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Quem foi Abraão?

Quando viveu Situado no segundo milênio a.C., no período dos patriarcas

Em resumo

Abraão é o primeiro dos patriarcas de Israel. O livro do Gênesis o apresenta saindo de sua terra por um chamado, recebendo a promessa de uma descendência que ele não via chegar, gerando um filho com a serva Agar, recebendo Isaque na velhice e sendo levado a um monte para sacrificá-lo.

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Abraão é reconhecido como figura fundadora por judeus, cristãos e muçulmanos, o que faz dele provavelmente o personagem mais compartilhado da história religiosa. Cada uma das três tradições o lê de um jeito, e cada uma acrescentou histórias que o Gênesis não conta. Esta página fica no que está no Gênesis.

E o que está lá é mais irregular do que a reputação sugere. O homem que a tradição chama de pai dos que creem passa metade da narrativa tentando resolver por conta própria uma promessa que demorava, e a outra metade descobrindo que aquilo não funciona.

O chamado e a saída

A ordem que abre a história de Abrão é escalonada de propósito: sair da terra, depois da parentela, depois da casa do pai. É uma sequência que vai do mais amplo ao mais íntimo, e o destino não é informado — ele saberá quando chegar.

O texto registra a idade dele na partida: setenta e cinco anos. Não é o começo de uma juventude aventureira; é alguém deixando para trás uma vida inteira já construída. Ele leva a mulher, o sobrinho e o que possuía.

Logo depois da chegada, uma fome empurra o grupo para o Egito, e ali acontece o primeiro episódio incômodo: com medo de ser morto por causa da beleza de Sarai, Abrão pede que ela se apresente como irmã dele. A manobra dá certo do ponto de vista da sobrevivência e coloca a mulher numa casa que não era a dela. O narrador conta e não comenta — e conta de novo, quase igual, alguns capítulos adiante.

Gênesis 12:11-13

11E aconteceu que quando estava para entrar no Egito, disse a Sarai sua mulher: Eis que, agora conheço que és mulher bela à vista;

12E será que quando te houverem visto os egípcios, dirão: Sua mulher é: e matarão a mim, e a ti te preservarão a vida.

13Agora, pois, dize que és minha irmã, para que eu vá bem por tua causa, e viva minha alma por causa de ti.

Tradução: Edição Chama da Fé

O pedido feito a Sarai, com o cálculo explicitado em voz alta. Vale ler sem apressar a explicação: o texto não apresenta isso como falha nem como astúcia louvável, apenas registra.

A promessa, e vinte e cinco anos de espera

A promessa de descendência é repetida várias vezes, e a cada repetição a idade do casal torna a coisa mais improvável. No capítulo 15, ela ganha a sua imagem mais conhecida: Abrão é levado para fora e convidado a contar as estrelas.

A frase que vem em seguida — que ele creu, e isso lhe foi levado em conta — virou um dos versículos mais citados do Antigo Testamento no Novo. Paulo o usa em Romanos e em Gálatas para argumentar sobre a fé; a carta de Tiago o usa para argumentar sobre as obras. Os dois estão lendo o mesmo versículo, e vale saber disso antes de escolher lado.

Entre a promessa e o nascimento de Isaque passam vinte e cinco anos. É esse intervalo que explica quase tudo o que Abraão faz de discutível.

Gênesis 15:5-6

5E tirou-lhe fora, e disse: Olha agora aos céus, e conta as estrelas, se as podes contar. E lhe disse: Assim será tua descendência.

6E creu ao SENHOR, e contou-lhe por justiça.

Tradução: Edição Chama da Fé

A cena e a frase. Repare que o texto não descreve nenhuma emoção: registra o gesto de sair para fora, o convite a contar, a promessa e, na frase seguinte, a resposta interior. A economia é típica do Gênesis.

Agar e Ismael

Depois de dez anos em Canaã sem filho, a solução vem de Sarai: Abrão deve gerar um herdeiro com a serva egípcia Agar. Era um arranjo jurídico conhecido no mundo antigo, e o texto o narra em termos administrativos.

O que acontece depois não é administrativo. Agar engravida e passa a olhar a senhora com desprezo; Sarai a maltrata; Agar foge para o deserto grávida. É lá, sozinha, que ela recebe uma promessa própria e faz algo que ninguém mais faz no Gênesis: dá um nome a Deus.

Ismael nasce e é criado na casa. Anos depois, com Isaque já nascido, mãe e filho são mandados embora — e o texto volta a segui-los no deserto, o que é um sinal de que a narrativa não os trata como um desvio a ser esquecido.

Gênesis 16:1-4

1E Sarai, mulher de Abrão não lhe dava filho: e ela tinha uma serva egípcia, que se chamava Agar.

2Disse, pois, Sarai a Abrão: Já vês que o SENHOR me fez estéril: rogo-te que entres a minha serva; talvez terei filhos dela. E atendeu Abrão ao dito de Sarai.

3E Sarai, mulher de Abrão, tomou a Agar sua serva egípcia, ao fim de dez anos que havia habitado Abrão na terra de Canaã, e deu-a a Abrão seu marido por mulher.

4E ele se deitou com Agar, a qual concebeu: e quando viu que havia concebido, olhava com desprezo à sua senhora.

Tradução: Edição Chama da Fé

A proposta, a aceitação e a consequência imediata, em quatro versículos. Note quem fala: a iniciativa é de Sarai, a decisão é dela, e Agar não é consultada em momento nenhum.

O riso

No capítulo 17, a aliança é formalizada e os nomes mudam: Abrão passa a Abraão, Sarai passa a Sara. É aqui, e não depois de nenhum teste, que a mudança de nome acontece.

E é aqui que ele ri. Ao ouvir que terá um filho de Sara, Abraão se prostra com o rosto no chão — e, prostrado, ri e faz as contas em voz baixa: cem anos e noventa anos. No capítulo seguinte, diante da tenda, Sara ri da mesma promessa, e o texto guarda o riso dos dois. O nome do filho, Isaque, é construído sobre a palavra hebraica para rir.

Gênesis 17:17

17Então Abraão postrou-se com o rosto ao chão, riu, e disse em seu coração: A um homem de cem anos nasceráfilho? E Sara, já de noventa anos, há de dar à luz?

Tradução: Edição Chama da Fé

O riso de Abraão, e o cálculo aritmético que vem junto. O gesto de reverência e a incredulidade acontecem no mesmo versículo, o que é um retrato bem mais complexo do que "pai da fé" costuma sugerir.

A barganha por Sodoma

A cena de Abraão diante de Sodoma é a mais estranha do personagem, e a mais moderna. Ele não pede, não implora, não se resigna: negocia. Começa em cinquenta justos e desce, de dez em dez e depois de cinco em cinco, até dez.

O argumento que ele usa não é sentimental. É jurídico, e é uma acusação embutida: seria compatível com a justiça destruir o justo junto com o culpado? A pergunta é feita a Deus, sobre Deus, e o texto não a repreende. Guarde essa cena: ela é a licença mais explícita que o Antigo Testamento dá para discutir com Deus a partir de uma objeção moral.

Gênesis 18:22-26

22E apartaram-se dali os homens, e foram até Sodoma: mas Abraão estava ainda diante do SENHOR.

23E aproximou-se Abraão e disse: Destruirás também ao justo com o ímpio?

24Talvez haja cinquenta justos dentro da cidade: destruirás também e não perdoarás ao lugar por cinquenta justos que estejam dentro dela?

25Longe de ti o fazer tal, que faças morrer ao justo com o ímpio e que seja o justo tratado como o ímpio; nunca faças tal. O juiz de toda a terra, não há de fazer o que é justo?

26Então respondeu o SENHOR: Se achar em Sodoma cinquenta justos dentro da cidade, perdoarei a todo este lugar por causa deles.

Tradução: Edição Chama da Fé

A abertura da negociação. Vale seguir o capítulo até o fim para ver a descida completa dos números — e notar que quem interrompe a barganha é Abraão, não o interlocutor dele.

O monte

O capítulo 22 é o texto mais difícil da história de Abraão, e um dos mais difíceis da Bíblia inteira. A ordem é dada sem explicação: levar o filho único, o amado, até um monte na região de Moriá, e oferecê-lo lá.

A narrativa é construída no silêncio. Abraão não discute — o mesmo homem que barganhou por uma cidade de estranhos não diz uma palavra pelo próprio filho. A viagem dura três dias. Isaque carrega a lenha e faz a única pergunta da cena, que é sobre o cordeiro que falta. A resposta do pai é ambígua até hoje.

A ordem é interrompida no último momento, e o motivo declarado é que o temor de Abraão ficou demonstrado. Nada no texto explica por que era preciso demonstrar. Judeus, cristãos e muçulmanos leem essa passagem de formas diferentes há séculos, e nenhuma das leituras torna o capítulo confortável — o que talvez seja o ponto.

Depois disso, o Gênesis narra a morte de Sara, a compra de uma sepultura, o casamento de Isaque e, enfim, a morte de Abraão. O sepultamento é feito por Isaque e Ismael juntos, e é a última vez que os dois aparecem lado a lado.

Gênesis 22:1-2

1E aconteceu depois destas coisas, que provou Deus a Abraão, e lhe disse: Abraão. E ele respondeu: Eis-me aqui.

2E disse: Toma agora teu filho, teu único, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre um dos montes que eu te direi.

Tradução: Edição Chama da Fé

A ordem, com três qualificações empilhadas sobre a palavra "filho" — único, e amado, e nomeado. O texto acumula os termos de propósito, e o efeito é tornar a frase mais pesada a cada palavra.

Gênesis 22:6-8

6E tomou Abraão a lenha do holocausto, e a pôs sobre Isaque seu filho: e ele tomou em sua mão o fogo e a espada; e foram ambos juntos.

7Então falou Isaque a Abraão seu pai, e disse: Meu pai. e ele respondeu: Eis-me aqui, meu filho. E ele disse: Eis aqui o fogo e a lenha; mas onde está o cordeiro para o holocausto?

8E respondeu Abraão: Deus se proverá de cordeiro para o holocausto, filho meu. E iam juntos.

Tradução: Edição Chama da Fé

A subida, com Isaque carregando a lenha e fazendo a pergunta. A repetição da frase sobre os dois irem juntos, antes e depois do diálogo, é um recurso do narrador para marcar o que aquele silêncio custa.

O que o texto não diz

Personagens bíblicos acumulam camadas de tradição que a Escritura não sustenta. Separar as duas coisas não diminui a história — devolve a ela o que está de fato escrito.

  • O que se costuma dizer

    Abraão quebrou os ídolos da loja do pai antes de sair de Ur.

    O que a Escritura traz

    O Gênesis não conta nada disso. A primeira notícia que o texto dá sobre ele é genealógica, e a segunda é a ordem de partir. Não há episódio de infância, nem de conversão, nem de confronto com a religião da família.

    De onde vem: A história vem da tradição interpretativa judaica — aparece no Bereshit Rabbá, coletânea de comentários rabínicos ao Gênesis — e é contada também no Alcorão. Chegou à pregação cristã por esse caminho e hoje é repetida como se fosse bíblica.

  • O que se costuma dizer

    Abraão é o modelo da fé que nunca vacila.

    O que a Escritura traz

    O mesmo texto que registra a confiança dele registra o riso diante da promessa, duas ocasiões em que ele apresenta a esposa como irmã para se proteger, e a decisão de gerar um herdeiro com a serva em vez de continuar esperando. O Gênesis não esconde nada disso, e a leitura que faz dele um homem sem oscilação precisa ignorar capítulos inteiros.

  • O que se costuma dizer

    Isaque era um menino pequeno quando foi levado ao monte.

    O que a Escritura traz

    O texto não informa a idade dele em momento nenhum. O que informa é que Isaque carregou a lenha do sacrifício monte acima, o que descreve alguém com força para isso, e que ele conversou com o pai durante a subida. A idade que aparece nas ilustrações é escolha do ilustrador.

  • O que se costuma dizer

    Deus mudou o nome de Abrão para Abraão como recompensa por ele ter passado no teste do monte.

    O que a Escritura traz

    A mudança de nome acontece no capítulo 17, cinco capítulos antes do episódio do monte, e está ligada à aliança e à promessa de descendência — não a nenhuma prova superada. O mesmo vale para Sarai, que se torna Sara na mesma passagem.

Onde essa pessoa aparece

Gênesis 12:1-4

1Porém o SENHOR disse a Abrão: Vai-te de tua terra e de tua parentela, e da casa de teu pai, à terra que te mostrarei;

2E farei de ti uma grande nação, e te abençoarei, e engrandecerei teu nome, e serás bênção:

3E abençoarei aos que te abençoarem, e aos que te amaldiçoarem amaldiçoarei: e serão benditas em ti todas as famílias da terra.

4E foi-se Abrão, como o SENHOR lhe disse; e foi com ele Ló: e era Abrão de idade de setenta e cinco anos quando saiu de Harã.

Tradução: Edição Chama da Fé

O chamado e a saída, com a idade registrada no fim do trecho. A ordem se abre em três círculos concêntricos — terra, parentela, casa —, e o destino permanece em aberto até o último momento.

Gênesis 15:5-6

5E tirou-lhe fora, e disse: Olha agora aos céus, e conta as estrelas, se as podes contar. E lhe disse: Assim será tua descendência.

6E creu ao SENHOR, e contou-lhe por justiça.

Tradução: Edição Chama da Fé

As estrelas e a frase sobre a fé considerada justiça. É o versículo que o Novo Testamento mais retoma quando discute Abraão, e é bom lê-lo aqui, no contexto original, antes de encontrá-lo citado em Paulo ou em Tiago.

Gênesis 17:4-5

4Quanto a mim, este é o meu pacto contigo: Serás pai de multidão de nações:

5E não se chamará mais teu nome Abrão, mas sim que será teu nome Abraão, porque te pus por pai de multidão de nações.

Tradução: Edição Chama da Fé

A aliança e a mudança de nome, no mesmo fôlego. O novo nome não descreve o que ele é naquele momento — ele ainda não tem filho da esposa — e sim o que foi prometido, o que faz do nome um lembrete diário da espera.

Gênesis 22:10-12

10E estendeu Abraão sua mão, e tomou a espada, para degolar a seu filho.

11Então o anjo do SENHOR lhe gritou do céu, e disse: Abraão, Abraão. E ele respondeu: Eis-me aqui.

12E disse: Não estendas tua mão sobre o jovem, nem lhe faças nada; que já conheço que temes a Deus, pois que não me recusaste o teu filho, o teu único;

Tradução: Edição Chama da Fé

A interrupção, no último gesto possível. Note que o motivo declarado olha para trás, para o que ficou demonstrado, e não oferece nenhuma justificativa para a ordem inicial — a pergunta que o leitor tem continua sem resposta no texto.

Gênesis 25:7-9

7E estes foram os dias de vida que viveu Abraão: cento e setenta e cinco anos.

8E expirou, e morreu Abraão em boa velhice, ancião e cheio de dias e foi unido a seu povo.

9E sepultaram-no Isaque e Ismael seus filhos na caverna de Macpela, na propriedade de Efrom, filho de Zoar Heteu, que está em frente de Manre;

Tradução: Edição Chama da Fé

A morte e o sepultamento. O detalhe que costuma passar despercebido é que os dois filhos enterram o pai juntos, apesar de tudo o que o Gênesis narrou entre eles.

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