Oração da Serenidade: o texto de quatro linhas e quem realmente a escreveu
A oração
Deus, concedei-me a serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para mudar as que posso, e sabedoria para distinguir uma da outra.
Em resumo
A Oração da Serenidade pede três coisas: serenidade para aceitar, coragem para mudar e sabedoria para distinguir uma da outra. É atribuída ao teólogo Reinhold Niebuhr, a atribuição foi disputada por décadas, e a forma curta de quatro linhas circula em jornais desde os anos 1930.
- Escrito por
- Raphael Navarro Schmitt
- Revisado por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
- Publicado em
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Quando rezar
Diante de uma situação em que não está claro se cabe agir ou aceitar — que é o momento exato para o qual ela foi escrita. Em grupos de recuperação, é rezada na abertura ou no encerramento das reuniões.
A oração é célebre por causa da terceira linha. Aceitar e mudar são atitudes opostas, e qualquer pessoa consegue escolher uma delas; o difícil é saber qual é a hora de cada uma. Ao pedir sabedoria para distinguir, o texto admite que a maior parte do sofrimento vem de aplicar a atitude certa à situação errada — insistir onde não há o que fazer, e conformar-se onde havia.
Ela também não promete resultado. Não diz que a situação vai mudar, não diz que a paz virá hoje e não sugere que quem continua aflito rezou pouco. Pede três disposições internas, que é exatamente o que cabe pedir sobre o que não se controla.
A ordem dos pedidos importa. Serenidade vem primeiro, coragem depois. Não é resignação disfarçada: a oração pede as duas coisas na mesma frase e trata a coragem de mudar como igualmente necessária. Ler o texto como convite a aceitar tudo é uma leitura que o próprio texto desmente na segunda linha.
Se o que está por trás da oração é uma dependência — álcool, drogas, jogo, remédios —, vale dizer com todas as letras: dependência tem tratamento, e existem grupos de apoio e serviços de saúde para isso. Rezar e se tratar cabem no mesmo dia. Esta página não substitui avaliação nem acompanhamento profissional, e nenhuma oração deste site substitui.
De onde vem esta oração
Quando surgiu Anos 1930, atribuição disputada
A atribuição corrente é a Reinhold Niebuhr, teólogo protestante norte-americano que morreu em 1971. Segundo o relato da filha dele, Elisabeth Sifton, a oração foi escrita para um culto numa capela de Heath, em Massachusetts, no início dos anos 1940. O próprio Niebuhr afirmou em vida que a havia escrito e admitiu, com honestidade, não ter como provar que ela não estivesse circulando antes.
Em 2008 a atribuição foi posta em dúvida em público. Fred Shapiro, editor do Yale Book of Quotations, vasculhou bases digitalizadas de jornais e achou versões da oração em circulação nos anos 1930, sem menção a Niebuhr, e concluiu que a autoria era duvidosa. No ano seguinte ele publicou uma revisão da própria conclusão: material novo, entre ele os registros de Winnifred Wygal, colaboradora de Niebuhr, mostrava a oração já atribuída a ele no início daquela década. Hoje o quadro mais aceito é que ele a escreveu antes do que se supunha, e que o texto circulou anônimo bem antes de alguém ligá-lo a um nome.
O que tornou a oração universal, porém, não foi a teologia. Segundo o relato dos próprios Alcoólicos Anônimos, um membro a viu impressa numa coluna de obituários de jornal em 1941; o grupo mandou imprimi-la em cartões, e ela entrou na prática diária de milhões de pessoas em recuperação, em salas onde os participantes muitas vezes não compartilham religião nenhuma.
Detalhes pouco conhecidos
A investigação que quis derrubar a autoria acabou reforçando-a
A forma que circula é a mais curta, e é a mais antiga
A oração é famosa fora de qualquer igreja
A ideia é bem mais velha que o texto
O que dizem as passagens
5Se algum de vós tem falta de sabedoria, peça a Deus, que concede generosamente a todos sem repreender, e lhe será dada.
O texto que autoriza o terceiro pedido da oração. Sabedoria aparece aqui como algo que se pede, e não como resultado de experiência acumulada — e o versículo faz questão de acrescentar que o pedido não é recebido com repreensão.
13Atenção! Vós que dizeis: “Hoje ou amanhã iremos a uma tal cidade, e lá passaremos um ano negociando e lucrando”;
14mas não sabeis o amanhã. Pois o que é a vossa vida? Sois um vapor, que por pouco tempo aparece, e logo se desvanece.
15Em vez disso, devíeis dizer: Se o Senhor quiser, e vivermos, faremos isso ou aquilo.
A passagem mais direta da Bíblia sobre o que não está sob o nosso controle: planos de um ano inteiro descritos como vapor. O contraponto que o texto propõe não é parar de planejar, e sim mudar o verbo — “se o Senhor quiser”.
11Não digo isso por causa de alguma necessidade, pois já aprendi a contentar-me com o que tenho.
12Sei estar humilhado, e sei ter em abundância; em toda maneira e em todas as coisas estou instruído, tanto a estar farto, como a ter fome; tanto a ter em abundância, como a sofrer necessidade.
13Posso todas as coisas naquele que me fortalece.
Paulo descreve o contentamento como algo aprendido, e não como temperamento. É o parentesco mais próximo do primeiro pedido da oração: serenidade aqui não é ausência de circunstância adversa, é o que se aprende dentro dela.
34Não andeis, pois, ansiosos pelo dia de amanhã, porque o amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal.
A frase que reduz o prazo do problema ao dia de hoje. Vale ler junto com a oração: nenhuma das duas promete que o amanhã será bom, e as duas propõem a mesma manobra — encurtar o horizonte até o tamanho do que dá para carregar.