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Quem foi Maria Madalena?

Quando viveu Primeiro século, na Galileia e em Jerusalém

Em resumo

Maria Madalena é a mulher que os Evangelhos apresentam seguindo Jesus desde a Galileia e sustentando o grupo com os próprios recursos, presente na crucificação, e a primeira a quem o Ressuscitado aparece — com a incumbência de anunciar aos outros discípulos. A Escritura nunca a chama de prostituta.

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Se você procurar por Maria Madalena em português, vai encontrar centenas de páginas repetindo que ela era prostituta. A Bíblia não diz isso em lugar nenhum — nem nos quatro Evangelhos, nem nas cartas, nem em nenhum outro livro. A associação tem data, tem autor e tem endereço, e está explicada mais abaixo.

O que os textos trazem é outra coisa, e é bem mais interessante. Ela aparece nos quatro Evangelhos, sempre com o mesmo nome, sempre em primeiro lugar quando aparece num grupo de mulheres. Está no financiamento do grupo, na cruz, no sepultamento e no túmulo. E é a primeira pessoa a quem o Ressuscitado aparece em três dos quatro relatos.

O que o nome dela diz

Maria era um dos nomes mais comuns entre as judias do primeiro século, e por isso os Evangelhos precisam distinguir umas das outras. Fazem isso por parentesco — Maria mãe de Tiago, Maria mulher de Cleofas — ou por lugar de origem. É esse o caso dela: Madalena não é sobrenome nem título, é gentílico. Ela era de Magdala, povoado de pescadores na margem oeste do mar da Galileia.

A outra coisa que o texto informa sobre o passado dela é que sete demônios haviam saído dela. Vale entender como os Evangelhos usam essa linguagem: ela descreve aflição, doença e possessão — em nenhum lugar do Novo Testamento a expulsão de demônios é usada para descrever perdão de pecado sexual. O número sete indica gravidade, e o que se conclui dali é que ela vinha de um sofrimento sério.

As mulheres que sustentavam o grupo

O terceiro capítulo em que ela aparece traz uma informação econômica que costuma passar batida. Lucas registra que Jesus percorria cidades e povoados com os Doze e também com um grupo de mulheres, e que essas mulheres serviam ao grupo com seus próprios bens.

A frase é curta e diz muito. Primeiro, que havia mulheres viajando com o grupo, o que não era trivial. Segundo, que elas tinham bens próprios — ou seja, alguma independência financeira. Terceiro, que a operação inteira dependia disso. Maria Madalena é a primeira nomeada nessa lista.

Na cruz e no sepultamento

Os relatos da crucificação divergem em vários detalhes, e concordam num: havia mulheres ali, e Maria Madalena era uma delas. Marcos as coloca observando de longe e acrescenta que o seguiam e o serviam desde a Galileia. João a coloca junto à cruz, ao lado da mãe de Jesus.

Marcos registra também que ela e outra Maria viram onde o corpo foi colocado — detalhe que o narrador insere porque será necessário depois. E, passado o sábado, são elas que compram especiarias e voltam.

Vale dizer o que isso significa em contexto. Naquele momento, estar identificada publicamente com um homem executado por sedição era assumir risco. Os Evangelhos registram que a maior parte dos discípulos homens não estava lá.

Marcos 15:47

47Maria Madalena e Maria mãe de José olharam onde o puseram.

Tradução: Edição Chama da Fé

Um versículo aparentemente burocrático, e é justamente aí que está o peso: o narrador precisa estabelecer que elas sabiam o endereço do túmulo, porque a cena do domingo depende disso.

No sepulcro

Os quatro Evangelhos a colocam no túmulo na manhã de domingo. João conta a cena mais longa e mais estranha: ela chega sozinha quando ainda estava escuro, encontra a pedra removida, corre para avisar Pedro e o outro discípulo, os dois vêm, olham e vão embora — e ela fica.

É ficando que ela vê. O texto registra que ela chorava, que confundiu a pessoa com o jardineiro, e que o reconhecimento acontece quando o próprio nome dela é dito. Depois vem a instrução: ir até os outros e contar.

Aí está o núcleo da coisa. Numa cultura em que o testemunho de mulheres tinha peso jurídico reduzido, os quatro Evangelhos escolhem colocar mulheres como primeiras testemunhas do episódio que sustenta tudo. Se o objetivo fosse convencer, teria sido mais eficiente escolher outras testemunhas. Esse é, aliás, um dos argumentos mais citados a favor da antiguidade do relato.

A confusão das três mulheres

Nos Evangelhos há três figuras distintas que a tradição posterior acabou fundindo numa só.

A primeira é Maria Madalena, apresentada em Lucas 8 e presente na paixão e na ressurreição. A segunda é Maria de Betânia, irmã de Marta e de Lázaro, que em João 12 derrama perfume sobre os pés dele e os seca com os próprios cabelos. A terceira é uma mulher da cidade, não nomeada, descrita como pecadora, que faz um gesto parecido na casa de um fariseu, em Lucas 7.

Nenhum texto liga as três. Elas aparecem em contextos diferentes, em capítulos diferentes, e duas delas nem sequer são nomeadas junto. Quem fez a fusão, e quando, está registrado no bloco abaixo — e é uma das raras vezes em que a origem de um acréscimo tradicional pode ser apontada com precisão de data.

Lucas 7:37-38

37E eis que uma mulher da cidade, que era pecadora, quando soube que ele estava na casa do fariseu, trouxe um vaso de alabastro de óleo perfumado.

38E estando atrás, aos seus pés, chorando, começou a molhar-lhe os pés com lágrimas; e os enxugava com os cabelos da sua cabeça; e beijava-lhe os pés, e os ungia com o óleo perfumado.

Tradução: Edição Chama da Fé

A mulher da cidade, na casa do fariseu. Repare que o texto não a nomeia em momento algum, e que o capítulo seguinte, ao apresentar Maria Madalena, não faz nenhuma referência a esta cena.

João 12:3

3Tomando então Maria um arrátel de óleo perfumado de nardo puro, de muito preço, ungiu os pés de Jesus, e limpou os pés dele com seus cabelos; e encheu-se a casa do cheiro do óleo perfumado.

Tradução: Edição Chama da Fé

Maria de Betânia, irmã de Marta e de Lázaro, num episódio diferente e com outra finalidade declarada. É dela que vem a imagem dos cabelos, e ela é identificada pelo nome e pela família.

Apóstola dos apóstolos

Há um dado da tradição que vale contrapor ao outro, porque é igualmente antigo e circula muito menos: Maria Madalena é chamada de apóstola dos apóstolos na tradição latina desde a Idade Média — Tomás de Aquino usa a expressão ao comentar o Evangelho de João —, justamente porque foi enviada a anunciar aos enviados.

Em 2016, a Igreja Católica elevou a celebração dela, em 22 de julho, de memória a festa, equiparando-a às dos apóstolos. As igrejas ortodoxas, que nunca fizeram a fusão das três mulheres, a chamam de portadora de mirra e igual aos apóstolos há muito mais tempo.

Ou seja: a tradição não é homogênea. Ela contém a confusão que apagou a biografia dela e contém também o reconhecimento do lugar que os textos lhe dão. Este segundo lado quase nunca chega a quem procura o nome dela na internet.

O que o texto não diz

Personagens bíblicos acumulam camadas de tradição que a Escritura não sustenta. Separar as duas coisas não diminui a história — devolve a ela o que está de fato escrito.

  • O que se costuma dizer

    Maria Madalena era prostituta, e foi por isso que Jesus a perdoou.

    O que a Escritura traz

    A Escritura não diz isso em lugar nenhum. Nenhum dos quatro Evangelhos, nenhuma carta, nenhum outro livro. O único dado sobre o passado dela é que sete demônios haviam saído dela — linguagem que o Novo Testamento usa para aflição e doença, nunca para pecado sexual. O que os textos afirmam é que ela seguia Jesus desde a Galileia, que sustentava o grupo com bens próprios, que esteve na cruz e no sepultamento, e que foi enviada a anunciar a ressurreição aos outros discípulos.

    De onde vem: A associação vem de uma homilia de Gregório Magno pregada em Roma em 591, que juntou numa só pessoa Maria Madalena, Maria de Betânia e a mulher pecadora não nomeada de Lucas 7, e interpretou os sete demônios como os sete vícios capitais. A fusão pegou no Ocidente latino e organizou a iconografia dos séculos seguintes. As igrejas do Oriente nunca a fizeram, e mantiveram as três separadas. A reforma do calendário romano de 1969 deixou de apresentá-la como penitente.

  • O que se costuma dizer

    Ela é a mulher adúltera que iam apedrejar.

    O que a Escritura traz

    São duas mulheres diferentes. A do episódio do apedrejamento não é nomeada em nenhum momento, e o trecho está no Evangelho de João, em outro contexto e sem nenhuma ligação com Maria Madalena, que é apresentada em Lucas. Nada no texto liga uma à outra.

  • O que se costuma dizer

    Foi ela quem derramou perfume sobre os pés de Jesus e os secou com os cabelos.

    O que a Escritura traz

    Esse gesto é narrado duas vezes, e em nenhuma das duas a protagonista é Maria Madalena. Uma vez é a mulher não nomeada da casa do fariseu, em Lucas 7; outra é Maria de Betânia, irmã de Marta e de Lázaro, em João 12. Maria Madalena não aparece em nenhuma das duas cenas.

  • O que se costuma dizer

    Ela era casada com Jesus e teve filhos com ele.

    O que a Escritura traz

    Nenhum texto do Novo Testamento sugere isso, nem em afirmação nem em insinuação.

    De onde vem: A ideia circula por duas vias. A primeira é a ficção moderna, sobretudo romances e filmes das últimas décadas. A segunda é o Evangelho de Filipe, texto copta do século III encontrado em Nag Hammadi em 1945, que não pertence a nenhum cânon cristão e que descreve uma proximidade entre os dois — no manuscrito, aliás, a palavra decisiva da frase mais citada está numa parte danificada e não pode ser lida.

Onde essa pessoa aparece

Lucas 8:1-3

1E aconteceu depois disso, que Jesus andava de cidade em cidade, e de aldeia em aldeia, pregando e anunciando o evangelho do reino de Deus; e com ele os doze,

2e algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual saíram sete demônios;

3e Joana, a mulher de Cuza, mordomo de Herodes; e Susana, e muitas outras, que lhe serviam com seus bens.

Tradução: Edição Chama da Fé

A apresentação dela, e a única informação que a Bíblia dá sobre o passado dela. Leia os três versículos juntos: eles mostram um grupo itinerante em que os Doze e um conjunto de mulheres com recursos próprios aparecem lado a lado, e Maria Madalena é a primeira nomeada.

Marcos 15:40-41

40E também estavam ali algumas mulheres olhando de longe, entre as quais estava também Maria Madalena, e Maria (mãe de Tiago o menor e de José), e Salomé;

41as quais, quando ele estava na Galileia, o seguiam, e o serviam; e outras muitas, que haviam subido com ele a Jerusalém.

Tradução: Edição Chama da Fé

As mulheres na crucificação, e a observação de que o acompanhavam desde a Galileia. A segunda metade do trecho é o que transforma a presença delas ali de coincidência em trajetória.

João 19:25

25E estavam junto à cruz de Jesus, sua mãe, e a irmã de sua mãe, Maria mulher de Cleofas, e Maria Madalena.

Tradução: Edição Chama da Fé

A lista de quem está junto à cruz no relato de João, e Maria Madalena aparece nela. Vale comparar com Marcos, que coloca as mulheres observando de longe: as duas versões existem, e a diferença é do texto.

João 20:15-18

15Disse-lhe Jesus: Mulher, por que choras? A quem buscas? Ela, pensando que era o jardineiro, disse-lhe: Senhor, se tu o levaste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei.

16Disse-lhe Jesus: Maria! Ela, virando-se, disse-lhe: Rabôni! (que quer dizer Mestre).

17Disse-lhe Jesus: Não me toques; porque ainda não subi para o meu Pai; porém vai a meus irmãos, e dize- lhes: Subo para meu Pai, e para vosso Pai; para meu Deus, e para vosso Deus.

18Veio Maria Madalena, e anunciou aos discípulos, que vira ao Senhor, e que estas coisas lhe dissera.

Tradução: Edição Chama da Fé

A cena do jardim inteira: a confusão, o nome dito, o reconhecimento e o envio. O último versículo é o que dá a ela o lugar que a tradição resumiu na expressão apóstola dos apóstolos.

Mateus 28:9-10

9E eis que Jesus veio ao encontro delas, e disse: Saudações. Elas se aproximaram, pegaram os pés dele, e o adoraram.

10Jesus, então, lhes disse: Não temais. Ide anunciar aos meus irmãos para eles irem à Galileia, e ali me verão.

Tradução: Edição Chama da Fé

A versão de Mateus do mesmo momento, com as mulheres recebendo a mesma incumbência de avisar os outros. Ter dois relatos independentes atribuindo a elas o primeiro anúncio é o que torna esse dado difícil de dispensar.

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