O que é a ressurreição?
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Ressurreição, no cristianismo, é a afirmação de que Jesus foi morto, sepultado e voltou à vida ao terceiro dia — não como espírito nem como lembrança, mas corporalmente. É o núcleo do anúncio cristão desde o começo: Paulo escreve que, sem ela, a pregação e a fé ficam vazias.
- Escrito por
- Raphael Navarro Schmitt
- Revisado por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
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A palavra é usada de forma frouxa no dia a dia, e a imprecisão apaga justamente o que ela quer dizer. Ressurreição não é imortalidade da alma, não é reencarnação e não é a volta de alguém à mesma vida de antes. Nos relatos do Novo Testamento, Lázaro é devolvido à vida e vai morrer outra vez; o que se afirma de Jesus é diferente — uma passagem para uma forma de vida que a morte não alcança mais.
Os textos também insistem no corpo, e insistem de um jeito quase constrangedor. As aparições descritas não são visões luminosas: Jesus mostra mãos e pés, convida a tocar, come na frente dos discípulos. Ao mesmo tempo, os mesmos relatos dizem que ele nem sempre foi reconhecido de imediato. Os autores parecem estar tentando descrever algo para o qual não tinham categoria pronta, e não suavizam a estranheza disso.
O registro escrito mais antigo da ressurreição não está num Evangelho. Está numa carta de Paulo, anterior aos Evangelhos, e ele mesmo diz que está repassando uma fórmula recebida, com uma lista de testemunhas — inclusive a observação de que a maioria delas ainda estava viva quando ele escreveu. É um convite implícito à conferência, e não uma afirmação posta fora de alcance.
Paulo faz então algo raro em texto religioso: coloca a própria fé em risco. Diz, com todas as letras, que se Cristo não ressuscitou a pregação é vazia e a fé não serve para nada. Não há aqui a saída de tratar o assunto como símbolo edificante. E a consequência que ele tira é a que as duas grandes tradições cristãs confessam no mesmo Credo — a ressurreição de Jesus como primeiro caso, e não como caso único.
O que dizem as passagens
3Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi, que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras;
4E que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras;
5E que foi visto por Cefas, depois pelos doze.
6Depois foi visto de uma fez por mais de quinhentos irmãos, dos quais a maioria ainda vive, e também alguns já dormem.
7Depois foi visto por Tiago; depois por todos os apóstolos.
8E por último de todos também foi visto por mim, como que a um nascido fora do tempo.
O texto mais antigo sobre a ressurreição que chegou até nós, e Paulo diz que o recebeu pronto — ou seja, ele é anterior a esta carta. Repare na lista de testemunhas e no detalhe de que a maioria continuava viva: quem lê é convidado a checar.
6Mas ele lhes disse: Não vos espanteis. Vós buscais a Jesus Nazareno crucificado. Ele já ressuscitou, não está aqui. Eis aqui o lugar onde o puseram.
O anúncio no túmulo vazio, seco e sem adjetivo. Nada de descrição do que aconteceu ali dentro: os Evangelhos não narram a ressurreição em si, apenas o antes e o depois. Essa contenção é uma das marcas de que os relatos não foram bordados.
39Vede minhas mãos, e os meus pés, que sou em mesmo. Tocai-me, e vede, porque um espírito não tem carne nem ossos, como vós vedes que eu tenho.
A resposta ao primeiro palpite dos próprios discípulos, que pensaram estar vendo um espírito. O argumento apresentado é físico — carne e ossos, mãos e pés —, o que exclui a leitura da ressurreição como aparição fantasmagórica.
14E se Cristo não ressuscitou, então é vã nossa pregação, e vã também é vossa fé.
A frase que impede transformar a ressurreição em metáfora confortável. Paulo aceita o risco de dizer o que acontece se ela for falsa, e o que ele diz é que tudo cai junto, começando pela mensagem que ele mesmo prega.
20Mas de fato Cristo ressuscitou dos mortos, e foi feito as primícias dos que dormiram.
A palavra "primícias" vem da colheita: o primeiro fruto que aparece e indica que o restante vem atrás. É a imagem que liga a ressurreição de Jesus à esperança cristã sobre os mortos, e não a um episódio isolado da biografia dele.
4Por isso, estamos sepultados com ele pelo batismo na morte; para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos para a glória do Pai, assim também nós andemos em novidade de vida.
Onde a doutrina encosta na vida de quem crê. Paulo lê o batismo como participação nessa passagem, com efeito no presente — "novidade de vida" é linguagem de agora, não só de depois da morte.