhas em português não estão mal traduzidas, estão traduzidas. Idioma carrega maneira de pensar, e há construções hebraicas que nenhuma língua europeia reproduz sem perder alguma coisa. Toda edição que você abrir é o resultado de milhares de escolhas sobre o que preservar e o que ceder.

Antes da escrita: o que a transmissão oral é e o que ela não é

Boa parte do material bíblico circulou de boca em boca antes de ser fixado por escrito, e isso vale tanto para narrativas antigas do Antigo Testamento quanto para as falas de Jesus, que foram transmitidas por décadas antes do primeiro Evangelho ser redigido. É um dos poucos pontos em que estudiosos de posições muito diferentes concordam.

Vale desfazer o mal-entendido mais comum. Transmissão oral, numa cultura que dependia dela, não é o telefone sem fio de uma festa infantil. Era um ofício, com técnicas de memorização, fórmulas fixas, ritmo, repetição e controle comunitário — o grupo corrigia quem contava errado, porque aquilo era o arquivo dele. Sociedades assim guardavam volumes de texto que hoje pareceriam impossíveis de reter.

E vale, na mesma medida, não exagerar para o outro lado. Transmissão oral não é gravação. Ela conserva bem o núcleo e é mais flexível na moldura — ordem dos episódios, detalhe de cenário, ligação entre uma cena e outra. Essa é uma das razões pelas quais os Evangelhos contam as mesmas cenas em sequências diferentes sem que nenhum deles esteja errando: eles trabalham material que já vinha organizado por critérios que não são cronológicos.

Quem de fato segurava a pena

A imagem do profeta escrevendo sozinho o próprio livro é rara no texto. O que o texto descreve, quando descreve, é trabalho em dupla: alguém dita, outro escreve, e o segundo não é um acessório. Escribas eram profissionais treinados, e no mundo antigo o secretário que redigia uma carta tinha, em graus variados, participação na formulação dela.

Isso não é conjectura de especialista: está registrado dentro da Bíblia, em pelo menos dois lugares onde o texto para e conta como foi feito. E é o dado que melhor explica por que livros atribuídos a um mesmo autor podem variar de estilo — a mão que escreve não é sempre a mesma, mesmo quando a voz é.

Jeremias 36:1-4

1Sucedeu, no quarto ano de Jeoaquim, filho de Josias, rei de Judá, que veio esta palavra do SENHOR a Jeremias, dizendo:

2Toma para ti um rolo de livro, e escreve nele todas as palavras que falei a ti sobre Israel e sobre Judá, e sobre todas as nações, desde o dia que comecei a falar a ti, desde os dias de Josias até hoje.

3Talvez a casa de Judá ouça todo o mal que eu penso lhes fazer; para que cada um se converta de seu mau caminho; então eu perdoarei a maldade e o pecado deles.

4Então Jeremias chamou a Baruque, filho de Nerias; e Baruque escreveu da boca de Jeremias, em um rolo de livro, todas as palavras que o SENHOR havia lhe falado.

Tradução: Edição Chama da Fé

O trecho descreve a produção de um livro bíblico do começo: a ordem de escrever, a convocação de Baruque e o registro de que ele escreveu a partir da fala do profeta. Vinte anos de pregação vão para um rolo de uma vez — o que significa que a ordem do livro é uma decisão editorial posterior aos episódios que ele contém.

Jeremias 36:17-18

17E perguntaram a Baruque, dizendo: Conta-nos agora: como escreveste todas estas palavras? Da boca de Jeremias ?

18E Baruque lhes disse: Ele me ditava de sua boca todas estas palavras, e eu escrevia no livro com tinta.

Tradução: Edição Chama da Fé

A cena continua com um interrogatório sobre o método: perguntam a Baruque como aquilo foi escrito, e ele descreve o ditado e a tinta. É o depoimento mais direto que a Bíblia dá sobre o próprio processo material de composição.

Romanos 16:22

22Eu, Tércio, que escrevi esta carta, vos saúdo no Senhor.

Tradução: Edição Chama da Fé

No meio das saudações finais, o secretário se identifica e manda o próprio abraço. A carta é de Paulo e a mão é de Tércio — e o fato de ele aparecer pelo nome mostra que ninguém tratava isso como detalhe a esconder.

2 Macabeus 2:24-25

24E as coisas semelhantes que foram compreendidas em cinco livros por Jasão de Cirene, nós procuramos resumir num só volume.

25Pois, considerando a multidão dos livros e a dificuldade que encontram, pela multidão dos acontecimentos, os que se dispõem a empreender as narrações das histórias,

Tradução: Edição Chama da Fé

O autor declara que está resumindo em um volume uma obra em cinco livros de outra pessoa, e explica por que decidiu fazê-lo. É um livro bíblico descrevendo o próprio trabalho como edição de fontes anteriores, com critério declarado.

2 Macabeus 15:38-39

38Portanto, foram estas as coisas cumpridas acerca de Nicanor, e desde aquele tempo a cidade ficou em poder dos hebreus. E assim porei aqui fim à minha narração.

39E, na verdade, se o fiz bem, de modo a ter composto uma história adequada, é isto mesmo o que eu queria. Mas, se ficou aquém do que é digno, seja-me perdoado.

Tradução: Edição Chama da Fé

O fecho do livro é um autor avaliando o próprio desempenho e pedindo desculpas caso o resultado tenha ficado abaixo do esperado. Nenhuma teoria de composição que trate os autores bíblicos como escreventes passivos consegue acomodar este parágrafo.

O suporte material mudou o que era possível ler

Antes do livro encadernado existia o rolo. Um rolo de papiro tem limite físico de comprimento, e esse limite condicionou o tamanho dos textos: obras longas eram divididas em volumes separados, o que ajuda a explicar por que certos livros nos chegaram partidos em dois. Consultar um rolo também é lento — não se abre num ponto qualquer, desenrola-se até ele.

A virada é o códice: folhas dobradas e costuradas, o formato do livro atual. Os cristãos adotaram o códice muito cedo e em proporção muito maior que o restante do mundo antigo, e a consequência é enorme: pela primeira vez foi possível encadernar num único objeto textos que antes ocupavam vários rolos, e foi possível localizar uma passagem sem percorrer tudo.

As divisões que você usa para citar um verso são ainda mais recentes, e nenhuma delas é do autor. A divisão em capítulos é atribuída a um trabalho do início do século XIII; a numeração de versículos do Novo Testamento vem de uma edição impressa em meados do século XVI. Elas são endereços, criados para facilitar referência — e é por isso que uma frase às vezes começa num versículo e termina no seguinte.

2 Timóteo 4:13

13Quando vieres, traz a capa que deixei em Trôade na casa de Carpo, e os livros, principalmente os pergaminhos.

Tradução: Edição Chama da Fé

No meio de uma carta, um pedido logístico: que tragam a capa e, principalmente, os pergaminhos deixados numa casa. É o lembrete mais concreto de que os textos bíblicos foram produzidos por pessoas que dependiam de materiais caros, transportados a mão e passíveis de ficar para trás numa viagem.

Como textos avulsos viraram um conjunto

Nenhum autor bíblico escreveu sabendo que estava produzindo um capítulo da Bíblia. Paulo escreveu cartas para comunidades específicas com problemas específicos; os Evangelhos foram escritos para leitores concretos; os profetas falaram a situações datadas. O conjunto veio depois, e veio primeiro pelo uso: os textos que as comunidades liam em suas reuniões, copiavam e trocavam entre si foram os que se consolidaram.

Há marcos documentados nesse percurso. Uma carta festal de Atanásio, em 367, lista os vinte e sete livros do Novo Testamento na forma em que os conhecemos. Concílios regionais no norte da África, no fim do século IV, aprovam listas. Séculos depois, o Concílio de Trento, em 1546, define formalmente o cânon para a Igreja Católica, num contexto de controvérsia com a Reforma. Outro documento antigo frequentemente citado, o chamado fragmento muratoriano, traz uma lista parcial — mas sua datação é disputada entre estudiosos, com propostas que vão do século II ao IV, e por isso ele sustenta menos do que costuma lhe ser atribuído.

O que esses marcos registram, na maior parte dos casos, é o reconhecimento de algo que já estava estabelecido pela prática, e não uma escolha feita do zero numa sala. Isso vale para o Novo Testamento, cujo núcleo circulava sem contestação muito antes de qualquer lista oficial. Onde houve divergência real e persistente foi na fronteira do Antigo Testamento — assunto que tem artigo próprio neste site.

Colossenses 4:16

16E depois que esta carta for lida entre vós, fazei que ela também seja lida na igreja dos laodicenses, e que vós leiais também a de Laodiceia.

Tradução: Edição Chama da Fé

Uma instrução para trocar cartas entre duas comunidades vizinhas depois de lidas. É a mecânica da formação do conjunto acontecendo em tempo real: um texto endereçado a um lugar começa a circular por outros, e circular é o primeiro passo para virar referência comum.

2 Pedro 3:15-16

15E considerai como salvação a paciência de nosso Senhor; assim como também nosso irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada;

16Como também em duas as suas cartas, ele fala nelas destas coisas; entre as quais há algumas coisas difíceis de entender, as quais os ignorantes e os inconstantes distorcem, assim como também as outras Escrituras, para a própria perdição deles.

Tradução: Edição Chama da Fé

O autor menciona as cartas de Paulo, admite que há nelas coisas difíceis, e as coloca ao lado das demais Escrituras. Independentemente da datação que se atribua a esta carta, ela registra um momento em que escritos cristãos já eram tratados na mesma categoria dos textos antigos.

João 21:24-25

24Este é o discípulo que testemunha destas coisas, e estas coisas escreveu; e sabemos que seu testemunho é verdadeiro.

25Ainda há, porém, muitas outras coisas que Jesus fez, que se sobre cada uma delas se escrevessem, penso que nem mesmo o mundo poderia caber os livros escritos. Amém.

Tradução: Edição Chama da Fé

O fecho do Evangelho fala do discípulo na terceira pessoa e usa um "sabemos" no plural — indício, dentro do próprio texto, de que a redação final passou por mais mãos que a da testemunha. Em seguida declara que o material disponível era muito maior que o registrado.

Como se sabe o que o texto dizia

Nenhum original sobreviveu. Não existe o rolo escrito por Baruque nem a folha em que Tércio anotou a carta aos Romanos, e isso não é uma particularidade da Bíblia: não existe autógrafo de praticamente nenhuma obra da Antiguidade. O que existe são cópias, e no caso bíblico elas são numerosas — milhares para o Novo Testamento, em grego e em traduções antigas.

A descoberta que mais mudou o quadro no Antigo Testamento foi a dos manuscritos encontrados em Qumran, a partir de 1947. Eles recuaram em cerca de mil anos a evidência disponível para vários livros e permitiram comparar diretamente cópias separadas por dez séculos. O resultado, no conjunto, foi de estabilidade considerável — com variações, e com casos em que os achados coincidem com a tradição textual grega em vez da hebraica medieval.

Comparar cópias é o trabalho da crítica textual, e ele é público: as edições críticas registram as variantes em notas, à vista de quem quiser conferir. A imensa maioria delas é irrelevante para o sentido — grafia, ordem de palavras, sinônimos. Um conjunto pequeno afeta o sentido de uma passagem, e um conjunto menor ainda envolve trechos de tamanho maior, que as edições modernas costumam marcar com nota. Nada disso é segredo de especialista, e nenhuma tradição cristã depende de negar que exista.

O que continua em disputa

Um artigo honesto sobre este assunto precisa terminar dizendo onde não há consenso — e há bastante lugar assim. A autoria e a data de composição do Pentateuco são discutidas há mais de dois séculos, com posições que vão da atribuição tradicional a Moisés a modelos de redação em camadas ao longo de séculos. A unidade do livro de Isaías é objeto de debate parecido. A datação de Daniel divide estudiosos entre uma composição muito anterior e uma no século II antes de Cristo.

No Novo Testamento, a datação dos Evangelhos varia em décadas conforme o autor que você consultar, e a autoria de algumas cartas atribuídas a Paulo é discutida por argumentos de vocabulário e estilo. Também se discute qual Evangelho foi escrito primeiro e o que os outros usaram como fonte.

Duas observações honestas fecham o ponto. A primeira: essas disputas são sobre a história da composição, e não sobre o conteúdo do texto — ninguém discute o que Isaías diz, discute-se quando e por quantas mãos foi dito. A segunda: quem apresenta qualquer uma dessas questões como resolvida, para qualquer um dos lados, está anunciando uma certeza que a evidência disponível não sustenta.

Êxodo 24:4

4E Moisés escreveu todas as palavras do SENHOR, e levantando-se de manhã edificou um altar ao pé do monte, e doze colunas, segundo as doze tribos de Israel.

Tradução: Edição Chama da Fé

O texto registra Moisés escrevendo as palavras recebidas, e é um dos apoios da atribuição tradicional do Pentateuco. Vale ler notando o que a frase afirma e o que ela não afirma: ela fala de um ato de escrita naquele momento, e não da redação do conjunto dos cinco livros na forma em que os lemos.

Perguntas frequentes

Em quantos anos a Bíblia foi escrita?

Não há um número exato a dar, porque a datação de vários livros é disputada. A ordem de grandeza aceita amplamente é de mais de mil anos entre os materiais mais antigos do Antigo Testamento e os últimos escritos do Novo Testamento. Qualquer número apresentado com precisão de décadas está escondendo um debate em aberto.

A Bíblia foi escrita em qual idioma originalmente?

Em três. Hebraico na maior parte do Antigo Testamento, aramaico em trechos de Daniel, de Esdras e em passagens menores, e grego coiné em todo o Novo Testamento. Alguns livros deuterocanônicos foram escritos diretamente em grego, e de pelo menos um se sabe que houve original semítico traduzido depois.

Quem decidiu quais livros entrariam na Bíblia?

Não houve uma decisão única. Os livros se firmaram primeiro pelo uso das comunidades, e listas oficiais vieram depois, confirmando o que já circulava: uma carta de Atanásio em 367 arrola os vinte e sete livros do Novo Testamento, concílios regionais do fim do século IV aprovam listas, e o Concílio de Trento define formalmente o cânon católico em 1546.

Os originais da Bíblia ainda existem?

Não, e isso vale para praticamente toda a literatura antiga. O que existe são cópias — milhares delas no caso do Novo Testamento, e manuscritos muito antigos do Antigo Testamento encontrados em Qumran a partir de 1947. Compará-las é o trabalho da crítica textual, e as diferenças encontradas são publicadas em nota nas edições críticas.

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