Quem foi o rei Saul?
Quando viveu Por volta do século XI a.C., no começo da monarquia em Israel, antes do reinado de Davi.
Em resumo
Saul foi o primeiro rei de Israel, ungido por Samuel depois de o povo exigir um rei como o das outras nações. Reinou, venceu batalhas, foi rejeitado em duas cenas diferentes, perseguiu Davi durante anos e morreu em batalha no monte Gilboa, junto com três dos filhos.
- Escrito por
- Raphael Navarro Schmitt
- Revisado por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
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A versão curta de Saul é uma lição de moral: o rei que desobedeceu e perdeu tudo. Ela cabe num parágrafo e não sobrevive a uma leitura dos livros de Samuel, onde a história tem camadas que não se encaixam nesse molde — um povo que pede rei contra a vontade declarada de Deus e recebe um mesmo assim, duas rejeições com motivos diferentes, um espírito atribuído a Deus, um ciúme que dura anos e um inimigo que se recusa duas vezes a matá-lo.
O que dificulta a leitura de Saul não é ele ser mau. É que o texto não o apresenta assim. Ele começa modesto ao ponto de se esconder no dia da própria aclamação, e termina numa cena que David lamenta em verso. Entre uma coisa e outra há um homem que perde progressivamente o chão, e o narrador acompanha essa perda sem transformá-la em exemplo do que não fazer.
Antes de haver rei, houve um pedido
A história de Saul não começa em Saul. Começa com os anciãos de Israel indo até Samuel, já velho, e exigindo um rei que os julgasse, como todas as outras nações. Samuel não gosta do pedido e leva o caso a Deus, e a resposta é dupla: atenda a voz deles, porque não foi a você que rejeitaram, foi a mim — mas avise antes o que um rei vai fazer com eles.
O aviso que vem em seguida é uma lista concreta: o rei tomará os filhos deles para servir no exército e nos carros de guerra, as filhas para o serviço da casa, o melhor dos campos, das vinhas e dos olivais, e um décimo do resto. O povo ouve tudo e insiste. É dentro dessa insistência que Saul é escolhido.
Há aqui uma tensão que o próprio Antigo Testamento carrega e não resolve. Deuteronômio 17 já previa a instituição de um rei, com regras, e sem sinal de reprovação. Primeiro Samuel 8 apresenta o mesmo pedido como rejeição a Deus. Quem lê os dois textos percebe que a Escritura tem mais de uma voz sobre a monarquia — e Saul é o homem que fica no meio dessas duas vozes desde o primeiro dia.
4Então todos os anciãos de Israel se juntaram, e vieram a Samuel em Ramá,
5E disseram-lhe: Eis que tu envelheceste, e teus filhos não vão por teus caminhos: portanto, constitui-nos agora um rei que nos julgue, como todas as nações.
6E descontentou a Samuel esta palavra que disseram: Dá-nos rei que nos julgue. E Samuel orou ao SENHOR.
7E disse o SENHOR a Samuel: Ouve a voz do povo em tudo o que te disserem: porque não rejeitaram a ti, mas sim a mim me rejeitaram, para que eu não reine sobre eles.
8Conforme todas as obras que fizeram desde o dia que os tirei do Egito até hoje, que me deixaram e serviram a deuses alheios, assim fazem também contigo.
9Agora, pois, ouve sua voz: mas protesta contra eles declarando-lhes o direito do rei que há de reinar sobre eles.
O pedido e a resposta. Note que Deus concede e adverte na mesma fala: não há aqui nem aprovação nem recusa, e a ambivalência dessa cena acompanha o reinado inteiro de Saul.
14Quando houveres entrado na terra que o SENHOR teu Deus te dá, e a possuíres, e habitares nela, e disseres: Porei rei sobre mim, como todas as nações que estão em meus arredores;
15Sem dúvida porás por rei sobre ti ao que o SENHOR teu Deus escolher: dentre teus irmãos porás rei sobre ti: não poderás pôr sobre ti homem estrangeiro, que não seja teu irmão.
A legislação sobre o rei, escrita antes e prevendo exatamente o pedido que 1 Samuel 8 registra — inclusive a comparação com as outras nações. Ler as duas passagens juntas mostra por que a monarquia é um assunto em disputa dentro do próprio Antigo Testamento.
Um rei alto, bonito, e escondido
Saul entra na narrativa procurando jumentas perdidas do pai. É de Benjamim, a menor das tribos, filho de um homem importante chamado Quis, e o texto o descreve como o mais bonito de Israel e mais alto que qualquer um do povo do ombro para cima. Samuel o unge em particular, antes de qualquer anúncio público.
A aclamação pública vem depois, por sorteio entre as tribos, e é aí que aparece o detalhe que define o começo dele. Quando a sorte cai sobre Saul, ele não está lá. Procuram, não acham, e a resposta que vem é que ele está escondido. Precisam ir buscá-lo para que o povo o veja e grite viva o rei.
Esse é o Saul do início: relutante, discreto, e com um traço de generosidade que o texto registra logo em seguida — quando alguns duvidam dele, e mais tarde quando querem executar os que duvidaram, ele impede. Nada nesse retrato antecipa o homem que vai perseguir Davi pelo deserto por anos.
20E fazendo achegar Samuel todas as tribos de Israel, foi tomada a tribo de Benjamim.
21E fez chegar a tribo de Benjamim por suas linhagens, e foi tomada a família de Matri; e dela foi tomado Saul filho de Quis. E lhe buscaram, mas não foi achado.
22Perguntaram pois outra vez ao SENHOR, se havia ainda de vir ali aquele homem. E respondeu o SENHOR: Eis que ele está escondido entre a bagagem.
23Então correram, e tomaram-no dali, e posto em meio do povo, desde o ombro acima era mais alto que todo o povo.
24E Samuel disse a todo o povo: Vistes ao que o SENHOR escolheu, que não há semelhante a ele em todo o povo? Então o povo clamou com alegria, dizendo: Viva o rei!
A cena da aclamação, com o rei que precisa ser encontrado antes de ser apresentado. Guarde a imagem: ela é o contraponto exato do homem que aparece a partir do capítulo 18.
Duas rejeições, com motivos diferentes
Saul é rejeitado duas vezes, em dois capítulos separados, por duas razões que não são a mesma. Quem resume a história como "ele desobedeceu" está juntando as duas em uma, e perdendo justamente o que há de mais estranho aqui.
A primeira está em Gilgal. Saul espera sete dias pelo profeta, conforme combinado, e o exército começa a se dispersar enquanto os filisteus se concentram. Ele então oferece o holocausto sem esperar. Samuel chega logo depois e diz que ele agiu loucamente e que o reino não vai continuar com ele. A cena é fácil de moralizar e difícil de ler com calma: o prazo tinha sido cumprido, e o que se cobra dele é ter agido dentro dele.
A segunda está no capítulo 15, e é a mais dura da Bíblia sobre este personagem. A ordem transmitida a Saul é de destruição total contra Amaleque — o texto lista homens, mulheres, crianças e animais. Saul executa a campanha, mas poupa o rei Agague e o melhor do gado. É por isso que ele é rejeitado: não por ter matado, mas por não ter matado tudo. Não há como contar essa cena honestamente sem dizer isso, e é uma das passagens que qualquer leitor tem o direito de achar difícil.
É nesse capítulo que aparece a frase mais conhecida sobre Saul, dita por Samuel: obedecer vale mais que sacrifício. E é nele também que o texto atribui a Deus um pesar pela escolha do primeiro rei, e que Saul, ao ser confrontado, admite o erro e explica: temeu o povo e cedeu à voz deles.
8E ele esperou sete dias, conforme ao prazo que Samuel havia dito; mas Samuel não vinha a Gilgal, e o povo se lhe desertava.
9Então disse Saul: Trazei-me holocausto e sacrifícios pacíficos. E ofereceu o holocausto.
10E quando ele acabava de fazer o holocausto, eis que Samuel que vinha; e Saul lhe saiu a receber para saudar-lhe.
11Então Samuel disse: Que fizeste? E Saul respondeu: Porque vi que o povo se me ia, e que tu não vinhas ao prazo dos dias, e que os filisteus estavam juntos em Micmás,
12Disse-me: Os filisteus descerão agora contra mim a Gilgal, e eu não implorei o favor do SENHOR. Esforcei-me pois, e ofereci holocausto.
13Então Samuel disse a Saul: Loucamente fizeste; não guardaste o mandamento do SENHOR teu Deus, que ele te havia intimado; porque agora o SENHOR teria confirmado teu reino sobre Israel para sempre.
14Mas agora teu reino não será durável: o SENHOR buscou para si homem segundo seu coração, ao qual o SENHOR mandou que seja líder sobre seu povo, porquanto tu não guardaste o que o SENHOR te mandou.
A primeira rejeição, em Gilgal. Vale reparar no cálculo que Saul apresenta como defesa: ele descreve o exército se desfazendo e o inimigo se concentrando, e a resposta de Samuel não discute nenhum dos dois pontos.
22E Samuel disse: Tem o SENHOR tanto contentamento com os holocaustos e vítimas, como em obedecer às palavras do SENHOR? Certamente o obedecer é melhor que os sacrifícios; e o prestar atenção que a gordura dos carneiros:
23Porque como pecado de adivinhação é a rebelião, e como ídolos e idolatria o infringir. Porquanto tu rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou para que não sejas rei.
24Então Saul disse a Samuel: Eu pequei; porque violei o dito do SENHOR e tuas palavras, porque temi ao povo, consenti à voz deles. Perdoa, pois, agora meu pecado,
A sentença e a confissão. A frase de Samuel é a mais citada de todo o material sobre Saul, e quase sempre sem o versículo 24 ao lado, em que Saul diz o que o levou a agir assim: medo do próprio povo.
O espírito, a canção das mulheres e os anos de perseguição
Depois da segunda rejeição, o texto marca uma virada com uma frase de dois movimentos: o espírito do SENHOR o deixou, e passou a atormentá-lo um espírito mau vindo — diz o texto — do próprio SENHOR. É uma formulação incômoda, e não adianta suavizá-la: o próprio texto atribui a origem daquilo a Deus, e não explica.
A música entra aí. Davi é levado à corte justamente para tocar quando o espírito vinha, e o texto diz que Saul o amava e fez dele seu escudeiro. Foi Saul quem aproximou Davi de si — o que torna o que vem depois pior, e não melhor.
A virada é uma canção. Ao voltarem de uma vitória, as mulheres saem cantando que Saul feriu milhares e Davi dezenas de milhares. Saul se ira, e o texto reproduz o cálculo que ele faz em voz alta: a Davi deram dez mil, a mim mil, só falta o reino. A partir daquele dia, diz o narrador, Saul passou a olhar Davi com desconfiança.
O que se segue ocupa a maior parte de 1 Samuel: lança atirada, armadilhas, um casamento usado como cilada, fuga, deserto, e uma perseguição que envolve exércitos inteiros e chega ao massacre dos sacerdotes de Nobe por terem dado pão a Davi. Duas vezes Davi tem Saul à mão e não o mata, e numa delas Saul chora e diz que Davi é mais justo do que ele. Depois volta a persegui-lo.
6E aconteceu que quando voltavam eles, quando Davi voltou de matar ao filisteu, saíram as mulheres de todas as cidades de Israel cantando, e com danças, com tamboris, e com alegrias e adufes, a receber ao rei Saul.
7E cantavam as mulheres que dançavam, e diziam: Saul feriu seus milhares, E Davi seus dez milhares.
8E irou-se Saul em grande maneira, e desagradou esta palavra em seus olhos, e disse: A Davi deram dez milhares, e a mim milhares; não lhe falta mais que o reino.
9E desde aquele dia Saul olhou com desconfiança a Davi.
A canção e o cálculo. O texto expõe o raciocínio inteiro do rei em uma frase, e o desfecho do capítulo depende dela — não de nenhuma ação de Davi.
16E aconteceu que, quando Davi acabou de dizer estas palavras a Saul, Saul disse: Não é esta a tua voz, meu filho Davi? E Saul, levantando sua voz, chorou.
17E disse a Davi: Mais justo és tu que eu, que me pagaste com bem, havendo-te eu pagado com mal.
A cena da caverna, depois de Davi poupá-lo. Saul chora, chama Davi de filho e reconhece em voz alta que retribuiu com mal a quem lhe fez bem. É a autoavaliação mais lúcida que ele faz no livro inteiro — e ela não muda o comportamento dele.
A noite em En-Dor
Samuel já morreu. Os filisteus estão acampados em Suném, e Saul, ao ver o tamanho do exército, tem medo. Consulta o SENHOR e não recebe resposta nenhuma — nem por sonhos, nem pelos meios do santuário, nem por profetas. O silêncio é o que arma a cena seguinte.
Ele pede aos criados que encontrem uma mulher que consulte os mortos. A ironia é registrada pelo próprio texto poucos versículos antes: fora Saul quem expulsara essas práticas da terra. Ele se disfarça, vai de noite a En-Dor e pede que ela traga Samuel.
O que acontece ali é descrito sem explicação. A mulher vê algo, grita ao reconhecer o rei, e a figura que aparece fala com Saul e repete a sentença: o reino foi tirado dele e dado a Davi, e no dia seguinte ele e os filhos estarão com o profeta. Saul cai por terra, e o texto explica com um detalhe humano — ele não comia havia um dia e uma noite.
E aí vem o trecho que quase nunca é contado. A mulher, que arriscou a vida ao atender o rei, insiste que ele coma antes de ir. Ele recusa; ela e os criados insistem; ela mata um bezerro que tinha em casa, assa pães e serve os três. Numa narrativa em que ninguém trata bem Saul há capítulos, quem lhe dá comida na última noite é a mulher que ele mandou expulsar da terra.
3Já Samuel era morto, e todo Israel o havia lamentado, e haviam-lhe sepultado em Ramá, em sua cidade. E Saul havia lançado da terra os encantadores e adivinhos.
4Pois como os filisteus se juntaram, vieram e assentaram acampamento em Suném: e Saul juntou a todo Israel, e assentaram acampamento em Gilboa.
5E quando viu Saul o acampamento dos filisteus, temeu, e perturbou-se seu coração em grande maneira.
6E consultou Saul ao SENHOR; mas o SENHOR não lhe respondeu, nem por sonhos, nem por Urim, nem por profetas.
7Então Saul disse a seus criados: Buscai-me uma mulher que tenha espírito de necromante, para que eu vá a ela, e por meio dela pergunte. E seus criados lhe responderam: Eis que há uma mulher em En-Dor que tem espírito de necromante.
O silêncio que precede a decisão. É importante ler esta parte antes de julgar a visita a En-Dor: o texto faz questão de registrar que Saul procurou primeiro os caminhos legítimos e não obteve resposta.
15E Samuel disse a Saul: Por que me inquietaste fazendo-me vir? E Saul respondeu: Estou muito angustiado; pois os filisteus lutam contra mim, e Deus se afastou de mim, e não me responde mais, nem por meio de profetas, nem por sonhos: por isto te chamei, para que me declares o que tenho de fazer.
16Então Samuel disse: E para que perguntas a mim, havendo-se afastado de ti o SENHOR, e é teu inimigo?
17o SENHOR pois fez como falou por meio de mim; pois cortou o SENHOR o reino de tua mão, e o deu a tua companheiro Davi.
18Como tu não obedeceste à voz do SENHOR, nem cumpriste o furor de sua ira sobre Amaleque, por isso o SENHOR te fez isto hoje.
19E o SENHOR entregará a Israel também contigo nas mãos dos filisteus: e amanhã estareis comigo, tu e teus filhos; e ainda o acampamento de Israel o SENHOR entregará nas mãos dos filisteus.
O diálogo. Repare que a fala atribuída a Samuel não traz informação nova: repete a sentença do capítulo 15 e anuncia o desfecho do dia seguinte, sem oferecer saída.
Gilboa, e o lamento que Davi escreveu
A batalha acontece no monte Gilboa e é uma derrota completa. Três filhos de Saul morrem ali, entre eles Jônatas. Ferido pelos flecheiros e cercado, Saul pede ao escudeiro que o mate; o escudeiro se recusa por medo, e o rei morre no campo naquele mesmo dia. Esta página não descreve como — o capítulo está aberto para quem quiser ler, e nada do que se pode dizer sobre Saul depende de repetir aqui essa cena.
O que vem depois merece atenção. Os filisteus penduram o corpo na muralha de Bete-Seã, e os homens de Jabes de Gileade — a primeira cidade que Saul havia socorrido, no começo do reinado — andam a noite inteira para recuperar os corpos e dar-lhes sepultura, e depois jejuam sete dias. É a última cena do primeiro livro de Samuel, e ela não é sobre culpa: é sobre alguém sendo tratado com dignidade por quem se lembrou do que ele fez.
E há o lamento. Davi, que passou anos sendo caçado por esse homem, compõe uma elegia por ele e por Jônatas, manda ensiná-la a Judá, e nela não há uma linha de acerto de contas. Ele chama os dois de amados e queridos, diz que na morte não foram separados, e pede às filhas de Israel que chorem por Saul. Quem quiser saber como a Bíblia avalia Saul precisa colocar esse poema ao lado da sentença de Samuel — o texto guarda os dois.
Séculos depois, o cronista faz um resumo mais duro: diz que Saul morreu por sua transgressão e por ter consultado a médium em vez de buscar o SENHOR. É a leitura de um autor posterior, escrita com outra finalidade, e ela também está no cânon. As duas avaliações convivem, e nenhuma anula a outra.
23Saul e Jônatas, amados e queridos em sua vida, Em sua morte tampouco foram separados: Mais ligeiros que águas, Mais fortes que leões.
24Filhas de Israel, chorai sobre Saul, Que vos vestia de escarlata em regozijo, Que adornava vossas roupas com ornamentos de ouro.
O centro do lamento de Davi. Repare que Saul não é lembrado aqui pelo fim, e sim pelo que deu ao povo — é elogio fúnebre no sentido exato, escrito por quem tinha mais motivos que qualquer um para não escrevê-lo.
13Assim Saul morreu por sua transgressão com que havia transgredido contra o SENHOR, por causa da palavra do SENHOR, a qual ele não obedeceu; e por ter buscado à médium para lhe consultar,
14E não ter buscado ao SENHOR. Por isso ele o matou, e passou o reino a Davi, filho de Jessé.
A avaliação do cronista, muito posterior e muito mais severa. Vale lê-la em seguida ao lamento: são dois julgamentos bíblicos sobre a mesma vida, e o cânon preservou os dois sem escolher entre eles.
O que o texto não diz
Personagens bíblicos acumulam camadas de tradição que a Escritura não sustenta. Separar as duas coisas não diminui a história — devolve a ela o que está de fato escrito.
O que se costuma dizer
Saul foi rejeitado porque desobedeceu uma vez, por impaciência.
O que a Escritura traz
São duas cenas de rejeição, em capítulos separados, com motivos distintos. Em 1 Samuel 13 ele oferece o sacrifício em Gilgal depois de esperar o prazo combinado; em 1 Samuel 15 ele é rejeitado por não executar até o fim uma ordem de destruição total contra Amaleque, tendo poupado o rei inimigo e o melhor do gado. Resumir as duas como "desobediência" apaga a diferença entre elas e apaga o que a segunda de fato cobra.
O que se costuma dizer
Deus não queria dar rei a Israel, e Saul foi um erro do começo ao fim.
O que a Escritura traz
O Antigo Testamento tem mais de uma voz sobre isso. Deuteronômio 17 legisla sobre o rei sem sinal de reprovação; 1 Samuel 8 apresenta o pedido como rejeição a Deus e ainda assim manda atendê-lo; e é Deus quem indica Saul a Samuel. O texto sustenta a ambivalência em vez de resolvê-la, e Saul é ungido dentro dela.
O que se costuma dizer
O espírito mau que atormentava Saul era o Diabo, ou era depressão.
O que a Escritura traz
O texto diz que o espírito vinha da parte do SENHOR, e não o identifica com o Diabo nem descreve sintomas. As duas leituras modernas mais comuns — demonológica e psiquiátrica — são interpretações posteriores aplicadas a uma frase que a Escritura deixa sem explicação. O que o texto narra é o efeito: música o aliviava, e Davi foi levado à corte por causa disso.
O que se costuma dizer
Saul consultou uma bruxa em En-Dor.
O que a Escritura traz
A mulher não é nomeada e não é chamada de bruxa: o texto a descreve pela prática, como quem consulta os mortos. Ela não cobra nada, avisa que arriscou a vida, e o capítulo termina com ela convencendo o rei a comer e preparando uma refeição para ele e os criados. É a única pessoa que trata Saul com cuidado naquela noite.
O que se costuma dizer
A Bíblia condena Saul e o apresenta como exemplo do que não fazer.
O que a Escritura traz
O cânon guarda duas avaliações. Uma é a do cronista, que atribui a morte dele à transgressão e à consulta à médium. A outra é o lamento de Davi, em 2 Samuel 1, que o chama de amado, pede ao povo que chore por ele e não menciona nenhuma falta. Nenhuma das duas foi retirada, e o texto não indica qual delas deve prevalecer.
Onde essa pessoa aparece
4Então todos os anciãos de Israel se juntaram, e vieram a Samuel em Ramá,
5E disseram-lhe: Eis que tu envelheceste, e teus filhos não vão por teus caminhos: portanto, constitui-nos agora um rei que nos julgue, como todas as nações.
6E descontentou a Samuel esta palavra que disseram: Dá-nos rei que nos julgue. E Samuel orou ao SENHOR.
7E disse o SENHOR a Samuel: Ouve a voz do povo em tudo o que te disserem: porque não rejeitaram a ti, mas sim a mim me rejeitaram, para que eu não reine sobre eles.
8Conforme todas as obras que fizeram desde o dia que os tirei do Egito até hoje, que me deixaram e serviram a deuses alheios, assim fazem também contigo.
9Agora, pois, ouve sua voz: mas protesta contra eles declarando-lhes o direito do rei que há de reinar sobre eles.
O pedido do povo e a resposta ambivalente. É onde a história de Saul de fato começa, e sem esta cena o resto do reinado dele fica sem contexto.
20E fazendo achegar Samuel todas as tribos de Israel, foi tomada a tribo de Benjamim.
21E fez chegar a tribo de Benjamim por suas linhagens, e foi tomada a família de Matri; e dela foi tomado Saul filho de Quis. E lhe buscaram, mas não foi achado.
22Perguntaram pois outra vez ao SENHOR, se havia ainda de vir ali aquele homem. E respondeu o SENHOR: Eis que ele está escondido entre a bagagem.
23Então correram, e tomaram-no dali, e posto em meio do povo, desde o ombro acima era mais alto que todo o povo.
24E Samuel disse a todo o povo: Vistes ao que o SENHOR escolheu, que não há semelhante a ele em todo o povo? Então o povo clamou com alegria, dizendo: Viva o rei!
A aclamação, com o rei que precisou ser procurado. O contraste com os capítulos seguintes é a espinha dorsal da narrativa.
22E Samuel disse: Tem o SENHOR tanto contentamento com os holocaustos e vítimas, como em obedecer às palavras do SENHOR? Certamente o obedecer é melhor que os sacrifícios; e o prestar atenção que a gordura dos carneiros:
23Porque como pecado de adivinhação é a rebelião, e como ídolos e idolatria o infringir. Porquanto tu rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou para que não sejas rei.
24Então Saul disse a Samuel: Eu pequei; porque violei o dito do SENHOR e tuas palavras, porque temi ao povo, consenti à voz deles. Perdoa, pois, agora meu pecado,
A sentença de Samuel e a explicação que Saul dá para o que fez. Os dois versículos costumam ser separados, e juntos contam uma história diferente.
6E aconteceu que quando voltavam eles, quando Davi voltou de matar ao filisteu, saíram as mulheres de todas as cidades de Israel cantando, e com danças, com tamboris, e com alegrias e adufes, a receber ao rei Saul.
7E cantavam as mulheres que dançavam, e diziam: Saul feriu seus milhares, E Davi seus dez milhares.
8E irou-se Saul em grande maneira, e desagradou esta palavra em seus olhos, e disse: A Davi deram dez milhares, e a mim milhares; não lhe falta mais que o reino.
9E desde aquele dia Saul olhou com desconfiança a Davi.
O momento exato em que o ciúme começa, marcado pelo narrador com data: daquele dia em diante.
15E Samuel disse a Saul: Por que me inquietaste fazendo-me vir? E Saul respondeu: Estou muito angustiado; pois os filisteus lutam contra mim, e Deus se afastou de mim, e não me responde mais, nem por meio de profetas, nem por sonhos: por isto te chamei, para que me declares o que tenho de fazer.
16Então Samuel disse: E para que perguntas a mim, havendo-se afastado de ti o SENHOR, e é teu inimigo?
17o SENHOR pois fez como falou por meio de mim; pois cortou o SENHOR o reino de tua mão, e o deu a tua companheiro Davi.
18Como tu não obedeceste à voz do SENHOR, nem cumpriste o furor de sua ira sobre Amaleque, por isso o SENHOR te fez isto hoje.
19E o SENHOR entregará a Israel também contigo nas mãos dos filisteus: e amanhã estareis comigo, tu e teus filhos; e ainda o acampamento de Israel o SENHOR entregará nas mãos dos filisteus.
En-Dor. A cena mais estranha do livro, narrada sem que o texto explique o que exatamente aconteceu ali.
23Saul e Jônatas, amados e queridos em sua vida, Em sua morte tampouco foram separados: Mais ligeiros que águas, Mais fortes que leões.
24Filhas de Israel, chorai sobre Saul, Que vos vestia de escarlata em regozijo, Que adornava vossas roupas com ornamentos de ouro.
O lamento de Davi. A última palavra bíblica sobre Saul dentro dos livros de Samuel é esta, e é elogio.