Quem escreveu a Bíblia?
Resposta rápida
A Bíblia não teve um autor único: são dezenas deles, ao longo de mais de mil anos — reis, profetas, pescadores, médicos e escribas, escrevendo em hebraico, aramaico e grego. Vários livros são anônimos, sem nome de autor no próprio texto. A tradição cristã chama esses escritos de inspirados: mãos humanas, iniciativa de Deus.
- Escrito por
- Raphael Navarro Schmitt
- Revisado por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
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A pergunta tem duas respostas, e elas não competem entre si. Uma é histórica e trata de quem segurou a pena, em que língua e em que século. A outra é teológica e trata de por que esses textos, e não outros, são lidos como palavra de Deus. Quase toda confusão sobre o assunto nasce de responder uma achando que se está respondendo a outra.
Pelo lado histórico, a própria Bíblia mostra o processo acontecendo. Há profeta que dita e escriba que escreve. Há carta cujo redator se identifica pelo nome no meio da despedida do apóstolo. Há autor que abre o livro explicando que pesquisou, conferiu com testemunhas e organizou o material antes de escrever. Nada disso é bastidor escondido: está no texto, à vista de quem lê.
Boa parte dos livros, porém, não diz quem os escreveu. Os quatro Evangelhos não trazem o nome do autor dentro do texto — os títulos pelos quais os conhecemos vêm da tradição antiga da Igreja, não de uma assinatura. O mesmo vale para Hebreus e para a maior parte dos livros históricos do Antigo Testamento. Atribuir esses livros é trabalho de reconstrução, e é por isso que estudiosos sérios discutem autoria sem que a fé de ninguém dependa do resultado.
Pelo lado teológico, os textos que falam do assunto descrevem uma cooperação, e não um ditado. A linguagem é de condução: pessoas falando e escrevendo, movidas por algo maior que elas. Até onde essa condução alcança — se cada palavra, se a mensagem, se a intenção — é ponto em que as tradições cristãs se explicam de maneiras diferentes, e nenhuma delas nega a parte humana da autoria.
O que dizem as passagens
16Toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para mostrar o erro, para corrigir, e para instruir na justiça;
17para que o homem de Deus seja completo, plenamente instruído para toda boa obra.
A afirmação mais direta do Novo Testamento sobre a origem da Escritura. Repare no que vem depois da palavra inspirada: a utilidade descrita é prática — ensinar, corrigir, instruir. O texto não está propondo uma teoria de autoria, e sim dizendo para que serve o que foi escrito.
20Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular.
21Porque a profecia jamais foi produzida pela vontade humana, mas homens falaram da parte de Deus conduzidos pelo Espírito Santo.
Aqui está o vocabulário que impede a imagem do ditado automático: os autores são descritos como conduzidos, e não como substituídos. Eles falam, e falam da parte de Deus. As duas coisas ficam na mesma frase de propósito.
4E Moisés escreveu todas as palavras do SENHOR, e levantando-se de manhã edificou um altar ao pé do monte, e doze colunas, segundo as doze tribos de Israel.
O caso mais antigo em que o texto registra o ato de escrever como acontecimento datado, com hora e lugar. Escrever aparece como parte do episódio narrado, e não como uma etapa posterior de alguém que compilou tudo depois.
4Então Jeremias chamou a Baruque, filho de Nerias; e Baruque escreveu da boca de Jeremias, em um rolo de livro, todas as palavras que o SENHOR havia lhe falado.
Um profeta fala e outro homem escreve. Baruque é nomeado, tem pai e sobrenome, e o livro que leva o nome de Jeremias passa pela mão dele. É a prova, dentro da própria Bíblia, de que "autor" e "quem escreveu" nem sempre são a mesma pessoa.
22Eu, Tércio, que escrevi esta carta, vos saúdo no Senhor.
No fim da carta mais estudada de Paulo, quem segurava a pena se apresenta e manda uma saudação própria. Tércio não é personagem: é o secretário, e ele aparece por um instante dentro do texto que estava copiando.