Quem foi Lucas?
Quando viveu Primeiro século, companheiro de viagem de Paulo
Em resumo
Lucas é o autor a quem a tradição atribui o terceiro Evangelho e o livro dos Atos — juntos, mais de um quarto do Novo Testamento. As cartas de Paulo o mencionam três vezes, uma delas chamando-o de médico, e trechos dos Atos são narrados na primeira pessoa do plural.
- Escrito por
- Raphael Navarro Schmitt
- Revisado por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
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Lucas é um caso curioso: escreveu mais páginas do Novo Testamento que qualquer outro autor e é o que menos aparece nele. Três menções em cartas de Paulo, sempre de passagem, sempre numa lista de saudações. Nenhuma biografia, nenhuma cena, nenhuma fala.
Em compensação, ele é o único evangelista que explica o que está fazendo. O Evangelho dele abre com quatro versículos de método — a quem escreve, a partir de quê, com que critério e para quê —, e é o texto mais próximo de uma introdução metodológica em todo o Novo Testamento.
O que o Novo Testamento diz dele
São três menções, e cabem num parágrafo. Na carta aos colossenses, ele é saudado como o médico amado. Na carta a Filemom, aparece numa lista de colaboradores. Na segunda carta a Timóteo, escrita num tom de despedida, ele é o único que ainda está presente.
A menção em Colossenses tem uma sutileza que gerou muita discussão: alguns versículos antes, Paulo separa um grupo e o identifica como os da circuncisão. Lucas é nomeado depois desse recorte, o que é o principal argumento para entendê-lo como alguém de fora do judaísmo. É uma inferência razoável, e continua sendo uma inferência.
É tudo. Não há data de nascimento, cidade de origem, história de conversão nem relato de morte em nenhum livro do Novo Testamento.
23Saúdam-te: Epafras (meu companheiro de prisão em Cristo Jesus),
24Marcos, Aristarco, Demas e Lucas (meus cooperadores).
Uma lista de nomes no fim de uma carta curtíssima, e Lucas está nela. Vale reparar em quem mais aparece: são quase os mesmos nomes de Colossenses, o que ajuda a situar as duas cartas no mesmo momento.
11Só Lucas está comigo. Toma Marcos, e o traz contigo, porque ele me é muito útil para o serviço.
A menção mais desolada das três. O contexto do capítulo é de abandono — outros nomes aparecem tendo ido embora — e essa frase curta é o que sobra de companhia.
As seções em que o narrador diz "nós"
Há um detalhe estranho e muito discutido no livro dos Atos. Em quatro trechos, sem aviso e sem explicação, o relato muda da terceira pessoa para a primeira do plural. O narrador estava contando o que Paulo fazia, e de repente passa a contar o que nós fizemos.
A mudança acontece na travessia para a Macedônia, e volta a acontecer em outros trechos de viagem, incluindo o naufrágio e a chegada a Roma. Depois some, e o texto volta ao "eles".
A leitura mais simples é que o autor esteve presente naqueles trechos e usou um diário de bordo próprio. É esse dado, somado às menções nas cartas, que sustenta a atribuição tradicional a Lucas. Há explicações alternativas — que seria convenção literária de relato de viagem marítima, por exemplo —, e vale saber que existem.
9E uma visão foi vista por Paulo durante a noite: um homem Macedônio se pôs diante dele ,rogando-lhe, e dizendo: Passa à Macedônia, e ajuda-nos!
10E quando ele viu a visão, logo procuramos partir para a Macedônia, concluindo que o Senhor estava nos chamando para anunciarmos o Evangelho a eles.
11Então, tendo navegado desde Trôade, viemos correndo caminho direto a Samotrácia, e no dia seguinte a Neápolis.
O ponto exato da virada. Leia com atenção: o versículo 9 fala de Paulo na terceira pessoa, e o 10 já está no plural. A troca acontece no meio de uma frase de decisão, sem nenhum comentário do narrador.
O prólogo, e o que ele declara
Os quatro primeiros versículos do Evangelho de Lucas são uma única frase, escrita num grego cuidado que destoa do resto do livro. Nela o autor diz quatro coisas.
Primeira: que muitos já tinham escrito relatos antes dele — ou seja, ele não é pioneiro e sabe disso. Segunda: que o material vem de quem viu desde o princípio, e não dele próprio. Terceira: que investigou tudo com cuidado e organizou em ordem. Quarta: que o destinatário tem nome, Teófilo, e uma finalidade declarada — ter segurança sobre o que já lhe tinham ensinado.
É a declaração de método mais explícita de qualquer texto do Novo Testamento. E ela contém, de passagem, a informação que o bloco abaixo desenvolve: quem escreve se coloca na segunda geração, e não entre as testemunhas.
O livro dos Atos abre retomando o mesmo destinatário e chamando o Evangelho de primeiro livro. Ou seja, as duas obras foram concebidas como partes de um mesmo projeto, e ler uma sem a outra corta a coisa pela metade.
O que só existe em Lucas
Uma boa parte do que as pessoas consideram mais característico do cristianismo só está neste Evangelho. O bom samaritano, o filho pródigo, Zaqueu na árvore, o cântico de Maria, os pastores na noite do nascimento, a caminhada de Emaús, o ladrão ao lado da cruz recebendo uma promessa.
Há também um traço editorial visível: Lucas dá mais espaço a mulheres, a estrangeiros, a pobres e a gente de má reputação do que os outros Evangelhos, e monta pares de histórias com um homem e uma mulher em situações equivalentes. Isso não é leitura moderna forçada — é padrão estrutural que se percebe lendo o livro inteiro de uma vez.
A cena de Emaús, no penúltimo capítulo, é um exemplo do que ele faz de melhor: dois personagens sem importância, uma caminhada de tarde, uma conversa longa e um reconhecimento que acontece num gesto de mesa.
33Porém um certo samaritano, que ia pelo caminho, veio junto a ele, e vendo-o, teve compaixão dele .
34E chegando-se, amarrou-lhe um curativo nas feridas, pondo-lhe nelas azeite e vinho; e pondo-o sobre o animal que o transportava, levou-o para uma hospedaria, e cuidou dele.
O trecho central da parábola do bom samaritano, que não existe em nenhum outro Evangelho. Note quanto espaço o texto gasta descrevendo o cuidado prático — curativo, transporte, hospedaria — em vez de descrever sentimentos.
20E levantando-se, foi a seu pai. E quando ainda estava longe, o seu pai o viu, e teve compaixão dele; e correndo, caiu ao seu pescoço, e o beijou.
O momento do reencontro na parábola do filho pródigo. O detalhe decisivo é que o pai vê de longe e corre — ou seja, estava olhando a estrada, e o movimento parte dele antes de qualquer pedido de desculpa.
Como o nome dele chegou ao livro
Os quatro Evangelhos são anônimos no corpo do texto. Nenhum deles se assina, e os títulos que hoje aparecem no alto da página foram acrescentados depois, pelos copistas.
A atribuição a Lucas é antiga e notavelmente estável: aparece em Ireneu, no fim do século II, e no chamado fragmento muratoriano, uma lista antiga de livros aceitos. Não há registro de nenhuma tradição concorrente atribuindo esses dois livros a outra pessoa, o que é um dado a favor — inventar um autor sem prestígio, que nunca viu Jesus e não é apóstolo, seria uma escolha estranha para quem quisesse dar autoridade a um texto.
Isso não transforma a atribuição em declaração do próprio livro, e a distinção entre as duas coisas é o que separa informação de suposição.
O que o texto não diz
Personagens bíblicos acumulam camadas de tradição que a Escritura não sustenta. Separar as duas coisas não diminui a história — devolve a ela o que está de fato escrito.
O que se costuma dizer
Lucas conheceu Jesus e escreveu o que viu.
O que a Escritura traz
O próprio prólogo diz o contrário. O autor declara que o material lhe foi transmitido por quem viu desde o princípio, e se apresenta como alguém que investigou e organizou — não como testemunha. Ele nunca afirma ter presenciado nada do que narra no Evangelho.
O que se costuma dizer
O Evangelho de Lucas traz o nome do autor.
O que a Escritura traz
Não traz. Nenhum dos quatro Evangelhos se assina no corpo do texto; os títulos foram acrescentados por copistas. A atribuição a Lucas é antiga, estável e não tem concorrente conhecida — mas é tradição sobre o texto, e não declaração dele.
O que se costuma dizer
Lucas pintou o primeiro retrato de Maria, e por isso é padroeiro dos pintores.
O que a Escritura traz
Nada disso aparece no Novo Testamento, que não menciona nenhuma atividade artística dele.
De onde vem: É uma tradição atestada no Oriente cristão a partir do século VI, ligada a ícones de Maria que se dizia terem sido pintados por ele. A associação se espalhou pelo Ocidente e acabou fazendo dele o padroeiro dos pintores e das corporações de artistas na Idade Média.
O que se costuma dizer
Sabe-se pelo texto que Lucas era grego e não judeu.
O que a Escritura traz
O texto não informa a origem dele. O argumento principal é indireto: na carta aos colossenses, Paulo identifica um grupo como os da circuncisão e nomeia Lucas fora dele. É uma inferência sólida e amplamente aceita, e vale saber que é inferência — o Novo Testamento em nenhum momento diz de onde ele era.
Onde essa pessoa aparece
1Como muitos empreenderam pôr em ordem o relato das coisas que entre nós se cumpriram,
2conforme os que as viram que desde o princípio, e foram servidores das palavra, nos transmitiram,
3pareceu-me bom que também eu, que tenho me informado com exatidão desde o princípio, escrevesse-as em ordem a ti, caríssimo Teófilo,
4para que conheças a certeza das coisas de que foste ensinado.
O prólogo, e a declaração de método mais explícita do Novo Testamento. Repare em quantas informações cabem numa frase: que havia relatos anteriores, de onde vem o material, o que o autor fez com ele, para quem escreve e com que finalidade.
1Eu fiz o primeiro livro, ó Teófilo, sobre todas as coisas que Jesus começou, tanto a fazer como a ensinar;
2Até o dia em que ele foi recebido acima, depois de pelo Espírito Santo ter dado mandamentos aos apóstolos que tinha escolhido;
A abertura dos Atos, que retoma o mesmo destinatário e chama o Evangelho de primeiro livro. É a prova interna de que as duas obras são um projeto só, e a razão de os estudiosos falarem em Lucas-Atos como uma unidade.
14Lucas, o médico amado, vos saúda; e também Demas.
A única vez em que o Novo Testamento informa a profissão dele. Leia o trecho a partir do versículo 10: é a proximidade com o recorte sobre os da circuncisão, alguns versículos antes, que sustenta o argumento sobre a origem de Lucas.
9E uma visão foi vista por Paulo durante a noite: um homem Macedônio se pôs diante dele ,rogando-lhe, e dizendo: Passa à Macedônia, e ajuda-nos!
10E quando ele viu a visão, logo procuramos partir para a Macedônia, concluindo que o Senhor estava nos chamando para anunciarmos o Evangelho a eles.
11Então, tendo navegado desde Trôade, viemos correndo caminho direto a Samotrácia, e no dia seguinte a Neápolis.
A primeira das seções em que o narrador passa a dizer "nós". A troca acontece entre dois versículos consecutivos, sem transição, e é o principal indício interno de que quem escreve esteve em parte das viagens.
30E aconteceu que, estando sentado com eles à mesa ,tomou o pão, o benzeu, o partiu, e o deu a eles.
31E os olhos deles se abriram, e o reconheceram, e ele lhes desapareceu.
O fim da caminhada de Emaús, exclusiva deste Evangelho. O reconhecimento não acontece durante a explicação das Escrituras, que tinha durado o caminho inteiro: acontece num gesto de mesa, e o texto marca isso de propósito.