Oração Lembrai-vos: o texto completo e de onde ela vem
A oração
Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer que algum daqueles que têm recorrido à vossa proteção, implorado a vossa assistência e reclamado o vosso socorro, fosse por vós desamparado.
Animado eu, pois, com igual confiança, a vós, Virgem entre todas singular, como à Mãe recorro, de vós me valho e, gemendo sob o peso dos meus pecados, me prostro a vossos pés.
Não rejeiteis as minhas súplicas, ó Mãe do Verbo humanado, mas dignai-vos ouvi-las e atendê-las. Amém.
Em resumo
O Lembrai-vos é uma oração mariana curta que pede a intercessão de Maria com um argumento: nunca se soube de alguém que tenha recorrido a ela e ficado desamparado. O texto vem de uma oração latina do século XV e foi atribuído por engano a São Bernardo de Claraval.
- Escrito por
- Raphael Navarro Schmitt
- Revisado por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
- Publicado em
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- 6 min de leitura
Quando rezar
Quando o pedido já foi feito de todas as maneiras e continua sem resposta. É curta o bastante para caber de pé, num corredor de hospital, e é a oração que a devoção mariana usa quando a confiança está no fim.
A primeira coisa que chama atenção no Lembrai-vos é que ele não começa pedindo. Começa lembrando. O pedido só aparece na terceira parte, depois de dois blocos que estabelecem por que o pedido faz sentido — e essa ordem é a oração inteira. Quem reza está, antes de tudo, reconstruindo a própria confiança em voz alta.
O argumento é de precedente, e vale reparar no que ele apoia e no que não apoia: “nunca se ouviu dizer”. Não é uma promessa da Escritura nem uma garantia de resultado. É o testemunho acumulado de quem já rezou, oferecido como razão para rezar de novo. É uma afirmação corajosa, e a oração a coloca antes de qualquer súplica justamente porque é ela que sustenta o resto.
A devoção católica entende a intercessão de Maria como pedido, e não como substituição: quem concede é Deus, e o que se pede a ela é que peça junto — o mesmo que se faz ao pedir a um amigo que reze por você, com a diferença de que este já está diante de Deus. A maior parte das igrejas evangélicas não sustenta essa prática e ora diretamente a Deus, e esta página não arbitra a questão: descreve o que a devoção afirma e deixa a leitura para quem reza.
A cena bíblica que a tradição mariana mais invoca é a de Caná, e ela é curiosa como apoio. Maria percebe o problema e o leva a Jesus; e a única instrução que ela dá aos serventes é que façam o que ele mandar. É um gesto que aponta para longe de si mesma — o que, num texto sobre intercessão, é exatamente o ponto.
De onde vem esta oração
Quando surgiu Século XV, em latim; difundida no século XVII
O Lembrai-vos não nasceu como oração independente. Ele é a parte final de um texto latino mais longo do século XV, o Ad sanctitatis tuae pedes, dulcissima Virgo Maria, de autor desconhecido. Em algum momento a última seção passou a circular sozinha, decorada e rezada sem o resto — e é essa parte solta que o mundo inteiro conhece hoje.
A atribuição a São Bernardo de Claraval, do século XII, é antiga e não se sustenta: a oração não aparece nas obras autenticadas dele. A confusão tem um culpado provável, e ele também se chamava Bernardo. Claude Bernard (1588-1641) foi um padre francês que trabalhava com presos e com os pobres de Paris, conhecido como “o pobre padre”, e que mandou imprimir e distribuiu mais de duzentos mil folhetos com esta oração, em vários idiomas. Foi ele quem a tornou popular. Séculos depois, o sobrenome do divulgador foi tomado pelo do autor.
A forma portuguesa que se reza hoje é uma tradução devocional em uso contínuo, com o vocabulário de outro tempo preservado de propósito: “humanado”, “me prostro”, “piíssima”. Ninguém fala assim, e é justamente por isso que a oração se reconhece de imediato — a rigidez da fórmula é o que a mantém idêntica na boca de quem a reza há gerações.
Detalhes pouco conhecidos
São dois Bernardos, e o famoso é o errado
O nome da oração é a primeira palavra dela
Há quem reze nove seguidos em vez de nove dias
O que dizem as passagens
26E no sexto mês o anjo Gabriel foi enviado da parte de Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré,
27a uma virgem prometida em casamento com um homem chamado José, da descendência de Davi; e o nome da virgem era Maria.
28O anjo entrou onde ela estava, e disse: Alegra-te, agraciada; o Senhor é contigo.
A saudação do anjo, que é a origem de toda a linguagem devocional dirigida a Maria. Repare que a iniciativa é de Deus e que o texto não descreve nada que ela tenha feito para merecer a visita — o que é a base da leitura católica de que ela é intercessora por graça recebida, e não por mérito próprio.
1E no terceiro dia houve um casamento em Caná da Galileia; e a mãe de Jesus estava ali.
2E também Jesus foi convidado com seus discípulos ao casamento.
3E tendo faltado vinho, a mãe de Jesus lhe disse: Não têm vinho.
4Jesus lhe disse: O que eu tenho contigo, mulher? A minha hora ainda não chegou.
5Sua mãe disse aos serventes: Fazei tudo quanto ele vos disser.
A única cena dos evangelhos em que Maria pede alguma coisa a Jesus, e a resposta dele começa recusando. O detalhe que quase sempre escapa é a instrução final dela aos serventes: manda que façam o que ele disser. Ela aponta para ele, não para si.
26E vendo Jesus a sua mãe, e ao discípulo a quem amava, que ali estava, disse a sua mãe: Mulher, eis aí teu filho.
27Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E desde aquela hora o discípulo a recebeu em sua casa .
O texto sobre o qual se apoia o costume de chamá-la de Mãe fora da relação biológica. A leitura católica entende a frase dita da cruz como dirigida a todos os discípulos, pelo discípulo ali presente; outras tradições a leem como a providência de um filho para o cuidado da mãe viúva. As duas leituras cabem no versículo.
5Pois há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os seres humanos: o humano Cristo Jesus.
A objeção mais forte à oração de intercessão aos santos, e ela merece estar aqui. Paulo afirma um único mediador entre Deus e os homens. A resposta católica é que pedir a alguém que reze por você não cria um segundo mediador — do contrário, pedir oração a um amigo vivo já seria proibido. Quem lê o versículo como excluindo qualquer intermediação chega a outra conclusão, e a página não decide entre as duas.