Oração para perdoar alguém
A oração
Senhor, eu ainda não consigo. Mas eu vim, e vir já é alguma coisa.
Tira o nome dessa pessoa do lugar onde ele mora em mim, que é logo atrás dos olhos, o dia inteiro.
Não me peças para dizer que não foi nada. Foi. Tu viste.
Solta os dois: ela, da conta que eu fico cobrando; eu, do dia em que aquilo aconteceu.
E se o caminho de volta não for seguro, que eu perdoe de longe — e sem culpa por isso.
Amém.
Em resumo
Esta é uma oração para perdoar alguém, escrita para este site e assinada. Perdoar não é reconciliar, não é fingir que não doeu e não obriga ninguém a reatar. A oração pede libertação dos dois lados e permite perdoar de longe, sem culpa por manter distância.
- Escrito por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
- Revisado por
- Raphael Navarro Schmitt
- Publicado em
- Tempo de leitura
- 5 min de leitura
Quando rezar
Nos dias em que a lembrança volta sozinha e você percebe que está discutindo de novo dentro da própria cabeça. Também antes de encontrar a pessoa, se o encontro for inevitável.
Perdoar não é as quatro coisas com que costuma ser confundido. Não é dizer que não doeu — a terceira estrofe existe exatamente para impedir essa leitura. Não é esquecer, porque memória não obedece a decisão. Não é abrir mão de consequências, inclusive das legais: um crime continua sendo um crime depois de perdoado, e denunciar não é vingança. E não é retomar a convivência.
Essa última é a confusão mais cara. Perdoar depende de você e pode ser feito sozinho; reconciliar depende de duas pessoas, de arrependimento real e de a relação ter voltado a ser segura. Quando as duas são tratadas como a mesma coisa, o resultado prático é que se cobra da pessoa ferida que ela volte para perto de quem a feriu — e se ela recusa, ainda se sugere que não perdoou de verdade. Nada na Escritura pede isso. Romanos 12:18 pede paz “no que for possível” e “de vossa parte”, com as duas ressalvas escritas.
A oração também não tem prazo. Perdão profundo, de uma coisa grave, costuma acontecer em camadas e ao longo de anos: a pessoa perdoa, acha que acabou, e um aniversário qualquer traz tudo de volta. Isso não significa que o perdão anterior era falso — significa que a ferida era grande. Rezar de novo pela mesma coisa não é sinal de fracasso, é a forma normal que esse trabalho tem.
Uma ressalva sobre a pressa. Se você foi vítima de violência, de abuso ou de traição grave, é comum aparecer alguém — às vezes de dentro da igreja — dizendo que você precisa perdoar logo e seguir em frente. Ninguém tem autoridade para marcar essa data por você, e perdão apressado costuma ser recalque com nome bonito. Se a lembrança está atrapalhando o sono, o trabalho ou os seus relacionamentos, isso não se resolve só rezando: procurar um profissional é parte legítima do caminho, e rezar não substitui esse cuidado.
De onde vem esta oração
Quando surgiu Escrita para o Chama da Fé em 2026
Perdoar aparece na oração mais rezada do cristianismo, e aparece de um jeito que incomoda: no Pai-Nosso, o perdão que se pede vem medido pelo perdão que se dá. Essa vinculação atravessa os evangelhos — Marcos 11:25 repete a ideia em uma frase — e é a razão de o assunto voltar tanto na vida devocional de quem foi machucado por alguém.
Esta oração foi escrita para este site e por isso vai assinada. Ela nasceu de um problema editorial concreto: quase todo material devocional sobre perdão trata perdoar e reconciliar como a mesma operação. Não são. Perdoar é algo que acontece dentro de quem foi ferido e não depende do outro; reconciliar é a retomada de uma relação e depende dos dois — e depende, sobretudo, de a relação ser segura.
A Escritura sustenta a distinção com mais clareza do que a pregação costuma admitir. Lucas 17:3 começa a instrução sobre perdoar mandando repreender antes. Romanos 12:18 pede paz com todos e qualifica o pedido duas vezes: no que for possível, e da parte de quem lê. As duas ressalvas estão no texto, não foram inventadas por sensibilidade moderna.
Detalhes pouco conhecidos
“Setenta vezes sete” é a resposta a uma gabolice de vingança do começo da Bíblia
A instrução de Jesus sobre perdoar começa com a palavra “repreende”
O que dizem as passagens
21Então Pedro aproximou-se , e perguntou-lhe: Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete?
22Jesus lhe respondeu: Eu não te digo até sete, mas sim até setenta vezes sete.
Pedro propõe um teto generoso para a época e Jesus destrói a ideia de teto. Vale ler o número como recusa a fazer contabilidade, e não como cota: quem está contando as vezes que perdoou ainda está com o livro-caixa aberto.
3Olhai por vós. E se teu irmão pecar contra ti, repreende-o; e se ele se arrepender, perdoa-lhe.
4E se pecar contra ti sete vezes ao dia, e se sete vezes ao dia voltar a ti, dizendo: Estou arrependido. Perdoa-lhe.
A instrução tem três tempos — repreender, arrependimento, perdão — e a maior parte da pregação sobre o assunto pula o primeiro. O texto não pede silêncio sobre a ofensa; pede que o perdão esteja disponível quando o arrependimento aparecer.
17A ninguém pagueis o mal com o mal; buscai fazer o que é certo diante de todos.
18No que for possível de vossa parte, tende paz com todos.
19Não vos vingueis por vós mesmos, amados. Em vez disso, dai lugar à ira divina ,porque está escrito: A mim pertence a vingança, eu retribuirei, diz o Senhor.
A passagem faz duas coisas ao mesmo tempo: proíbe a vingança pessoal e admite que a paz nem sempre é possível. As duas qualificações do versículo 18 — no que for possível, e da parte de quem lê — são a base bíblica mais direta para dizer que perdoar não obriga a reatar.
31Toda amargura, raiva, ira, gritaria, e maledicência sejam tiradas do meio de vós, assim como toda malícia.
32Em vez disso, sede benignos uns com os outros, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo.
A lista do que deve sair é longa e específica: amargura, raiva, ira, gritaria, maledicência. Não é um pedido de amnésia, e sim de desmontar o que a ofensa instalou em quem a sofreu — que é exatamente o que a segunda estrofe desta oração pede.
19E respondeu-lhes José: Não temais: estou eu em lugar de Deus?
20Vós pensastes mal sobre mim, mas Deus o encaminhou para o bem, para fazer o que vemos hoje, para manter em vida muito povo.
21Agora, pois, não tenhais medo; eu sustentarei a vós e a vossos filhos. Assim os consolou, e lhes falou ao coração.
A cena de perdão mais completa do Antigo Testamento, e José não finge nada: diz aos irmãos que eles pensaram mal contra ele. Nomeia o que foi feito, recusa o papel de juiz e sustenta os que o venderam. Perdoar ali não incluiu reescrever a história.