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Quem foi Maria, mãe de Jesus?

Quando viveu Primeiro século, em Nazaré, em Belém e em Jerusalém

Em resumo

Maria foi uma jovem de Nazaré, prometida em casamento a José, e é a mãe de Jesus. Os Evangelhos lhe dedicam poucas cenas e nenhuma biografia: o anúncio do anjo, o cântico na casa de Isabel, o nascimento, o Templo, um episódio da infância de Jesus, Caná, a cruz e a oração antes de Pentecostes.

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Maria é, ao mesmo tempo, uma das figuras mais presentes na oração cristã e uma das menos narradas pelos Evangelhos. Somadas, as cenas em que ela aparece cabem em poucas páginas. O que existe nelas é concentrado: um anúncio recebido com uma pergunta, um poema sobre reversão de sortes, uma viagem até Belém, uma advertência ouvida no Templo, um pedido feito num casamento e uma presença que não se retira quando quase todos se retiram.

Esta página conta essa história. A pergunta doutrinária — o que cada tradição afirma sobre Maria, e com que texto — tem endereço próprio neste site, na pergunta “Quem foi Maria, mãe de Jesus?”. Aqui a divergência aparece onde a narrativa a encontra, e a nota ao final apresenta as leituras lado a lado, sem que esta página decida entre elas.

Nazaré, e o que era estar prometida em casamento

Nazaré era um povoado pequeno da Galileia. Não aparece no Antigo Testamento e não figura entre as cidades que as fontes judaicas do período costumam listar. A medida do lugar está registrada dentro do próprio Novo Testamento: quando Filipe anuncia a Natanael que encontrou alguém de Nazaré, a primeira reação de Natanael é perguntar se pode sair algo bom de lá.

Lucas apresenta Maria por uma situação jurídica, e não por uma qualidade. Ela está prometida em casamento a um homem da descendência de Davi. O noivado judaico daquele tempo não era um compromisso informal: era um vínculo legal firmado antes de os dois passarem a viver juntos, e desfazê-lo exigia um ato formal. É exatamente essa a situação que o primeiro capítulo de Mateus descreve pelo lado de José.

O texto não diz a idade dela, não nomeia os pais dela e não a descreve fisicamente. Dá três informações: um povoado, um noivado e um nome. Tudo o que se costuma acrescentar a isso vem de outro lugar, e está tratado mais abaixo.

Lucas 1:26-27

26E no sexto mês o anjo Gabriel foi enviado da parte de Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré,

27a uma virgem prometida em casamento com um homem chamado José, da descendência de Davi; e o nome da virgem era Maria.

Tradução: Edição Chama da Fé

A apresentação inteira, em dois versículos. Repare na ordem das informações: o povoado, o noivado, a linhagem de José e, por último, o nome dela. É a forma de quem situa uma pessoa num mapa e numa família antes de contar o que aconteceu com ela.

O anúncio, e a pergunta que ela faz

O que perturba Maria, no relato de Lucas, não é o anúncio: é a saudação. O texto registra que ela ficou perturbada com as palavras do anjo e se perguntava que cumprimento seria aquele — ou seja, a inquietação vem antes de ela saber do que se trata. Só depois o anjo diz para não temer.

Vale um esclarecimento sobre a saudação, porque ele muda de idioma para idioma. Na Edição Chama da Fé, publicada aqui, o anjo se dirige a ela como alguém que recebeu graça e diz que o Senhor está com ela; a bênção entre as mulheres, que a devoção associa a essa cena, aparece catorze versículos adiante, na boca de Isabel. A fórmula do Ave Maria reúne as duas falas num texto só, e isso costuma dar a impressão de que ambas estão no mesmo versículo.

Então ela pergunta como aquilo se daria. A pergunta merece atenção porque o mesmo capítulo já trouxe outra: poucos versículos antes, o sacerdote Zacarias pergunta ao mesmo anjo como poderá ter certeza, e fica sem falar até o dia em que o filho recebe o nome. Maria pergunta e recebe uma explicação. O texto não trata as duas perguntas do mesmo modo, e não explica por quê.

O consentimento vem depois da explicação, e não antes dela. Ela se apresenta como serva e pede que se cumpra nela o que foi dito. Em seguida o anjo se retira, e o relato não informa nada sobre o que ela fez naquele dia nem sobre o que disse a alguém.

Lucas 1:18-20

18Então Zacarias disse ao anjo: Como terei certeza disso? Pois sou velho, e a minha mulher de idade avançada.

19O anjo lhe respondeu: Eu sou Gabriel, que fico presente diante de Deus, e fui enviado para te falar e te dar estas boas notícias.

20Eis que ficarás mudo, e não poderás falar até o dia em que essas coisas aconteçam, porque não creste nas minhas palavras, que se cumprirão no devido tempo.

Tradução: Edição Chama da Fé

A pergunta de Zacarias e a resposta que ele recebe. Está aqui para comparação: as duas perguntas são parecidas na forma, e o desfecho de uma é o silêncio e o da outra é uma explicação. Registrar a diferença é mais honesto do que explicá-la, porque o texto não a explica.

O cântico, na casa de Isabel

Maria sai de Nazaré e viaja apressada até a região montanhosa da Judeia, à casa de Zacarias e Isabel. Fica cerca de três meses. Sobre a viagem em si, que não era curta, o texto não diz uma palavra.

A cena do encontro é construída sobre reconhecimento: Isabel ouve a saudação, a criança se move no ventre dela, e a bênção que ela pronuncia é dirigida a Maria e ao filho que Maria espera. O último elogio de Isabel não é à maternidade, e sim à fé: ela chama bendita a que creu.

A resposta de Maria é o cântico que ficou conhecido como Magnificat, e ele costuma surpreender quem chega esperando doçura. Fala pouco de si e muito de inversão: poderosos derrubados de seus tronos, humildes elevados, famintos saciados, ricos despedidos vazios. O vocabulário é o dos profetas de Israel, e boa parte das imagens vem do Antigo Testamento.

A comparação mais produtiva aqui é com o cântico de Ana, no segundo capítulo de 1 Samuel: mesma estrutura de reversão, mesma passagem do caso pessoal para o destino dos poderosos, e a mesma decisão de começar por uma alegria e terminar numa reorganização do mundo. Ler os dois em sequência é uma das leituras comparadas mais úteis da Bíblia.

Lucas 1:42-45

42Então exclamou em alta voz: Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre!

43Como me acontece isto, que a mãe de meu Senhor venha a mim?

44Pois eis que, quando a voz do teu cumprimento chegou aos meus ouvidos, a criança saltou de alegria no meu ventre.

45E bendita a que creu, pois se cumprirão as coisas que do Senhor lhe foram ditas.

Tradução: Edição Chama da Fé

A fala inteira de Isabel. Vale ler até o fim: os três primeiros versículos falam do que ela percebeu, e o último desloca o elogio para a fé de Maria. É a primeira vez que alguém, dentro do texto, diz alguma coisa sobre ela.

1 Samuel 2:1-2

1E Ana orou e disse: Meu coração se regozija no SENHOR, Meu poder é exaltado no SENHOR; Minha boca fala triunfante sobre meus inimigos, Porquanto me alegrei em tua salvação.

2Não há santo como o SENHOR: Porque não há ninguém além de ti; E não há refúgio como o nosso Deus.

Tradução: Edição Chama da Fé

A abertura do cântico de Ana, séculos antes. Está aqui para ser lida ao lado do Magnificat: a semelhança de estrutura entre os dois é reconhecida há muito tempo e ajuda a entender de que gênero o cântico de Maria é.

Belém, o Templo e a espada anunciada

O nascimento chega em Lucas dentro de um assunto administrativo: um recenseamento manda cada um à cidade de origem, e José sobe de Nazaré a Belém porque é da casa de Davi. Maria vai com ele, grávida. O parto acontece durante a estadia, o menino é enrolado e posto numa manjedoura, e o narrador explica a manjedoura pela falta de acomodação. Não há parteira, não há animais nomeados e não há data.

Poucos versículos adiante, Lucas faz algo que quase não faz com ninguém: informa o que se passava por dentro dela. Registra que ela retinha aquelas palavras e ficava remoendo o sentido delas. A observação reaparece no fim do mesmo capítulo, depois do episódio em Jerusalém, e as duas ocorrências são praticamente tudo o que os Evangelhos oferecem da vida interior dela.

A cena seguinte é no Templo. A família cumpre o que a Lei prescrevia depois de um nascimento e apresenta a oferta de duas aves — que o Levítico prevê justamente para quem não tem recursos para trazer um cordeiro. É uma informação econômica dada de passagem, e ela diz de que condição social se está falando.

Ali, Simeão os abençoa e então se volta para Maria com uma advertência dirigida a ela pessoalmente, na imagem de uma espada que haveria de atravessá-la por dentro. O texto não explica a imagem, não diz quando aquilo se cumpriria e não oferece consolo em seguida. Deixa a frase de pé e segue.

Lucas 2:19

19Mas Maria guardava todas essas palavras, considerando -as no seu coração.

Tradução: Edição Chama da Fé

Um versículo curto e incomum. O narrador, que até aqui só descreveu o que se podia ver e ouvir, registra o que ela fazia por dentro — e escolhe dois verbos: guardar e considerar. Nenhum dos dois é sinônimo de entender.

Levítico 12:8

8E se não alcançar sua mão o suficiente para um cordeiro, tomará então duas rolinhas ou dois pombinhos, um para holocausto, e outro para expiação: e o sacerdote fará expiação por ela, e será limpa.

Tradução: Edição Chama da Fé

A regra que explica a oferta apresentada no Templo. O versículo prevê as duas aves como alternativa para quem não alcança um cordeiro, e é por isso que a oferta descrita em Lucas 2 é lida como indicação de família de poucos recursos.

A saída para o Egito, e o menino em Jerusalém

Entre o nascimento e os anos de Nazaré, Mateus narra uma partida para o Egito e um retorno. José é avisado em sonho, sai de noite, permanece no Egito até a morte de Herodes e, ao voltar, muda de destino por causa de quem passou a reinar na Judeia. É uma travessia de fuga, e Mateus a conta inteira pelo lado de José: é ele quem recebe o aviso, quem decide e quem conduz.

Nessa parte do relato, Maria é designada por uma fórmula que se repete quatro vezes: o menino e sua mãe. Mateus não a chama pelo nome ali, e não a chama de esposa de José. A escolha é constante o bastante para não parecer acaso — a família é descrita a partir da criança, e não do casal.

Depois vem o único episódio da infância de Jesus que os Evangelhos narram. Aos doze anos, ele fica em Jerusalém sem que os pais percebam, e eles voltam à procura. Quando o encontram, é Maria quem fala. Ela fala em nome dos dois, chama José de pai do menino e descreve o que sentiram durante a busca.

A resposta que ela recebe é uma pergunta, e Lucas acrescenta em seguida que eles não entenderam o que lhes foi dito. O narrador registra a incompreensão dos pais sem atenuá-la — e fecha a cena informando, outra vez, que ela guardava aquelas coisas no coração. Depois disso os Evangelhos ficam quase mudos sobre Maria por cerca de dezoito anos.

Mateus 2:13-15

13E tendo eles partido, eis que um anjo do Senhor apareceu a José em sonho, dizendo: Levanta-te, toma o menino e sua mãe, e foge para o Egito; e fica lá até que eu te diga, porque Herodes buscará o menino para o matar.

14Então ele se despertou, tomou o menino e sua mãe de noite, e foi para o Egito;

15E esteve lá até a morte de Herodes, para que se cumprisse o que foi dito pelo Senhor por meio do profeta, que disse: Do Egito chamei o meu Filho.

Tradução: Edição Chama da Fé

A ordem de partir, a saída de noite e a permanência no Egito. Repare em quem age: o aviso é dado a José, e os verbos são todos dele. Repare também na fórmula com que a família é nomeada, que é a mesma nos quatro versículos em que Mateus a repete.

Lucas 2:48-51

48Quando eles o viram, ficarm surpresos. E sua mãe lhe disse: Filho, por que fizeste assim conosco? Eis que teu pai e eu com ansiedade te procurávamos.

49Ele lhes disse: Por que me procuráveis? Não sabeis que devo estar nos negócios de meu Pai?

50E eles não entenderam as palavras que lhes dizia.

51Então desceu com eles, e veio a Nazaré, e os obedecia. E a sua mãe guardava todas essas coisas no seu coração.

Tradução: Edição Chama da Fé

A fala de Maria, a resposta que ela recebe e a observação do narrador de que os pais não entenderam. É o trecho em que ela mais fala em todo o Novo Testamento, e o conteúdo da fala é aflição por um filho perdido.

Os anos calados, e as cenas difíceis

Entre o episódio em Jerusalém e o início da pregação não há nada sobre ela. Quando Maria reaparece, as cenas não são confortáveis — e os Evangelhos as guardaram assim mesmo, o que é um dado sobre o tipo de texto que eles são.

Marcos conta que, diante da multidão que se formava, um grupo ligado a ele saiu para contê-lo, convencido de que havia perdido o juízo. Convém ser exato: o texto usa uma expressão que cobre gente da casa e da parentela, e não informa quem eram. Dez versículos depois, a mãe e os irmãos dele chegam e ficam do lado de fora, mandando chamá-lo. Se as duas notícias descrevem o mesmo movimento, o Evangelho não diz.

A resposta que vem dessa segunda cena é uma das mais duras dos Evangelhos e uma das mais citadas: ele olha para os que estão sentados em volta e redefine o que é mãe, irmão e irmã a partir de fazer a vontade de Deus. O texto não registra nenhuma reação dela, nem naquele momento nem depois.

Em Lucas, uma mulher da multidão pronuncia uma bênção sobre o ventre que o gerou. A resposta desloca a bênção para quem ouve e guarda a palavra de Deus — e, na edição publicada aqui, ela se abre com um advérbio de correção, o que faz o deslocamento soar como reparo e não como acréscimo. É um dos versículos mais discutidos entre as duas tradições, e a nota abaixo trata dele.

E há Marcos 6:3, o versículo que qualquer conversa sobre Maria acaba alcançando. Os vizinhos de Nazaré chamam Jesus de carpinteiro e de filho de Maria — e não de filho de José, o que naquela cultura é uma forma incomum de identificar um homem adulto. Em seguida nomeiam quatro irmãos e mencionam irmãs. É sobre o alcance dessa palavra que as tradições divergem, e é a esse versículo que a nota do fim desta página se dedica.

Marcos 3:20-21

20Quando Jesus foi para uma casa, outra vez se ajuntou uma multidão, de maneira que nem sequer podiam comer pão.

21Os seus familiares , ao ouvirem isso, saíram para detê-lo, porque diziam: “Ele stá fora de si”.

Tradução: Edição Chama da Fé

Dois versículos que muita gente conhece de ouvir contar e pouca gente leu. Note o sujeito da frase: o texto diz “os seus”, expressão que cobre gente da casa e da parentela, e não nomeia ninguém. Toda identificação mais precisa do que isso vem de fora do versículo.

Lucas 11:27-28

27E aconteceu que, dizendo ele estas coisas, uma mulher da multidão, levantando a voz, lhe disse: Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos que mamaste!

28Mas ele disse: Antes bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus, e a guardam.

Tradução: Edição Chama da Fé

A bênção pronunciada pela mulher da multidão e a resposta que ela recebe. Vale ler os dois versículos juntos e reparar na palavra com que a resposta começa nesta edição: é ela que decide se a frase corrige a bênção ou a amplia, e é dela que trata a discussão entre as tradições.

Marcos 6:3

3Não é este o carpinteiro, filho de Maria, e irmão de Tiago, de José, de Judas, e de Simão? E não estão aqui as suas irmãs conosco?E ofenderam-se nele.

Tradução: Edição Chama da Fé

A pergunta dos vizinhos, com os quatro nomes e a menção às irmãs. Duas coisas para observar: Jesus é identificado pela mãe, e não pelo pai, o que é incomum; e o versículo é o mesmo que sustenta os dois lados da divergência tratada mais abaixo.

Caná, a cruz e o cenáculo

Em Caná, num casamento, é ela quem percebe que o vinho acabou e é ela quem avisa. A resposta que recebe traz uma ressalva sobre a hora dele. Ela então se volta para os serventes e os instrui a obedecerem ao que ele mandar. São as últimas palavras de Maria registradas em todo o Novo Testamento, e apontam para ele, e não para ela.

Vale reparar em como ele se dirige a ela nessa cena: por “mulher”, e não por mãe. É o mesmo tratamento que aparece na única outra cena em que os dois conversam, junto à cruz. A repetição é do texto, e comentaristas das duas tradições a notam.

Sobre a cruz, esta página faz o que o site faz em todo lugar: menciona, e não descreve. Os quatro Evangelhos registram que havia mulheres ali, e João a coloca junto à cruz, ao lado da irmã dela, de Maria mulher de Cleofas e de Maria Madalena. O que o relato guarda do lugar dela é um gesto: ele confia a mãe a um discípulo e o discípulo à mãe, e o texto informa que a partir daquela hora o discípulo a recebeu em casa.

A última vez em que Maria é nomeada na Bíblia é no primeiro capítulo de Atos. Ela está no grupo que perseverava em oração antes de Pentecostes — dentro da primeira comunidade cristã, e não à margem dela. O mesmo versículo menciona os irmãos de Jesus ali presentes. Depois disso, o Novo Testamento silencia sobre ela: Paulo, que escreve antes dos Evangelhos, se refere a ela uma única vez e não a nomeia.

João 2:3-5

3E tendo faltado vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Não têm vinho.

4Jesus lhe disse: O que eu tenho contigo, mulher? A minha hora ainda não chegou.

5Sua mãe disse aos serventes: Fazei tudo quanto ele vos disser.

Tradução: Edição Chama da Fé

A constatação, a ressalva e a instrução aos serventes, em três versículos. As últimas palavras dela no Novo Testamento são uma orientação sobre obedecer a outra pessoa — o que é uma forma bastante clara de dizer para onde a cena aponta.

Gálatas 4:4

4Mas quando o tempo se completou, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei,

Tradução: Edição Chama da Fé

A única referência de Paulo à mãe de Jesus, e ela não traz o nome dela. Vale saber que esta carta é anterior aos Evangelhos: o dado mais antigo que o Novo Testamento guarda sobre Maria é uma oração subordinada dentro de uma frase sobre outro assunto.

O que o texto não diz

Personagens bíblicos acumulam camadas de tradição que a Escritura não sustenta. Separar as duas coisas não diminui a história — devolve a ela o que está de fato escrito.

  • O que se costuma dizer

    Maria tinha entre doze e catorze anos quando o anjo apareceu.

    O que a Escritura traz

    Nenhum texto bíblico informa a idade dela, em momento nenhum. O que os Evangelhos dão é uma situação jurídica — ela estava prometida em casamento —, e a estimativa de idade vem do que se sabe sobre os costumes matrimoniais da Judeia romana. Isso é uma inferência sobre a época, e não uma informação sobre ela. A diferença importa: uma coisa é dizer que meninas costumavam casar cedo naquele contexto, outra é atribuir a ela uma idade que o texto não dá.

    De onde vem: Números específicos aparecem em literatura devocional posterior e em textos do século II que não pertencem a nenhum cânon cristão. Eles circularam por serem concretos, e não por terem fonte.

  • O que se costuma dizer

    Os pais de Maria se chamavam Joaquim e Ana.

    O que a Escritura traz

    A Escritura não nomeia o pai nem a mãe de Maria, e não conta nada sobre a infância dela. Os dois nomes vêm do Protoevangelho de Tiago, texto do século II que está fora de todos os cânones cristãos e de onde saiu boa parte das imagens populares sobre a menina Maria — a apresentação no Templo, a idade dos pais, o cenário doméstico.

    De onde vem: Apontar a fonte não é o mesmo que decidir se a tradição está certa. É registrar que a informação não vem dos Evangelhos, e que quem a repete está repetindo um texto de outra natureza.

  • O que se costuma dizer

    Maria acompanhou Jesus durante toda a pregação.

    O que a Escritura traz

    Nos Evangelhos ela aparece em pouquíssimas cenas do ministério, e são as que estão descritas acima. Quando Lucas nomeia as mulheres que acompanhavam e sustentavam o grupo itinerante, ela não está entre as nomeadas. E Paulo, que escreve antes dos Evangelhos, menciona a mãe de Jesus uma única vez, sem nome. O retrato que sai do texto é o de uma presença concentrada no começo e no fim, e não de uma companhia contínua.

  • O que se costuma dizer

    A mulher vestida de sol, no Apocalipse, é Maria, e o texto diz isso.

    O que a Escritura traz

    A passagem não nomeia ninguém. A figura ali descrita foi lida, ao longo da história, como Israel, como a Igreja e como Maria — e leitores das duas tradições sustentaram mais de uma dessas leituras, às vezes ao mesmo tempo. O que se pode afirmar com segurança é o que o texto faz: descreve uma figura e não dá a ela um nome próprio.

  • O que se costuma dizer

    A Bíblia conta o fim da vida de Maria.

    O que a Escritura traz

    O Novo Testamento não diz onde, quando nem como a vida dela terminou. A última vez em que ela é nomeada é no primeiro capítulo de Atos, em oração com a comunidade. Tudo o que se diz sobre o fim da vida dela vem de tradições posteriores, e o que cada tradição conclui daí está apresentado na nota ao final desta página, sem que ela decida entre as duas.

Onde essa pessoa aparece

Lucas 1:34-38

34Maria disse ao anjo: Como será isso? Pois não conheço intimamente homem algum.

35O anjo lhe respondeu: O Espírito Santo virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso o Santo que nascerá será chamado Filho de Deus.

36E eis que Isabel, tua prima, também está grávida de um filho na sua velhice; e este é o sexto mês para a que era chamada de estéril.

37Pois para Deus nada será impossível.

38Então Maria disse: Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim conforme a tua palavra. E o anjo ausentou-se dela.

Tradução: Edição Chama da Fé

A pergunta, a explicação e o consentimento, na ordem em que o texto os coloca. Repare que o sim vem depois da explicação — e que a última frase do trecho registra a saída do anjo, sem contar nada do que aconteceu em seguida.

Lucas 1:51-53

51Com o seu braço manifestou poder; dispersou os soberbos no pensamento dos seus corações.

52Derrubou os poderosos dos tronos, e elevou os humildes.

53Encheu de bens aos famintos, e despediu vazios os ricos.

Tradução: Edição Chama da Fé

O núcleo do Magnificat, e a parte que menos se cita. Três versículos sobre inversão de sortes, com verbos no passado — a linguagem é a dos profetas de Israel, e não a de um agradecimento pessoal.

Lucas 2:34-35

34Simeão os abençoou, e disse a Maria, sua mãe: Eis que este é posto para queda e levantamento de muitos em Israel; e para sinal que terá oposição,

35(também uma espada atravessará a tua própria alma) para que os pensamentos de muitos corações se manifestem.

Tradução: Edição Chama da Fé

A bênção de Simeão e a advertência que vem colada nela, dirigida a Maria em segunda pessoa. É o único lugar do Novo Testamento em que alguém anuncia a ela, de frente, que aquilo vai custar caro.

Marcos 3:31-35

31Então chegaram a sua mãe e os seus irmãos; e estando de fora, mandaram chamá-lo.

32A multidão estava sentada ao redor dele. Então disseram-lhe: Eis que a tua mãe , os teus irmãos , e as tuas irmãs estão lá fora a te procurar.

33Ele lhes respondeu: Quem é a minha mãe e os meus irmãos?

34E, olhando em redor aos que estavam sentados perto dele, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos.

35Quem fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã, e mãe.

Tradução: Edição Chama da Fé

A chegada da mãe e dos irmãos, a pergunta feita à multidão e a resposta que refunda o parentesco em torno da vontade de Deus. Note o que o texto não traz: nenhuma palavra dela, nem antes nem depois.

João 19:25-27

25E estavam junto à cruz de Jesus, sua mãe, e a irmã de sua mãe, Maria mulher de Cleofas, e Maria Madalena.

26E vendo Jesus a sua mãe, e ao discípulo a quem amava, que ali estava, disse a sua mãe: Mulher, eis aí teu filho.

27Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E desde aquela hora o discípulo a recebeu em sua casa .

Tradução: Edição Chama da Fé

Quem estava junto à cruz, e o que foi dito ali. Esta página menciona a cruz e não a descreve; o trecho é citado pelo que ele guarda do lugar de Maria — a confiança mútua entre a mãe e o discípulo, e a informação de que ele a recebeu em casa a partir daquela hora.

Atos 1:14

14Todos estes perseveravam concordando em orações, e petições, com as mulheres, com Maria a mãe de Jesus, e com os irmãos dele.

Tradução: Edição Chama da Fé

A última menção a Maria em toda a Bíblia, e ela está no meio de uma lista. O versículo a coloca em oração dentro do grupo, antes de Pentecostes, e menciona no mesmo fôlego os irmãos de Jesus — o que o torna, também, um dos textos do centro da divergência.

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