Salve-Rainha: o texto da oração e por que ela fala em vale de lágrimas
A oração
Salve, Rainha, Mãe de misericórdia, vida, doçura e esperança nossa, salve! A vós bradamos, os degredados filhos de Eva. A vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas.
Eia, pois, advogada nossa, esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei, e depois deste desterro nos mostrai Jesus, bendito fruto do vosso ventre, ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre Virgem Maria.
Rogai por nós, santa Mãe de Deus, para que sejamos dignos das promessas de Cristo. Amém.
Em resumo
A Salve-Rainha é a antífona mariana rezada no fim do terço e cantada na Liturgia das Horas. O texto latino é do século XI ou XII e a autoria é disputada. Ela chama Maria de advogada e pede que interceda — não lhe pede nada além de intercessão.
- Escrito por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
- Revisado por
- Raphael Navarro Schmitt
- Publicado em
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Quando rezar
No fim do terço, depois da quinta dezena, e à noite: na Liturgia das Horas ela é uma das antífonas cantadas no encerramento do dia. É também a oração tradicional junto ao leito de um moribundo.
A oração é feita de duas partes desiguais. A primeira é um lamento: bradamos, suspiramos, gemendo e chorando. A segunda é um pedido, e o pedido não é para que a dor acabe — é para que sejam mostrados uns olhos e, depois, Jesus. Nada na Salve-Rainha promete o fim do desterro; ela pede companhia dentro dele.
“Degredados filhos de Eva” é a expressão que mais causa estranheza hoje, e é a chave do texto. Degredado é quem foi expulso e vive fora de casa. A oração parte da premissa de que este mundo não é o destino final, e é isso que faz o resto dela funcionar: quem se sente em casa não pede que lhe mostrem o caminho.
O centro da oração é um pedido de visão, não de solução. “Nos mostrai Jesus” é o único imperativo que tem um objeto concreto, e ele redireciona a oração inteira: tudo o que veio antes — os títulos, o lamento, a advocacia — desemboca em alguém que não é Maria.
A repetição tripla do fim, “ó clemente, ó piedosa, ó doce”, não acrescenta conteúdo. É música: a antífona nasceu para ser cantada, e essas três invocações são o ponto em que a melodia gregoriana se abre. Quem já ouviu a Salve Regina cantada num mosteiro reconhece o trecho antes de entender a letra.
De onde vem esta oração
Quando surgiu Século XI ou XII, em latim, autoria disputada
A Salve Regina é uma das quatro antífonas marianas do ofício romano — os cantos com que cada tempo do ano encerra a última hora do dia. Aparece nos manuscritos a partir do século XII, sobretudo em fontes cistercienses, e de lá se espalha depressa. Os dominicanos passaram a cantá-la em procissão depois das Completas ainda no século XIII, e é dessa prática que vem o costume, hoje universal, de fechar o terço com ela.
A autoria não está resolvida e provavelmente não vai estar. A atribuição mais repetida é a Hermann de Reichenau, monge alemão do século XI conhecido como Hermano Contrato, que viveu com uma deficiência grave e a quem se atribuem também tratados de música e astronomia; outra tradição aponta Adhemar de Monteil, bispo de Le Puy. Nenhuma das duas se sustenta em documento contemporâneo, e o texto continua sendo, na prática, anônimo.
A redação também mudou. As três invocações finais — “ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre Virgem Maria” — são atribuídas por uma tradição tardia a São Bernardo de Claraval, que as teria acrescentado em voz alta ao ouvir a antífona numa catedral. A história é bonita e não tem registro da época; as invocações já aparecem em manuscritos antigos do texto.
Detalhes pouco conhecidos
“Vale de lágrimas” vem do latim, e as Bíblias traduzidas do hebraico não trazem a expressão
Ela foi rezada no fim de toda missa rezada durante oitenta anos
“Advogada” é vocabulário de tribunal, e é proposital
É a antífona de um tempo do ano, não do ano inteiro
O que dizem as passagens
26E vendo Jesus a sua mãe, e ao discípulo a quem amava, que ali estava, disse a sua mãe: Mulher, eis aí teu filho.
27Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E desde aquela hora o discípulo a recebeu em sua casa .
A cena da cruz em que a devoção mariana se apoia com mais frequência. O texto é curto e não explica nada: Jesus entrega a mãe ao discípulo e o discípulo à mãe. É sobre o alcance dessa entrega que as tradições cristãs divergem.
1E um grande sinal foi visto no céu: uma mulher vestida do sol, e a lua debaixo dos pés dela, e sobre sua cabeça uma coroa de doze estrelas;
A imagem de onde vem o título de rainha, com a coroa de doze estrelas. Vale notar o que o próprio capítulo faz com essa figura logo depois: ela foge para o deserto e é perseguida — a leitura mais antiga a identifica com o povo de Deus, e a mariana é posterior.
5Bem-aventurados aqueles cuja força está em ti, em cujos corações estão os caminhos corretos .
6Eles, ao passarem pelo Vale de Baca, fazem dele uma fonte; e a chuva o cobre de bênçãos.
A origem do “vale de lágrimas”. Nesta edição, traduzida do hebraico, o vale é chamado de Baca e é um lugar de passagem que se transforma em fonte. A Vulgata leu a mesma palavra como “lágrimas”, e foi essa leitura que chegou à Salve-Rainha.
5Pois há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os seres humanos: o humano Cristo Jesus.
O versículo em que a leitura evangélica se apoia para dirigir toda oração somente a Deus por Cristo. Está aqui porque esta página não esconde a divergência que a palavra “advogada” levanta: as duas leituras aparecem lado a lado na nota abaixo.