Quem foi Jó?
Quando viveu O livro não situa a história em nenhum reinado; o cenário é patriarcal e a composição costuma ser datada entre os séculos VI e IV a.C.
Em resumo
Jó é o protagonista do livro que leva seu nome: um homem íntegro que perde filhos, bens e saúde sem que o texto lhe dê explicação. Ele protesta capítulo após capítulo, e no final Deus aprova justamente quem protestou e repreende os três amigos que explicaram o sofrimento.
- Escrito por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
- Revisado por
- Raphael Navarro Schmitt
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A versão que circula de Jó é curta: um homem muito rico perdeu tudo, aguentou calado, e no fim Deus devolveu em dobro. Essa versão existe no livro — ela é o primeiro capítulo e o último. Entre um e outro há trinta e nove capítulos de poesia em que Jó acusa Deus de persegui-lo, chama os amigos de médicos que não curam nada e exige um julgamento.
O livro é difícil por um motivo que raramente se diz em voz alta: ele leva o leitor até o fim sem responder a pergunta que abriu. Deus fala, e o que ele fala não é uma explicação. Vale ler sabendo disso desde já, porque o texto não guarda nenhuma resposta escondida para o último capítulo — e é justamente essa recusa que faz dele o livro para onde se manda quem está diante de um sofrimento sem sentido.
O homem, e a cena que ele nunca vai ver
A abertura apresenta um homem da terra de Uz, íntegro, temente a Deus, com dez filhos e um patrimônio enorme de rebanhos e servos. Ele é cuidadoso a ponto de oferecer sacrifícios pelos filhos por precaução, caso algum deles tivesse pecado sem perceber. Nada no retrato sugere alguém que mereça o que vem a seguir, e o texto faz questão de dizer isso antes de qualquer coisa acontecer.
Em seguida a narrativa muda de lugar e leva o leitor a uma cena celeste. Uma figura chamada no hebraico de ha-satan, "o adversário", apresenta-se diante de Deus e levanta uma suspeita: Jó só teme a Deus porque foi protegido e enriquecido. Retire a proteção e ele amaldiçoará. O que se segue acontece com permissão, em duas rodadas — primeiro os bens e os filhos, depois o corpo.
Aqui está a decisão narrativa mais importante do livro, e ela costuma passar despercebida. O leitor sabe da cena celeste. Jó não sabe, e nunca vai saber: essa conversa não é mencionada uma única vez nos discursos seguintes, nem quando Deus finalmente fala. Tudo o que Jó diz nos quarenta capítulos seguintes é dito por alguém sem acesso à informação que o leitor já tem.
1Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó; e este homem era íntegro e correto, temente a Deus, e que se afastava do mal.
2E nasceram-lhe sete filhos e três filhas.
3E seu patrimônio era sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois, e quinhentas jumentas; ele também tinha muitíssimos servos, de maneira que este homem era o maior de todos do oriente.
A apresentação vem antes de qualquer desgraça, e é isso que arma o problema do livro. Se o texto tivesse deixado a integridade dele em aberto, o sofrimento teria uma explicação possível; ao afirmá-la de saída, o narrador fecha essa porta de propósito.
Sete dias em silêncio, e depois a maldição
Três amigos — Elifaz, Bildade e Zofar — combinam de ir vê-lo. Chegam, não o reconhecem de longe, choram, rasgam as roupas e sentam no chão com ele por sete dias e sete noites sem dizer uma palavra, porque viam que a dor era grande demais. É o trecho mais bem-comportado do livro inteiro, e é o único em que os três acertam.
Quem quebra o silêncio é Jó, e não com resignação. O capítulo 3 é uma maldição contra o dia em que ele nasceu: que aquele dia se apague, que Deus não olhe para ele, que a escuridão o cubra. Não há aqui aceitação nenhuma — há alguém pedindo que a própria existência seja desfeita, e o livro registra isso sem nenhum comentário reprovador do narrador.
A partir daí o livro muda de forma. O que era prosa vira poesia, e a poesia dura até quase o fim. É nela que Jó diz que quer falar diretamente com o Todo-Poderoso e apresentar a própria causa — não pedir clemência, mas discutir. Ele não abandona a fé em Deus; ele processa Deus, o que é uma coisa bem diferente e bem mais incômoda.
11Quando três amigos de Jó, Elifaz temanita, Bildade suíta, e Zofar naamita, ouviram todo este mal que lhe tinha vindo sobre ele, vieram cada um de seu lugar; porque haviam combinado de juntamente virem para se condoerem dele, e o consolarem.
12Eles, quando levantaram seus olhos de longe, não o reconheceram; e choraram em alta voz; e cada um deles rasgou sua capa, e espalharam pó ao ar sobre suas cabeças.
13Assim se sentaram com ele na terra durante sete dias e sete noites, e nenhum lhe falava palavra alguma, pois viam que a dor era muito grande.
A única coisa que os amigos fazem certo no livro inteiro está aqui: eles ficam, e ficam calados. Vale ler este trecho antes dos discursos deles, porque é a medida contra a qual tudo o que vem depois é julgado.
1Depois disto Jó abriu sua boca, e amaldiçoou seu dia.
2Pois Jó respondeu, e disse:
3Pereça o dia em que nasci, e a noite em que se disse: Um homem foi concebido.
4Torne-se aquele dia em trevas; Deus não lhe dê atenção desde acima, nem claridade brilhe sobre ele.
O início do protesto. Note que o alvo não é a doença nem os inimigos: é o próprio dia do nascimento. Um livro que chegou até nós com esta página dentro não está pedindo que ninguém finja estar bem.
3Mas eu falarei com o Todo-Poderoso, e quero me defender para com Deus.
Ele não quer consolo dos amigos: quer levar a causa diretamente a Deus e argumentar. É a posição que o fim do livro vai aprovar, e a que soa mais irreverente enquanto se lê.
O argumento dos amigos, que soa piedoso
Os três discursam em rodadas, com variações de tom, mas todos sustentam a mesma tese: Deus é justo, o mundo funciona por retribuição, logo quem sofre desse jeito fez alguma coisa. Como Jó insiste na inocência, os argumentos vão endurecendo até virarem acusação — no fim, Elifaz chega a listar pecados específicos que Jó teria cometido, sem qualquer base além da dedução.
É importante perceber o que essas falas são. Elas não são grosserias de gente má. São teologia correta pela metade, dita com reverência, cheia de frases sobre a grandeza e a justiça de Deus, e várias delas poderiam ser recortadas e pregadas hoje sem que ninguém estranhasse. O livro é implacável justamente com esse tipo de discurso.
E o efeito prático dos três é o que qualquer pessoa enlutada reconhece: eles transformam a dor de Jó num problema a ser resolvido e a presença deles numa cobrança. Quanto mais explicam, menos servem. Nenhum dos três volta a se sentar em silêncio.
Deus responde, e não responde
Depois dos amigos e de um quarto interlocutor, Eliú, Deus finalmente fala — de dentro de um redemoinho, e em forma de interrogatório. Onde estavas quando eu fundava a terra? Quem determinou as medidas dela? A partir daí vêm dois capítulos e meio de perguntas sobre a criação: as estrelas, o mar, a chuva no deserto onde não há ninguém, o cavalo, o avestruz, o hipopótamo e o crocodilo.
Nada nesses discursos toca no assunto. Deus não menciona a cena do primeiro capítulo, não explica a perda dos filhos, não oferece compensação e não pede desculpas. Ele também não repete o argumento dos amigos: em nenhum momento diz que Jó sofreu por causa de algum pecado. O que ele faz é ampliar o mundo até que a pergunta de Jó apareça dentro de uma escala que não cabe na cabeça de ninguém.
Jó se dá por satisfeito, e essa é outra coisa estranha do livro. Ele diz que antes conhecia Deus de ouvir falar e que agora o vê, e recua. Não porque tenha recebido a resposta, mas porque recebeu a presença — e o texto trata as duas coisas como não intercambiáveis. Quem procura no fim de Jó uma explicação para o sofrimento sai de mãos vazias, e é assim de propósito.
1Então o SENHOR respondeu a Jó desde um redemoinho, e disse:
2Quem é esse que obscurece o conselho com palavras sem conhecimento?
3Agora cinge teus lombos como homem; e eu te perguntarei, e tu me explicarás.
4Onde estavas tu quando eu fundava a terra? Declara- me ,se tens inteligência.
Repare no gênero da resposta: são perguntas, não afirmações. Deus não argumenta com Jó nem o corrige ponto a ponto — devolve a palavra em forma de interrogatório sobre o mundo, e é isso que o livro chama de resposta.
O veredito que quase ninguém cita
O livro termina com uma sentença que inverte tudo o que a leitura de escola dominical costuma extrair dele. Deus se dirige a Elifaz e diz que sua ira se acendeu contra ele e contra os outros dois, porque eles não falaram dele o que era correto — como falou Jó. Os três precisam levar animais para sacrifício e pedir que Jó ore por eles.
Vale soletrar o que está escrito aí. Quem passou o livro inteiro defendendo Deus com argumentos bem-comportados é reprovado. Quem passou o livro inteiro acusando, reclamando e exigindo explicação é aprovado, e ainda é nomeado intercessor pelos outros. Não há como ler essa frase e continuar dizendo que a fé exige silêncio diante da dor.
Só depois disso vem o epílogo, de volta à prosa: os rebanhos dobram, a família se reúne, nascem outros filhos, e Jó morre velho. É a parte que todo mundo lembra, e ela vem em último lugar — depois de o livro já ter dito qual é o veredito, e sem nunca ligar uma coisa à outra como prêmio por bom comportamento.
7E sucedeu que, depois que o SENHOR acabou de falar essas palavras a Jó, o SENHOR disse a Elifaz temanita: Minha ira se acendeu contra ti e contra teus dois amigos; porque não falastes de mim o que era correto, como meu servo Jó.
A sentença final do livro, e a mais citada por quem estuda o texto e a menos citada em pregação. Ela reprova nominalmente os três amigos e aprova Jó — isto é, aprova quem protestou e reprova quem explicou.
12E assim o SENHOR abençoou o último estado de Jó mais que o seu primeiro; porque teve catorze mil ovelhas, seis mil camelos, mil juntas de bois, e mil asnas.
13Também teve sete filhos e três filhas.
Compare os números com os do primeiro capítulo: os rebanhos são exatamente o dobro, e os filhos são exatamente os mesmos sete e três. O epílogo dobra o gado e não dobra as pessoas — quem morreu no capítulo 1 não é reposto.
Que tipo de livro é esse
Uma coisa que ajuda a ler Jó, e que costuma ser omitida por medo de parecer irreverente: o livro tem forma literária evidente, e ela é visível na própria página. Prólogo e epílogo em prosa, emoldurando um miolo inteiro em poesia; discursos organizados em ciclos regulares; personagens que falam em versos longos e trabalhados enquanto estão sentados em cinzas. Nenhuma conversa real acontece assim.
Boa parte dos estudiosos, católicos e protestantes, lê o livro como composição sapiencial — uma obra construída para levar uma pergunta até o limite, mais próxima de uma peça do que de uma crônica. Isso não é uma tese moderna de quem quer diminuir a Bíblia: é o que a forma do texto sugere, e reconhecê-la é o mesmo tipo de leitura que se faz com um provérbio ou com um salmo.
E vale dizer o que essa leitura não faz: ela não muda a pergunta do livro nem enfraquece a resposta que ele dá. Se Jó foi um homem de carne e osso ou uma figura construída para levar o argumento ao extremo, a cena continua a mesma — alguém inocente sofrendo, três explicações religiosas fracassando, e uma sentença final que aprova quem reclamou.
O que o texto não diz
Personagens bíblicos acumulam camadas de tradição que a Escritura não sustenta. Separar as duas coisas não diminui a história — devolve a ela o que está de fato escrito.
O que se costuma dizer
"Paciência de Jó" virou expressão para quem suporta tudo calado, e a história costuma ser contada como um exemplo de resignação.
O que a Escritura traz
O silêncio de Jó dura dois capítulos. A partir do terceiro ele amaldiçoa o dia em que nasceu, diz que Deus o persegue sem causa, chama os amigos de consoladores inúteis e exige um processo em que possa apresentar sua defesa. O que o livro aprova no fim é justamente essa fala, e não o silêncio.
De onde vem: A expressão vem de Tiago 5:11, que menciona a perseverança de Jó, somada ao hábito de contar apenas o prólogo e o epílogo, que são prosa curta, sem o miolo em poesia, que é a maior parte do livro.
O que se costuma dizer
A história é resumida como um duelo entre Deus e o Diabo, com Jó no meio como aposta.
O que a Escritura traz
A figura do prólogo é chamada de ha-satan, "o adversário", com artigo — um título de função, não um nome próprio. Ela se apresenta diante de Deus como parte da corte celeste, age apenas dentro do limite que recebe e desaparece do livro depois do capítulo 2, sem voltar nem no desfecho. O livro não a identifica com o Diabo do Novo Testamento nem discute a origem do mal.
O que se costuma dizer
No fim, Deus explica a Jó por que ele sofreu, e Jó entende.
O que a Escritura traz
Os discursos divinos não mencionam uma única vez a cena do primeiro capítulo, e não apresentam nenhuma razão para a perda. São perguntas sobre a criação. Jó recua depois de ouvi-las, mas o texto atribui essa mudança a ter visto, não a ter entendido: ele morre sem saber por quê, e o leitor termina o livro sabendo mais do que o protagonista.
O que se costuma dizer
No fim Deus devolveu tudo em dobro, e a família foi restaurada.
O que a Escritura traz
Os números do epílogo dobram os rebanhos do primeiro capítulo, item por item. O número de filhos não dobra: são sete e três, exatamente como antes. O texto dá outros filhos a Jó e não devolve os que morreram, e nunca chama isso de reparação.
Onde essa pessoa aparece
20Então Jó se levantou, rasgou sua capa, rapou sua cabeça, e caindo na terra, adorou,
21E disse: Nu saí do ventre de minha mãe, e nu para lá voltarei. O SENHOR deu, e o SENHOR tomou; bendito seja o nome do SENHOR.
22Em tudo isto Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma.
A reação do primeiro golpe, ainda em prosa: luto ritual e adoração, sem acusar Deus de nada. É a única cena que sustenta a fama de resignação — e ela vale para dois capítulos, não para o livro.
3Pereça o dia em que nasci, e a noite em que se disse: Um homem foi concebido.
4Torne-se aquele dia em trevas; Deus não lhe dê atenção desde acima, nem claridade brilhe sobre ele.
5Reivindiquem-no para si trevas e sombra de morte; nuvens habitem sobre ele; a escuridão do dia o espante.
A virada de tom, no ponto exato em que a prosa vira poesia. Quem quiser saber por que "paciência de Jó" é uma leitura estreita pode ler só isto e comparar com a expressão.
1Então o SENHOR respondeu a Jó desde um redemoinho, e disse:
2Quem é esse que obscurece o conselho com palavras sem conhecimento?
3Agora cinge teus lombos como homem; e eu te perguntarei, e tu me explicarás.
4Onde estavas tu quando eu fundava a terra? Declara- me ,se tens inteligência.
5Quem determinou suas medidas, se tu o sabes? Ou quem estendeu cordel sobre ela?
6Sobre o que estão fundadas suas bases? Ou quem pôs sua pedra angular,
7Quando as estrelas do amanhecer cantavam alegremente juntas, e todos os filhos de Deus jubilavam?
A abertura da fala divina. Vale ler em voz alta: o efeito do trecho depende do acúmulo de perguntas, e ele se perde quando o versículo é lido isolado.
7E sucedeu que, depois que o SENHOR acabou de falar essas palavras a Jó, o SENHOR disse a Elifaz temanita: Minha ira se acendeu contra ti e contra teus dois amigos; porque não falastes de mim o que era correto, como meu servo Jó.
8Por isso tomai para vós sete bezerros e sete carneiros, ide a meu servo Jó, e fazei ofertas de queima em vosso favor, e meu servo Jó orará por vós; pois certamente atenderei a ele para eu não vos tratar conforme vossa loucura; pois não falastes de mim o que era correto, como meu servo Jó.
9Então Elifaz o temanita, Bildade o suíta, e Zofar o naamita foram, e fizeram como o SENHOR havia lhes dito; e o SENHOR atendeu a Jó.
O veredito e a consequência prática dele. Os amigos precisam de sacrifício e de intercessão; quem intercede por eles é o homem que passou o livro protestando.
14E ainda que estivessem no meio dela estes três homens, Noé, Daniel, e Jó, eles por sua justiça livrariam somente suas almas,diz o Senhor DEUS.
Fora do livro dele, Jó aparece aqui, citado ao lado de Noé e Daniel como figura exemplar de justiça. É a menção que sustenta a leitura de Jó como personagem conhecido da tradição, e não como criação isolada de um autor.
11Eis que considerarmos benditos os que suportaram o sofrimento. Ouvistes da paciência de Jó, e vistes o resultado da parte do Senhor; porque o Senhor é muito misericordioso, e cheio de compaixão.
A menção do Novo Testamento que deu origem à expressão "paciência de Jó" em português. Vale lê-la sabendo que o termo grego está mais próximo de resistir até o fim do que de aceitar calado.