Oração a Nossa Senhora Aparecida: texto novo e a história de 1717
A oração
Nossa Senhora Aparecida, que vieste do fundo do rio em pedaços e foste recolhida por mãos de gente pobre, pede a Deus por mim e pelo meu país.
Foi de noite, e sem peixe nenhum, que aqueles homens te encontraram. É assim que boa parte das coisas boas chega: depois da hora, quando já ninguém esperava.
Guarda quem trabalha e não vê resultado. Guarda quem cria filho sozinho, quem viaja de madrugada, quem sustenta uma casa com o que sobra.
Que eu não me acostume com a injustiça e não perca a alegria por causa dela. Que a minha fé caiba na semana inteira, e não só no dia da festa.
Amém.
Em resumo
Esta é uma oração a Nossa Senhora Aparecida escrita para este site e assinada por quem a escreveu. A devoção começa em 1717, quando três pescadores tiraram do rio Paraíba do Sul uma imagem de barro em duas partes e, logo depois, uma pescaria farta.
- Escrito por
- Raphael Navarro Schmitt
- Revisado por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
- Publicado em
- Tempo de leitura
- 6 min de leitura
Quando rezar
Em 12 de outubro, e em qualquer dia comum de trabalho duro. É a oração de quem pede por si e pelo país no mesmo fôlego.
A oração acima pede por gente que trabalha e não vê resultado, e isso não é enfeite social. A cena de origem desta devoção é uma jornada de pesca que não deu nada — três homens em cima de uma canoa, à noite, com a rede vazia e um banquete para servir. Quem reza a Aparecida está rezando a partir de uma história de trabalho frustrado, e a oração faria mal em fingir o contrário.
O texto é nosso e está assinado. Os textos anônimos que circulam com este nome são composições modernas, e apresentá-los como oração tradicional seria dar ao leitor a impressão de rezar algo com séculos de uso. A devoção tem trezentos anos; a maior parte das orações que circulam com o nome dela tem algumas décadas, e a diferença merece ser dita.
A devoção católica entende que quem concede é Deus e que o pedido a Maria é pedido de intercessão. A maior parte das igrejas evangélicas não sustenta essa prática e ora diretamente a Deus — e no Brasil isso não é uma nota de rodapé, é a experiência de metade das famílias, que reúnem as duas práticas na mesma mesa de almoço. Esta página descreve as duas e não arbitra entre elas.
Há uma coisa que a devoção brasileira faz bem e vale nomear: ela nunca separou o pedido pessoal do pedido pelo país. Quem sobe a rampa da basílica reza pelo filho e pelo Brasil na mesma frase. A oração acima mantém essa junção de propósito, porque tirá-la seria descrever outra devoção.
De onde vem esta oração
Quando surgiu Outubro de 1717, no rio Paraíba do Sul; este texto foi escrito em 2026
Em outubro de 1717, três pescadores — João Alves, Filipe Pedroso e Domingos Garcia — lançavam redes no rio Paraíba do Sul, perto de Guaratinguetá, para o banquete de um governador que passava pela região. Não pegavam nada. Numa das lançadas veio o corpo de uma imagem de barro, sem cabeça; na seguinte, a cabeça; depois, peixe em quantidade. A imagem tem cerca de 36 centímetros e é atribuída a um oleiro do século XVII.
A devoção cresceu primeiro na casa dos pescadores, depois numa capela, depois numa basílica que hoje é o maior santuário mariano do mundo em capacidade. Pio XI a declarou padroeira do Brasil em 1930, e desde 1980 o 12 de outubro é feriado nacional. A cor escura da imagem, sobre a qual se fala muito, tem explicações prosaicas e não excludentes: o barro usado, as décadas submersa e a fumaça de vela de quase um século de capela.
Os textos que circulam em português como “oração a Nossa Senhora Aparecida” são, em boa parte, composições devocionais modernas, publicadas sem autor declarado em folhetos e santinhos. Por isso esta página traz uma oração nossa, escrita para ela e assinada — e reserva este espaço para a história, que é sólida, documentada e mais interessante do que qualquer texto anônimo.
Detalhes pouco conhecidos
A imagem apareceu em duas partes, e nessa ordem
Ela já foi roubada e despedaçada, em 1978
Não é uma aparição, e a diferença é grande
A imagem cabe numa caixa de sapato
O que dizem as passagens
4Quando acabou de falar, disse a Simão: Vai à água profunda, e lançai as vossas redes para pescar.
5Simão respondeu: Mestre, trabalhamos toda a noite, mas nada pegamos; mas pela tua palavra lançarei as redes.
6Eles fizeram assim, e recolheram grande quantidade de peixes, e suas redes estavam se rompendo.
7Então acenaram aos companheiros que estavam no outro barco, para que viessem os ajudar. Vieram, e encheram ambos os barcos, de tal maneira que quase afundavam.
A passagem mais próxima da cena de 1717: pescadores que passaram a noite sem pegar nada e que, ao lançar de novo, encheram as redes a ponto de precisar de ajuda. A semelhança entre a narrativa evangélica e o relato de Guaratinguetá é provavelmente o motivo de a história ter sido contada assim, e não é um problema — é como a memória religiosa funciona.
46Então Maria disse: A minha alma engrandece ao Senhor,
47e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador.
48Porque ele olhou para a humilde condição da sua serva; pois eis que desde agora todas as gerações me chamarão bendita.
49Pois o Poderoso me fez grandes coisas; e santo é o seu nome.
O cântico de Maria, que a liturgia chama de Magnificat. O verso central para esta devoção é o que fala do olhar de Deus sobre a condição humilde — e é a razão de a imagem escura, pequena e achada por pescadores ter feito sentido imediato no Brasil colonial.
14Todos estes perseveravam concordando em orações, e petições, com as mulheres, com Maria a mãe de Jesus, e com os irmãos dele.
A única cena do Novo Testamento em que Maria aparece rezando junto com a comunidade depois da ressurreição. É o texto que a tradição católica usa como base para a ideia de que ela reza com a Igreja — e note que ali ela está entre os outros, e não à frente deles.
18Enquanto Jesus andava junto ao mar da Galileia, viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André, lançarem a rede ao mar, porque eram pescadores.
19E disse-lhes: Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de gente.
20Então eles logo deixaram as redes e o seguiram.
O chamado dos primeiros discípulos, todos pescadores. Vale ler ao lado da história de 1717 pela mesma razão: no cristianismo, gente que trabalha com rede aparece cedo e aparece muito, e a devoção brasileira herdou essa preferência sem nunca ter precisado explicá-la.