Quem foi Salomão?
Quando viveu Reino unido de Israel, por volta do século X a.C.
Em resumo
Salomão foi rei de Israel, filho de Davi e Bate-Seba, e construiu o primeiro templo de Jerusalém. Pediu discernimento em vez de riqueza, decidiu a disputa das duas mães com uma espada, recebeu a rainha de Sabá e terminou a vida com setecentas esposas e o reino prestes a se dividir.
- Escrito por
- Raphael Navarro Schmitt
- Revisado por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
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Salomão é lembrado por uma qualidade só, e o livro que conta a história dele é bem menos unilateral que a lembrança. 1 Reis dedica nove capítulos ao auge — a sabedoria, o templo, o comércio, a fama internacional — e depois um capítulo inteiro à ruína, escrito no mesmo tom e sem nenhuma tentativa de suavizar.
A leitura completa muda o sentido do personagem. Não é a história de um homem sábio; é a história de um homem que recebeu sabedoria como dom, usou-a para construir um Estado, e terminou fazendo exatamente o que a própria lei do país proibia a um rei.
O pedido em Gibeom
A cena fundadora acontece num sonho. Deus oferece a Salomão o que ele quiser pedir, e a resposta dele começa por um reconhecimento incomum num rei recém-empossado: diz que é um jovem pequeno e que não sabe como entrar nem sair — expressão da época para não saber conduzir os próprios passos.
O que ele pede não é sabedoria no sentido de erudição. É um coração capaz de julgar o povo e de distinguir o certo do errado, e a justificativa que ele apresenta é administrativa: o povo é grande demais para ser governado sem isso.
A resposta concede o pedido e acrescenta o que não foi pedido — riqueza e honra. É esse acréscimo que a leitura popular retém, e o próprio livro vai mostrar mais adiante que ele foi a parte perigosa do presente.
7Agora, pois, SENHOR Deus meu, tu puseste a mim teu servo por rei em lugar de Davi meu pai: e eu sou jovem pequeno, que não sei como entrar nem sair.
8E teu servo está em meio de teu povo ao qual tu escolheste; um povo grande, que não se pode contar nem numerar por sua multidão.
9Dá, pois a teu servo coração dócil para julgar a teu povo, para discernir entre o bom e o mau: porque quem poderá governar este teu povo tão grande?
Três versículos com o pedido inteiro. Note que ele não pede para ser sábio: pede um coração capaz de julgar, e o motivo declarado é o tamanho do povo, não a própria reputação.
12Eis que o fiz conforme a tuas palavras: eis que te dei coração sábio e entendido, tanto que não haja havido antes de ti outro como tu, nem depois de ti se levantará outro como tu.
A concessão vem em superlativo, e o superlativo é dos dois lados do tempo: nem antes nem depois. O livro está estabelecendo um padrão que ele mesmo vai cobrar no capítulo 11.
As duas mulheres e a criança
O caso que o livro escolhe para ilustrar o dom é deliberadamente sórdido, e a maior parte das recontagens corta a informação de abertura: as duas mulheres que chegam ao rei são prostitutas, moram na mesma casa, tiveram filhos com poucos dias de diferença, e uma das crianças morreu durante a noite.
Não há testemunhas e não há prova. É a palavra de uma contra a de outra, o tipo de caso que nenhum tribunal antigo tinha como resolver. A ordem de Salomão — trazer uma espada e dividir a criança viva ao meio — é a única saída possível quando não há evidência: produzir a evidência a partir da reação.
E funciona porque a reação é assimétrica. Uma pede que entreguem o menino à outra, para que ele viva; a outra concorda com a divisão. O rei devolve a criança a quem preferiu perdê-la a vê-la morta.
24E disse o rei: Trazei-me uma espada. E trouxeram ao rei uma espada.
25Em seguida o rei disse: Parti por meio o menino vivo, e dai a metade à uma, e a outra metade à outra.
26Então a mulher cujo era o filho vivo, falou ao rei (porque suas entranhas se lhe comoveram por seu filho), e disse: Ah, senhor meu! Dai a esta o menino vivo, e não o mateis. Mas a outra disse: nem a mim nem a ti; parti-o.
27Então o rei respondeu, e disse: Dai a aquela o filho vivo, e não o mateis: ela é sua mãe.
Quatro versículos com a ordem, as duas reações e o veredito. Repare que o texto não diz em nenhum momento que a ordem era um estratagema: registra o que foi dito e o que aconteceu, e deixa a intenção sem comentário.
O templo, e a frase que o relativiza
A construção do templo ocupa capítulos inteiros de descrição técnica: dimensões, materiais, mão de obra recrutada, prazos. Foram sete anos de obra, e o livro trata o projeto como a realização central do reinado.
O que surpreende é o discurso de inauguração. No meio da cerimônia, Salomão faz uma pergunta que parece contradizer tudo o que acabou de ser construído: se nem a totalidade do céu é capaz de abrigar a Deus, o que dizer de uma casa erguida por ele. É uma das formulações mais sofisticadas do Antigo Testamento sobre os limites de qualquer templo.
Vale também um dado que raramente acompanha a história: a construção foi feita com trabalho compulsório, e é justamente o peso desse regime que os súditos vão apresentar ao filho dele como motivo para a revolta que parte o reino em dois.
27Porém é verdade que Deus haja de morar sobre a terra? Eis que os céus, os céus dos céus, não te podem conter: quanto menos esta casa que eu edifiquei?
A pergunta feita pelo próprio construtor, no dia da inauguração. O templo é inaugurado com uma declaração de que ele não é suficiente.
A rainha de Sabá
A visita é curta no texto e enorme na tradição posterior. Uma rainha estrangeira ouve a fama de Salomão, viaja com uma caravana carregada de especiarias, ouro e pedras preciosas, e vem testá-lo com perguntas difíceis.
O que o texto diz é que ele respondeu a tudo, que ela ficou impressionada com a corte e com a organização do reino, e que os dois trocaram presentes de altíssimo valor. E é só isso: a Bíblia não conta nada além disso sobre a relação entre os dois.
Tudo o mais — romance, filho, dinastia — vem de tradições posteriores, sobretudo da tradição etíope, que faz descender dela a linhagem imperial do país. São narrativas próprias, com valor próprio, e não estão no texto bíblico.
1E ouvindo a rainha de Sabá a fama de Salomão no nome do SENHOR, veio a provar-lhe com perguntas.
2E veio a Jerusalém com muito grande comitiva, com camelos carregados de especiarias, e ouro em grande abundância, e pedras preciosas: e quando veio a Salomão, propôs-lhe todo o que em seu coração tinha.
3E Salomão lhe declarou todas suas palavras: nenhuma coisa se lhe escondeu ao rei, que não lhe declarasse.
Três versículos com a chegada e o teste. O verbo é "provar": ela não vem admirar, vem examinar, e o texto registra que ele respondeu a tudo o que ela trouxe.
A queda
O capítulo 11 muda o tom sem aviso. Ele informa o número — setecentas esposas de posição real e trezentas concubinas — e liga esse número, no mesmo parágrafo, a alianças com nações sobre as quais havia proibição expressa.
A acusação do texto não é sobre quantidade nem sobre moral sexual. É sobre culto: as esposas estrangeiras trouxeram os próprios deuses, e o rei construiu lugares de culto para eles. O livro diz, sem meias palavras, que na velhice o coração dele já não era íntegro como o do pai.
A consequência é anunciada em seguida: o reino será rasgado e entregue a um servo. Vai acontecer logo depois da morte dele, e a Israel unida de Davi e Salomão nunca mais existirá. O auge e a fratura estão no mesmo livro, separados por poucos capítulos.
1Porém o rei Salomão amou, além da filha de Faraó, muitas mulheres estrangeiras: às de Moabe, às de Amom, às de Edom, às de Sidom, e às heteias;
2Nações das quais o SENHOR havia dito aos filhos de Israel: Não entrareis a elas, nem elas entrarão a vós; porque certamente farão inclinar vossos corações atrás seus deuses. A estas, pois, juntou-se Salomão com amor.
3E teve setecentas esposas princesas, e trezentas concubinas; e suas mulheres desviaram o coração dele.
4E aconteceu que, na velhice de Salomão, suas mulheres inclinaram o seu coração para seguir outros deuses; e o coração dele não era completo com o SENHOR seu Deus, como o coração do seu pai Davi.
Quatro versículos que estabelecem uma cadeia: as alianças, a proibição conhecida de antemão, o número, e o efeito sobre o coração dele. O texto não deixa a conclusão por conta do leitor.
9E o SENHOR se irou contra Salomão, pois o seu coração estava desviado do SENHOR Deus de Israel, que lhe havia aparecido duas vezes,
10E lhe havia mandado acerca disto, que não seguisse outros deuses; mas ele não guardou o que o SENHOR havia lhe mandado.
11E disse o SENHOR a Salomão: Como houve isso em ti, e não guardaste o meu pacto e os meus estatutos que eu te mandei, romperei o reino de ti, e o entregarei a teu servo.
O agravante que o texto sublinha: ele havia recebido aparição por duas vezes e instrução direta sobre esse ponto. A sentença sobre o reino vem logo depois.
Os livros atribuídos a ele
Provérbios, Eclesiastes e o Cântico dos Cânticos aparecem em quase toda lista como "os livros de Salomão". Vale ver o que cada um deles de fato afirma sobre a própria autoria, porque os três dizem coisas diferentes.
Provérbios abre com o nome dele. Mas o próprio livro traz, mais adiante, duas assinaturas diferentes: uma coleção que o texto diz ter sido copiada por funcionários de Ezequias — rei que viveu cerca de dois séculos e meio depois — e um capítulo atribuído às palavras do rei Lemuel, ensinadas pela mãe dele. Ou seja: o livro se apresenta como coletânea, e diz isso com todas as letras.
Eclesiastes não menciona Salomão em nenhum versículo. A abertura identifica quem fala só por descrição — descendente de Davi, reinando na cidade —, e é dessa descrição que vem a atribuição tradicional. O Cântico dos Cânticos, por sua vez, traz o nome dele no primeiro versículo em várias edições, embora nem todas o tragam no mesmo lugar.
Nada disso diminui os livros. Diminui apenas a certeza sobre quem os escreveu — que é uma informação diferente, e que o próprio texto ajuda a corrigir.
1Estes também são provérbios de Salomão, que foram copiados pelos homens de Ezequias, rei de Judá.
A frase que quase ninguém lê: esta parte do livro foi copiada por homens de Ezequias, séculos depois de Salomão. É o próprio Provérbios informando que passou por mãos posteriores.
1Palavras do rei Lemuel, a profecia que sua mãe o ensinava.
O capítulo mais citado do livro é atribuído a outro rei, e apresentado como o que a mãe dele lhe ensinou. Vale saber disso antes de repetir que Provérbios 31 é de Salomão.
1Palavras do Pregador, filho de Davi, rei em Jerusalém.
A abertura do livro identifica o autor por descrição, e não por nome. O nome de Salomão não aparece em Eclesiastes — nem aqui, nem em nenhum outro versículo.
O que o texto não diz
Personagens bíblicos acumulam camadas de tradição que a Escritura não sustenta. Separar as duas coisas não diminui a história — devolve a ela o que está de fato escrito.
O que se costuma dizer
Salomão escreveu Provérbios, Eclesiastes e o Cântico dos Cânticos.
O que a Escritura traz
Provérbios traz o nome dele na abertura e, dentro do próprio livro, duas outras assinaturas: uma coleção copiada por funcionários de Ezequias, cerca de dois séculos e meio depois, e um capítulo atribuído ao rei Lemuel. Eclesiastes não menciona Salomão em nenhum versículo. A atribuição dos três a ele é tradicional, e o texto a sustenta em graus muito diferentes.
O que se costuma dizer
As mil mulheres de Salomão são exagero de tradução ou lenda popular.
O que a Escritura traz
O número está no texto, no capítulo 11 de 1 Reis: setecentas esposas de posição real e trezentas concubinas. E o livro não o trata como curiosidade — liga essas alianças diretamente ao desvio do coração dele e à sentença sobre o reino.
O que se costuma dizer
A sabedoria de Salomão o acompanhou até o fim da vida.
O que a Escritura traz
O mesmo livro que registra o dom registra a queda. Na velhice, segundo o texto, o coração dele foi inclinado a outros deuses e já não era íntegro como o do pai. O capítulo termina com o anúncio de que o reino seria rasgado.
O que se costuma dizer
A rainha de Sabá e Salomão viveram um romance, e tiveram um filho.
O que a Escritura traz
O texto narra uma visita diplomática: perguntas difíceis, respostas, admiração pela corte e troca de presentes de alto valor. Não há nada além disso. As narrativas de romance e descendência vêm de tradições posteriores, sobretudo etíopes, e não do texto bíblico.
Onde essa pessoa aparece
7Agora, pois, SENHOR Deus meu, tu puseste a mim teu servo por rei em lugar de Davi meu pai: e eu sou jovem pequeno, que não sei como entrar nem sair.
8E teu servo está em meio de teu povo ao qual tu escolheste; um povo grande, que não se pode contar nem numerar por sua multidão.
9Dá, pois a teu servo coração dócil para julgar a teu povo, para discernir entre o bom e o mau: porque quem poderá governar este teu povo tão grande?
O pedido em Gibeom, com a autoavaliação que o antecede.
24E disse o rei: Trazei-me uma espada. E trouxeram ao rei uma espada.
25Em seguida o rei disse: Parti por meio o menino vivo, e dai a metade à uma, e a outra metade à outra.
26Então a mulher cujo era o filho vivo, falou ao rei (porque suas entranhas se lhe comoveram por seu filho), e disse: Ah, senhor meu! Dai a esta o menino vivo, e não o mateis. Mas a outra disse: nem a mim nem a ti; parti-o.
27Então o rei respondeu, e disse: Dai a aquela o filho vivo, e não o mateis: ela é sua mãe.
A disputa das duas mulheres, resolvida por uma ordem que produz a prova que faltava.
27Porém é verdade que Deus haja de morar sobre a terra? Eis que os céus, os céus dos céus, não te podem conter: quanto menos esta casa que eu edifiquei?
A pergunta sobre os limites do templo, feita no dia da inauguração pelo próprio construtor.
1E ouvindo a rainha de Sabá a fama de Salomão no nome do SENHOR, veio a provar-lhe com perguntas.
2E veio a Jerusalém com muito grande comitiva, com camelos carregados de especiarias, e ouro em grande abundância, e pedras preciosas: e quando veio a Salomão, propôs-lhe todo o que em seu coração tinha.
3E Salomão lhe declarou todas suas palavras: nenhuma coisa se lhe escondeu ao rei, que não lhe declarasse.
A chegada da rainha de Sabá, e o teste que ela veio aplicar.
1Porém o rei Salomão amou, além da filha de Faraó, muitas mulheres estrangeiras: às de Moabe, às de Amom, às de Edom, às de Sidom, e às heteias;
2Nações das quais o SENHOR havia dito aos filhos de Israel: Não entrareis a elas, nem elas entrarão a vós; porque certamente farão inclinar vossos corações atrás seus deuses. A estas, pois, juntou-se Salomão com amor.
3E teve setecentas esposas princesas, e trezentas concubinas; e suas mulheres desviaram o coração dele.
4E aconteceu que, na velhice de Salomão, suas mulheres inclinaram o seu coração para seguir outros deuses; e o coração dele não era completo com o SENHOR seu Deus, como o coração do seu pai Davi.
O número das esposas e o efeito que o texto lhes atribui — a passagem que fecha a história dele.
1Estes também são provérbios de Salomão, que foram copiados pelos homens de Ezequias, rei de Judá.
A nota editorial dentro do próprio Provérbios: esta parte foi copiada muito depois.