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O que é o pecado original?

Resposta rápida

Pecado original é o nome dado à condição que o cristianismo entende ter atingido a humanidade desde a desobediência narrada em Gênesis 3: uma inclinação ao mal e uma separação de Deus que ninguém escolheu individualmente. As tradições cristãs divergem sobre o que exatamente se herda — a culpa de Adão, ou apenas as consequências dela.

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A expressão não aparece na Bíblia. Ela é um nome teológico, consolidado na tradição latina a partir de Agostinho, no século IV, para algo que os textos bíblicos descrevem sem batizar. Saber disso não enfraquece a doutrina, mas muda o modo de discuti-la: o que se discute é a melhor descrição de um conjunto de passagens, e não uma fórmula que estivesse pronta no texto esperando ser copiada.

Gênesis 3 narra a ruptura e enumera as consequências: vergonha diante da própria nudez, culpa transferida de um para o outro, trabalho penoso, dor, expulsão do jardim e o retorno ao pó. É uma narrativa de estrago, e o estrago é coletivo — atinge a relação com Deus, a relação entre as pessoas e a relação com a terra. O que Gênesis não faz é explicar como aquilo chega até nós. A linguagem de transmissão só aparece depois, em Paulo.

Romanos 5:12 é a passagem-chave, e o ponto exato onde a discussão se decide é a última oração dela. O grego traz ali uma expressão curta de significado disputado. As traduções modernas, inclusive a publicada nesta página, a entendem como uma constatação: a morte alcançou todos porque cada um pecou. A tradução latina antiga, que Agostinho tinha em mãos, a lia como um relativo apontando para Adão — todos teriam pecado nele. Boa parte da doutrina ocidental da culpa herdada cresceu a partir dessa segunda leitura, e a diferença não é erudição: uma versão fala do que cada pessoa faz, a outra, do que já estaria feito antes de qualquer um nascer.

Do outro lado da balança há um texto que qualquer explicação honesta precisa carregar junto. Ezequiel 18 afirma, sem rodeios, que ninguém responde pela culpa alheia — nem o filho pela do pai, nem o pai pela do filho. Quem sustenta a herança da culpa precisa explicar como conciliar as duas coisas; quem nega precisa explicar Romanos 5 e Efésios 2, que descrevem uma condição anterior a qualquer escolha pessoal. As três leituras da nota abaixo são, no fundo, três maneiras diferentes de segurar essas duas pontas ao mesmo tempo.

Vale registrar o que costuma ser lido apressadamente. O Salmo 51 é uma oração de confissão, escrita em linguagem poética por alguém arrasado pelo que fez; transformar um verso dele numa tese sobre a concepção humana é uma operação interpretativa, e não uma leitura direta. Já Romanos 7, com o conflito entre querer o bem e fazer o mal, funciona no sentido inverso: não prova doutrina nenhuma, mas descreve a experiência que a doutrina tenta explicar, e é por isso que ele costuma convencer mais do que os argumentos.

Uma pergunta prática aparece quase sempre em seguida: e as crianças? Na Igreja Católica, o batismo apaga o pecado original, e a hipótese do limbo jamais foi doutrina definida — um documento da Comissão Teológica Internacional, aprovado por Bento XVI em 2007, expressa esperança fundamentada na salvação das crianças que morrem sem batismo. Entre evangélicos é comum a ideia de uma idade de responsabilidade, antes da qual não há imputação pessoal. Nenhuma das grandes tradições ensina que uma criança morta sem batismo esteja perdida.

Por fim, o que a doutrina de fato serve para dizer, em qualquer das versões. O problema humano é descrito como mais profundo do que uma lista de atos errados: não é que as pessoas façam coisas ruins de vez em quando, é que existe algo torto na origem, anterior a qualquer decisão individual. A consequência prática disso é curiosamente aliviadora — ninguém é um caso isolado de defeito, e a solução proposta nunca é esforço redobrado, e sim Cristo. Adão e Cristo, aliás, aparecem sempre emparelhados em Paulo, e é o segundo membro do par que carrega o peso do argumento.

O que dizem as passagens

Gênesis 3:6-7

6E viu a mulher que a árvore era boa para comer, e que era agradável aos olhos, e árvore cobiçável para alcançar a sabedoria; e tomou de seu fruto, e comeu; e deu também a seu marido, o qual comeu assim como ela.

7E foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus: então coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais.

Tradução: Edição Chama da Fé

O ato e o efeito imediato, em dois versículos. O texto detalha o raciocínio que precede a decisão — o fruto parece bom, bonito e desejável — e mostra que a primeira consequência não é castigo externo, e sim uma percepção alterada de si mesmos.

Gênesis 3:17-19

17E ao homem disse: Porquanto obedeceste à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te mandei dizendo, Não comerás dela; maldita será a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias de tua vida;

18Espinhos e cardos te produzirá, e comerás erva do campo;

19No suor de teu rosto comerás o pão até que voltes à terra; porque dela foste tomado: pois pó és, e ao pó voltarás.

Tradução: Edição Chama da Fé

As consequências enunciadas: a terra deixa de colaborar, o trabalho vira esforço penoso e o corpo tem prazo. Note que o texto descreve o estrago das relações, e não a transmissão de uma culpa — essa linguagem só aparecerá muito depois, em Paulo.

Romanos 5:12

12Portanto, assim como por um homem o pecado entrou no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os seres humanos, porque todos pecaram.

Tradução: Edição Chama da Fé

A passagem em que a doutrina se apoia, e cuja última oração decide o resultado. As traduções modernas a leem como constatação de que cada pessoa peca; a versão latina antiga a lia como referência a Adão, em quem todos teriam pecado. A doutrina ocidental da culpa herdada nasce, em boa medida, dessa segunda leitura.

Romanos 5:18-19

18Portanto, assim como uma transgressão resultou em condenação sobre todos os seres humanos, assim também um ato de justiça resultou em justificação da vida sobre todos os seres humanos.

19Pois, assim como pela desobediência de um só homem muitos foram feitos pecadores, assim também, pela obediência de um só, muitos serão justificados.

Tradução: Edição Chama da Fé

A estrutura do argumento de Paulo em duas frases: uma transgressão de um lado, um ato de justiça do outro, com efeitos que alcançam a todos. O paralelo é o que torna a passagem tão discutida — o peso que se dá ao primeiro termo define o peso do segundo.

1 Coríntios 15:21-22

21Pois dado que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos.

22Porque assim como em Adão todos morrem, assim também em Cristo todos serão vivificados.

Tradução: Edição Chama da Fé

A versão curta do mesmo par. Serve como lembrete de proporção: nas duas vezes em que Paulo trata do assunto, Adão entra como contraste para explicar Cristo, e não como tema em si.

Efésios 2:1-3

1E vós estáveis mortos em vossas ofensas e pecados,

2nos quais antes andastes conforme o proceder deste mundo, conforme o príncipe do poder do ar, do espírito que agora opera nos filhos da desobediência.

3Entre esses também todos nós antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como também os outros.

Tradução: Edição Chama da Fé

A descrição mais dura do estado anterior à graça, com a expressão que a leitura da culpa herdada mais invoca: ser algo por natureza, e não por escolha. Quem lê o pecado original como corrupção profunda encontra aqui seu texto mais forte.

Ezequiel 18:20

20A alma que pecar, essa morrerá; o filho não será punido pela maldade do pai, nem o pai será punido pela maldade do filho; a justiça do justo será sobre ele, e a perversidade do perverso será sobre ele.

Tradução: Edição Chama da Fé

O contrapeso indispensável. O profeta descarta a transferência de culpa entre gerações nos dois sentidos, e afirma que cada um responde pelo que é seu. Toda explicação do pecado original precisa acomodar esta afirmação, e é justamente aqui que as leituras se separam.

Salmos 51:5

5Eis que em perversidade fui formado, e em pecado minha mãe me concebeu.

Tradução: Edição Chama da Fé

Muito citado, e quase sempre fora do gênero. Trata-se de uma oração de confissão, em linguagem poética, feita por alguém devastado pelo que acabou de fazer. Ler o verso como afirmação técnica sobre a concepção humana é uma interpretação possível, mas é interpretação.

Romanos 7:18-19

18Porque sei que em mim, isto é, em minha carne, não habita bem algum; porque o querer está em mim; porém o fazer o bem, não.

19Pois o bem que quero, não faço; mas o mal que não quero, isso faço.

Tradução: Edição Chama da Fé

Não prova nada e explica muita coisa. Paulo descreve a distância entre querer o bem e conseguir fazê-lo, e é essa experiência — reconhecível por qualquer pessoa, crente ou não — que a doutrina do pecado original tenta dar conta.

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