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O que é o inferno?

Resposta rápida

Inferno, na Bíblia, é a perda definitiva da comunhão com Deus (2 Tessalonicenses 1:9). O Novo Testamento a descreve com imagens de fogo (Marcos 9:43-48), de trevas (Mateus 8:12) e de segunda morte (Apocalipse 20:14-15). Se essas imagens são descrição literal ou linguagem figurada é ponto em que os cristãos divergem.

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Antes de discutir o que é, vale separar o que a palavra traduz. Em português, uma só palavra cobre coisas diferentes no original. Sheol, no Antigo Testamento, e Hades, no Novo, nomeiam o mundo dos mortos — para onde todos vão, sem juízo embutido; é o que aparece na história do rico e de Lázaro, em Lucas 16. Geena é outra coisa: era um vale nos arredores de Jerusalém, com um passado sombrio, e é a imagem que Jesus usa quando fala de condenação. E o lago de fogo é vocabulário do Apocalipse, ligado ao juízo final. Boa parte das discussões acaloradas sobre o tema é, na verdade, gente usando uma palavra para três coisas.

Feita a separação, sobra o que os textos afirmam sem disputa entre as tradições. É uma possibilidade real, e Jesus fala dela mais vezes do que qualquer outra figura do Novo Testamento — não é invenção medieval. É definitiva, e não corretiva. E o que a define não é a temperatura: 2 Tessalonicenses 1:9 descreve o estado sem nenhuma imagem, como estar apartado da presença do Senhor. Perder isso é o conteúdo da palavra.

A divergência começa no estatuto das imagens, e ela atravessa católicos e evangélicos por dentro — há defensores das duas leituras nos dois grupos. De um lado, quem entende que fogo, verme e ranger de dentes descrevem a realidade e que suavizá-los esvazia um aviso que Jesus repetiu três vezes seguidas em Marcos 9. De outro, quem observa que o mesmo Evangelho descreve o mesmo destino como fogo e como trevas exteriores, e que as duas coisas não podem ser literais ao mesmo tempo — logo, são linguagem para uma perda que nenhuma descrição alcança.

Existe ainda uma terceira leitura, minoritária mas antiga, presente também nos dois grupos: a de que o fim dos que se perdem é a destruição, e não um tormento sem fim. Ela se apoia no verbo de Mateus 10:28, que fala em destruir alma e corpo, e na expressão “segunda morte”, do Apocalipse. As Igrejas que a sustentam são poucas; ignorar que ela existe seria dar ao leitor uma resposta que ele vai descobrir incompleta.

Sobre uma coisa não há divergência nenhuma, e ela costuma ser a que de fato aflige quem pesquisa: nenhuma tradição cristã afirma saber o destino de uma pessoa em particular. Não existe lista, não existe declaração com nome e sobrenome. O juízo é atribuído a Deus em todos os textos que o mencionam, e quem sentencia alguém pelo nome está falando por conta própria.

O que dizem as passagens

Lucas 16:22-23

22E aconteceu que o mendigo morreu, e foi levado pelos anjos para o colo de Abraão. E o rico também morreu, e foi sepultado.

23E estando no mundo dos mortos em tormentos, ele levantou seus olhos, e viu a Abraão de longe, e a Lázaro em seu colo.

Tradução: Edição Chama da Fé

Aqui a palavra do original é Hades, o mundo dos mortos, e não Geena — os dois personagens morrem e os dois vão para lá. É o texto que mostra por que confundir as palavras embaralha a discussão inteira.

Marcos 9:43-48

43E se a tua mão te faz pecar, corta-a; melhor te é entrar na vida mutilado, do que tendo duas mãos ir ao inferno, ao fogo que nunca se apaga.

44onde seu verme não morre, e o fogo nunca se apaga.

45E se teu pé te faz pecar, corta-o; melhor te é entrar na vida manco, do que tendo dois pés ser lançado no inferno.

46onde seu verme não morre, e o fogo nunca se apaga.

47E se teu olho te faz pecar, lança-o fora; melhor te é entrar no Reino de Deus com um olho, do que tendo dois olhos ser lançado no fogo do inferno,

48onde seu verme não morre, e o fogo nunca se apaga.

Tradução: Edição Chama da Fé

A passagem mais dura do tema, e a mais repetida: a mesma advertência três vezes, com a mesma frase final. A imagem do verme e do fogo vem de Isaías 66, e o vale de Geena era um lugar que os ouvintes conheciam de vista — o que torna a fala concreta para eles antes de ser doutrinária para nós.

Mateus 8:12

12Os filhos do reino, porém, serão lançados nas trevas de fora; ali haverá pranto e ranger de dentes.

Tradução: Edição Chama da Fé

O mesmo destino aparece aqui como escuridão, e não como fogo. É o dado que sustenta a leitura figurada: fogo e trevas exteriores não descrevem o mesmo cômodo, e o Evangelho usa os dois sem se explicar.

Mateus 10:28

28E não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei mais aquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno.

Tradução: Edição Chama da Fé

O verbo é destruir, aplicado a alma e corpo. Quem lê o inferno como tormento sem fim entende a destruição como perda irreversível da vida verdadeira; quem lê como aniquilação entende ao pé da letra. O versículo é o mesmo, e as duas leituras saem dele.

2 Tessalonicenses 1:9

9Os quais serão punidos com o castigo da eterna perdição, longe da face do Senhor, e da glória de sua força;

Tradução: Edição Chama da Fé

A definição sem metáfora nenhuma: o castigo é estar apartado da presença do Senhor. Todo o resto do vocabulário — fogo, verme, escuridão, lago — tenta dizer o que isso significa. Esta é a frase que as duas leituras aceitam sem ressalva.

Apocalipse 20:14-15

14E a morte e o mundo dos mortos foram lançados no lago de fogo; esta é a segunda morte: o lago de fogo.

15E todo aquele que não fosse achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo.

Tradução: Edição Chama da Fé

Repare no que é lançado primeiro: a própria morte e o mundo dos mortos. Antes de ser destino de pessoas, o lago de fogo é, no texto, o fim das coisas que matam. E a expressão “segunda morte” é a que alimenta a leitura minoritária citada acima.

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