Quando a leitura não diz nada a você
Resposta rápida
Não sentir nada ao ler a Bíblia é comum e não mede a sua fé. A própria Escritura registra longos períodos de silêncio, e o Salmo 88 termina sem consolo nenhum. Ninguém pode prometer quando isso passa. O que costuma ajudar é reduzir a meta, ler em voz alta e não decidir nada grande enquanto durar.
- Escrito por
- Raphael Navarro Schmitt
- Revisado por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
- Publicado em
- Tempo de leitura
- 11 min de leitura
Você lê o capítulo inteiro, entende cada frase, fecha o livro e não aconteceu nada. Nenhum incômodo, nenhum consolo, nenhuma ideia nova. Não é que o texto tenha ficado difícil — é que ele ficou mudo. E o que costuma vir logo depois não é o vazio em si, mas a suspeita de que o vazio significa alguma coisa sobre você.
Este texto não vai dizer que passa em trinta dias, porque ninguém sabe. Também não vai dizer que a culpa é da sua rotina, do seu pecado ou da tradução que você usa. Vai dizer o que a própria Bíblia registra sobre isso, que é bem mais do que o material devocional costuma admitir, e o que pessoas que atravessaram períodos assim relatam ter feito enquanto durou.
Secura não é falta de fé
A equação que quase todo mundo faz sozinho — se eu não sinto, é porque minha fé esfriou — não aparece em lugar nenhum do texto bíblico. O que aparece, com frequência considerável, é o contrário: pessoas descritas como fiéis atravessando longos trechos em que Deus não responde, não aparece e não conforta.
Vale separar duas coisas que a culpa mistura. Uma é a fé, que é adesão a algo tido como verdadeiro. A outra é a reação emocional a essa adesão, que oscila com sono, luto, estresse, remédio, idade e mais uma dúzia de fatores fora do seu controle. A segunda não mede a primeira, e nenhuma tradição cristã ensinou que medisse.
O que muda quando isso fica claro é pequeno e não é nada: você para de gastar a energia que sobrou tentando descobrir o que fez de errado.
1Assim como a corça geme de desejo pelas correntes de águas, assim também minha alma geme de desejo por ti, Deus.
2Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivente: Quando entrarei, e me apresentarei diante de Deus?
3Minhas lágrimas têm sido meu alimento dia e noite, porque o dia todo me dizem: Onde está o teu Deus?
O salmo descreve sede, não posse — e descreve alguém sendo perguntado, o dia todo, onde está o seu Deus. A pergunta hostil está registrada dentro do próprio livro de orações, o que significa que a ausência sentida de Deus nunca foi tratada como assunto a esconder.
A Bíblia tem um salmo que termina no escuro
O Salmo 88 é o argumento mais forte deste artigo, e ele não é um argumento nosso: é um dado do cânon. O salmista declara que clama dia e noite, que ora de madrugada, que faz tudo o que se espera de quem ora — e diz, com todas as letras, que é rejeitado e que Deus esconde o rosto dele.
O que torna esse salmo diferente de todos os outros é o fim. Ele não vira. Não há a mudança de tom que aparece na maioria dos salmos de queixa, não há promessa retomada, não há amanhecer. A última palavra do texto é trevas, e ela fica assim.
Isso está na Bíblia das duas tradições, é lido na liturgia e nunca foi corrigido por ninguém. Se o único desfecho aceitável para um período de escuridão fosse a resolução, aquele salmo não teria sobrevivido à primeira compilação. Ele sobreviveu porque a experiência que ele descreve é real e precisava de palavras — e porque quem está nela precisa de um texto que não termine antes dela.
1Ó SENHOR Deus de minha salvação, dia e noite clamo diante de ti.
2Que minha oração chegue à tua presença; inclina os teus ouvidos ao meu clamor.
A abertura deixa registrado que a pessoa está fazendo tudo certo: clama dia e noite e pede para ser ouvida. É importante notar isso antes de ler o fim — o que vem depois não é o caso de alguém que abandonou a oração.
13Porém eu, SENHOR, clamo a ti; e minha oração vem ao teu encontro de madrugada.
14Por que tu, SENHOR, rejeitas minha alma, e escondes tua face de mim?
15Tenho sido afligido e estou perto da morte desde a minha juventude; tenho sofrido teus temores, e estou desesperado.
16Os ardores de tua ira têm passado por mim; teus terrores me destroem.
17Rodeiam-me como águas o dia todo; cercam-me juntos.
18Afastaste de mim meu amigo e meu companheiro; meus conhecidos estão em trevas.
Os últimos seis versículos do salmo. Ele ora de madrugada, pergunta por que é rejeitado, e o texto encerra com os conhecidos dele nas trevas. Não há versículo seguinte: essa é a última linha, e é por isso que este salmo vale mais, para quem está nesse lugar, do que qualquer promessa de que vai passar.
Ninguém pode dizer quanto tempo dura
A pergunta que todo mundo faz é quanto tempo isso leva, e a resposta honesta é que não se sabe. Os textos bíblicos que tratam do assunto não trazem prazo: trazem a pergunta "até quando", repetida, sem resposta anexada. Quem promete um número está inventando, e o número inventado cobra caro no dia em que passa e nada mudou.
Há uma assimetria que vale nomear, porque ela é o dado real. O Salmo 13 começa com quatro perguntas do tipo "até quando" e termina em confiança declarada. O Salmo 88 começa parecido e termina no escuro. Os dois estão no mesmo livro, e o livro não explica por que um vira e o outro não. Essa é toda a informação disponível, e qualquer coisa além disso é chute.
Vale acrescentar uma coisa que costuma ser omitida: em alguns textos, o esconder-se é atribuído a Deus, e não a uma falha de quem procura. Isso não torna a experiência mais confortável, mas retira dela a leitura de que existe um erro seu a ser localizado.
2Até quando, SENHOR, eu clamarei, e tu não ouvirás? Até quando gritarei a ti: Violência!, e tu não salvarás?
Um profeta — alguém cuja função é justamente ouvir — abre o próprio livro reclamando que clama e não é ouvido. A reclamação não é repreendida; ela é o começo do texto, preservada como parte da Escritura.
1Até quando, SENHOR, te esquecerás de mim? Para sempre? Até quando tu esconderás de mim o teu rosto?
2Até quando refletirei em minha alma, tendo tristeza em meu coração o dia todo? Até quando o meu inimigo se levantará contra mim?
Quatro perguntas seguidas do tipo "até quando", incluindo a de Deus ter esquecido a pessoa para sempre. Este salmo termina em confiança declarada, poucos versículos depois — e é exatamente por isso que ele precisa ser lido ao lado do 88, que não termina.
15Verdadeiramente tu és o Deus que se encobre; o Deus de Israel, o Salvador.
Uma frase curta e desconfortável: o texto chama Deus de aquele que se encobre, e o faz em tom de constatação, não de acusação. Para quem está procurando o próprio erro, é a passagem que muda o lugar da pergunta.
Antes de concluir qualquer coisa sobre a sua fé
Há uma cena no Antigo Testamento que costuma ser lida como episódio menor e que é bastante útil aqui. Elias, logo depois do maior êxito público da carreira dele, foge para o deserto, senta debaixo de um arbusto e pede para morrer. O que ele recebe primeiro não é uma visão, uma repreensão nem uma explicação: é comida e sono. Duas vezes. Só depois disso vem qualquer outra coisa.
A leitura direta é essa mesma: exaustão física produz sintomas que se parecem exatamente com desânimo espiritual, e o texto trata o corpo antes de tratar o resto. Quem está lendo a Bíblia sem sentir nada depois de meses dormindo mal, num trabalho que consome tudo, ou logo depois de uma perda, provavelmente está diante de um problema que a leitura não causou e não vai resolver.
E vale dizer o que quase nenhum texto de fé diz com clareza: se a ausência de reação não se limita à leitura — se nada mais desperta interesse, se o sono e o apetite mudaram, se isso já dura semanas —, o assunto deixou de ser espiritual e passou a ser clínico. Procurar um médico ou um psicólogo nesse ponto não é sinal de fé pequena, é a mesma coisa que tratar uma pneumonia em vez de rezar por ela.
4E ele se foi pelo deserto um dia de caminho, e veio e sentou-se debaixo de um junípero; e desejando morrer, disse: Basta já, ó SENHOR, tira minha alma; que não sou eu melhor que meus pais.
5E lançando-se debaixo do junípero, ficou dormido: e eis que logo um anjo que lhe tocou, e lhe disse: Levanta-te, come.
6Então ele olhou, e eis que a sua cabeceira uma torta cozida sobre as ascuas, e um vaso de água: e comeu e bebeu e voltou-se a dormir.
7E voltando o anjo do SENHOR a segunda vez, tocou-lhe, dizendo: Levanta-te, come: porque grande caminho te resta.
8Levantou-se, pois, e comeu e bebeu; e caminhou com a força daquela comida quarenta dias e quarenta noites, até o monte de Deus, Horebe.
Ele pede para morrer e dorme. O anjo o acorda para comer, ele come e volta a dormir; o anjo o acorda uma segunda vez, com a observação de que o caminho é longo. Nenhuma palavra sobre fé aparece nesse trecho — o cuidado com o corpo vem inteiro antes.
Dois vocabulários para a mesma experiência
Isso não é novidade nem descoberta recente: as tradições cristãs vêm descrevendo esse estado há séculos, com palavras diferentes e com um diagnóstico bastante parecido. Conhecer o nome que a sua comunidade dá ao que você está vivendo costuma aliviar mais que qualquer conselho, porque revela que a experiência é catalogada e não excepcional.
O que as pessoas fazem enquanto dura
A lista abaixo não é um método e não produz sentimento. Nada aqui faz o texto voltar a falar, e prometer isso seria repetir o erro que este artigo está tentando desfazer. É apenas o que pessoas que atravessaram períodos assim relatam ter feito para não abandonar a prática enquanto ela não devolvia nada.
- Reduza a meta em vez de aumentar. Cinco versículos por dia, e não um capítulo — a meta grande vira mais uma cobrança fracassada.
- Leia em voz alta. É a mudança que mais gente relata como útil, provavelmente porque exige um mínimo de atenção que a leitura silenciosa nesse estado não exige.
- Troque de gênero. Narrativa costuma sustentar melhor que carta ou profeta quando não há energia para acompanhar argumento.
- Use os salmos de queixa em vez de evitá-los. Ler o Salmo 88 num período assim é menos estranho que ler um salmo de louvor.
- Mantenha o horário mesmo nos dias vazios, sem transformar isso em prova de nada. Ficar cinco minutos com o livro aberto conta.
- Não decida nada grande enquanto durar — deixar a comunidade, mudar de igreja, concluir que acabou. É a única recomendação em que as duas tradições coincidem palavra por palavra.
O que não dizer a quem está assim
Se você chegou aqui por causa de outra pessoa, esta é a seção útil. O livro de Jó traz, sem querer, o melhor manual sobre o assunto: os três amigos acertam completamente na primeira atitude e erram tudo a partir do momento em que abrem a boca.
O que eles fazem certo é chegar, sentar no chão e ficar sete dias em silêncio, porque viram que a dor era grande demais. O que fazem errado é o que vem depois — explicar a causa, sugerir o pecado escondido, propor a fórmula de solução. O veredito que Jó dá sobre esse serviço é uma das frases mais duras do livro.
Traduzido para hoje: não diga que Deus está testando, que existe um propósito, que basta ter mais fé, que você conhece alguém que passou por isso e melhorou em dois meses. Perguntar como está e ficar por perto sem resolver nada é menos, parece pouco, e é a única parte que aqueles três fizeram bem.
11Quando três amigos de Jó, Elifaz temanita, Bildade suíta, e Zofar naamita, ouviram todo este mal que lhe tinha vindo sobre ele, vieram cada um de seu lugar; porque haviam combinado de juntamente virem para se condoerem dele, e o consolarem.
12Eles, quando levantaram seus olhos de longe, não o reconheceram; e choraram em alta voz; e cada um deles rasgou sua capa, e espalharam pó ao ar sobre suas cabeças.
13Assim se sentaram com ele na terra durante sete dias e sete noites, e nenhum lhe falava palavra alguma, pois viam que a dor era muito grande.
Sete dias e sete noites sentados no chão, sem dizer uma palavra, porque perceberam o tamanho da dor. É a parte do livro em que os amigos acertam, e ela consiste inteiramente em não explicar nada.
2Ouvi muitas coisas como estas; todos vós sois consoladores miseráveis.
A avaliação de Jó depois de ouvir os discursos deles. Vale como critério: se o que você pretende dizer a alguém nesse estado é uma explicação da causa, é bem provável que caia nesta categoria.