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Quem foi José do Egito?

Quando viveu Situado no segundo milênio a.C., ao fim do período dos patriarcas

Em resumo

José é o penúltimo dos doze filhos de Jacó. O Gênesis o apresenta como o preferido do pai, vendido pelos irmãos, escravo e preso no Egito, intérprete de sonhos, alçado a administrador do reino durante a fome, e finalmente reencontrando a família que o havia descartado.

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Os últimos catorze capítulos do Gênesis formam a narrativa mais longa e mais contínua do livro, e são sobre José. Diferente do resto do Gênesis, aqui não há aparições, não há vozes do céu, não há aliança sendo firmada. Deus é mencionado o tempo todo pelos personagens e não age diretamente em cena nenhuma.

Isso muda o tipo de história que se está lendo. O que se acompanha é uma sequência de decisões humanas — inveja, cálculo, mentira, poder, medo — e uma leitura, feita pelo próprio protagonista no fim, sobre o que tudo aquilo significou.

O filho preferido

O texto não disfarça a origem do problema: Jacó amava José mais que aos outros filhos, e demonstrava isso publicamente com uma roupa distinta. O narrador registra a preferência e a consequência dela na mesma frase — os irmãos passaram a odiá-lo e não conseguiam mais falar com ele em paz.

Sobre a roupa vale uma nota. A expressão hebraica é discutida há muito tempo: as versões grega e latina antigas entenderam que se tratava de uma peça de várias cores, e é assim que a maioria das edições traduz, inclusive a que este site publica; outras traduções modernas entendem uma túnica longa, de mangas compridas, própria de quem não trabalha no campo. As duas leituras apontam para a mesma coisa — era uma roupa que marcava posição.

José ainda piora a situação contando dois sonhos em que a família se curva diante dele. O texto registra que até o pai o repreendeu por isso, e que os irmãos ficaram com inveja enquanto Jacó guardou o assunto.

Gênesis 37:3-4

3E amava Israel a José mais que a todos os seus filhos, porque lhe havia tido em sua velhice: e lhe fez uma roupa de diversas cores.

4E vendo seus irmãos que seu pai o amava mais que a todos os seus irmãos, odiavam-lhe, e não lhe podiam falar pacificamente.

Tradução: Edição Chama da Fé

Dois versículos que contêm a causa e o efeito da tragédia inteira. Note que o narrador não repreende Jacó nem justifica os irmãos: apenas encadeia os fatos e deixa o leitor tirar a conclusão.

A cisterna, e uma venda que o texto conta duas vezes

O plano inicial dos irmãos é matar. Rúben propõe apenas jogá-lo numa cisterna seca, pretendendo resgatá-lo depois; Judá propõe vendê-lo a uma caravana que passava. O que acontece em seguida é narrado de um jeito que gerou séculos de discussão.

O capítulo menciona duas caravanas — ismaelitas e midianitas — e o versículo da venda não deixa claro quem tirou José da cisterna. No fim do mesmo capítulo, são os midianitas que o vendem a Potifar; no começo do capítulo seguinte, Potifar o compra dos ismaelitas.

Há duas formas de ler isso. Uma entende que o relato final costurou duas versões antigas da mesma história, o que é a explicação mais corrente entre estudiosos. A outra entende os dois termos como designações intercambiáveis de um mesmo grupo de mercadores, leitura antiga e defendida até hoje. O que interessa aqui é registrar que o texto tem essa costura à vista, e que ela não é invenção de leitor cético.

Gênesis 37:26-28

26Então Judá disse a seus irmãos: Que proveito há em que matemos a nosso irmão e encubramos sua morte?

27Vinde, e o vendamos aos ismaelitas, e não seja nossa mão sobre ele; que nosso irmão é nossa carne. E seus irmãos concordaram com ele.

28E quando passavam os midianitas mercadores, tiraram eles a José da cisterna, e trouxeram-lhe acima, e o venderam aos ismaelitas por vinte peças de prata. E levaram a José ao Egito.

Tradução: Edição Chama da Fé

A proposta de Judá e a venda. Leia devagar o versículo 28 e repare em quantos sujeitos diferentes cabem nele — é aí que mora a discussão descrita acima.

Gênesis 39:1

1E levado José ao Egito, comprou-o Potifar, oficial de Faraó, capitão dos da guarda, homem egípcio, da mão dos ismaelitas que o haviam levado ali.

Tradução: Edição Chama da Fé

A compra por Potifar, com o vendedor identificado como ismaelita — dois versículos depois de o fim do capítulo 37 dizer que foram os midianitas que venderam. Os dois estão no texto, lado a lado.

A casa de Potifar e a prisão

No Egito, José vira administrador da casa de um oficial da corte. A esposa do patrão o assedia repetidamente; ele recusa; ela o acusa de tê-la atacado, usando como prova a roupa que ficou na mão dela.

Vale reparar num detalhe: é a segunda vez que uma peça de roupa de José é usada para produzir uma versão falsa dos fatos. A primeira foi a túnica ensanguentada mostrada a Jacó. O narrador constrói a repetição de propósito.

Na prisão, ele volta a administrar. Interpreta os sonhos de dois presos da corte, acerta os dois, e pede ao que seria libertado que se lembre dele. O capítulo termina com a frase mais fria do bloco: o homem não se lembrou. Passam-se dois anos.

Gênesis 39:19-21

19E sucedeu que quando ouviu seu senhor as palavras que sua mulher lhe falara, dizendo: Assim me tratou teu servo; acendeu-se seu furor.

20E tomou seu senhor a José, e pôs-lhe na casa do cárcere, onde estavam os presos do rei, e esteve ali na casa do cárcere.

21Mas o SENHOR foi com José, e estendeu a ele sua misericórdia, e deu-lhe favor aos olhos do chefe da casa do cárcere.

Tradução: Edição Chama da Fé

A condenação sem julgamento, e a observação que vem logo depois. Repare que o texto não diz que José foi tirado da prisão, e sim que teve favor dentro dela — a melhora acontece sem que a situação mude.

Os sonhos do Faraó, e o poder

Quando o Faraó sonha com vacas e espigas e nenhum sábio da corte consegue explicar, o copeiro finalmente se lembra. José é tirado da prisão, barbeado, trocado de roupa e levado à presença do rei.

A interpretação vem junto com um plano de governo: sete anos de fartura, sete de fome, e a recomendação de que se armazene um quinto da colheita durante os anos bons. O Faraó o nomeia para executar o próprio plano.

Os anos de fome que se seguem são narrados com um realismo administrativo incômodo. O capítulo 47 registra que, à medida que a fome se agrava, os egípcios entregam primeiro o dinheiro, depois o gado e por fim as terras em troca de comida — e que a terra do Egito inteiro passa a ser do Faraó. O texto conta isso sem elogio e sem condenação, como quem descreve um resultado.

Os irmãos

A fome leva os filhos de Jacó ao Egito para comprar mantimento, e eles se curvam diante de um administrador egípcio sem reconhecê-lo. José reconhece, e não se identifica.

O que vem a seguir são três capítulos de um jogo elaborado: acusações de espionagem, um irmão mantido como refém, uma taça escondida na bagagem, uma exigência de que tragam o caçula. É difícil dizer com segurança o que ele está fazendo — testando o arrependimento, prolongando o poder, procurando coragem para falar. O texto não explica, e registra que ele saiu da sala para chorar mais de uma vez.

A revelação, quando vem, é abrupta: manda todos os egípcios saírem e diz quem é, com a frase que identifica os irmãos pelo que fizeram. E é ele quem, em seguida, oferece a leitura que reorganiza tudo.

Depois da morte de Jacó

A família se muda para o Egito e Jacó morre lá, com um funeral descrito em detalhes. E então o Gênesis faz algo que quase nenhuma recontagem inclui: mostra que a reconciliação do capítulo 45 não tinha resolvido nada.

Com o pai morto, os irmãos entram em pânico e mandam a José uma mensagem que atribuem a Jacó, pedindo perdão em nome dele. O texto não confirma que Jacó tenha dito aquilo. José chora ao ouvir a mensagem — e é razoável ler ali a dor de descobrir que, dezessete anos depois, eles ainda tinham medo dele.

A resposta que ele dá é a chave de leitura do bloco inteiro, e ela não nega o que aconteceu: reconhece a intenção deles e afirma um resultado diferente do pretendido. O livro termina com um pedido: que quando Deus os tirasse dali, levassem os ossos dele junto. O Gênesis se encerra com um caixão no Egito, e é assim que o Êxodo começa a fazer sentido.

Gênesis 50:15-17

15E vendo os irmãos de José que seu pai era morto, disseram: Talvez José nos odeie, e nos retribua de todo o mal que lhe fizemos.

16E enviaram a dizer a José: Teu pai mandou antes de sua morte, dizendo:

17Assim direis a José: Rogo-te que perdoes agora a maldade de teus irmãos e seu pecado, porque mal te trataram: portanto agora te rogamos que perdoes a maldade dos servos do Deus de teu pai. E José chorou enquanto falavam.

Tradução: Edição Chama da Fé

O medo dos irmãos e a mensagem que eles atribuem ao pai morto. A observação final do trecho, sobre José chorar enquanto ouvia, é do narrador e é o que dá o tom da cena.

O que o texto não diz

Personagens bíblicos acumulam camadas de tradição que a Escritura não sustenta. Separar as duas coisas não diminui a história — devolve a ela o que está de fato escrito.

  • O que se costuma dizer

    A mulher de Potifar se chamava Zuleica.

    O que a Escritura traz

    O Gênesis não dá nome a ela. Ela é identificada apenas pela relação com o marido, e desaparece da narrativa depois do capítulo 39.

    De onde vem: O nome aparece em comentários islâmicos posteriores e se popularizou pela literatura persa, sobretudo pelo poema que Jami dedicou ao episódio no século XV. Chegou ao Ocidente por essa via, e hoje circula em pregação e em ficção como se fosse bíblico.

  • O que se costuma dizer

    Os irmãos tiraram José da cisterna e o venderam. O texto é claro sobre isso.

    O que a Escritura traz

    O texto é menos arrumado do que a versão que se conta. O capítulo 37 menciona duas caravanas, ismaelita e midianita; o versículo da venda não deixa explícito quem puxou José para fora; o fim do capítulo credita a venda em solo egípcio aos midianitas, e o começo do capítulo seguinte diz que Potifar o comprou dos ismaelitas. Há quem leia os dois nomes como designações do mesmo grupo e quem veja aí duas versões antigas costuradas. As duas leituras são sérias, e nenhuma delas depende de má-fé com o texto.

  • O que se costuma dizer

    José virou faraó do Egito.

    O que a Escritura traz

    O cargo que ele recebe é o de administrador sobre a casa e sobre a terra, com o trono explicitamente reservado ao Faraó. E o exercício desse cargo tem um resultado que raramente se menciona: no capítulo 47, a política de armazenamento e venda de alimento durante a fome termina com toda a terra do Egito passando à propriedade do Faraó.

  • O que se costuma dizer

    José perdoou os irmãos e a família viveu em paz a partir dali.

    O que a Escritura traz

    Dezessete anos depois da reconciliação, com Jacó morto, os irmãos ainda temem represália e recorrem a uma mensagem que atribuem ao pai para pedir perdão de novo. José chora quando ouve. O Gênesis termina com essa cena, e não com um abraço — o que é bem mais parecido com o funcionamento real de famílias que passaram por coisas graves.

Onde essa pessoa aparece

Gênesis 37:3-4

3E amava Israel a José mais que a todos os seus filhos, porque lhe havia tido em sua velhice: e lhe fez uma roupa de diversas cores.

4E vendo seus irmãos que seu pai o amava mais que a todos os seus irmãos, odiavam-lhe, e não lhe podiam falar pacificamente.

Tradução: Edição Chama da Fé

A preferência declarada e o ódio que ela produz, em dois versículos. É o motor de tudo o que vem depois, e o texto o coloca logo na abertura do bloco, sem preparação.

Gênesis 41:39-41

39E disse Faraó a José: Pois que Deus te fez saber tudo isto, não há entendido nem sábio como tu:

40Tu serás sobre minha casa, e pelo que disseres se governará todo o meu povo; somente no trono serei eu maior que tu.

41Disse mais Faraó a José: Eis que te pus sobre toda a terra do Egito.

Tradução: Edição Chama da Fé

A nomeação, com o limite explicitado pelo próprio Faraó. Vale notar quanto tempo se passou desde a cisterna — o texto informa que José tinha trinta anos aqui, e dezessete quando foi vendido.

Gênesis 45:4-5

4Então disse José a seus irmãos: Achegai-vos agora a mim. E eles se achegaram. E ele disse: Eu sou José vosso irmão o que vendestes para o Egito.

5Agora, pois, não vos entristeçais, nem vos pese de haver me vendido aqui; que para preservação de vida me enviou Deus diante de vós:

Tradução: Edição Chama da Fé

A revelação. Ele se identifica pelo parentesco e pelo que os irmãos fizeram, na mesma frase, e só então propõe a leitura que vai sustentar o resto do bloco. A ordem importa: primeiro o fato, depois a interpretação.

Gênesis 50:19-21

19E respondeu-lhes José: Não temais: estou eu em lugar de Deus?

20Vós pensastes mal sobre mim, mas Deus o encaminhou para o bem, para fazer o que vemos hoje, para manter em vida muito povo.

21Agora, pois, não tenhais medo; eu sustentarei a vós e a vossos filhos. Assim os consolou, e lhes falou ao coração.

Tradução: Edição Chama da Fé

A resposta ao medo dos irmãos, e a frase mais citada da história de José. Repare que ela não diz que o que fizeram foi bom nem que não aconteceu: mantém a intenção deles no lugar e afirma outra coisa por cima.

Gênesis 50:24-26

24E José disse a seus irmãos: Eu me morro; mas Deus certamente vos visitará, e vos fará subir desta terra à terra que jurou a Abraão, a Isaque, e a Jacó.

25E fez jurar José aos filhos de Israel, dizendo: Deus certamente vos visitará, e fareis levar daqui meus ossos.

26E morreu José da idade de cento e dez anos; e embalsamaram-no, e foi posto num caixão no Egito.

Tradução: Edição Chama da Fé

O pedido sobre os ossos e o fim do livro. O Gênesis se encerra fora da terra prometida, com um caixão e uma promessa pendente — é uma abertura deliberada para o livro seguinte.

Outros personagens