Quem foi Tomé?
Quando viveu Primeiro século, entre os doze apóstolos
Em resumo
Tomé é um dos Doze, chamado Dídimo, que aparece em três cenas do Evangelho de João: propondo ir morrer junto com Jesus, dizendo que não sabe o caminho, e recusando acreditar na ressurreição sem ver. Oito dias depois, faz a confissão mais direta de todo o Evangelho.
- Escrito por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
- Revisado por
- Raphael Navarro Schmitt
- Publicado em
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Poucos personagens bíblicos foram tão reduzidos a uma palavra quanto Tomé. Em português, "tomé" virou substantivo comum para descrever quem só acredita vendo — o que é curioso, porque essa não é a única coisa que ele faz no Evangelho, nem sequer a mais marcante.
Ele aparece nas listas dos Doze nos quatro Evangelhos e nos Atos, mas só ganha fala no Evangelho de João, e em três momentos. Vale ler os três, porque juntos formam um retrato bem diferente do apelido.
O apelido, e o que ele quer dizer
João o apresenta três vezes com o mesmo acréscimo: Tomé, chamado Dídimo. A palavra é grega e significa gêmeo — e, curiosamente, o nome Tomé vem de uma palavra aramaica que significa a mesma coisa. É como se o texto trouxesse o apelido em dois idiomas, um traduzindo o outro.
De quem ele seria gêmeo, o Evangelho não diz. A tradição posterior tentou preencher o vazio de várias maneiras, e nenhuma delas se apoia no texto.
A primeira cena: vamos também nós
A primeira fala de Tomé é a que ninguém cita, e é impressionante. Jesus anuncia que vai voltar à Judeia, região de onde tinha acabado de escapar de um apedrejamento, porque Lázaro morreu. O grupo hesita: os discípulos lembram, em voz alta, que da última vez tentaram matá-lo ali.
É Tomé quem resolve a hesitação, e resolve para o lado mais arriscado: propõe que todos vão junto para morrer com ele. Não é uma fala de dúvida. É uma fala de quem já calculou o desfecho e decidiu ir mesmo assim.
Guarde essa cena. Ela é o contrapeso exato ao apelido que ele carrega há dois mil anos.
14Então pois lhes disse Jesus claramente: Lázaro está morto.
15E me alegro, por causa de vós, que eu não estivesse lá, para que creiais; porém vamos até ele.
16Disse pois Tomé, chamado o Dídimo, aos colegas discípulos: Vamos nós também, para que com ele morramos.
Três versículos: o anúncio da morte de Lázaro, o convite a ir e a resposta de Tomé. Leia o capítulo desde o começo para captar o peso da proposta — a região é exatamente aquela de onde tinham acabado de sair correndo.
A segunda cena: a pergunta que destrava tudo
Na última ceia, Jesus fala em ir preparar um lugar e diz que eles sabem o caminho. Tomé interrompe com uma objeção prática: não sabem para onde ele vai, então como poderiam saber o caminho?
A resposta a essa pergunta é uma das frases mais conhecidas do Novo Testamento. Ou seja: a interrupção dele é o que produz o texto. É o padrão do Evangelho de João — alguém entende mal, pergunta, e a pergunta abre espaço para a resposta que o leitor precisava.
5Disse-lhe Tomé: Senhor, não sabemos para onde vais; e como podemos saber o caminho?
6Jesus lhe disse: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida. Ninguém vem ao Pai, a não ser por mim.
A pergunta e a resposta, coladas. Vale notar que Tomé não está duvidando de nada aqui: está admitindo que não entendeu, que é uma coisa bem diferente e bem mais rara.
A terceira cena: os oito dias
Tomé não estava presente quando o grupo viu Jesus pela primeira vez. Quando contam, ele estabelece uma condição — quer ver as marcas e tocá-las — e o texto registra a recusa em termos categóricos.
O que costuma passar despercebido é o intervalo. O texto diz que passaram oito dias até a cena seguinte. Oito dias em que todos ao redor tinham visto e ele não; oito dias convivendo com gente convencida de uma coisa que ele considerava impossível.
Quando Jesus aparece, ele se dirige diretamente a Tomé e oferece exatamente o que tinha sido exigido, com as mesmas palavras. E aqui está o detalhe que quase nenhuma reprodução da cena respeita: o texto não diz que Tomé tocou. Diz que ele respondeu — e a resposta é a confissão mais direta que qualquer personagem faz no Evangelho de João.
E ele não foi o único
Vale colocar a dúvida dele ao lado da dos outros, porque o apelido sugere que ele foi exceção, e não foi.
Lucas registra que, quando as mulheres voltaram do túmulo, as palavras delas pareceram aos apóstolos algo sem sentido, e eles não acreditaram. Mateus termina o Evangelho com uma cena no monte da Galileia em que os onze adoram — e acrescenta, sem explicar, que alguns duvidaram. Ali eles estavam vendo.
Ou seja: a dificuldade de acreditar aparece em todos os relatos e em quase todos os personagens. Tomé é o único que teve a dele registrada com nome, diálogo e prazo.
A Índia
Depois dos Atos, em que ele aparece apenas numa lista, o Novo Testamento não diz mais nada sobre Tomé. A tradição mais forte sobre o resto da vida dele é a de que teria pregado no oriente e chegado à Índia.
Isso tem uma base concreta que vale respeitar: existe no sul da Índia, sobretudo no atual estado de Kerala, uma comunidade cristã antiquíssima que se identifica como fundada por ele e que carrega o nome dele. A tradição é viva, tem liturgia própria e séculos de continuidade.
O que não existe é texto bíblico sobre isso. A narrativa da missão na Índia vem dos Atos de Tomé, escrito em siríaco no século III, que não pertence a nenhum cânon. Registrar a diferença não desqualifica a tradição — só diz de onde ela vem.
O que o texto não diz
Personagens bíblicos acumulam camadas de tradição que a Escritura não sustenta. Separar as duas coisas não diminui a história — devolve a ela o que está de fato escrito.
O que se costuma dizer
Tomé pôs o dedo na chaga para acreditar.
O que a Escritura traz
O texto narra a oferta e a resposta, e não o gesto. Jesus convida Tomé a estender a mão; o versículo seguinte registra a confissão dele. Não há em João nenhuma frase dizendo que ele tocou.
De onde vem: A imagem do dedo na ferida vem da pintura. Ela existe na arte medieval e ficou definitiva com a tela de Caravaggio no começo do século XVII, em que três apóstolos se debruçam sobre o ferimento e o dedo aparece dentro dele. É uma das cenas mais reproduzidas da história da arte ocidental, e o que a maior parte das pessoas lembra ao ler o capítulo é o quadro, não o texto.
O que se costuma dizer
Tomé era o cético do grupo, o único que não acreditava.
O que a Escritura traz
A primeira fala dele em João é uma proposta de ir morrer junto com Jesus. E a dificuldade de acreditar não é exclusividade dele: Lucas registra que os apóstolos consideraram sem sentido o relato das mulheres, e Mateus registra que, mesmo diante do Ressuscitado na Galileia, alguns duvidaram. O que distingue Tomé é ter a cena inteira preservada com nome e diálogo.
O que se costuma dizer
Tomé escreveu o Evangelho de Tomé.
O que a Escritura traz
O Novo Testamento não atribui nenhum escrito a ele.
De onde vem: O chamado Evangelho de Tomé é uma coletânea de ditos, provavelmente do século II, encontrada em cópia copta em Nag Hammadi, no Egito, em 1945. O texto se apresenta sob o nome dele, o que era prática comum na literatura antiga, mas não é obra dele e não faz parte de nenhum cânon cristão.
O que se costuma dizer
Tomé evangelizou a Índia — está na Bíblia.
O que a Escritura traz
Não está. O último registro bíblico sobre Tomé é o nome dele numa lista, no primeiro capítulo dos Atos. Nada além disso.
De onde vem: A missão na Índia é narrada nos Atos de Tomé, texto siríaco do século III que não integra nenhum cânon. Ela é sustentada também por uma comunidade cristã antiquíssima no sul da Índia, que se identifica como fundada por ele. A tradição é antiga e continua viva; o que ela não é, é texto bíblico.
Onde essa pessoa aparece
24E a Tomé, um dos doze, chamado o Dídimo, não estava com eles, quando Jesus veio.
25Disseram-lhe pois os outros discípulos: Vimos ao Senhor. Porém ele lhes disse: Se em suas mãos não vir o sinal dos cravos, e não pôr meu dedo no lugar dos cravos, e não pôr minha mão em seu lado, em maneira nenhuma crerei.
A ausência dele na primeira aparição e a condição que ele impõe. Note que a exigência é dupla — ver e tocar — e que ele a formula com uma negativa forte, sem deixar margem.
26E oito dias depois, estavam os discípulos outra vez dentro, e com eles Tomé; e veio Jesus, fechadas já as portas, e pôs-se no meio, e disse: Tenhais paz!
27Depois disse a Tomé: Põe teu dedo aqui, e vê minhas mãos; e chega tua mão, e toca-a em meu lado; e não sejas incrédulo, mas sim crente.
28E respondeu Tomé e disse-lhe: Senhor meu, e Deus meu!
29Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados aqueles que não virem, e crerem.
A cena inteira, e vale lê-la devagar. Jesus oferece exatamente o que foi exigido, repetindo os termos; o versículo seguinte registra a resposta de Tomé, sem descrever gesto nenhum. E a frase final desloca o assunto para quem vai ler depois.
10E eram Maria Madalena, e Joana, e Maria mãe de Tiago, e as outras que estavam com elas, que diziam estas coisas aos apóstolos.
11E para eles, as palavras delas pareciam não ter sentido; e não creram nelas.
A reação dos apóstolos ao relato das mulheres, na manhã de domingo. É o contexto que falta para julgar Tomé com justiça: a incredulidade era geral, e ele nem estava na sala.
16Os onze discípulos se foram para a Galileia, ao monte onde Jesus havia lhes ordenado.
17E quando o viram, o adoraram; porém alguns duvidaram.
O fim do Evangelho de Mateus, com uma frase que costuma escapar: no monte da Galileia, diante do Ressuscitado, alguns duvidaram. O texto registra e não explica, e é um dos indícios de honestidade mais fortes que os Evangelhos oferecem.
13E ao entrarem, subiram ao cômodo superior, onde ficaram Pedro, Tiago, João, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago filho de Alfeu, Simão Zelote e Judas irmão de Tiago.
A última menção a Tomé no Novo Testamento, e é apenas um nome numa lista. Tudo o que se conta sobre ele depois disso vem de outras fontes, e vale saber quais.