O que é o livre-arbítrio?
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Livre-arbítrio é a capacidade de escolher entre caminhos e responder pelas próprias escolhas — algo que a Bíblia pressupõe sempre que manda escolher, obedecer ou se arrepender. O que os cristãos discutem não é se a escolha existe, e sim quanto ela pesa diante de uma graça que a Escritura descreve como vindo primeiro.
- Escrito por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
- Revisado por
- Raphael Navarro Schmitt
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Assim como "pecado original", a expressão "livre-arbítrio" não está na Bíblia. Ela vem da filosofia e entrou na teologia cristã para nomear algo que os textos bíblicos não definem, mas assumem o tempo todo: cada vez que aparece um imperativo — escolha, obedeça, arrependa-se, venha —, está pressuposto que o destinatário pode fazer ou deixar de fazer. Discutir livre-arbítrio é discutir o alcance dessa pressuposição, não a existência dela.
Uma família de textos põe a decisão humana em primeiro plano de forma quase brutal. Moisés apresenta ao povo vida e morte e manda escolher. Josué faz o mesmo diante de Israel, com os deuses concorrentes nomeados um a um. O último capítulo do Apocalipse encerra a Bíblia com um convite aberto a quem quiser. E Tiago corta pela raiz qualquer tentativa de terceirizar a responsabilidade: a tentação não vem de Deus, vem do desejo de cada um.
Outra família de textos aponta na direção oposta com a mesma firmeza. No evangelho de João, Jesus afirma que ninguém consegue vir até ele sem ser trazido pelo Pai. Paulo declara que o resultado não depende de quem quer nem de quem se esforça, mas da misericórdia de Deus, e escreve aos efésios que a própria fé é presente, não conquista. Ignorar esses trechos para preservar a liberdade humana é tão desonesto quanto ignorar os anteriores para preservar a soberania divina.
Há uma passagem que coloca as duas coisas na mesma respiração, e ela é o melhor retrato do problema. Em Filipenses 2, Paulo ordena que os leitores levem adiante a própria salvação, e escolhe para isso uma fórmula de gravidade — temor e tremor. Na frase seguinte, dá como motivo o fato de que é Deus quem produz neles tanto a vontade quanto a ação. O texto não resolve a tensão: ele a enuncia, e usa um lado como fundamento do outro. Qualquer sistema que fique confortável demais aqui provavelmente amputou metade da frase.
Vale registrar um dado que muda a paisagem conforme a Bíblia que se tem na mão. O texto mais explícito sobre a liberdade humana em toda a Escritura está no Eclesiástico, que diz que Deus deixou o ser humano nas mãos do próprio conselho e colocou diante dele opções contrárias para que estenda a mão ao que quiser. O livro faz parte dos deuterocanônicos: está nas Bíblias católicas e ausente da maioria das edições evangélicas. Parte da diferença de ênfase entre as tradições começa aí, antes de qualquer argumento.
Duas caricaturas atrapalham a conversa e vale desarmá-las. A primeira é a de que quem defende a soberania divina estaria dizendo que as pessoas são fantoches sem responsabilidade — nenhuma tradição cristã ensina isso, e todas mantêm o juízo e a responsabilidade pessoal. A segunda é a de que quem defende a liberdade humana estaria dizendo que a pessoa se salva sozinha — também não: em todas as leituras a graça vem antes, e a salvação não é conquistada. A discussão real é mais estreita e mais interessante do que qualquer uma dessas versões.
Por fim, a pergunta que costuma estar por baixo desta pergunta. Quem chega aqui muitas vezes quer saber se o que faz importa, ou se já está tudo decidido de antemão. Nesse ponto as três leituras dizem a mesma coisa, e ela é a parte prática: o convite descrito nos textos é sincero, a porta é apresentada como aberta, e nenhuma tradição cristã ensina que alguém que queira se aproximar de Deus será recusado. A vontade de vir já é, em todas as leituras, um bom sinal.
O que dizem as passagens
19Aos céus e a terra chamo por testemunhas hoje contra vós, que pus diante de vós a vida e a morte, a bênção e a maldição: escolhe, pois, a vida, para que vivas tu e tua descendência:
O imperativo mais direto da Bíblia sobre escolher. Moisés convoca céu e terra como testemunhas, apresenta duas alternativas e ordena a decisão. Seja qual for a leitura que se adote depois, o formato do texto é o de alguém falando a quem pode decidir.
15E se mal vos parece servir ao SENHOR, escolhei hoje a quem sirvais; se aos deuses a os quais serviram vossos pais, quando estiveram da outra parte do rio, ou aos deuses dos amorreus em cuja terra habitais: que eu e minha casa serviremos ao SENHOR.
A mesma estrutura, agora com os concorrentes nomeados: os deuses dos antepassados e os dos amorreus. O detalhe que costuma passar é que Josué faz a própria escolha em voz alta, o que transforma o convite em exemplo em vez de cobrança.
14Deus constituiu o homem desde o princípio, e o deixou na mão do seu próprio conselho.
15Acrescentou os seus mandamentos e preceitos.
16Se quiseres guardar os mandamentos, e se, havendo-os escolhido, os cumprires com perpétua fidelidade, eles te guardarão.
17Ele pôs diante de ti a água e o fogo. Estende a tua mão para aquilo que escolheres.
O texto mais explícito sobre liberdade humana em toda a Escritura, com a imagem de opções contrárias postas diante da pessoa para que ela estenda a mão. Pertence aos deuterocanônicos: está nas Bíblias católicas e falta na maioria das evangélicas, o que já explica parte da diferença de ênfase entre as tradições.
44Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia.
A afirmação que puxa a corda para o outro lado, e vinda do próprio Jesus: a aproximação não parte da pessoa. Quem defende que a graça precede e capacita toda decisão começa por aqui, e com razão — o verbo do versículo indica ser trazido, não decidir.
16Portanto, não depende daquele que quer, nem daquele que se esforça, mas sim, de Deus, que se compadece.
Paulo descarta, na mesma frase, o querer e o esforço como fatores decisivos, e atribui o resultado à misericórdia. É a passagem mais difícil para qualquer leitura que faça a escolha humana pesar demais, e ela não tem contorno fácil.
8Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus;
9não por obras, para que ninguém tenha orgulho de si mesmo.
A salvação descrita como presente recebido, com a exclusão explícita do mérito. O ponto disputado é gramatical: o que exatamente é chamado de dom — a salvação, a fé, ou o conjunto. A resposta a essa pergunta pequena move bastante coisa grande.
12Portanto, meus amados, assim como sempre obedecestes, não somente na minha presença, mas muito mais agora em minha ausência, assim exercei a vossa salvação com temor e tremor;
13pois é Deus quem opera em vós tanto o querer como o agir, conforme a sua boa vontade.
As duas afirmações numa única respiração: um mandamento de agir, seguido do motivo, que é Deus produzindo dentro da pessoa a vontade e a ação. Paulo usa um lado como fundamento do outro em vez de escolher entre eles. É o melhor resumo bíblico do problema.
13Ninguém, quando for tentado, diga: “Sou tentado por Deus”; porque Deus não é tentado pelo mal, e ele mesmo tenta ninguém;
14Mas cada um é tentado quando é atraído e seduzido pelo seu próprio mau desejo.
Fecha a porta para responsabilizar Deus pelo mal que se faz: a tentação nasce do desejo da própria pessoa. É também o texto de apoio da resposta cristã mais comum ao problema do sofrimento causado por escolhas humanas.
17E o Espírito e a noiva dizem: Vem!E quem o ouve, diga: Vem!E quem tem sede, venha; e quem quiser, tome de graça da água da vida.
A Bíblia termina com um convite endereçado a quem tiver sede e quiser, sem condição prévia. Vale menos como argumento técnico e mais como tom: qualquer leitura sobre liberdade e graça precisa caber dentro de uma última página que convida em vez de filtrar.