Como orar com a Bíblia
Resposta rápida
Orar com a Bíblia é usar o próprio texto como palavra da oração, em vez de falar sobre ele. Três práticas antigas fazem isso: rezar os salmos como quem os assina, ler devagar até uma frase parar você e transformá-la em pedido, e orar espontaneamente a partir do trecho lido. Nenhuma exige método nem tempo longo.
- Escrito por
- Raphael Navarro Schmitt
- Revisado por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
- Publicado em
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Muita gente lê a Bíblia de um jeito e ora de outro, como se fossem duas atividades separadas que por acaso acontecem no mesmo horário. Lê-se o capítulo, fecha-se o livro, e só então começa a oração — que costuma sair sobre os assuntos do dia, sem nenhuma relação com o que acabou de ser lido.
A tradição cristã, católica e protestante, fez o contrário durante quase toda a sua história: o texto lido era a matéria da oração. Não porque orar com palavras próprias seja inferior, mas porque um texto na frente resolve o problema mais comum de quem tenta orar — não saber o que dizer depois do primeiro minuto.
Orar o texto e orar sobre o texto são coisas diferentes
Boa parte da Bíblia não fala de Deus: fala com Deus. Os salmos, em particular, são orações inteiras, já formuladas, e foram escritos para serem repetidos por outras pessoas — é para isso que servem os cabeçalhos musicais que vários deles carregam. Quem lê um salmo em voz alta na primeira pessoa não está estudando um documento antigo; está usando uma oração pronta.
A diferença prática aparece rápido. Orar sobre um texto é comentar o que ele significa e depois pedir o que se quer. Orar o texto é dizer aquelas palavras como suas, inclusive quando elas dizem o que você não teria coragem de formular sozinho.
1Das profundezas clamo a ti, SENHOR.
2Ouve, Senhor, a minha voz; sejam teus ouvidos atentos à voz de minhas súplicas.
Duas linhas que já são a oração inteira: um lugar de onde se fala e um pedido de que a voz seja ouvida. Não há nada a interpretar antes de usar — é possível abrir nesse versículo e simplesmente dizê-lo, que era exatamente a função para a qual ele foi escrito.
Rezar os salmos: a prática mais antiga
Os cento e cinquenta salmos cobrem uma faixa emocional que nenhuma coletânea devocional moderna cobre: gratidão, medo, culpa, alegria física, sede, insônia, raiva contra inimigos, acusação direta a Deus. Rezar o saltério inteiro, aos poucos, é aceitar dizer também as partes que não correspondem ao seu humor daquele dia — e essa é a parte que mais assusta quem começa.
O argumento clássico a favor disso é simples: quem só ora o que sente acaba orando sempre a mesma coisa. Um salmo de louvor lido num dia ruim não é hipocrisia, é a mesma coisa que uma comunidade cantando junto quando nem todo mundo ali está bem. E um salmo de queixa lido num dia bom lembra que outra pessoa, em algum lugar, está exatamente naquele lugar.
Não é preciso plano. Um salmo por dia, em ordem, dá cinco meses. Um salmo por dia com repetição do mesmo salmo durante a semana dá menos e fixa mais.
1Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? Longe estás de meu livramento e das palavras de meu gemido.
A abertura mais dura do saltério — uma acusação de abandono dirigida a Deus. Está no cânon das duas tradições, o que significa que reclamar dentro da oração nunca foi considerado defeito de fé. É também o versículo que os Evangelhos põem na boca de Jesus na cruz, e isso muda o peso de rezá-lo.
1Deus, tu és meu Deus. Eu te busco ao amanhecer; minha alma tem sede de ti, minha carne muito te deseja, em terra seca, cansativa, sem águas.
O oposto do anterior, e igualmente utilizável como está: sede, corpo, madrugada, terra seca. Vale notar que o salmo descreve o desejo de Deus em linguagem física, e não em linguagem de sentimento — quem espera que orar seja uma emoção encontra aqui outra coisa.
Ler devagar até uma frase parar você
A segunda prática é ler um trecho curto várias vezes, sem pressa, até que alguma frase pese mais que as outras — e então ficar ali. É o que os mosteiros chamam de leitura orante, e o esquema em quatro tempos que costuma ser ensinado hoje foi formulado no século XII, mas a prática é bem mais velha que o esquema.
O ponto que quase todo resumo dessa prática perde: ela não é uma técnica de compreensão. Não se trata de extrair o significado do trecho, e sim de deixar o trecho durar. Quem termina os quatro passos com uma dúvida exegética não fez errado — só descobriu que aquela dúvida precisa de outro tipo de leitura, num outro momento.
- Leia o trecho inteiro, devagar, uma vez. Curto de verdade: cinco a dez versículos bastam.
- Leia de novo e pare na frase que pesou. Se nenhuma pesar, escolha uma qualquer — o exercício funciona igual.
- Fique com aquela frase por alguns minutos, repetindo-a. Sem tentar concluir nada.
- Responda a ela com suas próprias palavras: um pedido, um agradecimento, uma objeção. O que vier.
- Feche em silêncio. Um ou dois minutos, sem palavra nenhuma, é a parte que mais se pula e a mais difícil.
19Mas Maria guardava todas essas palavras, considerando -as no seu coração.
O verbo que Lucas usa descreve alguém que guarda e reconsidera, em vez de entender de imediato. É a atitude exata desta prática: a passagem fica na pessoa por tempo indeterminado, sem que ela precise fechar uma conclusão para prosseguir.
8O livro desta lei nunca se apartará de tua boca: antes de dia e de noite meditarás nele, para que guardes e faças conforme tudo o que nele está escrito: porque então farás prosperar teu caminho, e tudo te sairá bem.
O texto pede meditação contínua, dia e noite, e associa isso ao caminho da pessoa. Vale reparar no que ele não pede: leitura veloz nem cobertura de muito material. A imagem antiga por trás do verbo é a de ruminar — o mesmo trecho revisitado muitas vezes.
Da leitura para o pedido
A terceira forma é a mais espontânea das três e a que menos precisa de instrução: ler o trecho e conversar a partir dele. Se o texto fala de perdão, você fala do perdão que precisa dar ou receber. Se fala de fome, você fala das contas do mês. A leitura funciona como assunto de partida, não como roteiro.
Isso tem precedente dentro da própria Bíblia, e não é figura de linguagem. Há personagens que leem um texto anterior e, por causa dele, começam a orar; e há comunidades inteiras que oram citando um salmo como se ele descrevesse o que estavam vivendo naquele instante.
2no ano primeiro do seu reinado, eu, Daniel, compreendi nos livros o número dos anos, acerca da palavra do Senhor que veio a Jeremias, o profeta, que a desolação de Jerusalém se completaria em setenta anos.
3E voltei o meu rosto para o Senhor, meu Deus, para lhe pedir e suplicar com jejum, e saco, e cinza.
A sequência é explícita e é o modelo desta seção: ele estuda um texto profético anterior, entende o que está escrito ali, e a consequência imediata da leitura é virar-se para a oração. Primeiro leu, depois orou, e o assunto da oração foi o que a leitura levantou.
24E eles, ao ouvirem isto , levantaram concordantes a voz a Deus, e disseram: Senhor, tu és o Deus que fizeste o céu, a terra, o mar, e todas as coisas que neles há;
25Que pelo Espírito Santo por meio da boca de nosso pai, teu servo Davi disseste: Por que os gentios se irritam, e os povos gastam seus pensamentos em coisas vãs?
26Os reis da terra se levantaram, e os príncipes se juntaram em um mesmo propósito contra o Senhor, e contra o seu Ungido.
Uma comunidade sob ameaça ora em voz alta, e o miolo da oração é a citação de um salmo. Eles não parafraseiam nem explicam: usam as palavras prontas para dizer a própria situação. É a prova de que orar com o texto na mão é mais antigo que qualquer método com nome.
A oração que Jesus ensinou nasceu de um pedido
Vale lembrar de onde veio o Pai-Nosso, porque a circunstância diz algo sobre este artigo inteiro: os discípulos pediram para ser ensinados. Ou seja, pessoas que conviviam com Jesus diariamente admitiram não saber orar, e a resposta que receberam não foi um conselho sobre sinceridade — foi um texto, curto, para ser repetido.
Isso resolve, de saída, a objeção mais comum contra orar com palavras escritas por outra pessoa. A oração mais usada do cristianismo é, por definição, uma fórmula recebida. E a instrução que aparece logo ao lado, sobre não multiplicar palavras, aponta na mesma direção: o critério nunca foi a quantidade nem a originalidade do que se diz.
1E aconteceu que ele estava orando em um certo lugar. Quando terminou, lhe disse um de seus discípulos: Senhor, ensina-nos a orar, como João também ensinou a seus discípulos.
2E ele lhes disse: Quando orardes, dizei: Pai, santificado seja o teu nome; venha o teu Reino.
3Dá-nos cada dia nosso pão diário.
4E perdoa-nos nossos pecados, pois também perdoamos a todo aquele que nos deve. E não nos ponhas em tentação.
Repare que o pedido vem depois de verem Jesus orando, e que a resposta é uma fórmula. Quem sente que orar com texto de outro é menos autêntico está sem saber discordando da forma como a coisa foi ensinada na origem.
7E quando orardes, não façais repetições inúteis como os gentios, que pensam que por muito falarem serão ouvidos.
8Não sejais, pois, semelhantes a eles; porque vosso Pai sabe o que necessitais, antes que vós peçais a ele.
A advertência é contra a repetição vazia e o excesso de palavras, e não contra usar palavras dadas. A distinção importa para quem se sente culpado por orar pouco: o texto sugere que oração curta nunca foi o problema.
Texto fixo ou palavra própria: a divergência real
Quem pergunta como orar com a Bíblia quase sempre está, sem saber, perguntando outra coisa: se é melhor usar orações escritas ou falar com as próprias palavras. As duas práticas existem nas duas tradições, e a diferença entre elas é menor do que costuma parecer — mas o peso que cada comunidade dá a cada uma é diferente, e isso é honesto de reconhecer.
Quando não vem palavra nenhuma
Há dias em que nem o salmo funciona: você lê, entende cada frase e não consegue dizê-la. Isso não é falha de método, e as três práticas acima não têm nada a oferecer nesse caso — vale dizer isso com clareza em vez de sugerir um quarto exercício.
O que a Bíblia oferece aí não é uma técnica, é uma afirmação: a de que não saber orar é a condição normal e não impede a oração de acontecer. Quem está nesse ponto normalmente já leu conselhos demais. Ler o trecho e ficar em silêncio, sem produzir nada, é uma resposta legítima e provavelmente a única disponível naquele dia.
26E da mesma maneira também o Espírito ajuda em nossas fraquezas. Pois não sabemos orar como se deve, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis.
A carta afirma, sem rodeios, que não sabemos orar como se deve — e trata isso como ponto de partida, não como problema a corrigir. É uma das poucas passagens do Novo Testamento que descreve a oração como algo sustentado de fora de quem ora.