Quem foi Noé?
Quando viveu Nos capítulos iniciais do Gênesis, antes da história dos patriarcas
Em resumo
Noé é o personagem do dilúvio, no bloco inicial do Gênesis. O texto o apresenta como um homem justo entre contemporâneos corrompidos, encarregado de construir uma embarcação enorme, sobrevivente da catástrofe com a família e os animais, destinatário de uma aliança com sinal no céu — e, depois disso, embriagado dentro da própria tenda.
- Escrito por
- Raphael Navarro Schmitt
- Revisado por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
- Publicado em
- Tempo de leitura
- 7 min de leitura
A história de Noé ocupa quatro capítulos e é, provavelmente, a passagem bíblica mais reproduzida em quarto de criança. Isso tem um efeito curioso: quase todo mundo acha que a conhece, e quase ninguém leu os quatro capítulos inteiros.
O que está lá é bem mais estranho e bem mais duro do que a versão com girafas sorrindo. O relato começa com um arrependimento atribuído a Deus, passa por uma destruição de escala total e termina com uma cena de humilhação familiar dentro de uma tenda. Nada disso é acréscimo de leitura crítica: está no texto, em sequência.
O mundo que se corrompe
Antes de Noé aparecer, o Gênesis descreve uma degradação progressiva desde o jardim: o primeiro homicídio, uma canção de vingança, e um trecho curto e obscuro sobre filhos de Deus e filhas dos homens que gera gigantes. Então vem a avaliação: a maldade era grande e o pensamento humano se voltava continuamente para o mal.
A frase seguinte é uma das mais incômodas da Bíblia, e as traduções não a suavizam: o texto diz que Deus se arrependeu de ter feito o ser humano, e que aquilo lhe pesou no coração. Não é uma decisão fria; é apresentada como dor.
É nesse ponto que Noé entra, com uma frase que o separa do restante em duas medidas: ele achou favor, e era justo entre os de sua geração.
5E viu o SENHOR que a malícia dos seres humanos era muito na terra, e que todo desígnio dos pensamentos do coração deles era continuamente somente o mal.
6E arrependeu-se o SENHOR de haver feito o ser humano na terra, e pesou-lhe em seu coração.
O diagnóstico e a reação. Vale ler os dois versículos juntos e reparar que o segundo não descreve ira, e sim pesar — o que muda bastante o tom com que se lê o resto do bloco.
A arca, e quantos animais entraram nela
As instruções são específicas ao ponto de parecerem uma planta: madeira, compartimentos, betume aplicado por dentro e por fora, trezentos côvados de comprimento por cinquenta de largura por trinta de altura, uma janela, uma porta na lateral e três andares.
E aqui está o detalhe que mais se perde. O capítulo 6 manda levar um casal de cada espécie. O capítulo 7 especifica: dos animais limpos, sete; das aves, sete; e dos que não são limpos, dois. Ou seja, a fórmula famosa é a instrução do primeiro capítulo, e a do segundo é mais detalhada.
Essa distinção não é curiosidade. No fim do relato, Noé oferece um sacrifício de animais limpos — o que só é possível porque havia mais de um casal deles a bordo. O texto tem coerência interna nesse ponto, e ela desaparece quando se lê apenas a versão resumida.
19E de tudo o que vive, de toda carne, dois de cada espécie porás na arca, para que tenham vida contigo; macho e fêmea serão.
20Das aves segundo sua espécie, e dos animais segundo sua espécie, de todo réptil da terra segundo sua espécie, dois de cada espécie entrarão contigo para que tenham vida.
A instrução geral: um casal de cada. É a que todo mundo conhece, e é a primeira das duas.
2De todo animal limpo tomarás de sete em sete, macho e sua fêmea; mas dos animais que não são limpos, dois, macho e sua fêmea.
3Também das aves dos céus de sete em sete, macho e fêmea; para guardar em vida a descendência sobre a face de toda a terra.
A instrução detalhada, um capítulo depois, que distingue animais limpos de não limpos e muda os números. Leia as duas em sequência: é o mesmo relato especificando o que a primeira instrução não especificava.
O dilúvio, e a espera
A catástrofe é descrita como uma reversão da criação: as águas voltam de cima e de baixo, e a separação que tinha organizado o mundo se desfaz. O texto informa que Noé tinha seiscentos anos.
A parte mais longa, porém, não é a água subindo — é a espera pela água baixar. A embarcação encalha numa região montanhosa, e depois vêm semanas de tentativas de descobrir se já dá para sair. Noé solta um corvo. Depois uma pomba, que volta sem nada. Sete dias depois, a mesma pomba volta com uma folha de oliveira. Sete dias depois, ela sai e não volta mais — e é esse silêncio, e não a folha, o sinal de que acabou.
4E repousou a arca no mês sétimo, a dezessete dias do mês, sobre os montes de Ararate.
O encalhe. Repare no plural: o texto fala em montes, no plural, e nomeia uma região inteira — nunca um pico específico. A identificação de um cume determinado é bem posterior ao texto.
A aliança e o arco
Depois do sacrifício, vem um compromisso unilateral: não haverá outra destruição assim. E vem um sinal, que é a parte mais citada do bloco e a menos lida com atenção.
O texto não fala em arco-íris. Fala no arco de Deus, colocado nas nuvens — e a palavra hebraica é a mesma usada para o arco de guerra. A imagem é a de uma arma pendurada, apontada para cima, e a leitura de que se trata de um gesto de desarmamento é antiga e muito difundida entre comentaristas.
A vinha
A história não termina no arco. Termina com Noé plantando uma vinha, bebendo do vinho, ficando bêbado e deitado nu dentro da tenda. Um dos filhos vê e conta aos irmãos; os outros dois entram de costas para cobrir o pai sem olhar.
Ao acordar, Noé amaldiçoa — e a maldição não recai sobre o filho que viu, e sim sobre um neto, Canaã. Essa passagem tem um histórico de uso lamentável: foi invocada durante séculos para justificar escravização, e essa aplicação é hoje repudiada por todas as grandes tradições cristãs. O texto em si não menciona raça nenhuma, e a leitura racial foi construída muito depois.
O que vale registrar é o formato do final. O homem descrito como justo entre os seus não sai da catástrofe transformado. O Gênesis o deixa exatamente como deixou os personagens do jardim: com uma consequência dentro de casa.
O que o texto não diz
Personagens bíblicos acumulam camadas de tradição que a Escritura não sustenta. Separar as duas coisas não diminui a história — devolve a ela o que está de fato escrito.
O que se costuma dizer
Os animais entraram na arca de dois em dois.
O que a Escritura traz
Essa é a primeira das duas instruções. O capítulo 6 manda levar um casal de cada espécie; o capítulo 7 especifica sete de cada animal limpo e sete de cada ave, e dois de cada animal que não é limpo. A diferença tem função na própria narrativa: no fim, Noé sacrifica animais limpos, o que exige que houvesse mais de um casal deles a bordo.
O que se costuma dizer
A arca parou no monte Ararate.
O que a Escritura traz
O texto usa o plural e nomeia uma região montanhosa, não um pico. Nenhum cume é identificado, nenhuma altitude é dada, e o relato não demonstra interesse em localizar o ponto. A associação com uma montanha específica no leste da Turquia é posterior ao texto, e é dela que vieram as expedições modernas em busca de destroços.
O que se costuma dizer
A pomba voltou com o ramo de oliveira, e aí eles saíram.
O que a Escritura traz
A primeira ave enviada é um corvo. Depois vem a pomba, e ela sai três vezes: na primeira volta sem nada, porque não achou onde pousar; sete dias depois traz a folha de oliveira; e sete dias depois disso sai e não volta mais. É a terceira saída, a que não tem imagem bonita, que informa que a terra estava seca.
O que se costuma dizer
Deus criou o arco-íris naquele momento, como promessa.
O que a Escritura traz
O texto diz que Deus coloca o seu arco nas nuvens, e que isso vale como sinal da aliança. A palavra é a mesma usada para arco de guerra, e o texto não narra a invenção do fenômeno nem afirma que ele nunca tivesse ocorrido antes. O que ele estabelece é o significado: aquilo passa a valer como lembrete de um compromisso.
Onde essa pessoa aparece
8Porém Noé achou favor aos olhos do SENHOR.
9Estas são as gerações de Noé: Noé, homem justo, foi íntegro em suas gerações; Noé andava com Deus.
A apresentação de Noé, em duas medidas distintas: ele achou favor, e era justo entre os de sua geração. A segunda é comparativa, e essa nuance costuma sumir nas recontagens.
6E sucedeu que, ao fim de quarenta dias, abriu Noé a janela da arca que havia feito,
7E enviou ao corvo, o qual saiu, e esteve indo e voltando até que as águas se secaram de sobre a terra.
8Enviou também de si à pomba, para ver se as águas se haviam retirado de sobre a face da terra;
9E não achou a pomba onde sentar a planta de seu pé, e voltou-se a ele à arca, porque as águas estavam ainda sobre a face de toda a terra: então ele estendeu sua mão e recolhendo-a, a fez entrar consigo na arca.
10E esperou ainda outros sete dias, e voltou a enviar a pomba fora da arca.
11E a pomba voltou a ele à hora da tarde; e eis que trazia uma folha de oliveira tomada em seu bico; então Noé entendeu que as águas haviam se retirado de sobre a terra.
O corvo e as duas primeiras saídas da pomba. É o trecho mais delicado do relato: um homem numa embarcação fechada tentando descobrir, por meio de aves, se o mundo lá fora voltou a existir.
12E disse Deus: Este será o sinal do pacto que estabeleço entre mim e vós e toda alma vivente que está convosco, por tempos perpétuos:
13Meu arco porei nas nuvens, o qual será por sinal de aliança entre mim e a terra.
O sinal da aliança. Note que o compromisso é unilateral: não há contrapartida exigida de Noé nem de ninguém, o que é raro nas alianças bíblicas e é o que faz esta ser citada à parte.
20E começou Noé a lavrar a terra, e plantou uma vinha;
21E bebeu do vinho, e se embriagou, e estava descoberto dentro de sua tenda.
22E Cam, pai de Canaã, viu a nudez de seu pai, e disse-o aos seus dois irmãos do lado de fora.
A cena que quase nenhuma versão infantil inclui, e que vem imediatamente depois do arco. O Gênesis não separa as duas coisas com nenhuma transição: a aliança e a bebedeira estão no mesmo capítulo.
28E viveu Noé depois do dilúvio trezentos e cinquenta anos.
29E foram todos os dias de Noé novecentos e cinquenta anos; e morreu.
O fecho, no formato das genealogias do começo do Gênesis: total de anos e a palavra "morreu". Depois de um dilúvio inteiro, o personagem recebe a mesma linha final que todos os outros.