Oração de São Francisco: o texto e por que ela não é de São Francisco
A oração
Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor; onde houver ofensa, que eu leve o perdão; onde houver discórdia, que eu leve a união; onde houver dúvida, que eu leve a fé; onde houver erro, que eu leve a verdade; onde houver desespero, que eu leve a esperança; onde houver tristeza, que eu leve a alegria; onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre, fazei que eu procure mais consolar, que ser consolado; compreender, que ser compreendido; amar, que ser amado.
Pois é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado, e é morrendo que se vive para a vida eterna.
Em resumo
A oração “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz” não é de São Francisco de Assis. Apareceu anônima, em francês, num pequeno boletim católico de 1912, sete séculos depois da morte dele. A atribuição nasceu de uma estampa devocional impressa por volta de 1918 e nunca mais foi desfeita.
- Escrito por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
- Revisado por
- Raphael Navarro Schmitt
- Publicado em
- Tempo de leitura
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Quando rezar
Antes de uma conversa difícil, de uma reunião tensa ou de um reencontro com alguém com quem se está brigado. É uma oração de preparação: ela não pede que a situação mude, e sim que quem reza chegue nela de outro jeito.
A construção é em antíteses, e cada uma delas nomeia primeiro o que está errado. Ódio, ofensa, discórdia, dúvida, erro, desespero, tristeza, trevas: a oração não finge que essas coisas não existem, e é por começar por elas que ela não soa ingênua. O pedido nunca é que o mal desapareça — é que quem reza entre nele levando outra coisa.
A segunda estrofe é a mais difícil de rezar com sinceridade. Consolar em vez de ser consolado, compreender em vez de ser compreendido, amar em vez de ser amado: é uma renúncia a três coisas que qualquer pessoa quer legitimamente. Quem reza isso num dia em que se sente incompreendido está pedindo algo que custa, e a oração não disfarça o custo.
As três frases finais são paradoxos, e os três estão no Novo Testamento antes de estarem aqui. “É dando que se recebe” é quase a citação que Paulo atribui a Jesus em Atos 20:35; “é morrendo que se vive” é a imagem do grão de trigo em João 12; e a ligação entre perdoar e ser perdoado é a única condição que o Pai-Nosso estabelece.
Por não citar Jesus pelo nome, nem Maria, nem santo algum, esta oração é a mais ecumênica do cluster: é rezada em igrejas católicas e evangélicas, lida em formaturas e em cerimônias civis, e citada por pessoas sem religião. Isso diz algo sobre o texto — e também explica por que o nome errado colado nele pegou tão bem.
De onde vem esta oração
Quando surgiu 1912, anônima, em francês
A publicação mais antiga que se conhece é de dezembro de 1912, em La Clochette, o pequeno boletim de uma associação católica francesa fundada pelo padre Esther Bouquerel, sob o título “Bela oração para se fazer durante a missa”. Não tinha assinatura. A reconstituição dessa história é obra do historiador francês Christian Renoux, cujo estudo de 2001 é a referência sobre o assunto.
A ligação com Francisco de Assis é acidental e tem rastro documental. Em 1915 um marquês francês enviou o texto a Bento XV, e o L’Osservatore Romano o publicou em janeiro de 1916. Por volta de 1918 um padre franciscano o imprimiu no verso de uma estampa devocional que trazia a imagem de São Francisco na frente. Da estampa para a atribuição foi um passo, e o passo nunca mais foi desfeito: durante a Segunda Guerra a oração circulou amplamente nos Estados Unidos já com o nome do santo colado nela.
Nada nos escritos autênticos de Francisco se parece com este texto — nem o vocabulário, nem a construção em antíteses, nem o tema. Os escritos dele estão em latim e no vernáculo úmbrio, e o texto mais antigo desta oração é francês. Dizer isso não diminui a oração: ela é boa por conta própria, e a página prefere publicar um texto anônimo de 1912 com o nome certo a publicar um texto de 1912 com um nome errado do século XIII.
Detalhes pouco conhecidos
Uma estampa criou a atribuição, e ninguém a desfez
A versão em inglês perdeu dois pares do original francês
A versão que os anglófonos cantam é outra coisa, e é de 1967
A oração não pede nada para quem reza
O que dizem as passagens
9Benditos são os pacíficos, porque eles serão chamados filhos de Deus.
A bem-aventurança que corresponde à primeira linha. Repare que o texto não fala dos pacíficos no sentido de tranquilos: fala de quem faz a paz, que é uma atividade — exatamente o que a oração pede ao usar a palavra “instrumento”.
27Mas a vós, que estais ouvindo, digo: amai os vossos inimigos; fazei bem aos que vos odeiam;
28bendizei aos que vos maldizem, e orai pelos que vos maltratam.
O trecho que dá o padrão de todas as antíteses da oração: responder ao ódio com bem, à maldição com bênção. A instrução é dirigida a quem está ouvindo e não descreve um sentimento — descreve o que fazer.
35Em tudo eu vos tenho mostrado que trabalhando assim, é necessário dar suporte aos enfermos; e lembrar-se das palavras do Senhor Jesus, que disse: Mais bem-aventurado é dar do que receber.
“É dando que se recebe” tem aqui a sua fonte quase literal: Paulo cita uma frase de Jesus que não está registrada em nenhum evangelho. É a única sentença desse tipo em todo o Novo Testamento, o que faz dela um caso curioso — e do fecho da oração, uma citação de segunda mão de algo que só sobreviveu por citação.
24Em verdade, em verdade vos digo, se o grão de trigo, ao cair na terra, não morrer, ele fica só; porém se morrer, dá muito fruto.
25Quem ama sua vida a perderá; e quem neste mundo odeia sua vida, a guardará para a vida eterna.
A imagem do grão de trigo, que sustenta a última linha. O texto não faz elogio à morte: usa uma comparação agrícola para dizer que aquilo que se guarda inteiro permanece sozinho, e é essa lógica que a oração aplica ao consolo, à compreensão e ao amor.