Quem foi Rute?
Quando viveu Ambientada no período dos juízes, antes da monarquia
Em resumo
Rute é uma moabita, viúva, que se recusa a voltar para a casa da mãe e acompanha a sogra israelita de volta a Belém. O livro que leva o nome dela narra a colheita, o pedido feito na eira, o resgate feito por Boaz e o nascimento do avô de Davi.
- Escrito por
- Raphael Navarro Schmitt
- Revisado por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
- Publicado em
- Tempo de leitura
- 8 min de leitura
O livro de Rute tem quatro capítulos e é uma das narrativas mais bem construídas da Bíblia hebraica. Não há milagre, não há profeta, não há batalha. Há uma família que perde tudo, uma decisão tomada numa estrada e uma sequência de negociações sobre terra e casamento que termina numa genealogia.
É também um dos poucos livros bíblicos cuja protagonista é uma mulher estrangeira, e o texto insiste nesse ponto: ela é chamada de moabita cinco vezes ao longo dos quatro capítulos, inclusive na declaração jurídica do último. Essa insistência não é descuido — é o argumento do livro.
A fome, e a viagem que dá errado
Uma fome em Belém empurra Elimeleque, a mulher Noemi e os dois filhos para Moabe, país vizinho e historicamente hostil. Eles ficam. Os filhos casam com moabitas — Orfa e Rute. E então, em três versículos, morrem os três homens.
Restam três viúvas sem homens para sustentá-las, numa sociedade em que isso significava indigência. Noemi decide voltar, sabendo que na terra dela há comida de novo, e manda as noras de volta para as casas das mães delas. É uma dispensa formal: ela reconhece que não tem mais filhos para lhes dar e as libera.
A decisão na estrada
Orfa aceita, chora e volta. O texto não a repreende por isso — ela está fazendo exatamente o que foi pedido. Rute recusa, e a recusa dela vem numa fórmula de juramento, com uma maldição condicional no fim: que Deus a castigue se qualquer coisa que não a morte a separar da sogra.
O que ela promete não é afeto, e sim pertencimento. Destino, moradia, povo, Deus e sepultura — os cinco itens são de filiação, não de sentimento. É por isso que essas linhas são lidas em casamentos até hoje, embora tenham sido ditas por uma nora a uma sogra numa estrada de terra.
Chegando a Belém, a cidade reconhece Noemi, e ela recusa o próprio nome: pede que a chamem por outro, construído sobre a palavra hebraica para amargura. A queixa dela é dirigida diretamente a Deus, e o livro a registra sem corrigir.
20E ela lhes respondia: Não me chameis Noemi, mas sim me chamai Mara: porque em grande amargura me pôs o Todo-Poderoso.
21Eu me fui cheia, mas vazia me fez voltar o SENHOR. Por que me chamareis Noemi, já que o SENHOR deu testemunho contra mim, e o Todo-Poderoso me afligiu?
A troca de nome que Noemi pede para si. Vale notar a acusação embutida: ela não diz que teve azar, diz de quem entende ser a responsabilidade. É a mesma liberdade de linguagem dos salmos de lamento.
A colheita e o encontro com Boaz
Rute sai para respigar — recolher o que os ceifeiros deixam cair, direito garantido na lei israelita a pobres, órfãos, viúvas e estrangeiros. O texto diz que ela foi parar, por acaso, no campo de Boaz, parente do marido de Noemi.
Boaz repara nela, pergunta quem é, e a partir daí protege deliberadamente o trabalho dela: manda que a deixem colher também entre os feixes, que ninguém a incomode, que deixem cair espigas de propósito. Quando ela pergunta por que recebe esse tratamento sendo estrangeira, ele responde citando o que fez pela sogra — ou seja, a reputação dela chegou antes.
A noite na eira
Terminada a colheita, Noemi arma uma jogada. Manda Rute se lavar, se perfumar, vestir a melhor roupa e descer à eira à noite, esperar que Boaz coma e beba, e então deitar-se aos pés dele.
O que acontece ali é o trecho mais discutido do livro, e a discussão existe porque o texto é econômico de propósito. Ele diz que ela descobriu os pés dele e se deitou; que ele acordou assustado no meio da noite; que perguntou quem era. A resposta dela é uma proposta jurídica — pede que ele estenda a borda do manto sobre ela e o identifica como parente com direito de resgate.
Vale ser honesto: as palavras usadas nesse trecho, em hebraico, comportam mais de uma leitura, e comentaristas judeus e cristãos divergem há muito tempo sobre o que a cena descreve. O que o texto afirma sem ambiguidade é a resposta de Boaz: ele elogia a escolha dela, avisa que existe um parente mais próximo com prioridade, e a manda embora antes do amanhecer para que ninguém saiba que uma mulher esteve ali.
7E quando Boaz havia comido e bebido, e seu coração esteve contente, retirou-se para dormir a um lado do amontoado. Então ela veio caladamente, e revelou os pés, e deitou-se.
8E aconteceu, que à meia noite se estremeceu aquele homem, e apalpou: e eis que, a mulher que estava deitada a seus pés.
9Então ele disse: Quem és? E ela respondeu: Eu sou Rute tua serva: estende a borda de tua capa sobre tua serva, porquanto és parente próximo.
A cena inteira em três versículos, e nenhum deles diz o que aconteceu entre o deitar e o acordar. A economia é deliberada: o narrador que descreveu a colheita em detalhes escolhe, aqui, não descrever.
A negociação na porta da cidade
O capítulo 4 é uma cena de tribunal. Boaz senta à porta da cidade, junta dez anciãos como testemunhas e apresenta o caso ao parente mais próximo: há um terreno de Elimeleque à venda, e ele tem prioridade.
O outro aceita na hora. Boaz então acrescenta a segunda parte — junto com a terra vem o casamento com a viúva moabita, e o primeiro filho desse casamento herdará em nome do morto. O parente recua, porque isso prejudicaria a própria herança dele, e cede o direito.
É importante ver o que essa cena faz com a história: o casamento de Rute e Boaz não é apresentado como desfecho romântico, e sim como ato jurídico registrado diante de testemunhas. O afeto existe no livro — está nas falas dos dois desde o capítulo 2 —, mas o motor da trama é lei de herança.
O último versículo
Nasce um menino. E aí o livro faz duas coisas inesperadas. Primeiro, entrega a criança a Noemi: são as vizinhas que dizem que nasceu um filho a Noemi, e é ela que fica com o menino no colo. Segundo, dá o nome — Obede — e emenda uma genealogia curta: ele é pai de Jessé, que é pai de Davi.
Essa última linha é o motivo de o livro existir na forma em que existe. Ela informa que a bisavó do rei mais importante de Israel era moabita, e o faz sem nenhum comentário, deixando a informação sozinha na página.
O que o texto não diz
Personagens bíblicos acumulam camadas de tradição que a Escritura não sustenta. Separar as duas coisas não diminui a história — devolve a ela o que está de fato escrito.
O que se costuma dizer
Rute era israelita, ou pelo menos deixou de ser vista como estrangeira depois que aderiu ao Deus de Israel.
O que a Escritura traz
O livro a chama de moabita do começo ao fim, inclusive na declaração pública de Boaz diante das testemunhas, no capítulo 4 — depois de tudo o que ela fez e disse. Mais do que isso: existe no Deuteronômio uma restrição explícita à entrada de moabitas na assembleia. O livro de Rute não cita essa lei, não a discute e não a revoga; simplesmente termina colocando a moabita na linhagem de Davi. A tensão está no texto, e é ela que dá ao livro a força que ele tem.
O que se costuma dizer
A cena da eira é uma sedução, e o livro está contando isso de forma disfarçada.
O que a Escritura traz
O texto diz que Rute descobriu os pés de Boaz, deitou-se e foi encontrada ali no meio da noite. O que ela fala em seguida é um pedido de amparo em linguagem jurídica, e o que ele responde trata de um parente com prioridade e do cuidado com a reputação dela. Várias das palavras do trecho comportam mais de um sentido em hebraico, e a divergência entre comentaristas é antiga. A honestidade aqui é registrar que a ambiguidade é do texto, e não invenção de quem lê.
O que se costuma dizer
É uma história de amor, e Boaz se apaixonou por Rute no campo.
O que a Escritura traz
O que o livro narra é um processo de resgate de propriedade regido por lei de herança, com um casamento embutido nele. Boaz declara em público que se casa com a viúva para levantar o nome do falecido sobre a herança dele, e há um parente com prioridade que precisa recusar antes. Isso não apaga a delicadeza entre os dois, que é real desde o segundo capítulo — só mostra que ela corre por dentro de um mecanismo, e não no lugar dele.
O que se costuma dizer
Noemi é a sogra amargurada que serve de cenário para a história de Rute.
O que a Escritura traz
É Noemi quem abre o livro, quem exige ser chamada por outro nome, quem planeja a ida à eira e quem termina com a criança no colo. As vizinhas, no último capítulo, dizem que nasceu um filho a Noemi — não a Rute. O livro tem duas protagonistas, e a segunda é a que fala mais.
Onde essa pessoa aparece
16E Rute respondeu: Não me rogues que te deixe, e que me aparte de ti: porque de onde quer que tu fores, irei eu; e de onde quer que viveres, viverei. Teu povo será meu povo, e teu Deus meu Deus.
17Onde tu morreres, morrerei eu, e ali serei sepultada: assim me faça o SENHOR, e assim me dê, que somente a morte fará separação entre mim e ti.
A resposta de Rute, na forma de um juramento com maldição condicional no fim. Repare que os itens que ela lista são de pertencimento — para onde ir, onde ficar, que povo, que Deus, onde ser enterrada — e não declarações de sentimento.
11E respondendo Boaz, disse-lhe: Por certo se me declarou tudo o que fizeste com tua sogra depois da morte de teu marido, e que deixando teu pai e tua mãe e a terra de onde nasceste, vieste a um povo que não conheceste antes.
12O SENHOR recompense tua obra, e tua remuneração seja cheia pelo SENHOR Deus de Israel, que vieste para cobrir-te debaixo de suas asas.
A explicação que Boaz dá para tratá-la bem, e ela é interessante: não é caridade genérica, é resposta a uma conduta específica que ele já tinha ouvido descrever. A reputação dela chegou à cidade antes dela.
9E Boaz disse aos anciãos e a todo aquele povo: Vós sois hoje testemunhas de que tomo todas as coisas que foram de Elimeleque, e tudo o que foi de Quiliom e de Malom, da mão de Noemi.
10E que também tomo por minha mulher a Rute moabita, mulher de Malom, para suscitar o nome do defunto sobre sua herança, para que o nome do morto não se apague dentre seus irmãos e da porta de seu lugar. Vós sois hoje testemunhas.
A declaração formal diante dos anciãos, que é onde a natureza jurídica de tudo fica explícita. Note que a finalidade declarada do casamento é preservar o nome de um morto — e que Rute continua sendo identificada como moabita nesse exato momento.
16E tomando Noemi o filho, o pôs em seu colo, e foi-lhe sua ama.
17E as vizinhas dizendo, a Noemi nasceu um filho, lhe puseram nome; e chamaram-lhe Obede. Este é pai de Jessé, pai de Davi.
O fecho do livro, com a criança no colo de Noemi e a genealogia em três nomes. A última palavra do livro é o nome de Davi, e é ela que reorganiza retrospectivamente tudo o que se leu antes.
3Não entrará amonita nem moabita na congregação do SENHOR; nem ainda na décima geração entrará na congregação do SENHOR para sempre:
A restrição sobre moabitas na assembleia. Não está aqui para acusar ninguém: está para mostrar que o livro de Rute é escrito com plena consciência do problema que a origem dela representa, e escolhe terminar do jeito que termina mesmo assim.