Quem foi Maria, mãe de Jesus?
Quando viveu Primeiro século, em Nazaré, em Belém e em Jerusalém
Em resumo
Maria foi uma jovem de Nazaré, prometida em casamento a José, e é a mãe de Jesus. Os Evangelhos lhe dedicam poucas cenas e nenhuma biografia: o anúncio do anjo, o cântico na casa de Isabel, o nascimento, o Templo, um episódio da infância de Jesus, Caná, a cruz e a oração antes de Pentecostes.
- Escrito por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
- Revisado por
- Raphael Navarro Schmitt
- Publicado em
- Tempo de leitura
- 20 min de leitura
Maria é, ao mesmo tempo, uma das figuras mais presentes na oração cristã e uma das menos narradas pelos Evangelhos. Somadas, as cenas em que ela aparece cabem em poucas páginas. O que existe nelas é concentrado: um anúncio recebido com uma pergunta, um poema sobre reversão de sortes, uma viagem até Belém, uma advertência ouvida no Templo, um pedido feito num casamento e uma presença que não se retira quando quase todos se retiram.
Esta página conta essa história. A pergunta doutrinária — o que cada tradição afirma sobre Maria, e com que texto — tem endereço próprio neste site, na pergunta “Quem foi Maria, mãe de Jesus?”. Aqui a divergência aparece onde a narrativa a encontra, e a nota ao final apresenta as leituras lado a lado, sem que esta página decida entre elas.
Nazaré, e o que era estar prometida em casamento
Nazaré era um povoado pequeno da Galileia. Não aparece no Antigo Testamento e não figura entre as cidades que as fontes judaicas do período costumam listar. A medida do lugar está registrada dentro do próprio Novo Testamento: quando Filipe anuncia a Natanael que encontrou alguém de Nazaré, a primeira reação de Natanael é perguntar se pode sair algo bom de lá.
Lucas apresenta Maria por uma situação jurídica, e não por uma qualidade. Ela está prometida em casamento a um homem da descendência de Davi. O noivado judaico daquele tempo não era um compromisso informal: era um vínculo legal firmado antes de os dois passarem a viver juntos, e desfazê-lo exigia um ato formal. É exatamente essa a situação que o primeiro capítulo de Mateus descreve pelo lado de José.
O texto não diz a idade dela, não nomeia os pais dela e não a descreve fisicamente. Dá três informações: um povoado, um noivado e um nome. Tudo o que se costuma acrescentar a isso vem de outro lugar, e está tratado mais abaixo.
26E no sexto mês o anjo Gabriel foi enviado da parte de Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré,
27a uma virgem prometida em casamento com um homem chamado José, da descendência de Davi; e o nome da virgem era Maria.
A apresentação inteira, em dois versículos. Repare na ordem das informações: o povoado, o noivado, a linhagem de José e, por último, o nome dela. É a forma de quem situa uma pessoa num mapa e numa família antes de contar o que aconteceu com ela.
O anúncio, e a pergunta que ela faz
O que perturba Maria, no relato de Lucas, não é o anúncio: é a saudação. O texto registra que ela ficou perturbada com as palavras do anjo e se perguntava que cumprimento seria aquele — ou seja, a inquietação vem antes de ela saber do que se trata. Só depois o anjo diz para não temer.
Vale um esclarecimento sobre a saudação, porque ele muda de idioma para idioma. Na Edição Chama da Fé, publicada aqui, o anjo se dirige a ela como alguém que recebeu graça e diz que o Senhor está com ela; a bênção entre as mulheres, que a devoção associa a essa cena, aparece catorze versículos adiante, na boca de Isabel. A fórmula do Ave Maria reúne as duas falas num texto só, e isso costuma dar a impressão de que ambas estão no mesmo versículo.
Então ela pergunta como aquilo se daria. A pergunta merece atenção porque o mesmo capítulo já trouxe outra: poucos versículos antes, o sacerdote Zacarias pergunta ao mesmo anjo como poderá ter certeza, e fica sem falar até o dia em que o filho recebe o nome. Maria pergunta e recebe uma explicação. O texto não trata as duas perguntas do mesmo modo, e não explica por quê.
O consentimento vem depois da explicação, e não antes dela. Ela se apresenta como serva e pede que se cumpra nela o que foi dito. Em seguida o anjo se retira, e o relato não informa nada sobre o que ela fez naquele dia nem sobre o que disse a alguém.
18Então Zacarias disse ao anjo: Como terei certeza disso? Pois sou velho, e a minha mulher de idade avançada.
19O anjo lhe respondeu: Eu sou Gabriel, que fico presente diante de Deus, e fui enviado para te falar e te dar estas boas notícias.
20Eis que ficarás mudo, e não poderás falar até o dia em que essas coisas aconteçam, porque não creste nas minhas palavras, que se cumprirão no devido tempo.
A pergunta de Zacarias e a resposta que ele recebe. Está aqui para comparação: as duas perguntas são parecidas na forma, e o desfecho de uma é o silêncio e o da outra é uma explicação. Registrar a diferença é mais honesto do que explicá-la, porque o texto não a explica.
O cântico, na casa de Isabel
Maria sai de Nazaré e viaja apressada até a região montanhosa da Judeia, à casa de Zacarias e Isabel. Fica cerca de três meses. Sobre a viagem em si, que não era curta, o texto não diz uma palavra.
A cena do encontro é construída sobre reconhecimento: Isabel ouve a saudação, a criança se move no ventre dela, e a bênção que ela pronuncia é dirigida a Maria e ao filho que Maria espera. O último elogio de Isabel não é à maternidade, e sim à fé: ela chama bendita a que creu.
A resposta de Maria é o cântico que ficou conhecido como Magnificat, e ele costuma surpreender quem chega esperando doçura. Fala pouco de si e muito de inversão: poderosos derrubados de seus tronos, humildes elevados, famintos saciados, ricos despedidos vazios. O vocabulário é o dos profetas de Israel, e boa parte das imagens vem do Antigo Testamento.
A comparação mais produtiva aqui é com o cântico de Ana, no segundo capítulo de 1 Samuel: mesma estrutura de reversão, mesma passagem do caso pessoal para o destino dos poderosos, e a mesma decisão de começar por uma alegria e terminar numa reorganização do mundo. Ler os dois em sequência é uma das leituras comparadas mais úteis da Bíblia.
42Então exclamou em alta voz: Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre!
43Como me acontece isto, que a mãe de meu Senhor venha a mim?
44Pois eis que, quando a voz do teu cumprimento chegou aos meus ouvidos, a criança saltou de alegria no meu ventre.
45E bendita a que creu, pois se cumprirão as coisas que do Senhor lhe foram ditas.
A fala inteira de Isabel. Vale ler até o fim: os três primeiros versículos falam do que ela percebeu, e o último desloca o elogio para a fé de Maria. É a primeira vez que alguém, dentro do texto, diz alguma coisa sobre ela.
1E Ana orou e disse: Meu coração se regozija no SENHOR, Meu poder é exaltado no SENHOR; Minha boca fala triunfante sobre meus inimigos, Porquanto me alegrei em tua salvação.
2Não há santo como o SENHOR: Porque não há ninguém além de ti; E não há refúgio como o nosso Deus.
A abertura do cântico de Ana, séculos antes. Está aqui para ser lida ao lado do Magnificat: a semelhança de estrutura entre os dois é reconhecida há muito tempo e ajuda a entender de que gênero o cântico de Maria é.
Belém, o Templo e a espada anunciada
O nascimento chega em Lucas dentro de um assunto administrativo: um recenseamento manda cada um à cidade de origem, e José sobe de Nazaré a Belém porque é da casa de Davi. Maria vai com ele, grávida. O parto acontece durante a estadia, o menino é enrolado e posto numa manjedoura, e o narrador explica a manjedoura pela falta de acomodação. Não há parteira, não há animais nomeados e não há data.
Poucos versículos adiante, Lucas faz algo que quase não faz com ninguém: informa o que se passava por dentro dela. Registra que ela retinha aquelas palavras e ficava remoendo o sentido delas. A observação reaparece no fim do mesmo capítulo, depois do episódio em Jerusalém, e as duas ocorrências são praticamente tudo o que os Evangelhos oferecem da vida interior dela.
A cena seguinte é no Templo. A família cumpre o que a Lei prescrevia depois de um nascimento e apresenta a oferta de duas aves — que o Levítico prevê justamente para quem não tem recursos para trazer um cordeiro. É uma informação econômica dada de passagem, e ela diz de que condição social se está falando.
Ali, Simeão os abençoa e então se volta para Maria com uma advertência dirigida a ela pessoalmente, na imagem de uma espada que haveria de atravessá-la por dentro. O texto não explica a imagem, não diz quando aquilo se cumpriria e não oferece consolo em seguida. Deixa a frase de pé e segue.
19Mas Maria guardava todas essas palavras, considerando -as no seu coração.
Um versículo curto e incomum. O narrador, que até aqui só descreveu o que se podia ver e ouvir, registra o que ela fazia por dentro — e escolhe dois verbos: guardar e considerar. Nenhum dos dois é sinônimo de entender.
8E se não alcançar sua mão o suficiente para um cordeiro, tomará então duas rolinhas ou dois pombinhos, um para holocausto, e outro para expiação: e o sacerdote fará expiação por ela, e será limpa.
A regra que explica a oferta apresentada no Templo. O versículo prevê as duas aves como alternativa para quem não alcança um cordeiro, e é por isso que a oferta descrita em Lucas 2 é lida como indicação de família de poucos recursos.
A saída para o Egito, e o menino em Jerusalém
Entre o nascimento e os anos de Nazaré, Mateus narra uma partida para o Egito e um retorno. José é avisado em sonho, sai de noite, permanece no Egito até a morte de Herodes e, ao voltar, muda de destino por causa de quem passou a reinar na Judeia. É uma travessia de fuga, e Mateus a conta inteira pelo lado de José: é ele quem recebe o aviso, quem decide e quem conduz.
Nessa parte do relato, Maria é designada por uma fórmula que se repete quatro vezes: o menino e sua mãe. Mateus não a chama pelo nome ali, e não a chama de esposa de José. A escolha é constante o bastante para não parecer acaso — a família é descrita a partir da criança, e não do casal.
Depois vem o único episódio da infância de Jesus que os Evangelhos narram. Aos doze anos, ele fica em Jerusalém sem que os pais percebam, e eles voltam à procura. Quando o encontram, é Maria quem fala. Ela fala em nome dos dois, chama José de pai do menino e descreve o que sentiram durante a busca.
A resposta que ela recebe é uma pergunta, e Lucas acrescenta em seguida que eles não entenderam o que lhes foi dito. O narrador registra a incompreensão dos pais sem atenuá-la — e fecha a cena informando, outra vez, que ela guardava aquelas coisas no coração. Depois disso os Evangelhos ficam quase mudos sobre Maria por cerca de dezoito anos.
13E tendo eles partido, eis que um anjo do Senhor apareceu a José em sonho, dizendo: Levanta-te, toma o menino e sua mãe, e foge para o Egito; e fica lá até que eu te diga, porque Herodes buscará o menino para o matar.
14Então ele se despertou, tomou o menino e sua mãe de noite, e foi para o Egito;
15E esteve lá até a morte de Herodes, para que se cumprisse o que foi dito pelo Senhor por meio do profeta, que disse: Do Egito chamei o meu Filho.
A ordem de partir, a saída de noite e a permanência no Egito. Repare em quem age: o aviso é dado a José, e os verbos são todos dele. Repare também na fórmula com que a família é nomeada, que é a mesma nos quatro versículos em que Mateus a repete.
48Quando eles o viram, ficarm surpresos. E sua mãe lhe disse: Filho, por que fizeste assim conosco? Eis que teu pai e eu com ansiedade te procurávamos.
49Ele lhes disse: Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar nos negócios de meu Pai?
50E eles não entenderam as palavras que lhes dizia.
51Então desceu com eles, e veio a Nazaré, e os obedecia. E a sua mãe guardava todas essas coisas no seu coração.
A fala de Maria, a resposta que ela recebe e a observação do narrador de que os pais não entenderam. É o trecho em que ela mais fala em todo o Novo Testamento, e o conteúdo da fala é aflição por um filho perdido.
Os anos calados, e as cenas difíceis
Entre o episódio em Jerusalém e o início da pregação não há nada sobre ela. Quando Maria reaparece, as cenas não são confortáveis — e os Evangelhos as guardaram assim mesmo, o que é um dado sobre o tipo de texto que eles são.
Marcos conta que, diante da multidão que se formava, um grupo ligado a ele saiu para contê-lo, convencido de que havia perdido o juízo. Convém ser exato: o texto usa uma expressão que cobre gente da casa e da parentela, e não informa quem eram. Dez versículos depois, a mãe e os irmãos dele chegam e ficam do lado de fora, mandando chamá-lo. Se as duas notícias descrevem o mesmo movimento, o Evangelho não diz.
A resposta que vem dessa segunda cena é uma das mais duras dos Evangelhos e uma das mais citadas: ele olha para os que estão sentados em volta e redefine o que é mãe, irmão e irmã a partir de fazer a vontade de Deus. O texto não registra nenhuma reação dela, nem naquele momento nem depois.
Em Lucas, uma mulher da multidão pronuncia uma bênção sobre o ventre que o gerou. A resposta desloca a bênção para quem ouve e guarda a palavra de Deus — e, na edição publicada aqui, ela se abre com um advérbio de correção, o que faz o deslocamento soar como reparo e não como acréscimo. É um dos versículos mais discutidos entre as duas tradições, e a nota abaixo trata dele.
E há Marcos 6:3, o versículo que qualquer conversa sobre Maria acaba alcançando. Os vizinhos de Nazaré chamam Jesus de carpinteiro e de filho de Maria — e não de filho de José, o que naquela cultura é uma forma incomum de identificar um homem adulto. Em seguida nomeiam quatro irmãos e mencionam irmãs. É sobre o alcance dessa palavra que as tradições divergem, e é a esse versículo que a nota do fim desta página se dedica.
20Quando Jesus foi para uma casa, outra vez se ajuntou uma multidão, de maneira que nem sequer podiam comer pão.
21Os seus familiares , ao ouvirem isso, saíram para detê-lo, porque diziam: “Ele stá fora de si”.
Dois versículos que muita gente conhece de ouvir contar e pouca gente leu. Note o sujeito da frase: o texto diz “os seus”, expressão que cobre gente da casa e da parentela, e não nomeia ninguém. Toda identificação mais precisa do que isso vem de fora do versículo.
27E aconteceu que, dizendo ele estas coisas, uma mulher da multidão, levantando a voz, lhe disse: Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que mamaste!
28Mas ele disse: Antes bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus, e a guardam.
A bênção pronunciada pela mulher da multidão e a resposta que ela recebe. Vale ler os dois versículos juntos e reparar na palavra com que a resposta começa nesta edição: é ela que decide se a frase corrige a bênção ou a amplia, e é dela que trata a discussão entre as tradições.
3Não é este o carpinteiro, filho de Maria, e irmão de Tiago, de José, de Judas, e de Simão? E não estão aqui as suas irmãs conosco?E ofenderam-se nele.
A pergunta dos vizinhos, com os quatro nomes e a menção às irmãs. Duas coisas para observar: Jesus é identificado pela mãe, e não pelo pai, o que é incomum; e o versículo é o mesmo que sustenta os dois lados da divergência tratada mais abaixo.
Caná, a cruz e o cenáculo
Em Caná, num casamento, é ela quem percebe que o vinho acabou e é ela quem avisa. A resposta que recebe traz uma ressalva sobre a hora dele. Ela então se volta para os serventes e os instrui a obedecerem ao que ele mandar. São as últimas palavras de Maria registradas em todo o Novo Testamento, e apontam para ele, e não para ela.
Vale reparar em como ele se dirige a ela nessa cena: por “mulher”, e não por mãe. É o mesmo tratamento que aparece na única outra cena em que os dois conversam, junto à cruz. A repetição é do texto, e comentaristas das duas tradições a notam.
Sobre a cruz, esta página faz o que o site faz em todo lugar: menciona, e não descreve. Os quatro Evangelhos registram que havia mulheres ali, e João a coloca junto à cruz, ao lado da irmã dela, de Maria mulher de Cleofas e de Maria Madalena. O que o relato guarda do lugar dela é um gesto: ele confia a mãe a um discípulo e o discípulo à mãe, e o texto informa que a partir daquela hora o discípulo a recebeu em casa.
A última vez em que Maria é nomeada na Bíblia é no primeiro capítulo de Atos. Ela está no grupo que perseverava em oração antes de Pentecostes — dentro da primeira comunidade cristã, e não à margem dela. O mesmo versículo menciona os irmãos de Jesus ali presentes. Depois disso, o Novo Testamento silencia sobre ela: Paulo, que escreve antes dos Evangelhos, se refere a ela uma única vez e não a nomeia.
3E tendo faltado vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Não têm vinho.
4Jesus lhe disse: O que eu tenho contigo, mulher? A minha hora ainda não chegou.
5Sua mãe disse aos serventes: Fazei tudo quanto ele vos disser.
A constatação, a ressalva e a instrução aos serventes, em três versículos. As últimas palavras dela no Novo Testamento são uma orientação sobre obedecer a outra pessoa — o que é uma forma bastante clara de dizer para onde a cena aponta.
4Mas quando o tempo se completou, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei,
A única referência de Paulo à mãe de Jesus, e ela não traz o nome dela. Vale saber que esta carta é anterior aos Evangelhos: o dado mais antigo que o Novo Testamento guarda sobre Maria é uma oração subordinada dentro de uma frase sobre outro assunto.
O que o texto não diz
Personagens bíblicos acumulam camadas de tradição que a Escritura não sustenta. Separar as duas coisas não diminui a história — devolve a ela o que está de fato escrito.
O que se costuma dizer
Maria tinha entre doze e catorze anos quando o anjo apareceu.
O que a Escritura traz
Nenhum texto bíblico informa a idade dela, em momento nenhum. O que os Evangelhos dão é uma situação jurídica — ela estava prometida em casamento —, e a estimativa de idade vem do que se sabe sobre os costumes matrimoniais da Judeia romana. Isso é uma inferência sobre a época, e não uma informação sobre ela. A diferença importa: uma coisa é dizer que meninas costumavam casar cedo naquele contexto, outra é atribuir a ela uma idade que o texto não dá.
De onde vem: Números específicos aparecem em literatura devocional posterior e em textos do século II que não pertencem a nenhum cânon cristão. Eles circularam por serem concretos, e não por terem fonte.
O que se costuma dizer
Os pais de Maria se chamavam Joaquim e Ana.
O que a Escritura traz
A Escritura não nomeia o pai nem a mãe de Maria, e não conta nada sobre a infância dela. Os dois nomes vêm do Protoevangelho de Tiago, texto do século II que está fora de todos os cânones cristãos e de onde saiu boa parte das imagens populares sobre a menina Maria — a apresentação no Templo, a idade dos pais, o cenário doméstico.
De onde vem: Apontar a fonte não é o mesmo que decidir se a tradição está certa. É registrar que a informação não vem dos Evangelhos, e que quem a repete está repetindo um texto de outra natureza.
O que se costuma dizer
Maria acompanhou Jesus durante toda a pregação.
O que a Escritura traz
Nos Evangelhos ela aparece em pouquíssimas cenas do ministério, e são as que estão descritas acima. Quando Lucas nomeia as mulheres que acompanhavam e sustentavam o grupo itinerante, ela não está entre as nomeadas. E Paulo, que escreve antes dos Evangelhos, menciona a mãe de Jesus uma única vez, sem nome. O retrato que sai do texto é o de uma presença concentrada no começo e no fim, e não de uma companhia contínua.
O que se costuma dizer
A mulher vestida de sol, no Apocalipse, é Maria, e o texto diz isso.
O que a Escritura traz
A passagem não nomeia ninguém. A figura ali descrita foi lida, ao longo da história, como Israel, como a Igreja e como Maria — e leitores das duas tradições sustentaram mais de uma dessas leituras, às vezes ao mesmo tempo. O que se pode afirmar com segurança é o que o texto faz: descreve uma figura e não dá a ela um nome próprio.
O que se costuma dizer
A Bíblia conta o fim da vida de Maria.
O que a Escritura traz
O Novo Testamento não diz onde, quando nem como a vida dela terminou. A última vez em que ela é nomeada é no primeiro capítulo de Atos, em oração com a comunidade. Tudo o que se diz sobre o fim da vida dela vem de tradições posteriores, e o que cada tradição conclui daí está apresentado na nota ao final desta página, sem que ela decida entre as duas.
Onde essa pessoa aparece
34Maria disse ao anjo: Como será isso? Pois não conheço intimamente homem algum.
35O anjo lhe respondeu: O Espírito Santo virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que nascerá será chamado Filho de Deus.
36E eis que Isabel, tua prima, também está grávida de um filho na sua velhice; e este é o sexto mês para a que era chamada de estéril.
37Pois para Deus nada será impossível.
38Então Maria disse: Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim conforme a tua palavra. E o anjo ausentou-se dela.
A pergunta, a explicação e o consentimento, na ordem em que o texto os coloca. Repare que o sim vem depois da explicação — e que a última frase do trecho registra a saída do anjo, sem contar nada do que aconteceu em seguida.
51Com o seu braço manifestou poder; dispersou os soberbos no pensamento dos seus corações.
52Derrubou os poderosos dos tronos, e elevou os humildes.
53Encheu de bens aos famintos, e despediu vazios os ricos.
O núcleo do Magnificat, e a parte que menos se cita. Três versículos sobre inversão de sortes, com verbos no passado — a linguagem é a dos profetas de Israel, e não a de um agradecimento pessoal.
34Simeão os abençoou, e disse a Maria, sua mãe: Eis que este é posto para queda e levantamento de muitos em Israel; e para sinal que terá oposição,
35(também uma espada atravessará a tua própria alma) para que os pensamentos de muitos corações se manifestem.
A bênção de Simeão e a advertência que vem colada nela, dirigida a Maria em segunda pessoa. É o único lugar do Novo Testamento em que alguém anuncia a ela, de frente, que aquilo vai custar caro.
31Então chegaram a sua mãe e os seus irmãos; e estando de fora, mandaram chamá-lo.
32A multidão estava sentada ao redor dele. Então disseram-lhe: Eis que a tua mãe , os teus irmãos , e as tuas irmãs estão lá fora a te procurar.
33Ele lhes respondeu: Quem é a minha mãe e os meus irmãos?
34E, olhando em redor aos que estavam sentados perto dele, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos.
35Quem fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã, e mãe.
A chegada da mãe e dos irmãos, a pergunta feita à multidão e a resposta que refunda o parentesco em torno da vontade de Deus. Note o que o texto não traz: nenhuma palavra dela, nem antes nem depois.
25E estavam junto à cruz de Jesus, sua mãe, e a irmã de sua mãe, Maria mulher de Cleofas, e Maria Madalena.
26E vendo Jesus a sua mãe, e ao discípulo a quem amava, que ali estava, disse a sua mãe: Mulher, eis aí teu filho.
27Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E desde aquela hora o discípulo a recebeu em sua casa .
Quem estava junto à cruz, e o que foi dito ali. Esta página menciona a cruz e não a descreve; o trecho é citado pelo que ele guarda do lugar de Maria — a confiança mútua entre a mãe e o discípulo, e a informação de que ele a recebeu em casa a partir daquela hora.
14Todos estes perseveravam concordando em orações, e petições, com as mulheres, com Maria a mãe de Jesus, e com os irmãos dele.
A última menção a Maria em toda a Bíblia, e ela está no meio de uma lista. O versículo a coloca em oração dentro do grupo, antes de Pentecostes, e menciona no mesmo fôlego os irmãos de Jesus — o que o torna, também, um dos textos do centro da divergência.