Quem foi Pedro?
Quando viveu Primeiro século, na Galileia, em Jerusalém e depois fora dela
Em resumo
Pedro é o pescador da Galileia que aparece mais que qualquer outro discípulo nos Evangelhos: o que confessa em Cesareia, o que nega três vezes na noite da prisão, o que prega em Pentecostes e o que abre a missão aos não judeus na casa de Cornélio.
- Escrito por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
- Revisado por
- Raphael Navarro Schmitt
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Se você quiser saber por que os Evangelhos não parecem propaganda, comece por Pedro. Ele é o discípulo mais citado, o primeiro em todas as listas dos Doze, o que fala pelo grupo — e é também o único cuja pior hora está registrada em detalhe nos quatro Evangelhos, com diálogos.
A história dele tem um formato incomum: sobe, desmorona e é reconstruída. E a reconstrução não é narrada como esquecimento, e sim como uma conversa em que o assunto volta três vezes.
Simão, o pescador
O nome dele era Simão. Trabalhava com pesca no mar da Galileia, junto do irmão André, e tinha sócios — Tiago e João. Tinha barco e tinha casa em Cafarnaum, onde morava também a sogra. Não era um mendigo; era um pequeno empresário do ramo.
Sobre o chamado, os Evangelhos contam de dois modos. Marcos e Mateus mostram Jesus passando pela beira do mar e chamando os dois irmãos ao mesmo tempo; João conta que André ouviu falar de Jesus antes e foi buscar o irmão. Nos dois relatos, o nome novo vem cedo: Cefas, em aramaico, que os Evangelhos traduzem como pedra.
Bem depois, quando ele e João são interrogados pelas autoridades de Jerusalém, o livro dos Atos registra a impressão que causaram: homens sem instrução formal, e ainda assim seguros. As duas coisas estão no mesmo versículo.
16E enquanto andava junto ao mar da Galileia, ele viu Simão e seu irmão André, que lançavam uma rede ao mar, porque eram pescadores;
17Jesus lhes disse: Vinde após mim, e farei serdes pescadores de gente.
18Então logo deixaram as redes, e o seguiram.
A versão mais econômica do chamado: o encontro, a frase e o abandono das redes, em três versículos. Marcos não explica nada, e é justamente essa falta de explicação que dá o efeito.
13E eles, ao verem a ousadia de Pedro, e de João; e informados que eles eram homens sem instrução e ordinários, maravilharam-se; e eles sabiam que eles tinham estado com Jesus.
A avaliação que o conselho de Jerusalém faz de Pedro e João. Vale ler as duas metades do versículo: a primeira registra a falta de formação, e a segunda registra que perceberam de onde vinha a segurança deles.
A confissão, e a frase mais discutida sobre ele
Em Cesareia de Filipe, Jesus pergunta ao grupo quem eles dizem que ele é. Pedro responde, e a resposta dele é a confissão que organiza o Evangelho de Mateus. O que vem em seguida é a passagem mais citada sobre Pedro em toda a Bíblia: a declaração sobre a pedra, a igreja e as chaves.
É aqui que católicos e evangélicos leem de formas diferentes, e a diferença não é pequena — dela dependem entendimentos distintos sobre autoridade na Igreja. As duas leituras estão apresentadas mais abaixo nesta página, com o mesmo peso e sem que a gente arbitre.
Vale notar o que vem logo depois, porque quase nunca é citado junto: poucos versículos adiante, no mesmo capítulo, Pedro tenta dissuadir Jesus de falar em sofrimento e recebe a repreensão mais dura que qualquer discípulo recebe nos Evangelhos. O elogio e a bronca estão na mesma página.
Sobre a água
O episódio em que ele desce do barco resume o personagem melhor que qualquer análise. Ele é o único que pede para ir; é o único que vai; e é o único que afunda. As três coisas são inseparáveis.
Repare que o texto registra o motivo do afundamento — ele viu o vento — e que a mão que o segura chega antes da repreensão. A ordem dos gestos é do narrador, e ela importa.
28E Pedro lhe respondeu, dizendo: Senhor, se és tu, manda-me vir a ti sobre as águas.
29E ele disse: Vem. Então Pedro desceu do barco e andou sobre as águas, e foi em direção a Jesus.
30Mas quando viu o vento, teve medo; e começando a afundar, gritou: Senhor, salva-me!
31Imediatamente Jesus estendeu a mão, segurou-o, e disse-lhe: Homem de pouca fé, por que duvidaste?
Quatro versículos com um arco completo: o pedido, a permissão, o passo, o medo, o grito e a mão estendida. É a miniatura de tudo o que acontece com Pedro no resto do Novo Testamento.
A negação, e o restabelecimento
Na noite da prisão, Pedro segue Jesus a distância e entra no pátio da casa do sumo sacerdote. Ali, junto ao fogo, é reconhecido três vezes e nega três vezes — a uma serva, a um homem e a mais alguém que insiste porque reconhece o sotaque galileu. Ele não é interrogado por autoridade nenhuma: são pessoas comuns, em volta de uma fogueira.
Lucas acrescenta um detalhe que os outros não têm: no momento do canto do galo, Jesus se vira e olha para ele. Pedro sai e chora.
O restabelecimento, no fim do Evangelho de João, acontece junto de outra fogueira, e a repetição é claramente proposital: três perguntas, três respostas, três encargos. Não há repreensão, não há penitência exigida, não há sequer menção explícita à negação. O que há é a mesma pergunta, feita três vezes, até doer.
Pentecostes, Cornélio e Antioquia
No livro dos Atos, Pedro é a figura central da primeira metade. É ele quem fala no dia de Pentecostes, em pé diante da multidão, e o discurso dele é o primeiro sermão cristão registrado.
O episódio mais importante, porém, é outro. Depois de uma visão sobre alimentos puros e impuros, Pedro entra na casa de um oficial romano — coisa que um judeu observante não fazia — e abre a declaração dizendo que entendeu que Deus não faz distinção de pessoas. Aquilo destrava a entrada de não judeus na comunidade, e é uma mudança de posição, não uma confirmação do que ele já pensava.
E há Antioquia. Paulo conta, na carta aos Gálatas, que enfrentou Pedro publicamente porque ele comia com os gentios e parou de comer quando chegou gente de Jerusalém. O texto não esconde nada: nomeia o conflito, nomeia o motivo e nomeia quem estava errado na avaliação de quem escreve. Que essa carta tenha sido preservada no cânon é, por si só, um dado sobre como a primeira geração lidava com a autoridade dele.
34E Pedro, abrindo a boca, disse: Reconheço que é verdade que Deus não faz acepção de pessoas.
35Mas sim, em toda nação, aquele que o teme, e pratica a justiça, este lhe é agradável.
A frase que abre a casa de Cornélio, e o verbo com que ela começa. Pedro não diz que sempre soube: diz que passou a reconhecer — é a linguagem de quem mudou de ideia.
11E quando Cefas veio a Antioquia, estive contra ele face a face, pois ele devia ser repreendido;
12porque, antes que alguns que Tiago enviou chegassem, ele comia com os gentios; mas depois que chegaram, ele se retirou e se separou, temendo os que eram da circuncisão.
O relato de Paulo sobre o conflito em Antioquia, escrito na primeira pessoa e sem atenuantes. Note que o motivo apontado é medo, e não convicção — o que é uma acusação mais delicada do que parece.
O fim, que o Novo Testamento não narra
Os Atos deixam Pedro de lado na segunda metade, e nenhum livro do Novo Testamento conta a morte dele. O que existe é uma frase, no último capítulo de João, sobre mãos estendidas e sobre ser levado aonde não se quer ir — e o comentário do próprio evangelista de que aquilo apontava para o tipo de morte que ele teria.
A tradição de que ele morreu em Roma é antiga: já no fim do primeiro século e ao longo do segundo, autores cristãos associam a morte dele à cidade. A primeira carta de Pedro se despede enviando saudações da igreja que está na Babilônia, expressão lida desde a antiguidade como referência a Roma.
O que a tradição acrescentou depois — o modo da execução, a cronologia, o detalhe cênico — está tratado no bloco abaixo.
18Em verdade, em verdade te digo, que quando eras mais jovem, tu mesmo te vestias, e andava por onde querias; mas quando fores já velho, estenderás tuas mãos, e outro te vestirá, e te levará para onde tu não queres.
19E disse isto, fazendo entender que Pedro glorificaria a Deus com sua morte. E tendo dito isto, Jesus lhe disse: Segue-me.
A frase e a explicação do evangelista. Ela indica que haverá uma morte e que ela glorificará a Deus; não descreve o método, o lugar nem a data. Tudo o que se diz sobre isso vem de outras fontes.
O que o texto não diz
Personagens bíblicos acumulam camadas de tradição que a Escritura não sustenta. Separar as duas coisas não diminui a história — devolve a ela o que está de fato escrito.
O que se costuma dizer
Pedro é o porteiro do céu, com um molho de chaves e uma lista de nomes na mão.
O que a Escritura traz
O texto fala em chaves do Reino e em ligar e desligar — vocabulário de administração e de decisão, tirado da imagem do mordomo a quem se confia a casa. Não há em lugar nenhum uma cena de portão, nem uma lista, nem alguém sendo barrado na entrada.
De onde vem: A cena do porteiro é folclore medieval e moderno, difundido pela arte, pela piada e depois pelo cinema. Ela sobreviveu porque é visualmente eficiente, não porque esteja em algum texto.
O que se costuma dizer
Pedro foi crucificado de cabeça para baixo.
O que a Escritura traz
O Novo Testamento não descreve a morte dele. A única indicação é a frase do último capítulo de João, que aponta para o fato de haver uma morte, sem dizer como.
De onde vem: O detalhe da crucificação invertida aparece nos Atos de Pedro, texto apócrifo do século II que não entrou em nenhum cânon, e foi repetido por autores posteriores até virar imagem fixa. Isso não decide se o episódio ocorreu; decide de onde vem a informação.
O que se costuma dizer
Pedro fundou a Igreja de Roma.
O que a Escritura traz
Nenhum livro do Novo Testamento narra a chegada de Pedro a Roma. A carta de Paulo aos romanos é escrita a uma comunidade que já existia, e o capítulo final saúda dezenas de pessoas pelo nome sem mencionar Pedro. O vínculo dele com a cidade aparece de outras formas: a saudação enviada da Babilônia, no fim da primeira carta de Pedro, e o testemunho de autores cristãos do primeiro e do segundo séculos que associam a morte dele a Roma.
O que se costuma dizer
Pedro era um pobre coitado, sem nada e sem instrução.
O que a Escritura traz
A falta de formação escolar está de fato no texto, num interrogatório em Jerusalém. Mas o mesmo conjunto de textos mostra barco próprio, sócios no negócio da pesca e casa em Cafarnaum onde morava também a sogra. O retrato que sai daí é o de um trabalhador com meios modestos e negócio próprio, e não o de um indigente.
Onde essa pessoa aparece
15Ele lhes disse: E vós, quem dizeis que eu sou?
16E Simão Pedro respondeu: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!
17E Jesus lhe replicou: Bendito és tu, Simão, filho de Jonas; pois não foi carne e sangue que o revelou a ti, mas sim meu Pai, que está nos céus.
18E eu também te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja; e as portas do mundo dos mortos não prevalecerão contra ela.
19A ti darei as chaves do Reino dos céus; e tudo o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e tudo o que desligares na terra terá sido desligado nos céus.
A confissão e a resposta a ela — o trecho mais citado sobre Pedro e o que as duas tradições leem de formas distintas. Leia-o inteiro antes de ler a nota abaixo: os cinco versículos incluem a pergunta, a resposta, a bem-aventurança, a frase sobre a pedra e a entrega das chaves.
54E prendendo-o, o trouxeram e o puseram na casa do sumo sacerdote. E Pedro o seguia de longe.
55E acenderam fogo no meio do pátio, e sentaram-se juntos, e Pedro se sentou entre eles.
56E uma serva, vendo-o sentado junto ao fogo, fixando o olhos nele, disse: Este também estava com ele.
57Porém ele o negou, dizendo: Mulher, eu não o conheço.
58E pouco depois, outro o viu, e disse: Também tu és um deles.
59E quando já tinha passado quase uma hora, outro afirmava, dizendo: Verdadeiramente também este estava com ele, porque também é galileu.
60E Pedro disse: Homem, não sei o que dizes.E logo, estando ele ainda falando, cantou o galo.
61E o Senhor, virando-se, olhou para Pedro; e Pedro se lembrou da palavra do Senhor, como lhe tinha dito: Antes que o galo cante, tu me negarás três vezes.
62E Pedro, saindo, chorou amargamente.
A negação inteira, com o detalhe que só Lucas traz: o olhar de Jesus no momento do canto do galo. Note que nenhum dos três que o reconhecem tem qualquer poder sobre ele — são pessoas em volta de um fogo.
15Havendo eles pois já jantado, disse Jesus a Simão Pedro: Simão filho de João, tu me amas mais do que estes outros ? Disse-lhes ele: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe: Alimenta meus cordeiros.
16Voltou a lhe a dizer a segunda vez: Simão, filho de João, tu me amas? Disse-lhe: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Disse-lhe: Apascenta minhas ovelhas.
17Disse-lhe a terceira vez: Simão, filho de João, tu me amas? Entristeceu-se Pedro de que já pela terceira vez lhe dissesse: Tu me amas? E disse-lhe: Senhor, tu sabes todas as coisas, tu sabes que eu te amo. Disse-lhe Jesus: Alimenta minhas ovelhas.
O restabelecimento, em três rodadas. Repare no que não acontece: ninguém menciona a negação, ninguém exige penitência e ninguém explica a repetição. O texto deixa o leitor fazer sozinho a conta de três.
14Mas Pedro, pondo-se de pé com os onze, levantou sua voz, e lhes falou: Homens judeus, e todos os que habitais em Jerusalém, seja isto conhecido, e ouvi minhas palavras:
15Porque estes não estão bêbados, como vós pensais, sendo ainda a terceira hora do dia.
16Mas isto é o que foi dito por meio do profeta Joel:
A abertura do primeiro sermão cristão registrado. Vale reparar em como ele começa: não com uma doutrina, mas respondendo a uma acusação de embriaguez feita pela multidão minutos antes.
12Por Silvano, vosso fiel irmão, como o considero, eu vos escrevi brevemente, exortando e dando testemunho de que esta é a verdadeira graça de Deus. Nela estai.
13Saúda-vos a igreja escolhida convosco, que está na Babilônia, e também o meu filho Marcos.
A despedida da primeira carta, com a saudação enviada da Babilônia. É o dado do Novo Testamento mais próximo de uma localização de Pedro no fim da vida, e a leitura de Babilônia como cifra para Roma é antiga e amplamente aceita.