Oração de São Jorge: um texto novo e a história do santo guerreiro
A oração
São Jorge, soldado que preferiu perder o posto a negar aquilo em que acreditava, pede a Deus por mim.
Eu não enfrento dragão nenhum. Enfrento a conta que vence, o medo de sair de casa, a vontade de baixar a cabeça onde eu devia falar.
Cobre-me com a coragem que não faz barulho: a de continuar honesto quando ninguém confere, a de não devolver o mal que me fizeram, a de proteger quem depende de mim sem virar dono dele.
Que a minha luta não vire ódio e que a minha paz não vire covardia. Amém.
Em resumo
Esta é uma oração de São Jorge escrita para este site e assinada por quem a escreveu. Jorge foi um soldado martirizado por volta do ano 303; o dragão só entra na história mil anos depois. No Brasil, a devoção a ele é celebrada em 23 de abril.
- Escrito por
- Raphael Navarro Schmitt
- Revisado por
- Maria Luisa Navarro Schmitt
- Publicado em
- Tempo de leitura
- 7 min de leitura
Quando rezar
Em 23 de abril, e em qualquer dia em que for preciso enfrentar alguma coisa sem perder a compostura. É oração de coragem, não de vingança.
A oração acima recusa de propósito o vocabulário de armadura que a devoção brasileira consagrou. Não porque ele seja errado, mas porque a coragem que a maioria das pessoas precisa hoje não se parece com um combate: parece com continuar honesto sem plateia, não revidar, e proteger alguém sem controlá-lo. O texto tenta nomear essa coragem, que é mais difícil de rezar porque é menos épica.
O texto é nosso e está assinado. A oração popular mais conhecida com o nome de São Jorge tem origem disputada e nenhuma autoria estabelecida, circula em versões diferentes e é objeto de gravações e publicações com titularidade própria. Publicá-la aqui seria reproduzir texto de alguém sem saber de quem. A história do santo, que é o que a maior parte das pessoas procura junto com a oração, está acima e é verificável.
A devoção católica pede a intercessão do mártir: quem protege é Deus, e o que se pede a Jorge é que peça junto. A maior parte das igrejas evangélicas não sustenta essa prática e ora diretamente a Deus. E no Brasil há ainda uma terceira leitura viva, tratada na nota abaixo, que não é um detalhe folclórico e sim parte da história religiosa do país.
Uma observação sobre o dragão, já que ele é a imagem que todo mundo tem na cabeça. O único dragão da Bíblia está no Apocalipse, e quem o enfrenta ali é Miguel, não Jorge. A cena de São Jorge com a lança é ilustração de uma lenda medieval, e saber disso não estraga a imagem — apenas coloca cada coisa no seu lugar, que é o que esta página tenta fazer o tempo todo.
De onde vem esta oração
Quando surgiu Mártir por volta do ano 303; este texto foi escrito para o Chama da Fé em 2026
Do Jorge histórico se sabe muito pouco, e a Igreja nunca escondeu isso. A tradição mais antiga o apresenta como um soldado martirizado sob Diocleciano, por volta do ano 303, e o culto se fixou muito cedo em Lida, a atual Lod, em Israel, onde ficava o túmulo. Daí em diante começa a lenda, e ela cresceu rápido: já no século VI o Decreto Gelasiano classificava a paixão de Jorge entre os escritos apócrifos, listando-o entre os santos “cujos nomes são justamente venerados entre os homens, mas cujas ações só Deus conhece”.
O dragão é acréscimo tardio. Ele aparece nas versões orientais por volta do século XI e chega ao Ocidente pela Legenda Áurea de Tiago de Varazze, por volta de 1260, com a cidade, a princesa e o monstro na fonte de água. Foi essa versão, e não o relato do martírio, que virou a imagem universal do santo — a ponto de a maior parte das pessoas conhecer o dragão e não conhecer Diocleciano.
Os textos que circulam no Brasil como “oração de São Jorge”, incluindo a mais conhecida, são composições populares de origem disputada e sem autoria estabelecida, reproduzidas em folheto, em corrente de mensagem e em gravação. Por isso esta página traz uma oração nossa, escrita para ela e assinada, e reserva este espaço para o que é verificável.
Detalhes pouco conhecidos
A Igreja reconheceu no século VI que a história dele era lenda
Ele não foi tirado do calendário em 1969 — foi rebaixado
O dragão chega mil anos depois do mártir
No Rio, 23 de abril é feriado estadual
O que dizem as passagens
7E houve batalha no céu: Miguel e seus anjos batalhavam contra o dragão; e batalhava também contra eles o dragão e seus anjos.
8Mas eles não prevaleceram, nem mais o lugar deles foi achado nos céus.
9E foi lançado o grande dragão, a serpente antiga, chamada o diabo e Satanás, que engana a todo o mundo, ele foi lançado na terra, e seus anjos também foram lançados com ele.
O único combate contra um dragão que a Bíblia narra, e quem o trava é Miguel com os anjos dele. A iconografia de São Jorge tomou emprestada esta cena; o texto, porém, não fala de Jorge nem de nenhum soldado humano.
32Portanto, todo aquele que me der reconhecimento diante das pessoas, também eu o reconhecerei diante de meu Pai, que está nos céus.
33Porém qualquer um que me negar diante das pessoas, também eu o negarei diante de meu Pai, que está nos céus.
O texto sobre o qual se apoia toda a memória cristã dos mártires: confessar publicamente, com o custo que isso tiver. É o que a tradição diz que Jorge fez, e é a única parte da história dele que não depende de lenda para fazer sentido.
14Estai, pois, firmes, com a vossa cintura envolvida com o cinturão da verdade, e vestidos com a couraça da justiça;
15e calçados os pés com a prontidão do evangelho da paz.
16Em tudo pegai o escudo da fé, com o qual podereis apagar todas as flechas inflamadas do maligno.
17Pegai também o capacete da salvação, e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus;
A armadura peça por peça, e vale conferir o inventário: cinto, couraça, calçado, escudo, capacete e uma única arma. A linguagem militar da devoção a São Jorge vem daqui — e daqui vem também o limite dela, já que a luta descrita é contra o mal, e não contra pessoas.
1Portanto nós também, posto que estamos rodeados por uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos toda sobrecarga, e o pecado envolvente, e corramos com paciência a corrida que nos está proposta,
2olhando para Jesus, Autor e aperfeiçoador da fé. Ele, pela alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, desprezando a humilhação, e se assentou à direita do trono de Deus.
A imagem da nuvem de testemunhas é a base comum às duas tradições cristãs para lembrar dos que vieram antes. O que o texto pede é correr olhando para Jesus; o desacordo entre católicos e evangélicos começa no passo seguinte, quando se pergunta se essas testemunhas podem ser invocadas.