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Sob vossa proteção: a oração mariana mais antiga que se conhece

A oração

Sob vossa proteção nos acolhemos, santa Mãe de Deus.

Não desprezeis as súplicas que vos dirigimos em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita.

Amém.

Em resumo

Sob vossa proteção é a mais antiga oração a Maria de que se tem cópia. O texto grego foi encontrado num papiro egípcio guardado em Manchester, e é curtíssimo: quatro linhas que pedem abrigo e livramento. A data do papiro é disputada entre o século III e o VIII.

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Quando rezar

No fim do dia, e em qualquer momento de perigo concreto — é a oração que se reza quando não há tempo de rezar uma longa. Cabe inteira num fôlego.

A oração tem quatro verbos e nenhum adjetivo sobre quem reza. Acolher, desprezar, dirigir, livrar. Não há descrição de sentimento, não há explicação da situação, não há promessa de comportamento futuro. É uma oração escrita para ser dita por alguém que não tem tempo — e a economia dela é a razão de ter atravessado tantos séculos praticamente intacta.

O pedido central é de livramento “de todos os perigos”, no plural e sem especificar. Isso a torna utilizável em qualquer aflição, e é provavelmente por isso que ela sobreviveu à mudança de idioma, de rito e de continente. Uma oração que nomeia o perigo envelhece com ele; esta não nomeia nenhum.

A devoção católica lê o pedido de abrigo como pedido de intercessão: quem protege é Deus, e o que se pede a Maria é que interceda por quem pede. A maior parte das igrejas evangélicas não sustenta essa prática e dirige o pedido diretamente a Deus. As duas leituras existem, e esta página apresenta o que a devoção afirma sem decidir a questão por ninguém.

Se há uma cena bíblica que corresponde à imagem da oração, é a fuga para o Egito — e a coincidência geográfica não é pequena. O papiro mais antigo desta oração veio do Egito, o mesmo lugar para onde, segundo Mateus, a família foi levada de noite para escapar de Herodes. A oração pede exatamente o que aquela viagem obteve: sair do perigo com a criança viva.

De onde vem esta oração

Quando surgiu Papiro grego do Egito, entre os séculos III e VIII

Em 1917 a biblioteca John Rylands, em Manchester, comprou um lote de papiros vindos do Egito. Um dos fragmentos ficou catalogado como P. Ryl. 470 e só foi identificado em 1938, quando C. H. Roberts publicou a leitura dele: era o texto grego desta oração, praticamente igual ao que ainda se reza. Foi assim que a devoção mariana ganhou o documento mais antigo que possui.

A data do papiro nunca foi consenso, e a divergência é grande. O paleógrafo Edgar Lobel leu nele uma escrita do século III; Roberts preferiu o século IV; já Hans Förster defendeu o século VIII, argumentando que o argumento de Lobel nunca foi propriamente demonstrado. A diferença não é de detalhe: entre a data mais antiga e a mais recente há quinhentos anos e duas histórias diferentes da devoção mariana.

A oração entrou nas liturgias grega, latina, copta e ambrosiana, e cada uma a recebeu com uma pequena variação. A forma latina acrescenta ao fim “ó Virgem gloriosa e bendita”, que não está no grego do papiro — e é essa forma acrescida que chegou ao português. O núcleo, porém, é o mesmo em todas: abrigo, súplica, livramento.

Detalhes pouco conhecidos

  • O papiro traz “Mãe de Deus” antes de a expressão ser definida

    O texto grego usa Theotokos, literalmente “aquela que gerou Deus”. O título só foi definido oficialmente no Concílio de Éfeso, em 431, depois de uma disputa longa. Se a datação mais antiga do papiro estiver certa, a expressão já estava em uso corrente na oração popular do Egito bem antes de virar objeto de concílio — o que inverte a ordem que se costuma imaginar entre doutrina e devoção.

  • Foram precisos vinte e um anos para alguém perceber o que era

    O papiro chegou a Manchester em 1917 e ficou guardado até 1938, quando C. H. Roberts publicou a edição do fragmento. Não havia nada de espetacular nele à primeira vista: um pedaço de papiro com poucas linhas em grego, no meio de um lote grande. O que o tornou notável não foi a aparência, e sim o reconhecimento de que aquelas linhas ainda estavam sendo rezadas.

  • A versão latina tem uma linha a mais que a grega

    O fecho “ó Virgem gloriosa e bendita”, que a forma portuguesa traz, é acréscimo da tradição latina e não aparece no texto do papiro. É um bom exemplo de como uma fórmula fixa muda: não por reescrita, mas por acúmulo — cada tradição litúrgica que a recebeu deixou nela uma camada, e nenhuma tirou o que já estava.

O que dizem as passagens

Lucas 1:41-43

41E aconteceu que, quando Isabel ouviu o cumprimento de Maria, a criança saltou no seu ventre, e Isabel foi cheia do Espírito Santo.

42Então exclamou em alta voz: Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto do teu ventre!

43Como me acontece isto, que a mãe de meu Senhor venha a mim?

Tradução: Edição Chama da Fé

A frase de Isabel é a raiz remota do título que o papiro usa em grego: ela chama Maria de mãe do seu Senhor. Repare que quem fala não é um teólogo nem um concílio, e sim uma parenta grávida, num encontro doméstico — a expressão nasce em conversa antes de nascer em definição.

Mateus 2:13-15

13E tendo eles partido, eis que um anjo do Senhor apareceu a José em sonho, dizendo: Levanta-te, toma o menino e sua mãe, e foge para o Egito; e fica lá até que eu te diga, porque Herodes buscará o menino para o matar.

14Então ele se despertou, tomou o menino e sua mãe de noite, e foi para o Egito;

15E esteve lá até a morte de Herodes, para que se cumprisse o que foi dito pelo Senhor por meio do profeta, que disse: Do Egito chamei o meu Filho.

Tradução: Edição Chama da Fé

A cena que a oração parece descrever sem citar: uma família fugindo de noite para o Egito, protegida no caminho. Vale lembrar que a cópia mais antiga desta oração foi encontrada exatamente ali, no Egito, quase certamente rezada por cristãos que conheciam esta passagem de cor.

Lucas 2:34-35

34Simeão os abençoou, e disse a Maria, sua mãe: Eis que este é posto para queda e levantamento de muitos em Israel; e para sinal que terá oposição,

35(também uma espada atravessará a tua própria alma) para que os pensamentos de muitos corações se manifestem.

Tradução: Edição Chama da Fé

A profecia de Simeão impede que a devoção mariana vire promessa de vida fácil. A quem se pede proteção aqui é a alguém a quem foi anunciado sofrimento, e não a quem foi poupado dele — o que muda o sentido do pedido de abrigo.

Apocalipse 12:1

1E um grande sinal foi visto no céu: uma mulher vestida do sol, e a lua debaixo dos pés dela, e sobre sua cabeça uma coroa de doze estrelas;

Tradução: Edição Chama da Fé

A imagem que a arte cristã associou a Maria desde muito cedo, e que aparece na maioria das representações desta oração. A leitura do capítulo, porém, não é pacífica: parte da tradição vê ali a própria Igreja, ou o povo de Israel, e não uma mulher específica. As três leituras convivem há séculos.

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