Sob vossa proteção: a oração mariana mais antiga que se conhece
A oração
Sob vossa proteção nos acolhemos, santa Mãe de Deus.
Não desprezeis as súplicas que vos dirigimos em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita.
Amém.
Em resumo
Sob vossa proteção é a mais antiga oração a Maria de que se tem cópia. O texto grego foi encontrado num papiro egípcio guardado em Manchester, e é curtíssimo: quatro linhas que pedem abrigo e livramento. A data do papiro é disputada entre o século III e o VIII.
- Escrito por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
- Revisado por
- Raphael Navarro Schmitt
- Publicado em
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Quando rezar
No fim do dia, e em qualquer momento de perigo concreto — é a oração que se reza quando não há tempo de rezar uma longa. Cabe inteira num fôlego.
A oração tem quatro verbos e nenhum adjetivo sobre quem reza. Acolher, desprezar, dirigir, livrar. Não há descrição de sentimento, não há explicação da situação, não há promessa de comportamento futuro. É uma oração escrita para ser dita por alguém que não tem tempo — e a economia dela é a razão de ter atravessado tantos séculos praticamente intacta.
O pedido central é de livramento “de todos os perigos”, no plural e sem especificar. Isso a torna utilizável em qualquer aflição, e é provavelmente por isso que ela sobreviveu à mudança de idioma, de rito e de continente. Uma oração que nomeia o perigo envelhece com ele; esta não nomeia nenhum.
A devoção católica lê o pedido de abrigo como pedido de intercessão: quem protege é Deus, e o que se pede a Maria é que interceda por quem pede. A maior parte das igrejas evangélicas não sustenta essa prática e dirige o pedido diretamente a Deus. As duas leituras existem, e esta página apresenta o que a devoção afirma sem decidir a questão por ninguém.
Se há uma cena bíblica que corresponde à imagem da oração, é a fuga para o Egito — e a coincidência geográfica não é pequena. O papiro mais antigo desta oração veio do Egito, o mesmo lugar para onde, segundo Mateus, a família foi levada de noite para escapar de Herodes. A oração pede exatamente o que aquela viagem obteve: sair do perigo com a criança viva.
De onde vem esta oração
Quando surgiu Papiro grego do Egito, entre os séculos III e VIII
Em 1917 a biblioteca John Rylands, em Manchester, comprou um lote de papiros vindos do Egito. Um dos fragmentos ficou catalogado como P. Ryl. 470 e só foi identificado em 1938, quando C. H. Roberts publicou a leitura dele: era o texto grego desta oração, praticamente igual ao que ainda se reza. Foi assim que a devoção mariana ganhou o documento mais antigo que possui.
A data do papiro nunca foi consenso, e a divergência é grande. O paleógrafo Edgar Lobel leu nele uma escrita do século III; Roberts preferiu o século IV; já Hans Förster defendeu o século VIII, argumentando que o argumento de Lobel nunca foi propriamente demonstrado. A diferença não é de detalhe: entre a data mais antiga e a mais recente há quinhentos anos e duas histórias diferentes da devoção mariana.
A oração entrou nas liturgias grega, latina, copta e ambrosiana, e cada uma a recebeu com uma pequena variação. A forma latina acrescenta ao fim “ó Virgem gloriosa e bendita”, que não está no grego do papiro — e é essa forma acrescida que chegou ao português. O núcleo, porém, é o mesmo em todas: abrigo, súplica, livramento.
Detalhes pouco conhecidos
O papiro traz “Mãe de Deus” antes de a expressão ser definida
Foram precisos vinte e um anos para alguém perceber o que era
A versão latina tem uma linha a mais que a grega
O que dizem as passagens
41E aconteceu que, quando Isabel ouviu o cumprimento de Maria, a criança saltou no seu ventre, e Isabel foi cheia do Espírito Santo.
42Então exclamou em alta voz: Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre!
43Como me acontece isto, que a mãe de meu Senhor venha a mim?
A frase de Isabel é a raiz remota do título que o papiro usa em grego: ela chama Maria de mãe do seu Senhor. Repare que quem fala não é um teólogo nem um concílio, e sim uma parenta grávida, num encontro doméstico — a expressão nasce em conversa antes de nascer em definição.
13E tendo eles partido, eis que um anjo do Senhor apareceu a José em sonho, dizendo: Levanta-te, toma o menino e sua mãe, e foge para o Egito; e fica lá até que eu te diga, porque Herodes buscará o menino para o matar.
14Então ele se despertou, tomou o menino e sua mãe de noite, e foi para o Egito;
15E esteve lá até a morte de Herodes, para que se cumprisse o que foi dito pelo Senhor por meio do profeta, que disse: Do Egito chamei o meu Filho.
A cena que a oração parece descrever sem citar: uma família fugindo de noite para o Egito, protegida no caminho. Vale lembrar que a cópia mais antiga desta oração foi encontrada exatamente ali, no Egito, quase certamente rezada por cristãos que conheciam esta passagem de cor.
34Simeão os abençoou, e disse a Maria, sua mãe: Eis que este é posto para queda e levantamento de muitos em Israel; e para sinal que terá oposição,
35(também uma espada atravessará a tua própria alma) para que os pensamentos de muitos corações se manifestem.
A profecia de Simeão impede que a devoção mariana vire promessa de vida fácil. A quem se pede proteção aqui é a alguém a quem foi anunciado sofrimento, e não a quem foi poupado dele — o que muda o sentido do pedido de abrigo.
1E um grande sinal foi visto no céu: uma mulher vestida do sol, e a lua debaixo dos pés dela, e sobre sua cabeça uma coroa de doze estrelas;
A imagem que a arte cristã associou a Maria desde muito cedo, e que aparece na maioria das representações desta oração. A leitura do capítulo, porém, não é pacífica: parte da tradição vê ali a própria Igreja, ou o povo de Israel, e não uma mulher específica. As três leituras convivem há séculos.