Ato de Contrição: o texto da oração e por que existem várias versões
A oração
Meu Deus, eu me arrependo de todo o coração de todos os meus pecados, e os detesto, porque, pecando, mereci as penas do inferno e perdi o céu; mas principalmente porque vos ofendi, a vós, sumo bem e digno de ser amado sobre todas as coisas.
Proponho firmemente, com o auxílio de vossa graça, emendar-me e fugir das ocasiões próximas de pecado. Amém.
Em resumo
O Ato de Contrição é a oração de arrependimento rezada na confissão e no exame de consciência da noite. Não existe uma fórmula única: circulam várias, e o que o rito pede é o arrependimento, não as palavras exatas. Esta é a forma tradicional do catecismo em português.
- Escrito por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
- Revisado por
- Raphael Navarro Schmitt
- Publicado em
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Quando rezar
Na confissão, depois de acusar os pecados e antes da absolvição, e no exame de consciência antes de dormir. É também a oração recomendada quando alguém se dá conta de algo grave e não tem como se confessar naquele momento.
A oração faz três coisas em duas frases: reconhece, qualifica e propõe. Reconhecer é dizer o que houve; qualificar é dizer por que aquilo é grave; propor é dizer o que muda a partir de agora. Um pedido de desculpas que não faça as três costuma soar vazio, e a fórmula é antiga o bastante para saber disso.
“Fugir das ocasiões próximas de pecado” é a parte mais prática e a menos citada. Ocasião próxima é a situação que previsivelmente leva de volta ao mesmo lugar — a companhia, o horário, o aplicativo, o bar do caminho. A oração não pede força de vontade: pede mudança de rota, o que é bem mais realista.
É honesto dizer onde as tradições cristãs se separam aqui, porque a divergência não está na oração e sim no que vem depois dela. A prática católica liga o ato de contrição à confissão sacramental, feita a um sacerdote. A maior parte das igrejas evangélicas confessa diretamente a Deus, apoiada em 1 João 1:9, e pratica a confissão entre irmãos como aconselhamento, não como sacramento. O texto acima é rezado nas duas situações sem mudar uma palavra.
Uma advertência sobre o uso: esta oração descreve arrependimento, não autopunição. Repetir a fórmula sem parar, ou rezá-la para aliviar uma culpa que não passa, é sinal de que o assunto pode não ser espiritual. Escrúpulo persistente e culpa incapacitante são queixas clínicas conhecidas, e procurar ajuda profissional para isso não substitui a fé nem é sinal de falta dela.
De onde vem esta oração
Quando surgiu Fórmula fixada entre os séculos XVI e XVIII
Ato de contrição não é o nome de um texto e sim de um gesto: o ato pelo qual alguém se arrepende. A prática é tão antiga quanto a penitência cristã, e o Antigo Testamento já a tem em forma acabada no Salmo 51. O que é relativamente recente é a fórmula — as orações que se decoram para fazer esse ato aparecem nos catecismos impressos a partir do século XVI, quando a catequese passa a ser feita com livros iguais para todo mundo.
Existem várias, e todas legítimas. A que se reza em português é uma tradução da fórmula latina difundida pelos catecismos pós-tridentinos, e vizinha da que os anglófonos decoram (“O my God, I am heartily sorry…”) e da espanhola, que é diferente das duas: começa dirigindo-se a Jesus Cristo pelo nome, e não a Deus em geral. As três dizem a mesma coisa em ordens diferentes.
A estrutura é sempre a mesma, e é ela que importa mais que a redação: reconhecer o que se fez, dizer por que aquilo é grave, e propor uma mudança concreta com auxílio da graça. O rito da penitência prevê várias fórmulas e admite que se use outra, ou mesmo palavras próprias — o que a Igreja pede é o arrependimento, não a memorização.
Detalhes pouco conhecidos
A palavra vem de “esmagar”
A oração dá dois motivos, e a teologia tem nomes diferentes para cada um
Não existe uma fórmula obrigatória, e é por isso que a sua avó reza outra
A última linha é a única que fala do futuro
O que dizem as passagens
1Tem misericórdia de mim, ó Deus, conforme a tua bondade; desfaz minhas transgressões conforme a abundância de tuas misericórdias.
2Lava-me bem de minha perversidade, e purifica-me de meu pecado.
3Porque eu reconheço minhas transgressões, e meu pecado está continuamente diante de mim.
4Contra ti, somente contra ti pequei, e fiz o mal segundo teus olhos; para que estejas justo no que dizeres, e puro no que julgares.
O texto que está por trás de toda a tradição penitencial cristã. Repare no versículo 4: “contra ti, somente contra ti pequei”. É a mesma inversão que a oração faz ao dizer “mas principalmente porque vos ofendi” — o dano feito a outros não some, mas a ofensa que pesa é a feita a Deus.
13E o cobrador de impostos, estando em pé de longe, nem mesmo queria levantar os olhos ao céu, mas batia em seu peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador.
14Digo-vos que este desceu mais justificado à sua casa do que aquele outro; porque qualquer que a si mesmo se exalta, será humilhado; e qualquer que a si mesmo se humilha, será exaltado.
O ato de contrição mais curto do Novo Testamento, com uma frase: o cobrador de impostos bate no peito e pede misericórdia. Jesus comenta o resultado no versículo seguinte, e o comentário é sobre quem desceu justificado — não sobre quem usou a fórmula melhor.
18Eu levantarei, e irei a meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu, e diante de ti.
19E já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como a um de teus empregados.
20E levantando-se, foi a seu pai. E quando ainda estava longe, o seu pai o viu, e teve compaixão dele; e correndo, caiu ao seu pescoço, e o beijou.
O filho pródigo ensaia o discurso e não chega a terminá-lo: o pai o interrompe antes. Vale ler pensando na oração acima — o texto sugere que a fórmula preparada importa menos do que a decisão de levantar e voltar.
8Se dissermos que não temos pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós.
9Se confessarmos nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.
Os dois versículos que sustentam a prática de confessar, e o versículo em que a leitura evangélica se apoia para confessar diretamente a Deus. O texto condiciona o perdão à confissão, mas o fundamento que ele dá não é o esforço de quem confessa, e sim a fidelidade de quem perdoa.