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O que a Bíblia diz sobre divórcio?

Resposta rápida

A Bíblia trata o divórcio como ruptura de algo que Deus uniu, e prevê situações em que ele acontece. Jesus aponta uma exceção em Mateus 19; Paulo prevê outra em 1 Coríntios 7, quando o cônjuge que não crê se separa. As igrejas divergem sobre o novo casamento, e não sobre o valor de quem passou por um divórcio.

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Quem procura esta pergunta raramente está estudando teologia. Na maior parte das vezes é alguém no meio de um processo, ou pensando em começar um, tentando descobrir se está prestes a fazer algo irreparável diante de Deus. Vale dizer isso logo: as passagens abaixo foram escritas para orientar comunidades, não para condenar leitores. O que esta página faz é colocá-las na mesa com o contexto que costuma ser cortado quando um versículo é citado sozinho numa conversa difícil.

No Antigo Testamento, a lei não institui o divórcio: ela regula uma prática que já existia. Deuteronômio 24 exige um documento escrito e a entrega dele à mulher — numa sociedade em que a mulher repudiada ficava sem qualquer prova de sua situação, isso é proteção, não permissão. Já em Malaquias, aparece a expressão mais dura sobre o assunto em toda a Bíblia, e o contexto merece atenção: o profeta fala de homens que abandonavam as esposas de juventude. O alvo do texto é o abandono, não a pessoa abandonada.

Em Mateus 19, a pergunta que chega a Jesus é bem específica. Os fariseus não perguntam se o divórcio é permitido — todos ali sabiam que era —, e sim se ele vale por qualquer motivo. Havia dois campos rabínicos em disputa, um bastante permissivo e outro restrito, e a intenção era enquadrar Jesus em um deles. A resposta recua para o Gênesis, para a união anterior a qualquer lei, e trata a permissão de Moisés como concessão à dureza do coração humano. Em seguida vem a cláusula que se tornou o centro de séculos de discussão: divorciar-se e casar novamente é descrito como adultério, ressalvado o caso em que houve infidelidade sexual.

Essa cláusula está em Mateus e não está em Marcos nem em Lucas, onde a mesma cena aparece sem exceção nenhuma. Não é detalhe: boa parte da divergência cristã sobre novo casamento nasce exatamente aí. Quem lê Marcos como a formulação mais antiga e mais crua entende a exceção de Mateus como adaptação pastoral posterior; quem lê Mateus como registro completo entende que Marcos apenas resume. Nenhuma das duas leituras precisa acusar a outra de má-fé, e nenhuma delas é obviamente a certa.

Paulo, em 1 Coríntios 7, faz algo que quase nenhum texto antigo faz: ele marca onde está repetindo o Senhor e onde está falando por conta própria. A instrução geral é não se separar, e, se a separação acontecer, permanecer sem novo casamento ou reconciliar-se. Logo depois, tratando de casamentos em que só uma parte crê, ele prevê outra situação — se a parte que não crê decide ir embora, o cônjuge que fica não está preso. Se esse "não está preso" significa liberdade para casar novamente é precisamente o ponto em que as tradições se separam.

Há também o que esses textos não dizem, e isso precisa ser dito com clareza. Nenhuma dessas passagens ordena que alguém permaneça numa casa onde há violência. Tanto a prática pastoral católica quanto a evangélica reconhecem a separação como necessária quando há risco à integridade de alguém, e o direito canônico prevê a separação dos cônjuges por causa grave sem que isso seja tratado como pecado da parte que se protege. Quem está em perigo não precisa resolver uma questão doutrinária antes de buscar segurança.

Sobre o que acontece depois, as tradições seguem caminhos diferentes, e vale conhecer o da sua comunidade antes de decidir qualquer coisa. Uma coisa, porém, é comum a todas: nenhuma delas ensina que quem se divorciou está fora do alcance de Deus, impedido de orar, de participar da vida da igreja ou de recomeçar. O divórcio é tratado como ferida, e ferida é o tipo de coisa que a fé cristã sempre soube acompanhar.

O que dizem as passagens

Deuteronômio 24:1-4

1Quando algum tomar mulher e se casar com ela, se não lhe agradar por haver achado nela alguma coisa ofensiva, lhe escreverá carta de divórcio, e a entregará em sua mão, e a despedirá de sua casa.

2E saída de sua casa, poderá ir e casar-se com outro homem.

3E se a aborrecer este último, e lhe escrever carta de divórcio, e a entregar em sua mão, e a despedir de sua casa; ou se morrer o posterior homem que a tomou para si por mulher,

4Não poderá seu primeiro marido, que a despediu, trazê-la de volta a tomar para que seja sua mulher, depois que foi contaminada; porque é abominação diante do SENHOR, e não hás de perverter a terra que o SENHOR teu Deus te dá por herança.

Tradução: Edição Chama da Fé

A lei não cria o divórcio: ela disciplina o que já era feito. A exigência de um documento entregue em mãos protegia a mulher repudiada, que sem ele ficava sem qualquer comprovação de estado civil. Ler isso como autorização divina ao divórcio inverte a função do texto.

Malaquias 2:16

16Porque o SENHOR Deus de Israel diz que ele odeia o divórcio, e quem cobre a sua roupa de violência, diz o SENHOR dos exércitos. Guardai-vos pois em vosso espírito, e não sejais infiéis.

Tradução: Edição Chama da Fé

A declaração mais severa da Bíblia sobre o assunto, e a mais mal utilizada. O contexto é de homens abandonando as esposas de juventude. O texto acusa quem abandona; usá-lo contra quem foi deixado é lê-lo ao contrário.

Mateus 19:4-6

4Porém ele respondeu: Não tendes lido que aquele que os criou no princípio, macho e fêmea os fez,

5e disse: Portanto o homem deixará pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e os dois serão uma única carne?

6Assim eles já não são mais dois, mas sim uma única carne; portanto, o que Deus juntou, o ser humano não separe.

Tradução: Edição Chama da Fé

Jesus responde a uma pergunta sobre lei recuando para antes da lei, até a criação. O argumento não é jurídico: ele descreve o casamento como uma união feita por Deus, o que desloca a discussão de "o que é permitido" para "o que estava previsto desde o princípio".

Mateus 19:8-9

8Jesus lhes disse: Por causa da dureza dos vossos corações Moisés vos permitiu divorciardes de vossas mulheres; mas no princípio não foi assim.

9Porém eu vos digo que qualquer um que se divorciar de sua mulher, a não ser por causa de pecado sexual, e se casar com outra, adultera.

Tradução: Edição Chama da Fé

Dois movimentos numa frase só. Primeiro, a permissão mosaica é explicada como concessão à dureza do coração, e não como o plano original. Depois vem a cláusula de exceção que Marcos e Lucas não registram — a origem histórica de boa parte da divergência cristã sobre o novo casamento.

Marcos 10:11-12

11E disse-lhes: Qualquer um que deixar a sua mulher, e se casar com outra, adultera contra ela.

12E se ela deixar o seu marido, e se casar com outro, adultera.

Tradução: Edição Chama da Fé

A mesma cena, sem exceção alguma, e com uma diferença notável para o mundo antigo: aqui a regra é enunciada nos dois sentidos, valendo igualmente para o homem e para a mulher. Quem sustenta a indissolubilidade encontra nesta formulação o apoio mais direto.

1 Coríntios 7:10-11

10Porém aos casados eu mando, não eu, mas o Senhor, que a mulher não se separe do marido.

11E se se separar, fique sem casar, ou se reconcilie com o marido; e que o marido não deixe a mulher.

Tradução: Edição Chama da Fé

Paulo distingue o que vem do Senhor do que ele mesmo acrescenta, e aqui está no primeiro caso. A instrução é não se separar; a novidade é que ele já prevê que a separação pode ocorrer, e diz o que fazer nessa hipótese em vez de fingir que ela não existe.

1 Coríntios 7:15

15Mas se o descrente se separar, separe-se também . Em tal situação o irmão ou a irmã não estão sujeitos à servidão; mas Deus vos chamou para a paz.

Tradução: Edição Chama da Fé

A segunda situação prevista: o cônjuge que não crê decide ir embora. Paulo diz que quem fica não permanece sujeito, e fecha o trecho falando de paz. Se essa liberdade inclui um novo casamento é exatamente o ponto em que católicos, evangélicos e ortodoxos leem diferente.

Salmos 34:18

18O SENHOR está perto daqueles que estão com o coração partido, e sava os aflitos de espírito.

Tradução: Edição Chama da Fé

Não é um texto sobre divórcio, e entra aqui de propósito. A pergunta que traz alguém a esta página costuma vir junto de um coração partido, e a Escritura descreve esse estado não como distância de Deus, mas como o lugar exato onde ele se aproxima.

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