Jonas 4:2 — o elogio a Deus dito como reclamação
2E orou ao SENHOR, e disse: Ah, SENHOR, não foi isto o que eu dizia enquanto ainda estava em minha terra? Por isso me preveni fugindo a Társis; porque sabia eu que tu és Deus gracioso e misericordioso, que demoras a te irar, tens grande misericórdia, e te arrependes do mal.
A definição de Deus mais repetida do Antigo Testamento aparece aqui na boca de alguém que a usa como queixa. E não deixa de ser verdadeira por isso.
Resposta rápida
Em Jonas 4:2 o profeta explica por que tinha fugido: ele já sabia que Deus é gracioso, misericordioso, lento para se irar e cheio de bondade. A fuga não veio de dúvida, veio de certeza — ele não queria ver aquilo aplicado à cidade que odiava.
- Escrito por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
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- Raphael Navarro Schmitt
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A frase é a mesma que atravessa os salmos e os profetas como louvor. Aqui ela é dita de mau humor, por um homem sentado do lado de fora de uma cidade que acabou de escapar.
É o único lugar da Bíblia em que a bondade de Deus aparece como motivo de acusação. E o livro não corrige a definição: corrige quem a recita.
Onde este versículo aparece
A cidade tinha se voltado atrás. O capítulo anterior termina com Deus desistindo do mal que havia anunciado, e o capítulo 4 abre com Jonas se desgostando muito e se enchendo de ira por causa disso.
Só agora o leitor descobre a razão da fuga do primeiro capítulo. Jonas não temia falhar nem temia a viagem: temia ser bem-sucedido e ver o perdão acontecer.
O resto do capítulo é uma parábola encenada com uma planta, uma lagarta e um vento quente, e termina numa pergunta de Deus sobre a cidade. O livro fecha sem que Jonas responda.
O que ele diz
A lista é uma fórmula conhecida daquele povo, das que se aprendem de cor. Jonas não está improvisando teologia: está citando o que já sabia, e é exatamente isso que torna a queixa tão desconfortável.
O tempo verbal importa. Ele diz que já sabia, lá atrás, antes de embarcar. Ou seja, a fuga não foi ignorância nem covardia diante da missão; foi cálculo. Ele conhecia o desfecho e tentou não estar presente nele.
A última qualidade da lista é a que dói. Dizer que Deus se arrepende do mal anunciado é dizer que a sentença não é o fim da conversa — e essa é justamente a cláusula que Jonas não queria ver aplicada a Nínive.
Vale registrar o que o livro não faz. Não desmente Jonas, não relativiza a definição, não sugere que Deus seja mais duro do que a fórmula diz. Deixa a frase de pé e vira a pergunta para o profeta: se é assim que Deus é, o que você faz com isso?
O que fazer com isso hoje
Existe uma versão suave dessa queixa que quase todo mundo já teve: alegrar-se com o perdão que recebeu e achar cedo demais o perdão que outro recebeu. O versículo dá nome a isso sem ser cruel com quem sente.
Um teste possível, se você está com raiva de alguém: liste as qualidades de Deus que você cita quando fala de si mesmo. Depois pergunte se aceitaria a mesma lista aplicada à pessoa com quem você está brigado. A resposta costuma ser instrutiva.
Uma oração para levar
Senhor, eu gosto da tua misericórdia quando é comigo. Me ajuda a suportá-la quando ela chega em quem eu não queria ver perdoado, e me mostra o que há de meu nessa irritação. Amém.