Quem foi Davi?
Quando viveu Por volta do século X a.C., no começo da monarquia de Israel
Em resumo
Davi foi o segundo rei de Israel, por volta do século X a.C. Os livros de Samuel o apresentam como o filho mais novo de Jessé, pastor em Belém, ungido por Samuel antes de qualquer vitória, guerreiro contra os filisteus, fugitivo de Saul, rei em Hebrom e depois em Jerusalém, e responsável pela morte de Urias.
- Escrito por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
- Revisado por
- Raphael Navarro Schmitt
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Nenhum personagem da Bíblia recebe tanto espaço quanto Davi. São mais de sessenta capítulos entre 1 e 2 Samuel, mais a versão paralela em Crônicas, mais a coleção de orações que leva o nome dele. E o retrato que sai de tudo isso não é o de um herói de escola dominical: é o de um homem que faz coisas admiráveis e coisas indefensáveis, muitas vezes no mesmo capítulo.
A história abaixo é a que os dois livros de Samuel narram, na ordem em que narram. Ela tem três movimentos claros — a ascensão, o reinado e a queda dentro de casa — e o texto não suaviza nenhum deles.
O mais novo da casa
Davi entra na narrativa por eliminação. O profeta Samuel é enviado a Belém para ungir um dos filhos de Jessé, e vai reprovando um a um, do mais velho ao mais moço, até descobrir que falta alguém: o caçula está no campo com o rebanho. É ele.
A cena é construída em torno de um contraste que o próprio texto explica: o critério humano olha o que está à vista, e o critério de Deus não é esse. Vale notar que o narrador ainda assim descreve o rapaz como bonito — a passagem não despreza a aparência, apenas nega que ela decida.
Depois da unção, Davi volta ao rebanho. Ele não vira rei ali; vira músico da corte de Saul, chamado para tocar quando o rei era atormentado. É por essa porta, e não pela do palácio, que ele entra na história de Israel.
6E aconteceu que quando eles vieram, ele viu a Eliabe, e disse: De certo diante do SENHOR está seu ungido.
7E o SENHOR respondeu a Samuel: Não olhes à sua aparência, nem à sua grande estatura, porque eu o rejeito; porque o SENHOR olha não o que o homem olha; pois que o homem olha o que está diante de seus olhos, mas o SENHOR olha o coração.
A frase que organiza todo o resto do capítulo. O detalhe fácil de perder é que ela é dita sobre Eliabe, o irmão mais velho, alto e de boa presença — ou seja, o texto rejeita justamente o candidato que qualquer leitor escolheria.
18Então um dos criados respondeu, dizendo: Eis que eu vi a um filho de Jessé de Belém, que sabe tocar, e é valente e vigoroso, e homem de guerra, prudente em suas palavras, e belo, e o SENHOR é com ele.
A descrição que um servo de Saul faz de Davi antes de qualquer batalha: alguém que sabe tocar, é valente, entende de guerra e fala bem. Guarde este versículo — ele desmonta sozinho a imagem do menino frágil que aparece no capítulo seguinte.
O gigante, e o que o texto realmente diz sobre ele
O episódio de Golias é o mais conhecido da Bíblia inteira, e é também aquele em que mais se lê o que não está escrito. O capítulo 17 descreve o filisteu com precisão de inventário: a altura, o peso da couraça, as caneleiras, a haste da lança comparada a uma peça de tear. É uma descrição de armamento, não de monstro.
Do lado de Davi, o texto faz questão de registrar a recusa da armadura. Saul o veste com o próprio equipamento, e ele tira tudo, porque não estava acostumado e não conseguia andar assim. Sai com o cajado, cinco pedras do riacho e a funda. A escolha não é ingênua: é a escolha de quem prefere a arma que domina.
E há um detalhe que quase nunca aparece nas recontagens. Já no fim de 2 Samuel, uma lista de batalhas atribui a morte de Golias, o de Gate, a outro homem de Belém. A versão em 1 Crônicas resolve a tensão dizendo que esse homem matou o irmão de Golias. As duas leituras existem: quem lê os livros como relatos independentes vê aqui um caso em que a tradição guardou duas versões; quem lê o conjunto como um todo coerente adota a solução de Crônicas. A página não decide por você, mas achamos que você merece saber que a pergunta existe.
38E Saul revestiu a Davi de suas roupas, e pôs sobre sua cabeça um capacete de bronze, e armou-lhe de couraça.
39E cingiu Davi sua espada sobre suas roupas, e provou a andar, porque nunca havia provado. E disse Davi a Saul: Eu não posso andar com isto, porque nunca o pratiquei. E lançando de si Davi aquelas coisas,
40Tomou seu cajado em sua mão, e escolheu para si cinco pedras lisas do ribeiro, e as pôs no saco pastoril e na sacola que trazia, e com sua funda em sua mão foi até o filisteu.
A recusa da armadura, narrada com uma delicadeza que se perde no resumo: Davi experimenta, tenta andar, e desiste. O motivo declarado não é coragem nem fé, é falta de costume.
19Outra guerra houve em Gobe contra os filisteus, na qual Elanã, filho de Jaaré-Oregim de Belém, feriu a Golias geteu, a haste de cuja lança era como um lançador de tear.
Numa lista de guerras contra os filisteus, a morte de Golias, o de Gate, aparece creditada a Elanã, também de Belém. A haste da lança é descrita com a mesma comparação usada no capítulo 17.
5E voltou-se a levantar guerra com os filisteus; e feriu Elanã filho de Jair a Lami, irmão de Golias geteu, a haste de cuja lança era como um lançador de tecedores.
A passagem paralela em Crônicas diz que Elanã feriu o irmão de Golias, e não Golias. É a harmonização mais antiga do problema, e ela está dentro da própria Bíblia — o que já diz algo sobre há quanto tempo a dificuldade é notada.
Dez anos de fuga
Entre a vitória sobre o filisteu e a coroação existe uma parte da história que raramente entra nas recontagens, e que é a mais longa das três. Saul passa a persegui-lo. Davi foge, vira chefe de um bando de homens endividados e descontentes, dorme em cavernas, negocia com sacerdotes e chega a se refugiar entre os próprios filisteus, servindo ao rei de Gate.
É nesse trecho que aparecem as cenas mais estranhas do personagem: duas vezes ele tem Saul ao alcance da mão e não o mata; uma vez finge loucura para escapar; outra vez sai em expedição pagando de aliado de um inimigo de Israel. O texto narra tudo sem comentar, o que é típico da narrativa hebraica e frustrante para quem quer uma moral no fim do parágrafo.
1E disse Davi em seu coração: Ao fim serei morto algum dia pela mão de Saul: nada portanto me será melhor que fugir à terra dos filisteus, para que Saul se deixe de mim, e não me ande buscando mais por todos os termos de Israel, e assim me escaparei de suas mãos.
2Levantou-se, pois Davi, e com os seiscentos homens que tinha consigo passou-se a Aquis filho de Maoque, rei de Gate.
3E morou Davi com Aquis em Gate, ele e os seus, cada um com sua família: Davi com suas duas mulheres, Ainoã jezreelita, e Abigail, a que foi mulher de Nabal o do Carmelo.
Davi decide atravessar a fronteira e viver sob a proteção de um rei filisteu, com seiscentos homens e as duas mulheres. A decisão é apresentada como cálculo de sobrevivência, e o narrador não a aprova nem a condena.
Rei em Hebrom, e depois em Jerusalém
Com a morte de Saul, Davi é ungido rei — mas só de Judá, e a capital é Hebrom. O norte segue com um filho de Saul, e há uma guerra civil de anos antes de os anciãos de Israel virem procurá-lo. Só então ele reina sobre o conjunto.
A escolha de Jerusalém como sede é uma jogada política precisa: a cidade não pertencia a nenhuma das tribos, o que a tornava neutra entre o norte e o sul. Para lá ele leva a arca, e ali quer construir um templo — projeto que o texto adia para o filho.
Bate-Seba e Urias
O capítulo 11 de 2 Samuel começa observando que era a estação em que os reis saíam para a guerra, e que Davi ficou em casa. O que vem depois é narrado em frases curtas, quase administrativas: ele vê, pergunta quem é, manda buscar, deita com ela. A mulher é identificada duas vezes pelo vínculo — filha de um homem, esposa de outro.
Quando a gravidez é anunciada, Davi tenta encobrir. Chama Urias do front para que ele durma em casa e a criança pareça dele; Urias se recusa a ter conforto enquanto o exército está acampado. Falhada a manobra, o rei manda uma carta ao comandante — carregada pelo próprio Urias — com a ordem que o mataria.
O texto não ameniza nada. Quando o profeta Natã chega, ele não vem discutir teologia: conta uma parábola sobre um rico que rouba a única ovelha de um pobre, deixa Davi condenar o personagem e então vira a acusação contra ele. E a lista do que Deus dera a Davi, recitada ali, torna o crime pior, não menor.
2E aconteceu que levantando-se Davi de sua cama à hora da tarde, passeava-se pelo terraço da casa real, quando viu desde o terraço uma mulher que se estava lavando, a qual era muito bela.
3E enviou Davi a preguntar por aquela mulher, e disseram-lhe: Aquela é Bate-Seba filha de Eliã, mulher de Urias Heteu.
4E Davi enviou mensageiros, e tomou-a: e assim que entrou a ele, ele dormiu com ela. Purificou-se logo ela de sua imundícia, e se voltou à sua casa.
Quatro verbos e nenhuma justificativa. Vale reparar em quem tem voz na cena: Davi vê, pergunta, envia e toma; Bate-Seba não diz uma palavra em todo o capítulo. O silêncio dela é do texto, não da nossa leitura.
A casa dividida
A segunda metade de 2 Samuel é a consequência doméstica. Um filho de Davi violenta a própria meia-irmã; outro filho, Absalão, mata o primeiro e foge; anos depois, esse mesmo Absalão organiza um golpe, e o rei precisa abandonar Jerusalém a pé, descalço e chorando.
O golpe termina com Absalão morto contra ordem expressa do pai. A reação de Davi é uma das cenas mais duras da Bíblia: um rei vitorioso que sobe a um quarto sobre o portão e repete o nome do filho até o comandante do exército mandá-lo parar, porque a tropa estava voltando envergonhada de uma vitória.
Davi morre velho, no palácio, com a sucessão sendo decidida por manobra de bastidores enquanto ele ainda respira. Não é um final glorioso, e o texto não tenta fazer com que seja.
13E veio o aviso a Davi, dizendo: O coração de todo Israel segue Absalão.
14Então Davi disse a todos os seus servos que estavam com ele em Jerusalém: Levantai-vos, e fujamos, porque não poderemos escapar diante de Absalão; apressai-vos a partir, não seja que se apressando ele nos alcance, e lance o mal sobre nós, e fira a cidade a fio de espada.
O aviso chega e a decisão é imediata: fugir. Vale ler o capítulo inteiro depois — a saída de Jerusalém é narrada quase em câmera lenta, pessoa por pessoa que fica e que vai.
33Então o rei se perturbou, e subiu-se à sala da porta, e chorou; e indo, dizia assim: Filho meu Absalão, filho meu, filho meu Absalão! Quem me dera que morresse eu em lugar de ti, Absalão, filho meu, filho meu!
O luto de Davi por um filho que tinha acabado de tentar destroná-lo e matá-lo. A repetição do nome, no original e em qualquer tradução, é o recurso que carrega a cena — e é a razão de este versículo ser lido em velório há séculos.
O que o texto não diz
Personagens bíblicos acumulam camadas de tradição que a Escritura não sustenta. Separar as duas coisas não diminui a história — devolve a ela o que está de fato escrito.
O que se costuma dizer
Davi era um menino franzino quando enfrentou Golias, e a cena é a de uma criança diante de um gigante.
O que a Escritura traz
O capítulo anterior já o apresenta como alguém valente, entendido em guerra e bom de conversa. Diante de Saul, ele conta que havia enfrentado leão e urso defendendo o rebanho — trabalho de pastor adulto, não de criança. O texto o chama de o mais novo dos filhos de Jessé e nunca informa a idade dele. O contraste que a narrativa constrói é de armamento, não de tamanho: armadura pesada contra funda.
O que se costuma dizer
Davi escreveu os Salmos.
O que a Escritura traz
O saltério é uma coletânea reunida ao longo de séculos. Os títulos que encabeçam os salmos, nas edições que os imprimem, associam parte deles a Davi e nomeiam outros autores — Asafe, os filhos de Corá, Salomão, Moisés —, e um número grande de salmos não traz nome nenhum. Chamar a coleção de "salmos de Davi" descreve a figura central dela, não a autoria de cada peça.
O que se costuma dizer
A funda era um brinquedo de pastor, e usá-la foi um gesto de ingenuidade corajosa.
O que a Escritura traz
A funda era arma de infantaria no Antigo Oriente Próximo. O livro dos Juízes descreve setecentos homens de Benjamim capazes de acertar um alvo mínimo com ela, e o texto trata isso como especialização militar de elite. Davi recusa a armadura de Saul dizendo que não sabia se mover com aquilo — ou seja, troca a arma que não domina pela que domina.
O que se costuma dizer
Depois de matar Golias, Davi virou rei.
O que a Escritura traz
Entre uma coisa e outra há anos de perseguição, exílio e guerra civil. Ungido rei, ele governa primeiro apenas Judá, a partir de Hebrom, durante sete anos e meio, e só depois os anciãos de Israel vêm procurá-lo. O reinado sobre o conjunto, com capital em Jerusalém, dura outros trinta e três.
Onde essa pessoa aparece
11Então disse Samuel a Jessé: Acabaram-se os moços? E ele respondeu: Ainda resta o mais novo, que apascenta as ovelhas. E disse Samuel a Jessé: Envia por ele, porque não nos assentaremos à mesa até que ele venha aqui.
12Enviou, pois, por ele, e introduziu-o; o qual era ruivo, de bela aparência e de belo aspecto. Então o SENHOR disse: Levanta-te e unge-o, que este é.
13E Samuel tomou o chifre do azeite, e ungiu-o dentre seus irmãos: e desde aquele dia em diante o espírito do SENHOR tomou a Davi. Levantou-se logo Samuel, e voltou-se a Ramá.
A unção, com o detalhe que costuma escapar: Davi é ungido diante dos irmãos e volta ao trabalho. Nada muda de imediato na vida dele, e o resto do livro se passa nesse intervalo entre a promessa e o cumprimento.
45Então disse Davi ao filisteu: Tu vens a mim com espada e lança e escudo; mas eu venho a ti no nome do SENHOR dos exércitos, o Deus dos esquadrões de Israel, que tu provocaste.
46o SENHOR te entregará hoje em minha mão, e eu te vencerei, e tirarei tua cabeça de ti: e darei hoje os corpos dos filisteus às aves do céu e aos animais da terra: e saberá a terra toda que há Deus em Israel.
47E saberá toda esta congregação que o SENHOR não salva com espada e lança; porque do SENHOR é la guerra, e ele vos entregará em nossas mãos.
A resposta de Davi ao filisteu, e o argumento dela é sobre armamento: ele opõe espada, lança e escudo a outra coisa. É o eixo do capítulo inteiro, e a razão de a recusa da armadura, alguns versículos antes, não ser um detalhe decorativo.
3Vieram, pois, todos os anciãos de Israel ao rei em Hebrom, e o rei Davi fez com eles aliança em Hebrom diante do SENHOR; e ungiram a Davi por rei sobre Israel.
4Era Davi de trinta anos quando começou a reinar, e reinou quarenta anos.
5Em Hebrom reinou sobre Judá sete anos e seis meses: e em Jerusalém reinou trinta e três anos sobre todo Israel e Judá.
O resumo cronológico do reinado, útil para situar tudo o mais: quarenta anos no total, sete e meio deles só sobre Judá, a partir de Hebrom. É o versículo que desmente a ideia de uma coroação imediata.
7Então disse Natã a Davi: Tu és aquele homem. Assim disse o SENHOR, Deus de Israel: Eu te ungi por rei sobre Israel, e te livre da mão de Saul;
8Eu te dei a casa de teu senhor, e as mulheres de teu senhor em teu fundo: demais disto te dei a casa de Israel e de Judá; e se isto é pouco, eu te acrescentarei tais e tais coisas.
9Por que, pois, tiveste em pouco a palavra do SENHOR, fazendo o que era mau diante de seus olhos? A Urias Heteu feriste à espada, e tomaste por tua mulher a sua mulher, e a ele mataste com a espada dos filhos de Amom.
A acusação de Natã, depois da parábola. Repare que a repreensão vem em duas partes: primeiro a lista do que foi dado, depois a pergunta sobre por que aquilo não bastou — a estrutura clássica de uma acusação de ingratidão.
1Tem misericórdia de mim, ó Deus, conforme a tua bondade; desfaz minhas transgressões conforme a abundância de tuas misericórdias.
2Lava-me bem de minha perversidade, e purifica-me de meu pecado.
3Porque eu reconheço minhas transgressões, e meu pecado está continuamente diante de mim.
O salmo que a tradição associa a esse episódio, e que é lido há séculos como oração de arrependimento. Vale lê-lo sabendo o que veio antes na narrativa: muda bastante o peso das primeiras linhas.