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Ave-Maria: o texto da oração e de onde vem cada metade

A oração

Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco; bendita sois vós entre as mulheres, e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus.

Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte.

Amém.

Em resumo

A Ave-Maria tem duas metades de origens distintas. A primeira junta a saudação do anjo Gabriel e a de Isabel, as duas em Lucas 1. A segunda, o pedido “rogai por nós, pecadores”, não está na Bíblia: apareceu no fim da Idade Média e só foi fixada no século XVI.

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Quando rezar

Em qualquer momento, e sobretudo diante do que assusta: a segunda metade pede socorro para “agora” e para “a hora da nossa morte”, os dois únicos tempos que ela nomeia. É também a oração mais repetida do terço — cinquenta vezes nas cinco dezenas.

A oração tem uma dobradiça, como o Pai-Nosso, mas ela separa dois gêneros e não dois assuntos. A primeira metade é saudação; a segunda, pedido. Ninguém fala assim na vida comum — cumprimentar e só depois pedir é uma cortesia que a oração herdou de uma época em que a fórmula ainda era só o cumprimento.

O verbo do pedido é “rogai”, e essa escolha carrega a devoção inteira. A oração não pede a Maria que conceda, perdoe ou salve: pede que ela peça. É uma diferença que passa despercebida na repetição e que é exatamente onde as tradições cristãs se separam — por isso a nota mais abaixo.

Os dois tempos nomeados no fim também não são aleatórios. “Agora” e “a hora da nossa morte” são os únicos dois momentos que qualquer pessoa tem certeza de que vai atravessar. A oração ignora o futuro intermediário, aquele que a ansiedade tenta administrar, e pede socorro só para o instante presente e para o último.

Vale notar o que Maria diz no evangelho de João, na única cena em que ela fala: “Fazei tudo quanto ele vos disser”. É uma frase que aponta para longe dela. Quem reza a Ave-Maria com atenção encontra ali o critério da própria oração.

De onde vem esta oração

Quando surgiu Primeira metade, século I; segunda, fim da Idade Média

As duas metades vêm de séculos diferentes, e quem reza raramente percebe a emenda. A primeira é montada com duas saudações de Lucas 1: a do anjo Gabriel a Maria e a de Isabel, quando a prima chega à casa dela. Já circulava como antífona no Ocidente antes do século XI, e nessa época terminava onde termina a citação bíblica, sem pedido nenhum. O nome “Jesus” no fim da frase é um acréscimo posterior, que a tradição atribui ao papa Urbano IV, no século XIII — atribuição repetida há muito tempo e que os historiadores não conseguem confirmar em documento da época.

A segunda metade é o que transforma a saudação em oração, e ela não é bíblica. O pedido “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte” aparece em formas variadas ao longo do século XV, sobretudo na Itália, e só se estabiliza com a reforma do Breviário Romano publicada sob Pio V, em 1568. É de lá que sai a redação de duas partes que o mundo católico decorou.

A fórmula rezada em português não é a redação de nenhuma tradução bíblica publicada neste site, e isso não é erro de ninguém — vale aqui o mesmo que vale para o Pai-Nosso. Ela é outro objeto: um texto fixado pelo uso e pela repetição em voz alta. O texto bíblico que está por trás da primeira metade aparece logo abaixo, nas passagens, e dá para comparar palavra por palavra.

Detalhes pouco conhecidos

  • “Bendita sois vós entre as mulheres” aparece uma vez na Bíblia, não duas

    Na edição que este site publica em português, Lucas 1:28 termina em “o Senhor é contigo”: a frase sobre ser bendita entre as mulheres está só na boca de Isabel, no versículo 42. Já a edição em inglês (a CPDV) e a espanhola (a Reina-Valera de 1909) trazem a frase também no versículo 28, porque seguem tradições textuais que a carregam ali. Os manuscritos gregos mais antigos não a têm nesse ponto — é uma harmonização de copista, feita a partir do versículo 42. Dá para conferir abrindo Lucas 1 nos três idiomas deste site.

  • “Cheia de graça” traduz uma palavra que aparece uma única vez no Novo Testamento

    O termo grego de Lucas 1:28, kecharitoméne, é um particípio que não é usado de mais ninguém em todo o Novo Testamento. Jerônimo o verteu para o latim como “gratia plena”, e é dali que vem “cheia de graça”. As traduções feitas a partir do grego costumam preferir “agraciada” ou “favorecida” — que é exatamente o que a edição em português deste site diz: “Alegra-te, agraciada”.

  • Durante séculos a oração não pedia nada

    Até o fim da Idade Média a Ave-Maria era só a saudação: terminava em “o fruto do vosso ventre” e não continha um único pedido. Uma oração que não pede é uma coisa estranha ao ouvido moderno, e foi essa estranheza que a segunda metade veio resolver — o que significa que a parte mais rezada hoje é também a mais recente.

  • “Mãe de Deus” foi decidido num concílio, e a discussão não era sobre Maria

    O título foi afirmado no Concílio de Éfeso, em 431, contra quem preferia chamá-la apenas de mãe de Cristo. A questão em jogo não era o estatuto de Maria e sim o de Jesus: dizer que ela é mãe de Deus era o modo de afirmar que aquele que nasceu dela é uma pessoa só, e não um homem ao lado de um Deus. O título entrou na oração muito depois, no século XV.

O que dizem as passagens

Lucas 1:26-31

26E no sexto mês o anjo Gabriel foi enviado da parte de Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré,

27a uma virgem prometida em casamento com um homem chamado José, da descendência de Davi; e o nome da virgem era Maria.

28O anjo entrou onde ela estava, e disse: Alegra-te, agraciada; o Senhor é contigo.

29Ela perturbou-se muito por essas palavras, e se perguntava que saudação seria esta.

30Então o anjo lhe disse: Maria, não temas, porque encontraste graça diante de Deus.

31E eis que em teu ventre conceberás, darás à luz um filho, e chamarás o seu nome de Jesus.

Tradução: Edição Chama da Fé

A cena de onde sai a primeira frase da oração. Compare com o texto acima: aqui o anjo diz “Alegra-te, agraciada”, onde a fórmula rezada diz “cheia de graça”, e a saudação termina antes da frase sobre ser bendita entre as mulheres.

Lucas 1:39-45

39E naqueles dias, Maria levantou-se, e foi apressada à região montanhosa, a uma cidade de Judá.

40Ela entrou na casa de Zacarias, e cumprimentou Isabel.

41E aconteceu que, quando Isabel ouviu o cumprimento de Maria, a criança saltou no seu ventre, e Isabel foi cheia do Espírito Santo.

42Então exclamou em alta voz: Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre!

43Como me acontece isto, que a mãe de meu Senhor venha a mim?

44Pois eis que, quando a voz do teu cumprimento chegou aos meus ouvidos, a criança saltou de alegria no meu ventre.

45E bendita a que creu, pois se cumprirão as coisas que do Senhor lhe foram ditas.

Tradução: Edição Chama da Fé

A segunda fonte da primeira metade. É Isabel, e não o anjo, quem diz “bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre” — a oração juntou as duas saudações numa só frase, e a costura fica invisível quando se reza depressa.

João 2:3-5

3E tendo faltado vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Não têm vinho.

4Jesus lhe disse: O que eu tenho contigo, mulher? A minha hora ainda não chegou.

5Sua mãe disse aos serventes: Fazei tudo quanto ele vos disser.

Tradução: Edição Chama da Fé

A única cena do evangelho de João em que Maria fala, e o que ela diz aponta para Jesus e não para si mesma. É a passagem que a devoção católica costuma citar para descrever o que entende por intercessão: ela leva o pedido e devolve a atenção.

1 Timóteo 2:5

5Pois há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os seres humanos: o humano Cristo Jesus.

Tradução: Edição Chama da Fé

O versículo em que a leitura evangélica se apoia para orar somente a Deus por Cristo. Ele está aqui porque a página não esconde a divergência: quem reza a Ave-Maria e quem não reza estão lendo esta linha de maneiras diferentes, e as duas leituras aparecem na nota abaixo.

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