Quem foi Paulo?
Quando viveu Primeiro século, entre os anos 30 e 60 aproximadamente
Em resumo
Paulo é o nome que encabeça treze cartas do Novo Testamento e o personagem central da segunda metade dos Atos. Fariseu de Tarso, começou perseguindo os cristãos, teve uma experiência na estrada de Damasco que inverteu tudo, e passou o resto da vida viajando pelo Mediterrâneo e escrevendo cartas.
- Escrito por
- Raphael Navarro Schmitt
- Revisado por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
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Paulo é o autor mais influente do cristianismo depois dos evangelistas, e é também o mais discutido. Ele aparece de duas formas no Novo Testamento: como personagem, nos Atos, e como voz, nas cartas — e as duas versões não são idênticas, o que é um dado interessante e não um problema a esconder.
A biografia dele tem uma reviravolta no começo e uma quantidade incomum de conflito depois. Discutiu com Pedro, discutiu com Barnabé, foi preso, apanhou, naufragou, foi expulso de cidades e escreveu, no meio de tudo isso, os textos que moldaram a teologia cristã.
Saulo de Tarso
Ele se apresenta, nas cartas, como judeu, da tribo de Benjamim, fariseu, e formado dentro da tradição farisaica com rigor. Nascido em Tarso, na Cilícia, cidade grega com vida intelectual ativa, e cidadão romano — condição que ele usa mais de uma vez nos Atos para se defender.
A primeira aparição dele no Novo Testamento é discreta e sinistra: no apedrejamento de Estêvão, as testemunhas deixam as roupas aos pés de um jovem de nome Saulo. Nos capítulos seguintes, ele passa de espectador a executor — entra nas casas, prende, e vai a Damasco atrás de mais gente.
58E, lançando -o fora da cidade, o apedrejaram; e as testemunhas puseram as roupas deles junto aos pés de um rapaz chamado Saulo.
A primeira menção a ele em toda a Bíblia, e ela cabe numa oração subordinada. O narrador não explica quem é aquele rapaz nem por que o nome dele importa — só o registra guardando as roupas de quem apedreja.
Damasco
O episódio da estrada é narrado três vezes nos Atos, o que é único no livro: uma vez pelo narrador e duas vezes pelo próprio Paulo, em discursos de defesa. Os três relatos concordam no essencial — a luz, a queda, a voz que pergunta por que ele persegue — e divergem em detalhes menores, como o que os acompanhantes ouviram ou viram.
Vale reparar no conteúdo da pergunta. Ela não é sobre doutrina nem sobre a Lei: é sobre perseguição, e formulada na primeira pessoa. Toda a teologia posterior de Paulo sobre o corpo de Cristo tem aqui a sua semente narrativa.
Depois disso ele fica cego por três dias e é curado por um cristão de Damasco que, segundo o texto, tenta argumentar contra a missão antes de aceitá-la — mais um detalhe que uma narrativa apologética teria cortado.
Os anos que quase ninguém conta
A impressão que fica de uma leitura rápida é que Paulo saiu de Damasco convertido e já começou a pregar pelo mundo. A carta aos Gálatas conta outra coisa, e conta em primeira pessoa: ele não subiu a Jerusalém, foi para a Arábia, voltou a Damasco, e só depois de três anos foi conhecer Pedro — e ficou quinze dias.
Esse trecho é escrito num contexto polêmico: Paulo está defendendo que não recebeu o Evangelho de intermediários humanos. Mas o dado cronológico continua valendo, e ele muda a forma da biografia: há um vazio de anos entre a estrada e o ministério público, e ninguém sabe o que aconteceu ali.
As viagens, e os conflitos
Os Atos organizam a segunda metade em três grandes percursos pelo Mediterrâneo oriental, com Antioquia como base. Paulo funda comunidades, é expulso, volta, escreve. O padrão se repete tanto que o leitor começa a antecipá-lo.
A questão que atravessa tudo é uma só: os não judeus que aderem precisam adotar a Lei judaica? A discussão vai a uma reunião em Jerusalém, narrada no capítulo 15, e a decisão é negativa — com um conjunto mínimo de recomendações práticas. O discurso de Pedro nessa reunião argumenta pela mesma linha que Paulo defende nas cartas.
Os conflitos internos não são escondidos. Paulo e Barnabé se separam por causa de um desentendimento sobre levar João Marcos; Paulo enfrenta Pedro publicamente em Antioquia. E as cartas dele são frequentemente escritas em tom de discussão, porque é isso que elas são.
Sobre as cartas, vale uma nota. Treze trazem o nome dele. A carta aos Hebreus, que muita gente atribui a Paulo, não traz o nome dele em lugar nenhum e não se apresenta como carta dele; a atribuição é antiga e chegou a aparecer em listas canônicas, mas hoje a maior parte dos estudiosos, católicos e protestantes, entende que o autor é outro e permanece desconhecido.
1Eu vos recomendo a nossa irmã Febe, que é servidora da Igreja que está em Cencreia,
2para que a recebais no Senhor, como convém aos santos; e para que a ajudeis em qualquer coisa que necessitar de vós; pois ela tem ajudado a muitos, inclusive a mim mesmo.
3Saudai a Prisca e a Áquila, meus cooperadores em Cristo Jesus,
O começo da lista de saudações da carta aos romanos, que é a melhor fotografia que existe da rede de pessoas em torno de Paulo. Note quem abre a lista, e como ela é descrita em relação à comunidade de Cencreia.
Fé e obras
Nenhuma discussão associada a Paulo rendeu tanto quanto essa, e ela costuma ser apresentada como um duelo entre dois versículos: um em Romanos, que exclui as obras da Lei daquilo que justifica alguém; outro em Tiago, que afirma o contrário quanto ao papel das obras e recusa expressamente a fórmula que reduz tudo à fé.
Os dois estão abaixo, lado a lado, e vale lê-los inteiros antes de qualquer explicação. Duas observações ajudam. A primeira: a expressão que Paulo usa é "obras da Lei", e o contexto imediato dele é a pergunta sobre circuncisão e observância judaica para não judeus. A segunda: o exemplo que Tiago escolhe é Abraão, e o versículo do Gênesis que ele cita é exatamente o mesmo que Paulo cita em Romanos.
A partir daí, as tradições cristãs organizam a resposta de formas diferentes — e a nota abaixo apresenta as leituras sem que esta página escolha entre elas.
22Vês que a fé cooperou com as suas obras, e que pelas obras a fé foi aperfeiçoada.
23E cumpriu-se a Escritura que diz: “E Abraão creu em Deus, e isso lhe foi considerado como justiça”, e ele foi chamado amigo de Deus.
24Vedes que o ser humano é justificado pelas obras, e não somente pela fé.
O trecho de Tiago, com o exemplo de Abraão e a citação do Gênesis. Repare que o versículo citado é o mesmo que Paulo usa em Romanos e em Gálatas — os dois autores estão construindo argumentos opostos sobre a mesma linha de texto.
O espinho, e o fim
Na segunda carta aos coríntios, no meio de um trecho em que ele fala de revelações, Paulo menciona algo que chama de espinho na carne. Diz que pediu três vezes para que aquilo saísse, e que a resposta foi outra. Ele não diz o que era.
O livro dos Atos termina de um jeito estranho: com Paulo preso em Roma, dois anos numa casa alugada, recebendo quem quisesse ir e pregando sem impedimento. Não há julgamento, não há sentença, não há morte narrada. O autor simplesmente para.
A tradição de que ele foi executado em Roma é antiga e amplamente aceita, e aparece já em autores cristãos do fim do primeiro século. Mas o Novo Testamento não a conta, e vale saber a diferença entre as duas coisas.
O que o texto não diz
Personagens bíblicos acumulam camadas de tradição que a Escritura não sustenta. Separar as duas coisas não diminui a história — devolve a ela o que está de fato escrito.
O que se costuma dizer
Paulo caiu do cavalo a caminho de Damasco.
O que a Escritura traz
Não há cavalo em nenhum dos três relatos. Todos falam em luz e em cair por terra, e um deles diz que todos os que iam com ele também caíram. Nenhum menciona montaria de espécie alguma.
De onde vem: O cavalo é da pintura ocidental. Ele se firmou na arte medieval e ficou definitivo em telas como a conversão pintada por Caravaggio no começo do século XVII, em que o animal ocupa metade do quadro. Dali passou para a ilustração, para a pregação e para a expressão "cair do cavalo", que hoje é usada sem que ninguém lembre da origem.
O que se costuma dizer
Deus mudou o nome de Saulo para Paulo no momento da conversão.
O que a Escritura traz
Não há cena de mudança de nome. Ele continua sendo chamado de Saulo por vários capítulos depois de Damasco, e a troca aparece de forma quase casual, no meio de uma viagem, numa frase que apresenta os dois nomes como pertencentes à mesma pessoa. Ter um nome judaico e um nome romano era comum para um judeu com cidadania romana.
O que se costuma dizer
O espinho na carne de Paulo era um problema de vista.
O que a Escritura traz
O texto não diz o que era. As candidatas em circulação — doença nos olhos, malária, epilepsia, um adversário específico, uma tentação recorrente — são todas conjecturas posteriores, algumas construídas a partir de frases soltas de outras cartas. O que o próprio Paulo informa é bem menos: que foi dado, que ele pediu três vezes para tirar, e que continuou.
O que se costuma dizer
Paulo excluiu as mulheres do trabalho da Igreja.
O que a Escritura traz
As cartas contêm passagens de restrição, que são reais e são lidas de formas diferentes pelas tradições cristãs. E o mesmo conjunto de cartas nomeia mulheres como colaboradoras diretas: o capítulo 16 de Romanos abre recomendando uma mulher e descrevendo o serviço dela numa comunidade, e nomeia outras ao longo da lista, incluindo um casal em que o nome dela vem primeiro. Uma leitura honesta de Paulo precisa carregar as duas coisas ao mesmo tempo, em vez de apagar uma delas.
Onde essa pessoa aparece
3E indo, aconteceu que chegando perto de Damasco, repentinamente brilhou ao redor dele uma luz do céu.
4E caindo em terra, ouviu ma voz lhe dizendo: Saulo, Saulo, por que me persegues?
5E ele disse: Quem és, Senhor?E ele disse : Eu sou Jesus, a quem tu persegues.
6mas levanta-te , e entra na cidade; e ali te será dito o que deves fazer.
O relato do narrador sobre a estrada de Damasco. Note que a pergunta feita a Saulo não é sobre crença, e sim sobre o que ele está fazendo — e que ela é formulada na primeira pessoa, o que é o núcleo da coisa toda.
15Mas quando aquele que me separou desde o ventre da minha mãe, e por sua graça me chamou , se agradou
16de revelar o seu Filho em mim, para eu evangelizar os gentios, de imediato, não fui pedir conselho com pessoa alguma;
17nem subi a Jerusalém para os que já eram apóstolos antes de mim; em vez disso, parti para a Arábia, e voltei outra vez a Damasco.
18Então, depois de três anos, subi a Jerusalém para visitar Cefas, e estive com ele por quinze dias.
A cronologia contada pelo próprio Paulo, e a única fonte que temos para os anos entre Damasco e o ministério público. Repare no intervalo declarado antes do primeiro encontro com Pedro.
27Onde, pois, está o orgulho? Este é excluído. Por qual lei? A das obras? Não, mas sim, pela Lei da fé.
28Concluímos, portanto, que o ser humano é justificado pela fé, independentemente das obras da Lei.
A formulação mais citada de Paulo sobre a justificação. Vale ler o versículo anterior junto: o argumento é construído contra o orgulho, e a expressão que ele usa é "obras da Lei", com a Lei de Israel em vista.
7E para que eu não ficasse arrogante pela excelência das revelações, me foi dado um espinho na carne, que é um mensageiro de Satanás, para me atormentar, para que eu não ficasse arrogante.
8Três vezes eu orei ao Senhor por causa disso, para que isso de afastasse de mim.
9Mas ele me disse: “Minha graça te basta, porque meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Por isso, com muito prazer, eu me orgulharei nas minhas fraquezas, para que o poder de Cristo habite em mim.
O espinho, o pedido repetido e a resposta. É o trecho mais pessoal de todas as cartas, e é também aquele em que ele menos explica — o que talvez seja a razão de tanta gente conseguir se reconhecer nele.
30E Paulo ficou dois anos inteiros em sua própria casa alugada; e recebia a todos quantos vinham a ele;
31Pregando o Reino de Deus, e ensinando com ousadia a doutrina do Senhor Jesus Cristo, sem impedimento algum.
O fim do livro, e ele é um fim em aberto: dois anos de prisão domiciliar, portas abertas, pregação sem impedimento — e nenhuma palavra sobre o que aconteceu depois. Muitos leitores só percebem isso quando viram a página e não há mais nada.