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Quando a leitura não diz nada a você

Resposta rápida

Não sentir nada ao ler a Bíblia é comum e não mede a sua fé. A própria Escritura registra longos períodos de silêncio, e o Salmo 88 termina sem consolo nenhum. Ninguém pode prometer quando isso passa. O que costuma ajudar é reduzir a meta, ler em voz alta e não decidir nada grande enquanto durar.

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Você lê o capítulo inteiro, entende cada frase, fecha o livro e não aconteceu nada. Nenhum incômodo, nenhum consolo, nenhuma ideia nova. Não é que o texto tenha ficado difícil — é que ele ficou mudo. E o que costuma vir logo depois não é o vazio em si, mas a suspeita de que o vazio significa alguma coisa sobre você.

Este texto não vai dizer que passa em trinta dias, porque ninguém sabe. Também não vai dizer que a culpa é da sua rotina, do seu pecado ou da tradução que você usa. Vai dizer o que a própria Bíblia registra sobre isso, que é bem mais do que o material devocional costuma admitir, e o que pessoas que atravessaram períodos assim relatam ter feito enquanto durou.

Secura não é falta de fé

A equação que quase todo mundo faz sozinho — se eu não sinto, é porque minha fé esfriou — não aparece em lugar nenhum do texto bíblico. O que aparece, com frequência considerável, é o contrário: pessoas descritas como fiéis atravessando longos trechos em que Deus não responde, não aparece e não conforta.

Vale separar duas coisas que a culpa mistura. Uma é a fé, que é adesão a algo tido como verdadeiro. A outra é a reação emocional a essa adesão, que oscila com sono, luto, estresse, remédio, idade e mais uma dúzia de fatores fora do seu controle. A segunda não mede a primeira, e nenhuma tradição cristã ensinou que medisse.

O que muda quando isso fica claro é pequeno e não é nada: você para de gastar a energia que sobrou tentando descobrir o que fez de errado.

Salmos 42:1-3

1Assim como a corça geme de desejo pelas correntes de águas, assim também minha alma geme de desejo por ti, Deus.

2Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivente: Quando entrarei, e me apresentarei diante de Deus?

3Minhas lágrimas têm sido meu alimento dia e noite, porque o dia todo me dizem: Onde está o teu Deus?

Tradução: Edição Chama da Fé

O salmo descreve sede, não posse — e descreve alguém sendo perguntado, o dia todo, onde está o seu Deus. A pergunta hostil está registrada dentro do próprio livro de orações, o que significa que a ausência sentida de Deus nunca foi tratada como assunto a esconder.

A Bíblia tem um salmo que termina no escuro

O Salmo 88 é o argumento mais forte deste artigo, e ele não é um argumento nosso: é um dado do cânon. O salmista declara que clama dia e noite, que ora de madrugada, que faz tudo o que se espera de quem ora — e diz, com todas as letras, que é rejeitado e que Deus esconde o rosto dele.

O que torna esse salmo diferente de todos os outros é o fim. Ele não vira. Não há a mudança de tom que aparece na maioria dos salmos de queixa, não há promessa retomada, não há amanhecer. A última palavra do texto é trevas, e ela fica assim.

Isso está na Bíblia das duas tradições, é lido na liturgia e nunca foi corrigido por ninguém. Se o único desfecho aceitável para um período de escuridão fosse a resolução, aquele salmo não teria sobrevivido à primeira compilação. Ele sobreviveu porque a experiência que ele descreve é real e precisava de palavras — e porque quem está nela precisa de um texto que não termine antes dela.

Salmos 88:1-2

1Ó SENHOR Deus de minha salvação, dia e noite clamo diante de ti.

2Que minha oração chegue à tua presença; inclina os teus ouvidos ao meu clamor.

Tradução: Edição Chama da Fé

A abertura deixa registrado que a pessoa está fazendo tudo certo: clama dia e noite e pede para ser ouvida. É importante notar isso antes de ler o fim — o que vem depois não é o caso de alguém que abandonou a oração.

Salmos 88:13-18

13Porém eu, SENHOR, clamo a ti; e minha oração vem ao teu encontro de madrugada.

14Por que tu, SENHOR, rejeitas minha alma, e escondes tua face de mim?

15Tenho sido afligido e estou perto da morte desde a minha juventude; tenho sofrido teus temores, e estou desesperado.

16Os ardores de tua ira têm passado por mim; teus terrores me destroem.

17Rodeiam-me como águas o dia todo; cercam-me juntos.

18Afastaste de mim meu amigo e meu companheiro; meus conhecidos estão em trevas.

Tradução: Edição Chama da Fé

Os últimos seis versículos do salmo. Ele ora de madrugada, pergunta por que é rejeitado, e o texto encerra com os conhecidos dele nas trevas. Não há versículo seguinte: essa é a última linha, e é por isso que este salmo vale mais, para quem está nesse lugar, do que qualquer promessa de que vai passar.

Ninguém pode dizer quanto tempo dura

A pergunta que todo mundo faz é quanto tempo isso leva, e a resposta honesta é que não se sabe. Os textos bíblicos que tratam do assunto não trazem prazo: trazem a pergunta "até quando", repetida, sem resposta anexada. Quem promete um número está inventando, e o número inventado cobra caro no dia em que passa e nada mudou.

Há uma assimetria que vale nomear, porque ela é o dado real. O Salmo 13 começa com quatro perguntas do tipo "até quando" e termina em confiança declarada. O Salmo 88 começa parecido e termina no escuro. Os dois estão no mesmo livro, e o livro não explica por que um vira e o outro não. Essa é toda a informação disponível, e qualquer coisa além disso é chute.

Vale acrescentar uma coisa que costuma ser omitida: em alguns textos, o esconder-se é atribuído a Deus, e não a uma falha de quem procura. Isso não torna a experiência mais confortável, mas retira dela a leitura de que existe um erro seu a ser localizado.

Habacuque 1:2

2Até quando, SENHOR, eu clamarei, e tu não ouvirás? Até quando gritarei a ti: Violência!, e tu não salvarás?

Tradução: Edição Chama da Fé

Um profeta — alguém cuja função é justamente ouvir — abre o próprio livro reclamando que clama e não é ouvido. A reclamação não é repreendida; ela é o começo do texto, preservada como parte da Escritura.

Salmos 13:1-2

1Até quando, SENHOR, te esquecerás de mim? Para sempre? Até quando tu esconderás de mim o teu rosto?

2Até quando refletirei em minha alma, tendo tristeza em meu coração o dia todo? Até quando o meu inimigo se levantará contra mim?

Tradução: Edição Chama da Fé

Quatro perguntas seguidas do tipo "até quando", incluindo a de Deus ter esquecido a pessoa para sempre. Este salmo termina em confiança declarada, poucos versículos depois — e é exatamente por isso que ele precisa ser lido ao lado do 88, que não termina.

Isaías 45:15

15Verdadeiramente tu és o Deus que se encobre; o Deus de Israel, o Salvador.

Tradução: Edição Chama da Fé

Uma frase curta e desconfortável: o texto chama Deus de aquele que se encobre, e o faz em tom de constatação, não de acusação. Para quem está procurando o próprio erro, é a passagem que muda o lugar da pergunta.

Antes de concluir qualquer coisa sobre a sua fé

Há uma cena no Antigo Testamento que costuma ser lida como episódio menor e que é bastante útil aqui. Elias, logo depois do maior êxito público da carreira dele, foge para o deserto, senta debaixo de um arbusto e pede para morrer. O que ele recebe primeiro não é uma visão, uma repreensão nem uma explicação: é comida e sono. Duas vezes. Só depois disso vem qualquer outra coisa.

A leitura direta é essa mesma: exaustão física produz sintomas que se parecem exatamente com desânimo espiritual, e o texto trata o corpo antes de tratar o resto. Quem está lendo a Bíblia sem sentir nada depois de meses dormindo mal, num trabalho que consome tudo, ou logo depois de uma perda, provavelmente está diante de um problema que a leitura não causou e não vai resolver.

E vale dizer o que quase nenhum texto de fé diz com clareza: se a ausência de reação não se limita à leitura — se nada mais desperta interesse, se o sono e o apetite mudaram, se isso já dura semanas —, o assunto deixou de ser espiritual e passou a ser clínico. Procurar um médico ou um psicólogo nesse ponto não é sinal de fé pequena, é a mesma coisa que tratar uma pneumonia em vez de rezar por ela.

1 Reis 19:4-8

4E ele se foi pelo deserto um dia de caminho, e veio e sentou-se debaixo de um junípero; e desejando morrer, disse: Basta já, ó SENHOR, tira minha alma; que não sou eu melhor que meus pais.

5E lançando-se debaixo do junípero, ficou dormido: e eis que logo um anjo que lhe tocou, e lhe disse: Levanta-te, come.

6Então ele olhou, e eis que a sua cabeceira uma torta cozida sobre as ascuas, e um vaso de água: e comeu e bebeu e voltou-se a dormir.

7E voltando o anjo do SENHOR a segunda vez, tocou-lhe, dizendo: Levanta-te, come: porque grande caminho te resta.

8Levantou-se, pois, e comeu e bebeu; e caminhou com a força daquela comida quarenta dias e quarenta noites, até o monte de Deus, Horebe.

Tradução: Edição Chama da Fé

Ele pede para morrer e dorme. O anjo o acorda para comer, ele come e volta a dormir; o anjo o acorda uma segunda vez, com a observação de que o caminho é longo. Nenhuma palavra sobre fé aparece nesse trecho — o cuidado com o corpo vem inteiro antes.

Dois vocabulários para a mesma experiência

Isso não é novidade nem descoberta recente: as tradições cristãs vêm descrevendo esse estado há séculos, com palavras diferentes e com um diagnóstico bastante parecido. Conhecer o nome que a sua comunidade dá ao que você está vivendo costuma aliviar mais que qualquer conselho, porque revela que a experiência é catalogada e não excepcional.

O que as pessoas fazem enquanto dura

A lista abaixo não é um método e não produz sentimento. Nada aqui faz o texto voltar a falar, e prometer isso seria repetir o erro que este artigo está tentando desfazer. É apenas o que pessoas que atravessaram períodos assim relatam ter feito para não abandonar a prática enquanto ela não devolvia nada.

  1. Reduza a meta em vez de aumentar. Cinco versículos por dia, e não um capítulo — a meta grande vira mais uma cobrança fracassada.
  2. Leia em voz alta. É a mudança que mais gente relata como útil, provavelmente porque exige um mínimo de atenção que a leitura silenciosa nesse estado não exige.
  3. Troque de gênero. Narrativa costuma sustentar melhor que carta ou profeta quando não há energia para acompanhar argumento.
  4. Use os salmos de queixa em vez de evitá-los. Ler o Salmo 88 num período assim é menos estranho que ler um salmo de louvor.
  5. Mantenha o horário mesmo nos dias vazios, sem transformar isso em prova de nada. Ficar cinco minutos com o livro aberto conta.
  6. Não decida nada grande enquanto durar — deixar a comunidade, mudar de igreja, concluir que acabou. É a única recomendação em que as duas tradições coincidem palavra por palavra.

O que não dizer a quem está assim

Se você chegou aqui por causa de outra pessoa, esta é a seção útil. O livro de Jó traz, sem querer, o melhor manual sobre o assunto: os três amigos acertam completamente na primeira atitude e erram tudo a partir do momento em que abrem a boca.

O que eles fazem certo é chegar, sentar no chão e ficar sete dias em silêncio, porque viram que a dor era grande demais. O que fazem errado é o que vem depois — explicar a causa, sugerir o pecado escondido, propor a fórmula de solução. O veredito que Jó dá sobre esse serviço é uma das frases mais duras do livro.

Traduzido para hoje: não diga que Deus está testando, que existe um propósito, que basta ter mais fé, que você conhece alguém que passou por isso e melhorou em dois meses. Perguntar como está e ficar por perto sem resolver nada é menos, parece pouco, e é a única parte que aqueles três fizeram bem.

Jó 2:11-13

11Quando três amigos de Jó, Elifaz temanita, Bildade suíta, e Zofar naamita, ouviram todo este mal que lhe tinha vindo sobre ele, vieram cada um de seu lugar; porque haviam combinado de juntamente virem para se condoerem dele, e o consolarem.

12Eles, quando levantaram seus olhos de longe, não o reconheceram; e choraram em alta voz; e cada um deles rasgou sua capa, e espalharam pó ao ar sobre suas cabeças.

13Assim se sentaram com ele na terra durante sete dias e sete noites, e nenhum lhe falava palavra alguma, pois viam que a dor era muito grande.

Tradução: Edição Chama da Fé

Sete dias e sete noites sentados no chão, sem dizer uma palavra, porque perceberam o tamanho da dor. É a parte do livro em que os amigos acertam, e ela consiste inteiramente em não explicar nada.

Jó 16:2

2Ouvi muitas coisas como estas; todos vós sois consoladores miseráveis.

Tradução: Edição Chama da Fé

A avaliação de Jó depois de ouvir os discursos deles. Vale como critério: se o que você pretende dizer a alguém nesse estado é uma explicação da causa, é bem provável que caia nesta categoria.

Perguntas frequentes

Não sentir nada ao ler a Bíblia é pecado?

Não. Nenhuma tradição cristã trata a ausência de emoção como falta moral, e a Escritura registra pessoas fiéis em longos períodos de silêncio — o Salmo 88 é o caso mais claro. Sentimento oscila com sono, luto, estresse e saúde; fé é outra coisa, e as duas não se medem pela mesma régua.

Quanto tempo dura a secura espiritual?

Não há prazo, e desconfie de quem der um. Os textos bíblicos sobre o assunto repetem a pergunta "até quando" sem resposta anexada, e no próprio saltério há salmos que viram para a confiança e pelo menos um que termina no escuro. Essa assimetria é toda a informação disponível.

Devo parar de ler enquanto não sinto nada?

A recomendação mais comum, nas duas tradições, é reduzir em vez de interromper: cinco versículos em voz alta, no mesmo horário, sem meta. Parar de vez costuma transformar um período de meses num afastamento de anos, porque o hábito interrompido é mais difícil de retomar que o hábito enfraquecido.

Como saber se é secura espiritual ou depressão?

O critério prático é o alcance. Se a ausência de reação se limita à leitura e à oração, é razoável tratar como período de secura. Se atinge tudo — trabalho, relações, sono, apetite, interesse por qualquer coisa — e persiste por semanas, é caso de procurar um profissional de saúde, e isso não substitui nem contradiz a fé.

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