O que são os Evangelhos?
Resposta rápida
Evangelhos são os quatro livros que abrem o Novo Testamento e narram a vida, o ensino, a morte e a ressurreição de Jesus: Mateus, Marcos, Lucas e João. A palavra vem do grego euangelion, que quer dizer boa notícia. Os três primeiros contam muitos episódios em comum e são chamados sinóticos; João segue caminho próprio.
- Escrito por
- Raphael Navarro Schmitt
- Revisado por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
- Publicado em
- Tempo de leitura
- 2 min de leitura
Antes de nomear um tipo de livro, evangelho era uma palavra do dia a dia: o anúncio de uma boa notícia, do tipo que um mensageiro traz correndo. É nesse sentido que Marcos usa o termo na primeira linha do seu texto — ele não está anunciando o começo de um livro, e sim o começo de um anúncio. O nome do gênero literário veio depois, emprestado do conteúdo.
São quatro, e não um, porque não são quatro cópias. Cada um escreve para um público e escolhe por onde entrar. Mateus abre com uma genealogia que amarra Jesus a Davi e a Abraão, o que só interessa a quem conhece essas duas histórias. Lucas abre explicando o método: pesquisou, conferiu com quem viu, organizou e dedicou o resultado a um leitor com nome. João abre em outro plano inteiro, sem genealogia e sem infância.
Os três primeiros compartilham tantos episódios, e às vezes tanta redação, que é possível dispô-los em três colunas e ler em paralelo — daí o nome sinóticos, que vem de ver junto. João conta poucos dos mesmos episódios, dedica capítulos inteiros a conversas longas e organiza o material em torno de sinais. Não é contradição de calendário: é outro projeto de livro.
E vale saber o que os Evangelhos não pretendem ser. Nenhum deles é biografia completa, e um deles diz isso com todas as letras ao admitir que escolheu o que registrar. São relatos com propósito declarado — o que não os torna menos históricos, e sim mais honestos do que a maioria dos textos antigos, que raramente confessam o próprio recorte.
O que dizem as passagens
1Princípio do Evangelho de Jesus Cristo«, Filho de Deus».
A primeira linha do mais curto dos quatro, e a chave do vocabulário. Aqui evangelho ainda é o anúncio, e não o livro: o que começa não é a obra escrita, e sim a notícia sobre Jesus. Todo o resto do sentido da palavra deriva desse uso.
1Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão.
Uma abertura que já entrega o leitor pretendido. Começar por Davi e Abraão só faz sentido para quem carrega essas duas promessas na memória — é um texto que assume um público formado nas Escrituras de Israel.
1Como muitos empreenderam pôr em ordem o relato das coisas que entre nós se cumpriram,
2conforme os que as viram que desde o princípio, e foram servidores das palavra, nos transmitiram,
3pareceu-me bom que também eu, que tenho me informado com exatidão desde o princípio, escrevesse-as em ordem a ti, caríssimo Teófilo,
4para que conheças a certeza das coisas de que foste ensinado.
O único prólogo dos quatro que descreve o próprio método de trabalho: outros já haviam escrito, ele se informou desde o princípio, organizou em ordem e endereçou a um destinatário nomeado. É a página mais próxima de uma nota de apuração jornalística em toda a Bíblia.
30Jesus fez também ainda muitos outros sinais ainda em presença de seus discípulos, que neste livro não estão escritos;
31Porém estes estão escritos, para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus; e para que crendo, tenhais vida em seu nome.
O fecho em que o autor admite a seleção e declara o critério dela. Ele não afirma ter contado tudo — afirma ter escolhido o que serve ao objetivo que enuncia na frase seguinte. Ler os Evangelhos sabendo disso muda o que se espera deles.