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Quem foi Tomé?

Quando viveu Primeiro século, entre os doze apóstolos

Em resumo

Tomé é um dos Doze, chamado Dídimo, que aparece em três cenas do Evangelho de João: propondo ir morrer junto com Jesus, dizendo que não sabe o caminho, e recusando acreditar na ressurreição sem ver. Oito dias depois, faz a confissão mais direta de todo o Evangelho.

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Poucos personagens bíblicos foram tão reduzidos a uma palavra quanto Tomé. Em português, "tomé" virou substantivo comum para descrever quem só acredita vendo — o que é curioso, porque essa não é a única coisa que ele faz no Evangelho, nem sequer a mais marcante.

Ele aparece nas listas dos Doze nos quatro Evangelhos e nos Atos, mas só ganha fala no Evangelho de João, e em três momentos. Vale ler os três, porque juntos formam um retrato bem diferente do apelido.

O apelido, e o que ele quer dizer

João o apresenta três vezes com o mesmo acréscimo: Tomé, chamado Dídimo. A palavra é grega e significa gêmeo — e, curiosamente, o nome Tomé vem de uma palavra aramaica que significa a mesma coisa. É como se o texto trouxesse o apelido em dois idiomas, um traduzindo o outro.

De quem ele seria gêmeo, o Evangelho não diz. A tradição posterior tentou preencher o vazio de várias maneiras, e nenhuma delas se apoia no texto.

A primeira cena: vamos também nós

A primeira fala de Tomé é a que ninguém cita, e é impressionante. Jesus anuncia que vai voltar à Judeia, região de onde tinha acabado de escapar de um apedrejamento, porque Lázaro morreu. O grupo hesita: os discípulos lembram, em voz alta, que da última vez tentaram matá-lo ali.

É Tomé quem resolve a hesitação, e resolve para o lado mais arriscado: propõe que todos vão junto para morrer com ele. Não é uma fala de dúvida. É uma fala de quem já calculou o desfecho e decidiu ir mesmo assim.

Guarde essa cena. Ela é o contrapeso exato ao apelido que ele carrega há dois mil anos.

João 11:14-16

14Então pois lhes disse Jesus claramente: Lázaro está morto.

15E me alegro, por causa de vós, que eu não estivesse lá, para que creiais; porém vamos até ele.

16Disse pois Tomé, chamado o Dídimo, aos colegas discípulos: Vamos nós também, para que com ele morramos.

Tradução: Edição Chama da Fé

Três versículos: o anúncio da morte de Lázaro, o convite a ir e a resposta de Tomé. Leia o capítulo desde o começo para captar o peso da proposta — a região é exatamente aquela de onde tinham acabado de sair correndo.

A segunda cena: a pergunta que destrava tudo

Na última ceia, Jesus fala em ir preparar um lugar e diz que eles sabem o caminho. Tomé interrompe com uma objeção prática: não sabem para onde ele vai, então como poderiam saber o caminho?

A resposta a essa pergunta é uma das frases mais conhecidas do Novo Testamento. Ou seja: a interrupção dele é o que produz o texto. É o padrão do Evangelho de João — alguém entende mal, pergunta, e a pergunta abre espaço para a resposta que o leitor precisava.

João 14:5-6

5Disse-lhe Tomé: Senhor, não sabemos para onde vais; e como podemos saber o caminho?

6Jesus lhe disse: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim.

Tradução: Edição Chama da Fé

A pergunta e a resposta, coladas. Vale notar que Tomé não está duvidando de nada aqui: está admitindo que não entendeu, que é uma coisa bem diferente e bem mais rara.

A terceira cena: os oito dias

Tomé não estava presente quando o grupo viu Jesus pela primeira vez. Quando contam, ele estabelece uma condição — quer ver as marcas e tocá-las — e o texto registra a recusa em termos categóricos.

O que costuma passar despercebido é o intervalo. O texto diz que passaram oito dias até a cena seguinte. Oito dias em que todos ao redor tinham visto e ele não; oito dias convivendo com gente convencida de uma coisa que ele considerava impossível.

Quando Jesus aparece, ele se dirige diretamente a Tomé e oferece exatamente o que tinha sido exigido, com as mesmas palavras. E aqui está o detalhe que quase nenhuma reprodução da cena respeita: o texto não diz que Tomé tocou. Diz que ele respondeu — e a resposta é a confissão mais direta que qualquer personagem faz no Evangelho de João.

E ele não foi o único

Vale colocar a dúvida dele ao lado da dos outros, porque o apelido sugere que ele foi exceção, e não foi.

Lucas registra que, quando as mulheres voltaram do túmulo, as palavras delas pareceram aos apóstolos algo sem sentido, e eles não acreditaram. Mateus termina o Evangelho com uma cena no monte da Galileia em que os onze adoram — e acrescenta, sem explicar, que alguns duvidaram. Ali eles estavam vendo.

Ou seja: a dificuldade de acreditar aparece em todos os relatos e em quase todos os personagens. Tomé é o único que teve a dele registrada com nome, diálogo e prazo.

A Índia

Depois dos Atos, em que ele aparece apenas numa lista, o Novo Testamento não diz mais nada sobre Tomé. A tradição mais forte sobre o resto da vida dele é a de que teria pregado no oriente e chegado à Índia.

Isso tem uma base concreta que vale respeitar: existe no sul da Índia, sobretudo no atual estado de Kerala, uma comunidade cristã antiquíssima que se identifica como fundada por ele e que carrega o nome dele. A tradição é viva, tem liturgia própria e séculos de continuidade.

O que não existe é texto bíblico sobre isso. A narrativa da missão na Índia vem dos Atos de Tomé, escrito em siríaco no século III, que não pertence a nenhum cânon. Registrar a diferença não desqualifica a tradição — só diz de onde ela vem.

O que o texto não diz

Personagens bíblicos acumulam camadas de tradição que a Escritura não sustenta. Separar as duas coisas não diminui a história — devolve a ela o que está de fato escrito.

  • O que se costuma dizer

    Tomé pôs o dedo na chaga para acreditar.

    O que a Escritura traz

    O texto narra a oferta e a resposta, e não o gesto. Jesus convida Tomé a estender a mão; o versículo seguinte registra a confissão dele. Não há em João nenhuma frase dizendo que ele tocou.

    De onde vem: A imagem do dedo na ferida vem da pintura. Ela existe na arte medieval e ficou definitiva com a tela de Caravaggio no começo do século XVII, em que três apóstolos se debruçam sobre o ferimento e o dedo aparece dentro dele. É uma das cenas mais reproduzidas da história da arte ocidental, e o que a maior parte das pessoas lembra ao ler o capítulo é o quadro, não o texto.

  • O que se costuma dizer

    Tomé era o cético do grupo, o único que não acreditava.

    O que a Escritura traz

    A primeira fala dele em João é uma proposta de ir morrer junto com Jesus. E a dificuldade de acreditar não é exclusividade dele: Lucas registra que os apóstolos consideraram sem sentido o relato das mulheres, e Mateus registra que, mesmo diante do Ressuscitado na Galileia, alguns duvidaram. O que distingue Tomé é ter a cena inteira preservada com nome e diálogo.

  • O que se costuma dizer

    Tomé escreveu o Evangelho de Tomé.

    O que a Escritura traz

    O Novo Testamento não atribui nenhum escrito a ele.

    De onde vem: O chamado Evangelho de Tomé é uma coletânea de ditos, provavelmente do século II, encontrada em cópia copta em Nag Hammadi, no Egito, em 1945. O texto se apresenta sob o nome dele, o que era prática comum na literatura antiga, mas não é obra dele e não faz parte de nenhum cânon cristão.

  • O que se costuma dizer

    Tomé evangelizou a Índia — está na Bíblia.

    O que a Escritura traz

    Não está. O último registro bíblico sobre Tomé é o nome dele numa lista, no primeiro capítulo dos Atos. Nada além disso.

    De onde vem: A missão na Índia é narrada nos Atos de Tomé, texto siríaco do século III que não integra nenhum cânon. Ela é sustentada também por uma comunidade cristã antiquíssima no sul da Índia, que se identifica como fundada por ele. A tradição é antiga e continua viva; o que ela não é, é texto bíblico.

Onde essa pessoa aparece

João 20:24-25

24E a Tomé, um dos doze, chamado o Dídimo, não estava com eles, quando Jesus veio.

25Disseram-lhe pois os outros discípulos: Vimos ao Senhor. Porém ele lhes disse: Se em suas mãos não vir o sinal dos cravos, e não pôr meu dedo no lugar dos cravos, e não pôr minha mão em seu lado, em maneira nenhuma crerei.

Tradução: Edição Chama da Fé

A ausência dele na primeira aparição e a condição que ele impõe. Note que a exigência é dupla — ver e tocar — e que ele a formula com uma negativa forte, sem deixar margem.

João 20:26-29

26E oito dias depois, estavam os discípulos outra vez dentro, e com eles Tomé; e veio Jesus, fechadas já as portas, e pôs-se no meio, e disse: Tenhais paz!

27Depois disse a Tomé: Põe teu dedo aqui, e vê minhas mãos; e chega tua mão, e toca-a em meu lado; e não sejas incrédulo, mas sim crente.

28E respondeu Tomé e disse-lhe: Senhor meu, e Deus meu!

29Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados aqueles que não virem, e crerem.

Tradução: Edição Chama da Fé

A cena inteira, e vale lê-la devagar. Jesus oferece exatamente o que foi exigido, repetindo os termos; o versículo seguinte registra a resposta de Tomé, sem descrever gesto nenhum. E a frase final desloca o assunto para quem vai ler depois.

Lucas 24:10-11

10E eram Maria Madalena, e Joana, e Maria mãe de Tiago, e as outras que estavam com elas, que diziam estas coisas aos apóstolos.

11E para eles, as palavras delas pareciam não ter sentido; e não creram nelas.

Tradução: Edição Chama da Fé

A reação dos apóstolos ao relato das mulheres, na manhã de domingo. É o contexto que falta para julgar Tomé com justiça: a incredulidade era geral, e ele nem estava na sala.

Mateus 28:16-17

16Os onze discípulos se foram para a Galileia, ao monte onde Jesus havia lhes ordenado.

17E quando o viram, o adoraram; porém alguns duvidaram.

Tradução: Edição Chama da Fé

O fim do Evangelho de Mateus, com uma frase que costuma escapar: no monte da Galileia, diante do Ressuscitado, alguns duvidaram. O texto registra e não explica, e é um dos indícios de honestidade mais fortes que os Evangelhos oferecem.

Atos 1:13

13E ao entrarem, subiram ao cômodo superior, onde ficaram Pedro, Tiago, João, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago filho de Alfeu, Simão Zelote e Judas irmão de Tiago.

Tradução: Edição Chama da Fé

A última menção a Tomé no Novo Testamento, e é apenas um nome numa lista. Tudo o que se conta sobre ele depois disso vem de outras fontes, e vale saber quais.

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