Efésios 4:32: a régua do perdão não é o tamanho da ofensa
32Em vez disso, sede benignos uns com os outros, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo.
A frase abre com uma virada que só faz sentido depois de ler a lista do versículo anterior. E fecha com uma comparação que não deixa margem: o modelo do perdão é um perdão já concedido, não uma decisão tomada do zero.
Resposta rápida
Efésios 4:32 manda ser benigno, ser misericordioso e perdoar, e dá um único critério: o perdão já recebido em Cristo. A régua não é o tamanho da ofensa nem o arrependimento de quem ofendeu. O versículo anterior nomeia o que precisa sair antes — amargura, ira, gritaria.
- Escrito por
- Raphael Navarro Schmitt
- Revisado por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
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É um dos versículos mais decorados da Bíblia, e um dos que mais se leem como conselho de gentileza. A segunda metade é o que impede essa leitura: ela transforma três boas maneiras numa consequência.
Onde este versículo aparece
Paulo está fechando uma seção sobre como vive uma comunidade cristã, com uma lista de comportamentos a abandonar: amargura, ira, gritaria, difamação. O versículo é a contrapartida imediata daquela lista.
A carta se dirige a uma igreja formada por pessoas de origens diferentes, judeus e não judeus, o que dá peso concreto às instruções sobre convivência. Não é ética abstrata: era gente que precisava conviver sem história comum.
O que ele diz
As três ordens são de tipos diferentes. Ser benigno descreve um modo de tratar; ser misericordioso descreve o que se sente diante da fraqueza alheia; perdoar é um ato. O texto não as pede nessa ordem de sentimento: pede as três.
O critério é o que dá peso ao versículo. Paulo não manda perdoar porque a ofensa foi pequena, nem porque o outro merece, nem porque o tempo passou. Manda perdoar tomando como medida um perdão já recebido. Isso desloca a conta inteira: a pergunta deixa de ser quanto o outro deve e passa a ser quanto já foi cancelado.
Vale dizer o que o versículo não faz. Ele não manda esquecer, não manda continuar exposto a quem machuca, e não diz que perdoar seja sentir-se bem com o que aconteceu. Perdão e reconciliação são coisas distintas na Escritura, e este versículo trata do primeiro.
O que fazer com isso hoje
A aplicação costuma travar no mesmo ponto: perdoar parece exigir que a ofensa seja considerada menor do que foi. O versículo não pede isso. Pede que a conta seja feita com outra referência — e é possível reconhecer o tamanho inteiro de um dano e ainda assim soltar a dívida.
Também vale reparar na ordem do trecho. Antes de mandar perdoar, o texto manda tirar a amargura. Quem tenta perdoar sem mexer no que está guardado costuma repetir a decisão todo mês, e é isso que faz o perdão parecer impossível.
O que dizem as passagens
13Suportai-vos uns aos outros, e perdoai-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro. Como o Senhor vos perdoou, assim também fazei .
A mesma instrução em outra carta, com o mesmo critério e uma diferença útil: ali aparece o verbo suportar, o trabalho contínuo que vem antes do ato pontual de perdoar.
14Porque se perdoardes às pessoas suas ofensas, vosso Pai celestial também vos perdoará;
Jesus liga os dois perdões numa frase só, e é a forma mais dura do argumento. Efésios dá o motivo; Mateus 6 mostra a consequência.
Uma oração para levar
Senhor, tira de mim a amargura que eu venho guardando com cuidado. Me dá coragem para soltar uma dívida que eu ainda sei calcular de cor, lembrando de quanto já me foi cancelado. Amém.