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Quem foi Moisés?

Quando viveu Tradicionalmente situado por volta do século XIII a.C.

Em resumo

Moisés é a figura central dos quatro livros que vão do Êxodo ao Deuteronômio: o hebreu criado na corte egípcia que mata um egípcio, foge para o deserto, recebe um encargo diante de uma sarça em chamas, conduz o povo para fora do Egito, recebe a lei no Sinai e morre sem entrar na terra prometida.

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A história de Moisés é contada em quatro livros e ocupa quase um terço do Antigo Testamento. É a mais longa biografia da Bíblia hebraica, e também a mais difícil de datar: não há na documentação egípcia menção a esses acontecimentos, e as propostas de data variam em séculos. O que existe é o relato, e o relato é extraordinariamente detalhado.

Vale dizer de saída o que ele não é: uma trajetória de um homem seguro. Moisés discute, recusa, alega incapacidade, perde a paciência com o povo e, no fim, é impedido de entrar na terra para a qual passou quarenta anos caminhando. O texto guarda tudo isso.

A cesta no rio

O livro do Êxodo abre com um decreto de extermínio: os meninos hebreus recém-nascidos devem ser jogados no rio. Uma mãe esconde o filho por três meses e, quando já não consegue, faz o que a ordem manda e o contrário do que ela pretende — coloca o menino no rio, dentro de uma cesta calafetada.

A criança é achada pela filha do Faraó. A irmã, que estava de longe observando, se aproxima e oferece uma ama de leite hebreia: a própria mãe. O menino cresce na casa que o queria morto, e recebe da princesa egípcia o nome pelo qual todo mundo o conhece.

Êxodo 2:2-4

2A qual concebeu, e deu à luz um filho: e vendo-o que era belo, teve-lhe escondido três meses.

3Porém não podendo ocultar-lhe mais tempo, tomou uma cesta de juncos, e vedou-a com piche e betume, e colocou nela ao menino, e o pôs entre os juncos à beira do rio:

4E ficou parada uma irmã sua ao longe, para ver o que lhe aconteceria.

Tradução: Edição Chama da Fé

Repare que a cena é montada por mulheres, e que nenhuma delas é nomeada aqui: a mãe, a irmã e, no versículo seguinte, a filha do Faraó. O nome dos pais só aparece capítulos depois, numa genealogia.

O egípcio morto e a fuga

Adulto, Moisés sai para ver os seus e encontra um egípcio espancando um hebreu. Ele olha para os lados, confere que não há testemunha, mata o homem e esconde o corpo na areia. No dia seguinte, ao tentar separar dois hebreus que brigavam, ouve a pergunta que o denuncia: quem o tinha nomeado juiz? A notícia chega ao Faraó e ele foge.

Passa décadas em Midiã, casa-se com a filha de um sacerdote local, tem um filho e vira pastor. É pastoreando o rebanho do sogro que ele encontra a cena seguinte. Ou seja: entre a fuga e o chamado há uma vida inteira de anonimato, e o texto a resume em poucos versículos sem nenhum drama.

Êxodo 2:11-12

11E naqueles dias aconteceu que, crescido já Moisés, saiu a seus irmãos, e viu suas cargas: e observou a um egípcio que feria a um dos hebreus, seus irmãos.

12E olhou a todas as partes, e vendo que não parecia ninguém, matou ao egípcio, e escondeu-o na areia.

Tradução: Edição Chama da Fé

O detalhe de olhar em volta antes de agir é do texto, e é o que impede a leitura heroica: não é execução pública de um opressor, é um homicídio que ele tenta esconder.

A sarça que não se consumia

O sinal que chama a atenção de Moisés não é o fogo, é a duração dele: um arbusto que arde e não se acaba. Ele desvia do caminho para ver de perto, e é aí — depois de ele já ter parado — que é chamado pelo nome.

O que se segue é uma negociação, e é a parte que quase nunca entra nas recontagens. Moisés objeta cinco vezes. Não sabe quem é para ir; não sabe o que dizer se perguntarem o nome de quem o manda; acha que não vão acreditar nele; alega que não fala bem; e finalmente pede, sem argumento nenhum, que Deus mande outra pessoa. A resposta à segunda objeção é uma das frases mais discutidas da Bíblia inteira, e é a que dá nome ao Deus do Êxodo.

Êxodo 3:2-6

2E apareceu-lhe o anjo do SENHOR em uma chama de fogo em meio de uma sarça: e ele olhou, e viu que a sarça ardia em fogo, e a sarça não se consumia.

3Então Moisés disse: Irei eu agora, e verei esta grande visão, por que causa a sarça não se queima.

4E quando o SENHOR viu que ia ver, Deus o chamou do meio da sarça, e disse: Moisés, Moisés! E ele respondeu: Eis-me aqui.

5E disse: Não te aproximes daqui; tira teus calçados de teus pés, porque o lugar em que estás é terra santa.

6E disse: Eu sou o Deus de teu pai, Deus de Abraão, Deus de Isaque, Deus de Jacó. Então Moisés cobriu seu rosto, porque teve medo de olhar a Deus.

Tradução: Edição Chama da Fé

A sequência exata importa: primeiro o fogo, depois a curiosidade, depois o chamado, depois a ordem de tirar as sandálias. O lugar não era santo antes; passa a ser descrito assim na hora em que ele se aproxima.

Êxodo 4:10-12

10Então disse Moisés ao SENHOR: Ai Senhor! Eu não sou homem de palavras de ontem nem de anteontem, nem ainda desde que tu falas a teu servo; porque sou lento no fala e incômodo de língua.

11E o SENHOR lhe respondeu: Quem deu a boca ao homem? Ou quem fez ao mudo e ao surdo, ao que vai e ao cego? não sou eu, o SENHOR?

12Agora pois, vai, que eu serei em tua boca, e te ensinarei o que tenhas de falar.

Tradução: Edição Chama da Fé

A objeção sobre a fala, e a resposta a ela. Guarde este versículo: ele é o antídoto exato para a imagem de Moisés como orador nato, que a tradição visual construiu depois.

As pragas e a saída

A disputa com o Faraó se estende por sete capítulos e dez desastres, cada um com a mesma estrutura: o pedido, a recusa, o golpe, a promessa de ceder, o recuo. A última das pragas dá origem à Páscoa judaica — a refeição comida às pressas, com o sangue no umbral, na noite em que o povo sai.

A travessia do mar é narrada com mais sobriedade do que a memória popular guarda. O texto descreve Moisés estendendo a mão sobre a água e um vento forte soprando a noite inteira, até o leito ficar seco. É um relato de uma noite de trabalho do vento, não de um estalo de dedos.

Do outro lado vem o cântico, que é um dos textos poéticos mais antigos da Bíblia, e logo depois vem a primeira reclamação sobre falta de água. A distância entre as duas coisas, no texto, é de três dias.

O Sinai

No terceiro mês depois da saída, o povo acampa diante de uma montanha, e ali começa a parte mais longa do relato: as leis. Não são apenas os dez mandamentos — são capítulos e capítulos de legislação sobre altar, escravidão, dano, empréstimo, festas, tecido, incenso e sacerdócio.

No meio disso acontece o episódio do bezerro de ouro, com Moisés quebrando as tábuas ao descer e depois subindo de novo para uma segunda versão. Quando desce da segunda vez, o rosto dele está de tal modo alterado que o povo tem medo de se aproximar, e ele passa a cobri-lo para falar com as pessoas.

Êxodo 34:28-30

28E ele esteve ali com o SENHOR quarenta dias e quarenta noites: não comeu pão, nem bebeu água; e escreveu em tábuas as palavras da aliança, os dez dizeres.

29E aconteceu que, descendo Moisés do monte Sinai com as duas tábuas do testemunho em sua mão, enquanto descia do monte, não sabia ele que a pele de seu rosto resplandecia, depois que havia com ele falado.

30E olhou Arão e todos os filhos de Israel a Moisés, e eis que a pele de seu rosto era resplandescente; e tiveram medo de chegar-se a ele.

Tradução: Edição Chama da Fé

O texto que gerou o Moisés com chifres da arte medieval e renascentista. Nesta edição, como na maioria das modernas, o que o rosto dele faz é resplandecer — a leitura alternativa vem de uma escolha de tradução antiga, explicada no bloco abaixo.

Quarenta anos, e uma morte fora da terra

A geração que saiu do Egito não entra na terra. Depois do relatório dos espias, o povo se recusa a avançar, e o texto transforma essa recusa numa sentença de quarenta anos de caminhada até que aquela geração se acabe.

Moisés também não entra, e o motivo é um episódio breve e obscuro em Meribá, em que ele fere a rocha em vez de falar com ela. O último capítulo do Deuteronômio o coloca num monte, de onde ele vê a terra de longe, e o registra morto ali, em território moabita. O sepultamento é narrado sem que o texto diga quem sepultou, e a nota final é de que ninguém sabe onde fica o túmulo.

O livro fecha com um epitáfio que não tem paralelo no Antigo Testamento: nunca mais se levantou em Israel um profeta como ele.

O que o texto não diz

Personagens bíblicos acumulam camadas de tradição que a Escritura não sustenta. Separar as duas coisas não diminui a história — devolve a ela o que está de fato escrito.

  • O que se costuma dizer

    Moisés tinha chifres — é assim que ele aparece em estátuas e pinturas antigas.

    O que a Escritura traz

    O texto diz que, ao descer da montanha, a pele do rosto dele estava resplandecente, a ponto de o povo ter medo de chegar perto. É o que esta edição publica e o que praticamente todas as traduções modernas trazem.

    De onde vem: A Vulgata latina, de Jerônimo, verteu o verbo hebraico por uma palavra da mesma raiz de "chifre", e a arte ocidental leu isso literalmente durante séculos — o Moisés de Michelangelo, esculpido no início do século XVI para a igreja de São Pedro Acorrentado, em Roma, é o exemplo mais conhecido.

  • O que se costuma dizer

    Moisés escreveu os cinco primeiros livros da Bíblia, do começo ao fim.

    O que a Escritura traz

    Os cinco livros não trazem assinatura. O texto registra que Moisés escreveu trechos específicos — as palavras da aliança, um cântico, um relato de batalha —, e a atribuição do conjunto a ele é tradição antiga e amplamente respeitada, não uma declaração dos próprios livros. O último capítulo, aliás, narra a morte e o sepultamento dele e informa que o túmulo continua desconhecido, o que já foi notado por leitores judeus e cristãos há muitos séculos.

  • O que se costuma dizer

    Moisés ergueu o cajado e o mar se abriu em dois instantaneamente.

    O que a Escritura traz

    O relato descreve a mão estendida sobre a água e um vento forte do oriente soprando durante toda a noite, até o leito ficar seco. A cena instantânea, com duas paredes de água surgindo de uma vez, é da ilustração e do cinema; o texto trabalha com uma noite inteira de duração.

  • O que se costuma dizer

    Os Dez Mandamentos vêm numerados na Bíblia, e todo mundo os conta da mesma forma.

    O que a Escritura traz

    O capítulo 20 do Êxodo apresenta um bloco de palavras sem numeração nenhuma; é outro capítulo que informa que eram dez. A divisão em dez itens numerados foi feita depois, para o ensino, e não é a mesma em todas as tradições — católicos e luteranos seguem uma divisão, e ortodoxos, reformados e a maior parte das igrejas evangélicas seguem outra. Os dois grupos leem exatamente o mesmo texto; o que difere é onde cada um marca as fronteiras.

Onde essa pessoa aparece

Êxodo 3:13-14

13E disse Moisés a Deus: Eis que, quando eu chegar aos filhos de Israel, e lhes disser, O Deus de vossos pais me enviou a vós; se eles me perguntarem: Qual é seu nome? que lhes responderei?

14Deus respondeu a Moisés: EU SOU O QUE SOU. E disse: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós.

Tradução: Edição Chama da Fé

A pergunta pelo nome e a resposta a ela. O interesse aqui não é místico: numa cultura em que cada divindade tinha nome próprio, perguntar o nome era perguntar de quem se estava falando — e a resposta se recusa a entrar nessa lista.

Êxodo 14:21-22

21E estendeu Moisés sua mão sobre o mar, e fez o SENHOR que o mar se retirasse por forte vento oriental toda aquela noite; e tornou o mar em seco, e as águas restaram divididas.

22Então os filhos de Israel entraram por meio do mar em seco, tendo as águas como muro à sua direita e à sua esquerda;

Tradução: Edição Chama da Fé

A travessia, com os dois elementos que a memória popular costuma perder: o vento e a noite inteira. O muro de água aparece só no versículo seguinte ao do vento, e como descrição do resultado.

Êxodo 20:1-3

1E falou Deus todas estas palavras, dizendo:

2Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, de casa de servos.

3Não terás deuses alheios diante de mim.

Tradução: Edição Chama da Fé

A abertura da legislação do Sinai. Note que o primeiro elemento não é uma proibição: é uma apresentação, e ela se apoia num acontecimento histórico. A ordem importa, porque é ela que dá ao resto a forma de resposta e não de imposição avulsa.

Deuteronômio 34:5-7

5E morreu ali Moisés servo do SENHOR, na terra de Moabe, conforme o dito do SENHOR.

6E enterrou-o no vale, em terra de Moabe, em frente de Bete-Peor; e ninguém sabe seu sepulcro até hoje.

7E era Moisés de idade de cento e vinte anos quando morreu: seus olhos nunca se escureceram, nem perdeu o seu vigor.

Tradução: Edição Chama da Fé

A morte em território moabita, o sepultamento sem sepultador nomeado e a informação de que o local continua desconhecido. É um final deliberadamente sem monumento, e vale contrastá-lo com o que qualquer cultura vizinha fazia com o túmulo de um fundador.

Deuteronômio 34:10-12

10E nunca mais se levantou profeta em Israel como Moisés, a quem haja conhecido o SENHOR face a face;

11Em todos os sinais e prodígios que lhe enviou o SENHOR a fazer em terra do Egito a Faraó, e a todos os seus servos, e a toda sua terra;

12E em toda aquela mão poderosa, e em todo o grande espanto que Moisés causou à vista de todo Israel.

Tradução: Edição Chama da Fé

O epitáfio, escrito por outra mão que não a dele. É a avaliação final do personagem dentro do próprio cânon, e ela é comparativa: mede Moisés contra todos os profetas que vieram depois.

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