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Quem foi João Batista?

Quando viveu Primeiro século, na Judeia e na Pereia, contemporâneo de Jesus

Em resumo

João Batista é o profeta que pregava no deserto da Judeia e batizava no Jordão. Os Evangelhos narram o anúncio do nascimento dele a Zacarias, a pregação de conversão, o batismo de Jesus, a dúvida enviada da prisão e a execução por ordem de Herodes, num banquete.

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João Batista é um dos poucos personagens do Novo Testamento cuja existência é confirmada por uma fonte de fora: o historiador judeu Flávio Josefo, escrevendo no fim do primeiro século, dedica um trecho a ele — inclusive à morte dele — sem nenhum interesse cristão em jogo.

Nos Evangelhos, ele é apresentado como o último de uma linhagem de profetas e o primeiro a apontar para Jesus. É também um personagem incômodo: vive no deserto, come o que encontra, chama a elite religiosa de nomes duros e acaba preso por criticar a vida conjugal de um governante. Nada disso é suavizado.

O anúncio, e a briga pelo nome

Lucas abre o Evangelho não com Jesus, e sim com um casal de idade, Zacarias e Isabel, ele sacerdote, os dois sem filhos. O anúncio acontece durante o serviço no templo, e Zacarias duvida em voz alta — e fica mudo até o nascimento.

Lucas liga as duas famílias: é a Isabel que Maria vai visitar, e é na casa dela que se passa o encontro entre as duas mulheres grávidas.

A cena do nome é pequena e reveladora. No oitavo dia, os vizinhos querem chamar o menino de Zacarias, como o pai. A mãe recusa e diz outro nome. Eles apelam ao pai, que ainda não fala, e ele pede uma tábua e escreve. O detalhe importa porque marca uma ruptura declarada com a continuidade familiar: aquele menino não vai ser a continuação do sacerdócio do pai.

Lucas 1:59-63

59E aconteceu que ao oitavo dia vieram circuncidar o menino, e o chamavam Zacarias, do nome do seu pai.

60E sua mãe respondeu: Não, porém será chamado João.

61E disseram-lhe: Ninguém há entre os teus parentes que se chame deste nome.

62E perguntaram por gestos ao seu pai como queria que lhe chamassem.

63Ele pediu uma tábua, e escreveu: O seu nome é João. E todos se surpeenderam.

Tradução: Edição Chama da Fé

Cinco versículos de discussão sobre um nome, o que é muito espaço para um detalhe aparentemente burocrático. Repare que a mãe decide primeiro e que o pai apenas confirma por escrito — a ordem é do texto.

O deserto, e o batismo

Os quatro Evangelhos começam a atividade pública de Jesus pela figura de João. Ele está no deserto da Judeia, vestido de pelos de camelo com cinto de couro, comendo gafanhotos e mel silvestre — descrição que evoca deliberadamente o profeta Elias.

A pregação dele tem um único eixo: mudar de vida, porque o que vem está perto. E o batismo que ele oferece é um gesto de conversão pública, feito no rio, por gente que vinha de Jerusalém e de toda a região.

O batismo de Jesus é narrado nos quatro Evangelhos e cria um problema teológico que os próprios textos percebem. Mateus registra a objeção de João — ele diz que a ordem deveria ser a inversa — e a resposta que a supera. Nenhum evangelista corta o episódio, o que é significativo: se fosse invenção, ninguém teria inventado uma cena que precisa de explicação.

O momento em que ele sai de cena

O Evangelho de João registra um episódio de ciúme entre discípulos: os de João Batista percebem que a multidão está migrando para Jesus e vão reclamar com ele.

A resposta dele é a frase mais conhecida que os Evangelhos lhe atribuem, e é uma frase sobre diminuir. Ele se compara ao amigo do noivo — quem organiza a festa e não é o casamento — e declara que a alegria dele é justamente essa.

Vale ler isso lembrando que ele tinha discípulos próprios, um movimento próprio e reputação própria. Os Atos registram que ainda havia gente batizada por ele, longe da Judeia, décadas depois.

João 3:28-30

28Vós mesmos me sois testemunhas, que disse: Eu não sou o Cristo; mas que sou enviado diante dele.

29Aquele que tem a esposa, é o esposo; mas o amigo do esposo, que o apoia, e lhe ouve, alegra-se muito pela voz do esposo. Assim pois já este meu gozo é cumprido.

30A ele convém crescer, porém a mim diminuir.

Tradução: Edição Chama da Fé

A imagem do amigo do noivo, e a frase final. Repare que ela não é dita em tom de resignação, e sim de alegria cumprida — a diferença muda completamente o que se lê ali.

A pergunta que ele manda da prisão

Este é o trecho que quase nunca aparece nas versões resumidas, e é o mais humano do personagem. Preso, João manda discípulos até Jesus com uma pergunta direta: é ele mesmo, ou é preciso esperar outro?

Não há como suavizar. É o mesmo homem que tinha apontado para ele no rio, perguntando se não teria se enganado. A resposta que ele recebe não é uma reprimenda nem uma garantia: é uma lista do que está acontecendo, para ele avaliar.

Logo depois desse episódio, nos mesmos capítulos, Jesus faz o elogio mais forte que faz a qualquer pessoa nos Evangelhos, e é sobre João. O texto coloca a dúvida e o elogio lado a lado, sem sentir necessidade de escolher entre os dois.

Herodes, Herodias e o banquete

A prisão tem motivo declarado: João dizia publicamente que não era lícito Herodes ter tomado a mulher do próprio irmão. Marcos descreve uma situação instável — Herodias queria matá-lo e não conseguia, porque Herodes o temia, reconhecia nele um justo e gostava de ouvi-lo.

O desfecho vem numa festa de aniversário. A filha de Herodias dança, agrada aos convidados, e Herodes promete em juramento dar o que ela pedir, até metade do reino. Ela sai, pergunta à mãe o que pedir, e volta com a resposta.

Marcos registra que o rei ficou muito triste, e que não quis recusar por causa do juramento e dos convidados à mesa. É uma execução decidida por constrangimento social, e o texto faz questão de dizer isso.

Marcos 6:17-20

17Pois o próprio Herodes havia mandado prender João, e acorrentá-lo na prisão, por causa de Herodias, mulher do seu irmão Filipe, porque havia se casado com ela.

18Pois João dizia a Herodes: Não te é lícito possuir a mulher do teu irmão.

19Assim Herodias o odiava, e queria matá-lo, mas não podia,

20pois Herodes temia João, sabendo que era um homem justo e santo, e o estimava. E quando o ouvia, ficava muito perplexo, o ouvia de boa vontade.

Tradução: Edição Chama da Fé

O motivo da prisão e o retrato psicológico de Herodes, que é surpreendentemente detalhado para Marcos. Note a combinação declarada: medo, reconhecimento de que o preso era justo, e prazer em ouvi-lo falar.

O registro de fora

Flávio Josefo, historiador judeu do primeiro século, escreve sobre João num trecho das Antiguidades Judaicas dedicado a Herodes Antipas. Ele confirma a existência, o batismo, a popularidade e a execução — e dá um motivo político para a prisão: o receio de que a influência daquele homem sobre a multidão terminasse em revolta.

Os dois relatos não se contradizem, e o cruzamento deles é instrutivo. O Evangelho registra o motivo declarado; o historiador registra o cálculo do poder. Quem já viu uma prisão política reconhece que as duas coisas costumam conviver.

O que o texto não diz

Personagens bíblicos acumulam camadas de tradição que a Escritura não sustenta. Separar as duas coisas não diminui a história — devolve a ela o que está de fato escrito.

  • O que se costuma dizer

    A filha de Herodias, que dançou no banquete, chamava-se Salomé.

    O que a Escritura traz

    Os Evangelhos não a nomeiam. Marcos e Mateus a chamam de a filha de Herodias e de a garota, e nada mais. O nome dela não aparece em nenhum texto do Novo Testamento.

    De onde vem: O nome vem de Flávio Josefo, que nas Antiguidades Judaicas registra uma Salomé entre os descendentes daquela família. A identificação é plausível e amplamente aceita por historiadores — o ponto aqui não é negá-la, e sim registrar que ela vem de um historiador do primeiro século, e não do texto bíblico.

  • O que se costuma dizer

    Ela executou a dança dos sete véus.

    O que a Escritura traz

    O texto diz apenas que ela entrou e dançou, e que aquilo agradou. Não há descrição de coreografia, de roupa, de música nem de duração — nenhum detalhe da cena que a imaginação popular construiu está no Evangelho.

    De onde vem: A dança dos sete véus é invenção literária de Oscar Wilde, na peça Salomé, escrita no começo da década de 1890, e ficou definitiva com a ópera que Richard Strauss compôs a partir dela em 1905. De lá passou para o cinema, para o teatro e para a pregação, e hoje é contada como se fosse detalhe bíblico.

  • O que se costuma dizer

    João Batista era um essênio, formado na comunidade de Qumran.

    O que a Escritura traz

    Nenhum texto do Novo Testamento diz isso. O que ele diz é que João estava no deserto, pregava conversão e batizava no Jordão.

    De onde vem: A hipótese ganhou força depois da descoberta dos manuscritos do mar Morto, a partir de 1947, e se apoia em semelhanças reais de vocabulário, de prática de purificação e de localização geográfica. É uma hipótese séria e continua sendo discutida — mas é hipótese, e circula com frequência como se fosse informação estabelecida.

  • O que se costuma dizer

    João sabia desde sempre quem Jesus era, e nunca vacilou.

    O que a Escritura traz

    Preso, ele manda discípulos perguntarem a Jesus se era ele mesmo o esperado ou se era preciso aguardar outro. A pergunta está em Mateus e em Lucas, com as mesmas palavras, e nenhum dos dois a explica nem a atenua.

Onde essa pessoa aparece

Lucas 1:13-17

13Mas o anjo lhe disse: Zacarias, não temas, pois a tua oração foi ouvida. E Isabel, tua mulher, dará à luz um filho, e lhe porás o nome de João.

14E terás prazer e alegria, e muitos se alegrarão do seu nascimento;

15pois ele será grande diante do Senhor, e não beberá vinho nem bebida alcoólica, e será cheio do Espírito Santo, já desde o ventre da sua mãe.

16E converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor seu Deus.

17E irá adiante dele no espírito e virtude de Elias, para converter os corações dos pais aos filhos, e os rebeldes à prudência dos justos; a fim de preparar um povo pronto ao Senhor.

Tradução: Edição Chama da Fé

O anúncio a Zacarias, com o programa inteiro do personagem antecipado: o nome, a abstinência, a missão de reconciliar e a comparação com Elias. É a única vez em que um evangelho apresenta alguém por antecipação assim, fora de Jesus.

Mateus 3:1-6

1E naqueles dias veio João Batista, pregando no deserto da Judeia,

2E dizendo: Arrependei-vos, porque perto está o Reino dos céus.

3Porque este é aquele que foi declarado pelo profeta Isaías, que disse: Voz do que clama no deserto: “Preparai o caminho do Senhor; endireitai suas veredas”.

4Este João tinha sua roupa de pelos de camelo e um cinto de couro ao redor de sua cintura, e seu alimento era gafanhotos e mel silvestre.

5Então vinham até ele moradores de Jerusalém, de toda a Judeia, e de toda a região próxima do Jordão;

6E eram por ele batizados no rio Jordão, confessando os seus pecados.

Tradução: Edição Chama da Fé

A entrada em cena, com a descrição da roupa e da comida. O detalhe do vestuário não é pitoresco: é citação — é assim que o Antigo Testamento descreve Elias, e o leitor da época captava a referência de imediato.

Mateus 3:13-15

13Então Jesus veio da Galileia ao Jordão até João para ser por ele batizado.

14Mas João lhe impedia, dizendo: Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?

15Porém Jesus lhe respondeu: Permite por agora, porque assim nos convém cumprir toda a justiça. Então ele o permitiu.

Tradução: Edição Chama da Fé

O batismo, com a objeção de João registrada em voz alta. Guarde este trecho: um relato inventado para convencer não teria criado um problema que precisa ser resolvido dentro da própria cena.

Mateus 11:2-6

2E João, ao ouvir na prisão as obras de Cristo, enviou -lhe por seus discípulos,

3Perguntando-lhe: És tu aquele que havia de vir, ou esperamos outro?

4Jesus lhes respondeu: Ide anunciar a João as coisas que ouvis e vedes:

5Os cegos veem, e os mancos andam; os leprosos são limpos, e os surdos ouvem; os mortos são ressuscitados, e aos pobres é anunciado o Evangelho;

6E bendito é aquele que não deixar de crer em mim.

Tradução: Edição Chama da Fé

A pergunta enviada da prisão e a resposta. Note que a resposta não afirma nada diretamente: descreve o que está acontecendo e devolve a conclusão a quem perguntou.

Marcos 6:21-28

21Mas veio um dia oportuno, em que Herodes, no dia do seu aniversário, dava uma ceia aos grandes de sua corte, aos comandantes militares, e aos principais da Galileia.

22Então a filha dessa Herodias entrou dançando, e agradou a Herodes e aos que estavam sentados com ele. O rei disse à garota: Pede-me quanto quiseres, que eu darei a ti.

23E jurou a ela: Tudo o que me pedirdes te darei, até a metade do meu reino.

24Então ela saiu, e perguntou à sua mãe: Que pedirei? E ela respondeu: A cabeça de João Batista.

25E entrando ela logo apressadamente ao rei, pediu, dizendo: Quero que imediatamente me dês num prato a cabeça de João Batista.

26E o rei entristeceu-se muito; mas , por causa dos juramentos, e dos que estavam juntamente à mesa, não quis recusar a ela.

27Então logo o rei enviou o executor com a ordem de trazer ali sua cabeça. Ele, foi, e o decapitou na prisão.

28Em seguida, trouxe a sua cabeça num prato, e o deu à garota; e a garota a deu à sua mãe.

Tradução: Edição Chama da Fé

O banquete inteiro, do juramento à bandeja. Repare em quantas vezes o texto marca que a decisão não parte do rei: ele promete, se entristece, e cumpre por causa dos que estavam à mesa.

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