Pular para o conteúdo

Quem foi José, o pai de criação de Jesus?

Quando viveu Primeiro século, em Nazaré e em Belém

Em resumo

José foi o carpinteiro de Nazaré prometido em casamento a Maria e reconhecido como pai de Jesus. Os Evangelhos não registram nenhuma fala dele: ele aparece decidindo, obedecendo a avisos recebidos em sonho, protegendo a família e sustentando a casa. Depois do episódio no Templo, sai do texto sem que nada seja dito a respeito.

Publicado em
Tempo de leitura
13 min de leitura

O dado que organiza tudo o que se pode dizer sobre José é fácil de verificar e passa despercebido: não há, nos quatro Evangelhos, uma única linha de fala atribuída a ele. Nenhuma pergunta, nenhuma resposta, nenhuma oração registrada. Ele é apresentado inteiramente por verbos de ação — decide, aceita, viaja, protege, nomeia, ensina um ofício —, e o texto nunca o deixa comentar nada disso.

Isso não faz dele uma figura secundária: faz dele uma figura descrita de outro jeito. A narrativa da infância de Jesus em Mateus é conduzida por ele do começo ao fim, e a linhagem que os dois Evangelhos usam para situar Jesus na história de Israel passa por ele.

Este site publica também a oração a São José, escrita por Leão XIII em 1889, com a origem dela e o que ela pede. São páginas diferentes, e vale saber qual é qual: lá está o texto que se reza e a história dele; aqui está o que os Evangelhos contam sobre o homem a quem a oração se dirige.

O carpinteiro de Nazaré

A profissão de José aparece uma única vez, e de passagem, na boca dos vizinhos. Em Nazaré, ouvindo Jesus ensinar, eles o identificam pelo ofício da casa e pelos nomes da família — a mãe, os irmãos, as irmãs. É assim que se sabe qual era o trabalho de José: por uma pergunta que os vizinhos fazem sobre outra coisa.

O que esse detalhe informa é a condição social. Um artesão daquele tempo não era indigente nem próspero; vivia do que produzia, numa aldeia pequena. Historiadores costumam lembrar que Séforis, cidade em obras naquele período, ficava a poucos quilômetros de Nazaré, e que trabalho de construção não faltava na região — isso é contexto sobre o lugar, e não informação sobre ele.

A outra informação que o texto dá sobre José é a linhagem. Ele é da casa de Davi, e é por isso que Lucas o faz subir a Belém no recenseamento. Quando o anjo se dirige a ele, em Mateus, chama-o de filho de Davi. Vale reparar no peso disso: nos Evangelhos essa forma de tratamento aparece dezenas de vezes, e em todas as outras ela é dirigida a Jesus.

Mateus 13:55

55Não é este o filho do carpinteiro? E não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, José, Simão, e Judas?

Tradução: Edição Chama da Fé

A pergunta dos vizinhos, que é onde a profissão fica registrada. Repare no que eles sabem de cor: o ofício da casa, o nome da mãe e o nome dos irmãos. É o retrato de uma família conhecida de todos numa aldeia pequena.

A decisão que ele toma antes de qualquer sonho

A primeira cena de José é uma crise. Ele está prometido em casamento a Maria, os dois ainda não vivem juntos, e ela está grávida. O noivado judaico era um vínculo legal, e desfazê-lo exigia um ato formal — de modo que a situação, do lado dele, tinha consequências públicas para ela.

Aqui está o detalhe que quase sempre se perde. O texto o chama de justo e, em seguida, descreve o que ele decidiu fazer: não expô-la, e encerrar o compromisso em silêncio. Ou seja, o elogio do narrador vem antes do sonho e se refere a uma decisão que ele tomou sozinho, sem instrução nenhuma.

Comentaristas discutem há séculos o que exatamente o narrador quis dizer com aquela palavra — se ele é justo por cumprir a lei ou justo por temperá-la com misericórdia. As duas leituras são antigas e nenhuma delas depende da divisão entre as tradições cristãs. O que o texto afirma sem ambiguidade é a sequência: a decisão veio primeiro; o anjo veio depois.

Então o sonho acontece, e ele muda de rumo. Acorda e faz o que lhe foi dito. Não há pergunta, não há objeção, não há resposta registrada — o narrador passa direto da instrução para a obediência.

Mateus 1:19

19Então José, seu marido, sendo justo, e não querendo a expor à infâmia, pensou em deixá-la secretamente.

Tradução: Edição Chama da Fé

Um versículo com um adjetivo e uma decisão. Vale ler devagar: o adjetivo qualifica o homem, e a oração seguinte descreve o que ele resolveu fazer com o problema que tinha nas mãos, antes de receber qualquer aviso.

O nome, e o que ele transmite

A tarefa que o anjo dá a José é dar o nome à criança, e ele a cumpre. Isso é mais do que parece. Naquela cultura, nomear era o gesto pelo qual um pai reconhecia um filho como seu, com efeitos jurídicos: pertencimento à casa, direito de herança, lugar na linhagem. Os Evangelhos não usam nenhuma palavra correspondente a adoção — mostram o ato que a produzia.

É desse ato que depende toda a linhagem davídica de Jesus, e os dois Evangelhos que a traçam sabem disso. Mateus percorre quarenta gerações com a mesma fórmula, repetida à exaustão: um gerou o outro, que gerou o seguinte. E então, no último elo, a fórmula se quebra. O versículo não diz que José gerou Jesus; diz que José era o marido de Maria, da qual Jesus nasceu.

Lucas faz o mesmo por outro caminho. Ao abrir a genealogia dele, informa que Jesus era, como se pensava, filho de José — e o parêntese está no texto, não no comentário. Os dois relatos afirmam a paternidade legal e ressalvam a biológica, cada um com o seu recurso de escrita.

Belém, a saída para o Egito e a volta

O recenseamento leva a família a Belém porque é de lá que vem a casa de Davi, e é José quem faz a viagem por causa da própria origem. Lucas registra a subida e diz que Maria foi com ele, grávida.

Em Mateus, o que vem depois é uma sequência de deslocamentos, e todos partem de um aviso recebido em sonho. São quatro no total: o primeiro o convence a receber Maria; o segundo o manda sair para o Egito de noite; o terceiro o avisa de que pode voltar; o quarto o desvia da Judeia e o leva a estabelecer-se em Nazaré. Quatro avisos, quatro mudanças de vida, e nenhuma palavra dele em nenhuma das quatro.

A saída para o Egito é uma fuga, e esta página não conta a cena que a provocou — o site menciona esse contexto e não o descreve. O que interessa aqui é o que o relato mostra dele: recebe o aviso à noite, levanta e parte no escuro, com a família, para um país estrangeiro, e fica lá o tempo que for preciso.

Há uma ressonância que qualquer leitor da Bíblia percebe e que vale dizer com cuidado: outro José, muitas gerações antes, também sonha e também vai parar no Egito. A semelhança está no texto; a intenção de quem escreveu, não. Registrar a primeira sem afirmar a segunda é o que se pode fazer com honestidade.

Na volta, é dele a decisão final. Ele evita a Judeia por causa de quem passou a reinar ali e se instala na Galileia. É por causa dessa escolha que Jesus é chamado de nazareno pelo resto da história — e é a última vez que José age por conta própria no Evangelho de Mateus.

Lucas 2:4-5

4E José também subiu da Galileia, da cidade de Nazaré à Judeia, à cidade de Davi, que se chama Belém; (porque ele era da casa e família de Davi.)

5Para se registrar com Maria, com ele prometida em casamento, que estava grávida.

Tradução: Edição Chama da Fé

A subida a Belém, com o motivo declarado entre parênteses pelo próprio narrador. O deslocamento acontece por causa da linhagem dele, e é essa linhagem que a cena inteira está ali para estabelecer.

Os anos de Nazaré, e a última cena

Depois da volta, o Evangelho de Mateus não volta a mencioná-lo. Lucas guarda uma cena, e é a última em que José aparece: a subida anual a Jerusalém para a Páscoa, o menino de doze anos que fica na cidade sem que os pais percebam, a busca de três dias.

Vale observar a distribuição das falas nessa cena. Maria fala. Jesus responde. José está presente, é mencionado como pai e não diz uma palavra. É o texto que melhor mostra o modo como os Evangelhos o descrevem: dentro do quadro, sem voz.

O capítulo termina informando que o menino desceu com eles a Nazaré e vivia sujeito a eles. É a única frase que os Evangelhos dedicam aos anos comuns dessa família, e a autoridade doméstica descrita ali é a do casal.

Lucas 2:51

51Então desceu com eles, e veio a Nazaré, e os obedecia. E a sua mãe guardava todas essas coisas no seu coração.

Tradução: Edição Chama da Fé

O fecho da cena e o resumo de quase vinte anos numa frase. Repare que a subordinação descrita é aos dois, e não a um deles — e que a segunda metade do versículo volta a olhar para dentro de Maria, não de José.

O desaparecimento, que o texto não explica

Depois do episódio no Templo, José some. Não aparece no início da pregação, não está em Caná, não é mencionado junto à cruz e não está no grupo em oração no primeiro capítulo de Atos, onde a mãe e os irmãos de Jesus são nomeados. Os Evangelhos não narram uma morte, um enterro nem uma despedida.

As duas menções mais tardias a ele são de terceiros, e as duas são perguntas. Em Nazaré, os vizinhos identificam Jesus como o carpinteiro, filho de Maria — pela mãe, e não pelo pai, o que naquela cultura era uma forma incomum de nomear um homem adulto. Em Cafarnaum, no Evangelho de João, quem murmura diz conhecer o pai e a mãe dele.

A conclusão que a maior parte dos leitores tira dessas ausências é que José já tinha morrido quando a pregação começou. É uma inferência razoável, e continua sendo uma inferência: nenhum texto do Novo Testamento afirma isso. O que se pode dizer com segurança é mais modesto e, de certo modo, mais eloquente — ele aparece enquanto há uma criança a proteger e sai de cena quando essa criança se torna adulta.

João 6:42

42E diziam: Não é este Jesus o filho de José, cujos pai e mãe nós conhecemos? Como, pois, ele diz: Desci do céu?

Tradução: Edição Chama da Fé

A murmuração em Cafarnaum, já durante a pregação. É a menção mais tardia a José em todo o Novo Testamento, e ela vem de vizinhos que falam dele como alguém que conheceram — sem que o texto diga se ainda estava vivo.

Depois do silêncio: como José foi lembrado

A devoção a José é antiga no Oriente cristão e chegou tarde ao calendário e à liturgia do Ocidente, o que é curioso para uma figura tão central na narrativa do nascimento. As datas principais são recentes: em 1870 ele foi declarado patrono da Igreja universal, em 1955 ganhou uma festa em 1º de maio como padroeiro dos trabalhadores, e o nome dele entrou no Cânon Romano apenas em 1962.

A oração mais rezada a ele, escrita por Leão XIII em 1889, tem página própria neste site, com o texto completo e a história dela. Ela se apoia justamente no que a narrativa mostra: um homem que tirou uma criança do alcance de um rei, e a quem se pede que faça algo semelhante em outra escala.

A prática de pedir a José que interceda pressupõe a intercessão dos santos, sustentada pela tradição católica e não praticada pela maior parte das igrejas evangélicas, que oram diretamente a Deus. As duas tradições, no entanto, leem a mesma narrativa e reconhecem nela a mesma coisa: um homem que fez o que lhe cabia sem que ninguém registrasse uma palavra sua.

O que o texto não diz

Personagens bíblicos acumulam camadas de tradição que a Escritura não sustenta. Separar as duas coisas não diminui a história — devolve a ela o que está de fato escrito.

  • O que se costuma dizer

    José era um homem idoso, bem mais velho do que Maria.

    O que a Escritura traz

    Nenhum Evangelho informa a idade dele, e nenhum os compara. O que os textos mostram é um homem em plena atividade: viaja, trabalha, decide, muda a família de país e sustenta uma casa. A imagem do ancião vem de fora do Novo Testamento.

    De onde vem: Ela aparece em textos dos séculos II e III que não pertencem a nenhum cânon cristão — o Protoevangelho de Tiago e, mais tarde, a História de José, o Carpinteiro —, onde a idade avançada cumpre uma função no argumento daqueles autores. A imagem passou para a arte e ficou. Apontar a procedência não é decidir se ela é verdadeira: é registrar que ela não vem dos Evangelhos.

  • O que se costuma dizer

    Os Evangelhos dizem que José adotou Jesus.

    O que a Escritura traz

    Nenhum texto usa uma palavra correspondente a adoção. O que os Evangelhos mostram é o ato que produzia esse efeito naquela cultura: o anjo encarrega José de dar o nome, e ele dá. Nomear era o gesto pelo qual um pai reconhecia um filho como pertencente à sua casa, com as consequências jurídicas que isso trazia. A paternidade legal está inteira no texto; a palavra que a nomeia é nossa, e não dele.

  • O que se costuma dizer

    Os Evangelhos nunca chamam José de pai de Jesus.

    O que a Escritura traz

    Chamam, mais de uma vez, e com naturalidade. Lucas registra o espanto do pai e da mãe diante do que se dizia do menino; a própria Maria, procurando o filho em Jerusalém, se refere a José como pai dele; e os vizinhos, tanto em Nazaré quanto em Cafarnaum, tratam Jesus como filho de José. A mesma Escritura que usa a palavra também a ressalva, e faz as duas coisas sem sinal de desconforto — Lucas 3:23 é o exemplo mais claro, com a ressalva dentro do próprio versículo.

  • O que se costuma dizer

    A Bíblia conta como e quando José morreu.

    O que a Escritura traz

    Não conta. Não há morte narrada, nem enterro, nem despedida, nem uma linha explicando a ausência dele durante a pregação. Ele simplesmente deixa de aparecer depois do episódio em Jerusalém. Que tenha morrido antes do início do ministério é a leitura mais comum e mais plausível, e continua sendo uma dedução feita a partir de um silêncio.

Onde essa pessoa aparece

Mateus 1:16

16E Jacó gerou a José, o marido de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado o Cristo.

Tradução: Edição Chama da Fé

O último elo da genealogia, e o único que muda de fórmula. Depois de quarenta repetições da mesma construção, o versículo não diz que José gerou Jesus: diz de quem ele era marido e de quem Jesus nasceu. A quebra é deliberada, e é ela que resume o lugar de José nos dois primeiros capítulos.

Mateus 1:24-25

24E despertando José do sonho, fez como o anjo do Senhor tinha lhe mandado, e recebeu sua mulher.

25E ele não a conheceu intimamente ,até que ela deu à luz um filho, e lhe pôs por nome JESUS.

Tradução: Edição Chama da Fé

A obediência e o nome, em dois versículos. O primeiro registra que ele acordou e fez; o segundo, que foi ele quem deu o nome — o gesto que, naquela cultura, constituía o reconhecimento paterno. Entre a instrução e o cumprimento não há uma palavra dele.

Mateus 2:13-15

13E tendo eles partido, eis que um anjo do Senhor apareceu a José em sonho, dizendo: Levanta-te, toma o menino e sua mãe, e foge para o Egito; e fica lá até que eu te diga, porque Herodes buscará o menino para o matar.

14Então ele se despertou, tomou o menino e sua mãe de noite, e foi para o Egito;

15E esteve lá até a morte de Herodes, para que se cumprisse o que foi dito pelo Senhor por meio do profeta, que disse: Do Egito chamei o meu Filho.

Tradução: Edição Chama da Fé

A ordem de partir e a saída de noite. Vale reparar em quem carrega a cena: o aviso é dado a ele, os verbos são dele, e a família é nomeada a partir da criança. É o trecho em que a proteção deixa de ser uma qualidade atribuída e vira uma coisa que ele faz.

Lucas 2:48

48Quando eles o viram, ficarm surpresos. E sua mãe lhe disse: Filho, por que fizeste assim conosco? Eis que teu pai e eu com ansiedade te procurávamos.

Tradução: Edição Chama da Fé

A fala de Maria depois de três dias de busca, e o detalhe que ela contém: é ela quem chama José de pai do menino, dentro do mesmo Evangelho que abre a genealogia com uma ressalva sobre isso. O texto convive com as duas afirmações sem tentar harmonizá-las.

Lucas 3:23

23E o mesmo Jesus começou quando tinha cerca de trinta anos, sendo (como se pensava) filho de José, filho de Eli,

Tradução: Edição Chama da Fé

A abertura da genealogia de Lucas, com a ressalva no meio da frase. O versículo afirma a filiação e a qualifica no mesmo fôlego, e é o exemplo mais direto de como os Evangelhos tratam a paternidade de José.

Marcos 6:3

3Não é este o carpinteiro, filho de Maria, e irmão de Tiago, de José, de Judas, e de Simão? E não estão aqui as suas irmãs conosco?E ofenderam-se nele.

Tradução: Edição Chama da Fé

A pergunta dos vizinhos de Nazaré, já sem José. Jesus é identificado pelo ofício e pela mãe, e o nome do pai não aparece — o que é incomum na forma como se nomeava um homem adulto naquele contexto, e é um dos poucos indícios de que ele já não estava presente.

Outros personagens